Postagens

Mostrando postagens com o rótulo literatura

Sem mais tardança

Imagem
Delonga Cobiçar passarinhos com olhar infindo  O dia principia a rotina se insinua despida de desejo premente As horas evoluem  sem propósito  Caço a lua no azul e as flores na sarjeta Mundo em torvelinho amor fora do ninho  Remanesce não ter  compromisso  com a pressa.  OS FILHOS DA BABEL Deus está dormindo e em sonhos balbucia. Somos as palavras desse Deus confuso que em eterna solidão fala para si mesmo. Cristina Peri Rossi poeta uruguaia Eu, Odisseu Absoluto eterno essência última na grande busca o ego distraído não encontra o sendeiro  clama aos astros as estrelas nunca mentem?  discernimento  Confuso não olha  para a alma de si pequenez grandeza ânsia de liberdade Venera deuses claudica tropeça  desiste insiste Viajar é preciso O porto do ser é longe. 

Vernáculos

Imagem
Verba volant, scripta manent. (Palavras voam, o que está escrito permanece) Desde ontem palavras estranhas me assaltam: modorrentas, acabrunhamento, demasia, arvorar-se. Decidem vir à tona sem que eu as procure. De algum recôndito (outra estranheza) estão cansadas do ostracismo (haha, mais uma) e procuram a luz da superfície, demandando o seu uso. Ah, o Português… Lembrei de um dia em que falei peculiar e unique numa conversa em inglês. Acharam que eu era versada na língua, muito culta, indeed . Os norte-americanos, em geral, não têm noção do latim na própria língua. Menos do que a gente, que deveria ter aulas do idioma morto-vivo, pois ainda somos assombrados pela presença espectral do latim no nosso dia-a-dia, do Direito à Arte e à Biologia. Afinal, ele, junto com o grego, são as mais importantes línguas clássicas do Ocidente. Por exemplo: na prática de canto coral, se entoa belas missas em latim. Confesso que são as que mais gosto de pronunciar: benedictus, pacem, ora pro nobis,...

Guarda-costas insones

Imagem
Já havia escrito sob a perspectiva do meu nariz (postado por aqui). Folheando um dos caderninhos de anotações miles, esbarrei com um texto incompleto do ponto de vista do meu cotovelo. Tratava-se de um exercício proposto pela poeta Sara Melo num dos encontros do projeto "Literatura a céu aberto" que compartilho com vocês. Não entendi. Até ontem não compreendia minha existência para além das metáforas de amor desiludido. Dor de cotovelo, a mão a segurar o queixo acima da mesa, o peso da cabeça, quase cinco quilos, dizem. Foi então que me vi imóvel, estatelado sobre o asfalto áspero e quente do meio-dia. O que estaria fazendo ali, naquela disfuncionalidade exótica? Literalmente no chão, lugar incomum para cotovelos. O corpo que me contém estirado no betume. Logo eu, um cotovelo audaz e pleno, de repente inerte. Lutei para agir, mas apenas sentia o tilintar de cacos de vidro. Meu mecanismo espatifado, esmigalhado. Chocalho de ossos diminutos. Emperrei, engastalhei em mim mesmo...

Dezembro, enfim

Imagem
Trem bão, coisinha pacífica é se embrenhar entre as colunas de livros. As lombadas variadas em cores e espessuras embaralham a vista. Tiro os óculos, não ajuda muito. Ler com o pescoço tombado para o lado pode dar torcicolo. Melhor é retirar da estante e dar trabalho para o funcionário depois.  Os sebos da atualidade são lugares menos mofados. Há ainda os subsolos entulhados, mas agora é possível esquecer dos ponteiros, até sentar em poltronas com uma obra nas mãos como nas livrarias bacanas.  Às vezes me sento no chão do corredor para garimpar as prateleiras mais baixas.  Saio sempre com achados que serão presenteados com a oportunidade de viver em outra estante, minha ou de outrem, o fundamental é fazer a literatura arejar e reencontrar novos leitores. Assim viajava em alegre sentimento, com minha sacolinha a tiracolo quando senti algo pesado e forte me jogando abruptamente para o lado.  Era um carro em marcha ré saindo da vaga. Gritei. Culpa minha, cabecinha de ...

Crença

Imagem
A gente se tatua porque precisa mostrar ao mundo no que a gente acredita. E acredita tanto que tem a coragem de marcar a pele para sempre com a nossa crença. Você tem de ter consciência de que será uma espécie de eterno cartaz ambulante, levando, onde for, a sua mensagem perpetuada em tinta. Hora do rush na padaria. Três atendentes se espremem atrás dos caixas. A fila cresce para pedir o pão, para pagar o bolo.  Uma das funcionárias pergunta por cima do burburinho:  É um livro? Percebo que a pergunta é para mim. Ato contínuo, me dou conta da tatuagem (a gente se esquece de si mesma quando se vê todos os dias). Caramba, como ela conseguiu divisar o desenho no braço direito, estando do lado esquerdo àquela distância e naquele entra e sai de pessoas e de sacolas? Ah, sim! Faço um sinal positivo com a cabeça.  Bonita. Você é escritora? É, eu escrevo. (A gente não consegue se assumir. Falta um tantão de terapia). Só podia. E sorri. Pago meus pães e, a caminho do carro...

