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Outubro Vermelho

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Sempre gostei de bonecas mas também fui sapeca subia em árvore caía de cavalo explorava o mato me banhava no regaço fazia papel de professora para a criançada era quem maquinava brincadeiras inventadas No balanço da infância penso que foi bem aproveitada. "Posso, sem armas, revoltar-me?" Sim, Drummond, você ficaria emocionado, enrubescido, orgulhoso de ver o mar de gente revoltada e desarmada pelo bem da democracia que tomou a capital do seu país. A rosa do povo é mesmo vermelha, amado poeta. E não é feia, é perfeita! E eu choro por você e por mim. A pessoa na Asa Sul compromissada, exausta, não pensava em passeata. Mas pelo caminho tantas bandeiras hasteadas, tanta gente jovem reunida na calçada que, com roupa inapropriada, ela parou no meio da Esplanada. Ainda sobre o estupendo plot twist das eleições, alguns dados colhidos perto de mim que podem explicar o efeito formiguinha que foi elevando o volume de votos de Lula na reta final. Uma das tias paternas dos meus primos ...

Vou te contar alguns segredos

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Coisas que aprendo com o meu jardim A grandiosidade da natureza está nos detalhes. A cada momento do dia as plantas mudam de lugar ainda que estejam em repouso. Ou seria o nosso olhar que capta o movimento sob a luz que muda? As amoras se escondem entre as folhas, recatadas. A impressão é que não querem ser tocadas. A gente mira e não vê, mas dá um passo à frente ou outro atrás e elas se desnudam. Mágica. Colher amores, ops, amoras, dá um comichão danado. Existe uma espécie de pó de pirlimpimpim nas folhas. Recomenda-se um banho após o processo. Ainda no quesito amoras, encher um potinho pequeno delas é bem cansativo, sem falar que a frutinha é de uma sensibilidade atroz: morrem esmagadas ao primeiro toque, as puritanas vindas do hemisfério norte. Agora entendo o valor das danadas nas gôndolas. Já as pitangas são despudoradas. Pequenas lanternas chinesas acesas. Mini pumpkins (porém comunistas) v ermelho-alaranjadas brilhando entre os verdes. São rijas, aguentam o tranco porque são...

Buraco de Minhoca

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Rodopio ruidoso onomatopeico grilos cri-cri gravetos grec-grec cascas lançadas ao léu cascos sobre cascalhos crac-crac vento ventoso veloz baila à revelia folhas estalam do chão vão ao céu das copas vão ao chão vrão, vrão da janela descortina-se a melodia natural de uma pantomima: chuva, cadê? Dia 23/9 é a data de aniversário da vovó Paula. Faria 93 anos. Certamente estaria muito preocupada com o futuro do País, mesmo sabendo que não iria vivenciá-lo. Era uma mulher antenada, crítica, leitora. Muitas vezes de opinião política contrária ao dos filhos e da nora. Nunca foi petista, porém, nas eleições presidenciais de 2018, as últimas antes de sua morte, sem obrigação de votar, esteve nas urnas e votou em Haddad, pois sabia que o contrário era absolutamente inaceitável. Penso que faria o mesmo agora. E eu a levaria com muito orgulho para teclar 13. Com certeza também estaria horrorizada com o desgoverno abjeto de Inganeis/Celina Leão, e tentaria reverter a reeleição de uma chapa que vem...

Papocos

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O Judiciário evolui apesar dos pesares. Que interessante e necessário este Protocolo de IA para identificar processos pela perspectiva de gênero. Não será a panaceia, evidentemente, para por um basta na violência contra a mulher, mas deixa a situação ainda mais transparente para os operadores do Direito. Queria compartilhar com vocês os highlights do que ouvi dos especialistas e que exponho aqui com as minhas palavras: O protocolo criado para identificar processos com viés de gênero é uma força contrária à inércia. A inércia é discriminatória. O protocolo nos ajuda a enxergar os estereótipos (visões tendenciosas) adotados numa análise dos pedidos de proteção feitos pelas mulheres. O protocolo permite aos juízes conhecer as dinâmicas de gênero como elas são. O agente de IA Raquel é um filtro para identificar aspectos discriminatórios nos processos envolvendo violência de gênero ou mesmo outras questões sociais perpassadas pela ótica feminina, como, por exemplo, vagas em creches, algo ...

Barraqueiras não, buraqueiras!

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Imaterial A alma precisa de tempo cada intuito que a ela move pequeno ou grande põe o coração. A velhice demanda espiritualidade pois a juventude é o seu contrário física e finita e tola. Amadurecer encarquilhar deteriorar o corpo encolhe o core expande. Eu costumava assistir ao programa "Chegadas e Partidas", me emocionando com aqueles reencontros e despedidas. Apesar de achar a Astrid Fontenelle muito chatinha, a intensidade e a autenticidade daqueles afetos eram irresistíveis. Hoje estou num destes episódios. Logo à entrada do desembarque, observei um jovem neto e a sua avó. Ele a amparava, acariciava os braços dela, beijava-lhe a testa. Cena mais bonita poucas vezes vi. Ambos angustiados com o até breve ou o adeus. Na idade da velha senhora, os dois sabem que sempre pode ser o último abraço. Não penso numa derradeira vez em relação ao meu filho, socorro. Multiplicaria a dor no coração já estrangulado. Ele vai realizar sonhos de uma carreira realizadora, de um amor prof...

Eternas capitais

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Brasília tem um quê de outro planeta. Uma nave em forma de ave que pousou no deserto abandonado e não mais decolou, escangalhada ou presa pelas raízes profundas do que viriam a ser árvores de um futuro incerto. Atlântida ressurgida dos abissais lençóis freáticos. Com estruturas esdrúxulas que se fizeram belas aos olhos de quem sabia apreciar o inédito. Paradoxal cidade mítica forjada por céticos. Da cabeça de ateus brotaram símbolos de imperioso ascetismo. Veneração ao horizonte interminável e à divindade céu azul. Sem falar do Rá ao poente. Acrópole alienígena recebe terráqueos desconfiados que devagar se acomodam em sua estranheza. Miscelânea de utopias disformes e contraditórias. Nada no sistema solar lhe parece. Salvador Chuva de derrubar cacau. O sol de inverno tá barril.  Venha!  Semiescondido como o perro de Goya macambúzio búzio na areia lambido pelas carícias de Iemanjá sonha com Iansã, Ogum ou Xangô Não quer a mãe Oxalá, outra qualidade de amor.  

Sem mais tardança

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Delonga Cobiçar passarinhos com olhar infindo  O dia principia a rotina se insinua despida de desejo premente As horas evoluem  sem propósito  Caço a lua no azul e as flores na sarjeta Mundo em torvelinho amor fora do ninho  Remanesce não ter  compromisso  com a pressa.  OS FILHOS DA BABEL Deus está dormindo e em sonhos balbucia. Somos as palavras desse Deus confuso que em eterna solidão fala para si mesmo. Cristina Peri Rossi poeta uruguaia Eu, Odisseu Absoluto eterno essência última na grande busca o ego distraído não encontra o sendeiro  clama aos astros as estrelas nunca mentem?  discernimento  Confuso não olha  para a alma de si pequenez grandeza ânsia de liberdade Venera deuses claudica tropeça  desiste insiste Viajar é preciso O porto do ser é longe.