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Inesperado

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À distância, parecia um saco plástico, lixo urbano que insiste em parar no chão pela falta de consciência dos citadinos. A cada deslocamento de ar produzido pelos carros, o objeto rodopiava, evoluindo em piruetas pelas faixas de rolamento do Eixão, convite à distração ao volante. Quando meu carro se aproximou da cena, a surpresa: um balão. Um pequeno balão azul, metáfora da Terra eternizada por Guilherme Arantes. Momento poético ao meio-dia. “An unexpected bonus" na rotina. A audaz bexiga seguia estoica a missão de atravessar a rua sem perder a vida, aliás, a sua leveza de bailarina aérea. Vrum, vrum, os carros passavam e o meu desacelerou ao máximo para conferir o espetáculo gratuito. Segui o papo de anjo, só podia mesmo ter caído do céu de tão azul que era. Pelo retrovisor, testemunhei que alcançou, inteiro, o outro lado da perigosa rodovia que corta o avião de norte a sul. Deve estar descansando sobre a grama do canteiro, ainda verde e convidativa. Sonhos diáfanos até a próxi...

Cariocando

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Provavelmente alguém vai achar que não regulo bem da cachola, mas, no Rio, prefiro a cidade à praia. Claro que não dispenso oferendas ao mar. Ficar frente a frente e render minha devoção. Porém a água muito fria, o sol muito quente, a areia barulhenta, as ondas intimidadoras, nada disso me atrai. Praias, para mim, são as plácidas e mornas, quase desérticas. No Rio, prefiro pisar as pedras portuguesas que guardam a memória do império. Calçamento que singra a terra como naus em diversas direções sugestivas como Urca, Gentileza, Rocinha, Pavuna. As cariocas usam shorts minúsculos combinando com casacos de moletons folgados. Chinelo é de lei nos pés dos habitantes. As ruas estreitas estão sempre apinhadas de carros, táxis, ônibus, caminhões e zilhões de bicicletas elétricas mal-educadas. Cariocas gritam com os conhecidos do outro lado da calçada sem se importarem com a audição alheia. E falam com desconhecidos sem se importarem com qualquer apresentação prévia. Há moradores de ruas às pen...

Vernáculos

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Verba volant, scripta manent. (Palavras voam, o que está escrito permanece) Desde ontem palavras estranhas me assaltam: modorrentas, acabrunhamento, demasia, arvorar-se. Decidem vir à tona sem que eu as procure. De algum recôndito (outra estranheza) estão cansadas do ostracismo (haha, mais uma) e procuram a luz da superfície, demandando o seu uso. Ah, o Português… Lembrei de um dia em que falei peculiar e unique numa conversa em inglês. Acharam que eu era versada na língua, muito culta, indeed . Os norte-americanos, em geral, não têm noção do latim na própria língua. Menos do que a gente, que deveria ter aulas do idioma morto-vivo, pois ainda somos assombrados pela presença espectral do latim no nosso dia-a-dia, do Direito à Arte e à Biologia. Afinal, ele, junto com o grego, são as mais importantes línguas clássicas do Ocidente. Por exemplo: na prática de canto coral, se entoa belas missas em latim. Confesso que são as que mais gosto de pronunciar: benedictus, pacem, ora pro nobis,...

Guarda-costas insones

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Já havia escrito sob a perspectiva do meu nariz (postado por aqui). Folheando um dos caderninhos de anotações miles, esbarrei com um texto incompleto do ponto de vista do meu cotovelo. Tratava-se de um exercício proposto pela poeta Sara Melo num dos encontros do projeto "Literatura a céu aberto" que compartilho com vocês. Não entendi. Até ontem não compreendia minha existência para além das metáforas de amor desiludido. Dor de cotovelo, a mão a segurar o queixo acima da mesa, o peso da cabeça, quase cinco quilos, dizem. Foi então que me vi imóvel, estatelado sobre o asfalto áspero e quente do meio-dia. O que estaria fazendo ali, naquela disfuncionalidade exótica? Literalmente no chão, lugar incomum para cotovelos. O corpo que me contém estirado no betume. Logo eu, um cotovelo audaz e pleno, de repente inerte. Lutei para agir, mas apenas sentia o tilintar de cacos de vidro. Meu mecanismo espatifado, esmigalhado. Chocalho de ossos diminutos. Emperrei, engastalhei em mim mesmo...

Caminho interior

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Cheiro de mato intocado vem com o vento embaralha-se ao sonho da noite minha mãe sorri com dentes cavalares  o possessivo nunca é tão forte quanto o dela: minha. A arcada da filha comprova o laço indissolúvel da genética entre soluços e fantasmas.  No comum  o que nos assemelha  antes daquilo que nos afasta  Das personas-muro, cansada. Procura-se pessoas-ponte convivência  Após o dia, vem a noite ciclos vem o outono após o verão  repetição  Do universo ao humano tudo se recolhe e se expande consciência  Fragilidades como alavancas caminho interior Dar a mão às sombras e conduzi-las à luz.  Preparou o almoço acompanhada de música e de sombras. Quedaram-se as pontas dos dedos amareladas de curry .

Pois, pois

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"Eu te amo calado, como quem ouve uma sinfonia, de silêncios e de luz." (Lulu Santos) Os sons clássicos retornam. Reverberam pelas paredes porosas de tijolinhos cansados. Já faz um tempo que o rapaz decidiu se expressar por acordes e compassos. Impenetrável a olho nu. As palavras da sua boca saem escassas, monossilábicas. Paradoxalmente, sua música é prolixa. Preciso encontrar o caminho das pautas e dos semitons para alcançá-lo neste novo estágio imaterial. Meu peito em clave de dor ainda se ressente da saudade daquela criança solar que causava tumulto com a sua agitação. Que nos desafiava com suas perguntas mirabolantes e inteligentes. Que sorria facilmente, um sorriso lindo. Sei que soa monocórdica essa melodia de māe em desnorteio. Estou a absorver esta nova realidade abstrata e sutil. Contentar-me com um convívio minimalista e a ouvir as notas de amor sublimadas entre um movimento e outro desta composição: lento, andante, allegro ma non tanto . Filho, pois, pois, é uma pe...

Ordens de grandeza

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  Das pessoas que amamos não permanecem apenas os grandes gestos e os momentos marcantes.  As prosaicas ações latejam na memória e reacendem as fagulhas da saudade. Entre os guardados de vovó Paula, três relógios de punho quebrados de algum modo. O mais bonito, dourado envelhecido pelo tempo, me cativou à primeira vista. Parecia muito antigo. A Paula universitária teria desfilado pelos corredores com o adorno? Teria comprado com o seu primeiro salário? Seria presente do noivo inglês? Ou do marido piauiense? Nunca saberei. Nunca a vi com ele, esquecido na gaveta dos anos. Cyma é a marca do objeto que tenho nas mãos, tampouco conhecia a tradicional relojoaria suíça, fundada em 1862 pelos irmãos Joseph e Theodore Schwob na cidade de Jura. Cismei em saber se tinha conserto. Levei a um relojoeiro no Conjunto Nacional que me pareceu confiável. Senti que ele ficou comovido e desafiado pelo bibelô. Tentou salvar o sistema de corda, mas não deu certo. Os minutos insistiam em atrasar. ...