Pedregosa

Imagem
Hoje me acordei pensando em uma pedra numa rua de Calcutá. Numa determinada pedra numa rua de Calcutá. Solta. Sozinha. Quem repara nela? Só eu, que nunca fui lá. Só eu, deste lado do mundo, te mando agora esse pensamento... Minha pedra de Calcutá! (Mario Quintana)  Existe alguma explicação científica para que as pedras assumam, com certa frequência, o formato do coração? Não, é só coincidência mesmo, respondeu desinteressado. Agora você me lembrou a Adélia, que disse que tem dias que Deus lhe tira a poesia. Ela olha a pedra e vê a pedra mesmo. Quero olhar a pedra e desvendar a sua natureza metafísica. Corações de pedra nos lembram que amar é mineral, tem peso e densidade que nos conduzem às profundezas. É uma natureza essencial. O artificial é o não amor. Prefiro acreditar numa resposta cósmica para o que os olhos veem com certa constância. Querem me dizer que resista como rocha às cicatrizes do afeto? Querem me impelir a esculpir poesias das entranhas, como Michelangelo: “Eu vi...

"O espião que me amava"

Imagem
Você conhece algum detetive particular? Surpreendida com a pergunta da amiga, respondi: é sério esse bilhete? Juro que nunca havia parado para pensar em detetives de carne e ossos. Personagens sublimes de tantos autores: Poirot, Holmes, Espinoza, Miss Marple, Dupin, Mandrak, Maigret… Zilhões de filmes que vi e vejo, crimezeira assumidíssima. Imediatamente me lembrei da fase detetive de Rômulo. Era adorável, pois me amava loucamente, apesar de me deixar louca. Sherlock Rômulos, o rei dos questionamentos complexos. O aniversário de cinco anos do guri teve esta temática. O menino e suas ideias mirabolantes que precisavam ser materializadas com muita criatividade. Elaboramos mensagens criptografadas e espalhamos como pistas pelo quintal da casa da minha irmã. Quem decifrasse o código encontrava “pequenos tesouros” escondidos. O bolo tinha um Parabéns em criptografia elaborada pelo papai cientista. Na ocasião, ganhou uma pastinha com lupa, óculos escuros, bigodes falsos e outros apetrecho...

Despida

Imagem
"A saudade do sal não se repara Com a imersão difícil Nesse oxigênio sujo" (Adriane Garcia) Despir-se do mar é salgado, quase amargo. Borrifos aferram-se à pele  apelos: fique mais um pouco, fique para sempre. A maresia impregna cheira a peixes saltitantes e suculentos.  A alma aquosa recua, maré baixa. Até breve nunca é breve o bastante.  Acordei árvore. Todas aquelas nas quais subi, cai, mirei, fotografei, desejei, abracei. O dia da árvore é meu. Me aposso dessa força. Raízes áreas me fincam no altiplano (Leste ou peruano). Semillas e flores brotam no bico de cada peito. Braços-troncos se fortalecem para balanços infinitos. Vai por mim Se há algo mais surreal do que as pinturas de Dalí são os nomes dos quadros de Dalí: Construção suave com damascos cozidos  O despejo do móvel-alimento Acomodação dos desejos  Canibalismo de outono  Idílio atômico e urânico melancólico  O toureiro alucinógeno  Cama e duas mesinhas de cabeceira atacando ferozment...

Intercursos

Imagem
  Cansada das minhas limitações. Você também, eu sei. Na caminhada de ontem, a música que abria a playlist Release Radar , do Spotify se chamava “Demoro a dormir”, do rapper Djonga, com participação especial do Milton Nascimento. Nunca ouvira antes. O legal destas listas aleatórias - pero no mucho - do aplicativo é justamente lhe obrigar a escutar algo que de outro modo você jamais selecionaria. Não curto muito rap e afins, apesar de alguns serem ótimos como este. Mas a voz do Bituca, a princípio, é quase irreconhecível. É um esgar, um fiapo. Comoveu por tudo o que ele representa para a minha vida e para a MPB. Abaixo de um sol impertinente, quis chorar. Aliás, voltei aos níveis de choro de uma boa pisciana descompensada. Tudo me leva às lágrimas ultimamente. Porém, segui firme nas passadas e resolvi prestar atenção na letra, poderosa, idealista, fodida mesmo. O choro virou revolução mental. Digo tudo isso porque na noite anterior, sábado, tinha conferido um pocket show com um...

Folguedos

Imagem
Os meninos-Portinari içam suas pipas coloridas contra o céu zangado. Eram muitos com camisetas vermelhas e pés no asfalto, uma horda de velejadores aéreos a manejar pesos e contrapesos, administrando as rajadas de vento e a permanência das rabiolas na altura dos sonhos mais alegres. Outro grupo, este com meninas, passa uma bola de mão em mão, naquela ciranda instintiva da infância. Disputam espaço com carros estacionados. Sem árvores à vista, a chama do mormaço derrete as crianças-velas sobre a cobertura asfáltica. É uma festa. A algazarra límpida da periferia viceja sem as benesses do planejamento urbano. A elite, enclausurada pelo dinheiro, jamais experimentará o valor destes folguedos. Rupturas recomeços mudar em meio à mudança. Partir repartir. O silêncio passeia pelo interior, mão da criança invisível tateando a parede. De fora chega a nesga do sol e o silvo dos micos costumeiros. Os cães aprisionados ao lado lamuriam. Quero que durmam para sempre. Parafraseando o belo título do...