Aguardo a sessão de terapia no segundo andar de um prédio com funcionalidades mistas, ou seja, pessoas vivem e trabalham por aqui. As portas estão fechadas. O corredor não é grande, quase familiar. Os únicos objetos a quebrar a monotonia do espaço são os capachos. Cada apartamento, cada sala tem a sua cara: a face estampada no tapetinho ao pé da entrada. Um convite, uma recusa? Pelo capacho é possível intuir a personalidade de quem habita ali detrás? O que os objetos que escolhemos falam de e por nós? Lar doce lar um lar, um porto seguro, abrigo onde se reenergiza com cores quentes e alegres. É jovial, otimista. Não abre mão de ficar em casa, arrodeado por memórias e por quinquilharias. Aldeia global Inquieto, vive no entre, between . Almeja chegar apenas para poder partir. Na verdade, parte ao entrar pela porta, aporta ao viajar. “Seu lar é onde estão seus sapatos.”* mas fique pouco tempo Polido, discreto, convencional. Recebe as visitas com contida simpatia. ...
Já havia escrito sob a perspectiva do meu nariz (postado por aqui). Folheando um dos caderninhos de anotações miles, esbarrei com um texto incompleto do ponto de vista do meu cotovelo. Tratava-se de um exercício proposto pela poeta Sara Melo num dos encontros do projeto "Literatura a céu aberto" que compartilho com vocês. Não entendi. Até ontem não compreendia minha existência para além das metáforas de amor desiludido. Dor de cotovelo, a mão a segurar o queixo acima da mesa, o peso da cabeça, quase cinco quilos, dizem. Foi então que me vi imóvel, estatelado sobre o asfalto áspero e quente do meio-dia. O que estaria fazendo ali, naquela disfuncionalidade exótica? Literalmente no chão, lugar incomum para cotovelos. O corpo que me contém estirado no betume. Logo eu, um cotovelo audaz e pleno, de repente inerte. Lutei para agir, mas apenas sentia o tilintar de cacos de vidro. Meu mecanismo espatifado, esmigalhado. Chocalho de ossos diminutos. Emperrei, engastalhei em mim mesmo...
Verba volant, scripta manent. (Palavras voam, o que está escrito permanece) Desde ontem palavras estranhas me assaltam: modorrentas, acabrunhamento, demasia, arvorar-se. Decidem vir à tona sem que eu as procure. De algum recôndito (outra estranheza) estão cansadas do ostracismo (haha, mais uma) e procuram a luz da superfície, demandando o seu uso. Ah, o Português… Lembrei de um dia em que falei peculiar e unique numa conversa em inglês. Acharam que eu era versada na língua, muito culta, indeed . Os norte-americanos, em geral, não têm noção do latim na própria língua. Menos do que a gente, que deveria ter aulas do idioma morto-vivo, pois ainda somos assombrados pela presença espectral do latim no nosso dia-a-dia, do Direito à Arte e à Biologia. Afinal, ele, junto com o grego, são as mais importantes línguas clássicas do Ocidente. Por exemplo: na prática de canto coral, se entoa belas missas em latim. Confesso que são as que mais gosto de pronunciar: benedictus, pacem, ora pro nobis,...
De uma beleza incrível!
ResponderExcluirRe Osório
Lindo babaçu e esse poema em cachos.
ResponderExcluirZildete Melo
Nosso babaçu é escultura divina! Gostei, em poucas palavras muita comunicação!
ResponderExcluirSocorro Melo