Postagens

Ares rurais

Imagem
Luciana pé de cana poderia ser apenas rima de efeito jocoso ou efetiva constatação do descontrole com bebidas alcóolicas. Mas acontece que eu sou mesmo pé de cana. Caiana, de preferência. No Brasil, até o século XIX, a cana-de-açúcar utilizada para fabricar rapadura era a Crioula. Depois, veio a Caiana, que é mais resistente a pragas, e, posteriormente, surgiram inúmeras variedades como a Cana Rosa, Fita, Bambu, Carangola, Cabocla, Preta, entre outras. O fato é que eu não sei qual é a cana que consigo comprar para consumo próprio. Sabemos pouco sobre esta fruta. Seria fruta? Não, não é. Acreditem, mas a cana-de-açúcar é classificada como uma gramínea. Agora sim entendo melhor: chupar cana demanda uma certa ruminação. Vaquinha. Hahaha. Com origem na Papua-Nova Guiné, essa grama tropical perene, aqui no Brasil, está mais relacionada à produção de etanol para alimentar veículos e, claro, à fabricação de açúcar, além da tradicional garapa de feira, que também não dispenso. Entretanto, am...

Antes que janeiro termine

Imagem
Pare, olhe, escute. como se esperasse o trem. Desligue o motor do carro, da mente,  do celular. Aguarde.  Ouça o deslize das nuvens.  Precisa silêncio de peso para notar a leveza. Stop como os americanos para não levar multa.  Pise no freio e mire lentamente para os lados, para o alto, para além.  Suspire.  Não corra. Não morra antes de viver.  algo incomoda. um cílio na retina pedrisco no sapato. Incomoda a janela daquela casa  sempre fechada. o silêncio do abandono. a loucura do incompreendido.  Algo. A indefinição incomoda.  Um não sei quê um trem sem Minas uma coisa um enrosco sufoco inominável pagão sem certidão incomoda. Alguma falta nenhuma presença entre um vão e um degrau Incomoda a inércia. A letárgica agonia incomoda o pleno nada a vida plana insidiosa  insossa vaga acomodada incomoda. Entrei numa de Vanessa da Mata: tomei um banho de chuva, aliás, um temporal de verão. No início rola um certo desconforto, o frio dos pr...

Dezembro, enfim

Imagem
Trem bão, coisinha pacífica é se embrenhar entre as colunas de livros. As lombadas variadas em cores e espessuras embaralham a vista. Tiro os óculos, não ajuda muito. Ler com o pescoço tombado para o lado pode dar torcicolo. Melhor é retirar da estante e dar trabalho para o funcionário depois.  Os sebos da atualidade são lugares menos mofados. Há ainda os subsolos entulhados, mas agora é possível esquecer dos ponteiros, até sentar em poltronas com uma obra nas mãos como nas livrarias bacanas.  Às vezes me sento no chão do corredor para garimpar as prateleiras mais baixas.  Saio sempre com achados que serão presenteados com a oportunidade de viver em outra estante, minha ou de outrem, o fundamental é fazer a literatura arejar e reencontrar novos leitores. Assim viajava em alegre sentimento, com minha sacolinha a tiracolo quando senti algo pesado e forte me jogando abruptamente para o lado.  Era um carro em marcha ré saindo da vaga. Gritei. Culpa minha, cabecinha de ...

Saturno

Imagem
O tempo singra e sangra perene, implacável. Torniquetes lhe fazem cócegas. Injeções de botox lhe paralisam em pequenas doses, mas as rachaduras do rosto e da alma seguem o caminho inexorável de suas próprias trajetórias. Pulmão, pintura em tela de Malu Engel Chuva após longa estiagem lente de aumento da limpidez sobre uma obra danificada. As tempestades, estilete na mão de uma restauradora habilidosa da tela-vida resgata a natureza combalida. O que estava escurecido e manchado pela fuligem das queimadas,  camadas de poeira dura,  deserto craquelado  é lavado com o poderoso solvente das lágrimas celestes. Opaco dá lugar ao brilho das cores orgânicas.  A obra de arte planetária recupera a vivacidade  respira. A humanidade rebrota Renascença. Seres obscuros, nas gretas, grotas,  de costas a esconder a dignidade perdida na vida de rua, de viadutos impuros casulos de papelão andrajos do caos solidão de marquise concreta iniquidade na cidade indiferente. Desenh...

Dos reinos vegetal e animal

Imagem
Esse negócio de coabitar o recinto dos felinos não está dando certo, não.  Sinto preguiça, uma languidez fenomenal. Os bocejos são muitos, a sonolência, infernal.  Fico pelos cantos, imóvel, estátua sem pedestal.  Semicerro meus olhos, num estado animal.  Penso apenas em me jogar no sofá, na cama, na grama... Horas sem nada a fazer além das folhas da aroeira ver.  Sozinha estar, apreciar o pouco falar. Tenho comido pequenas porções as unhas enormes, de leões.  Serão os gatos feiticeiras transmutando a embusteira?  Dizem as más línguas: gato chega a matar gente! Pois minha humanidade se esvai felinamente. Daqui a pouco abandono os óculos, ganho olhar de lince.  E quando o corpo saltar sem peso não mais me reconheço.  Na dúvida, fotografe todos os pés de nuvem, de algodão doce ternura de noivas na passarela da nave cabelos das avós que não conheci. Tudo dentro da normalidade sem gracinha. Só as flores jamais são sem gracinha na impertinência ...

Deliberare

Imagem
Passava em frente ao Mercado das Flores no ápice da tarde seca quando uma coroa moribunda cruzou o meu caminho... Nasce-se e morre-se nos dias quentes. Ambas as urgências independem da temperatura lá fora. Ambos os movimentos vêm de dentro.  Penso que a morte no dia quente torna a vida de quem fica ainda mais dilacerante. As flores murcham no velório escaldante. Camisas se mancham de suor. Lágrimas mornas chamuscam as faces. É desconfortável abraçar demoradamente num dia quente e tudo o que necessitamos na partida de quem amamos é um gesto de carinho autêntico, desbragado.  Um cemitério árido, implacável, mata um pouco os que seguem na vida. Nascer num dia quente, por sua vez, é duplamente alvissareiro. Tudo o que se quer é um lugar fresquinho para se aconchegar. O hospital, de repente, torna-se este espaço de acolhimento de alegrias, com suas salas frias. Ninguém se importa com a impessoalidade das paredes brancas, com os longos corredores de portas para o abismo, pois os ...

Agostinas

Imagem
Corrente correnteza Nadar contra ou seguir o fluxo? As correntes costumam lhe prender ou lhe enfeitar? Você, elo mais fraco ou fecho resistente:  não larga mão dos seus devaneios, dos afetos? Nem sempre resistir é sinônimo de coragem. Deixa fluir, diluir os atritos  flutue às margens. Mergulhar até engolir água está no cerne do que autentica (ponto crucial, inegociável). Quero distinção na multidão (alergia ao senso comum) Percebi que não é preciso a rrebentar-se contra os paredões para ser quem sou. Em Brasília, 10%. Copo quase vazio, fastio.  Estertores de agosto,  gosto de pó na boca. Cheiro de queimada? Presente.  Coruja buraqueira busca sombra;  calangos se escondem nas úmidas  frestas das pedras candangos bufam. Beber três litros d'água é de lei se o vivente não for besta. Trabalhar com revisão de decisões judiciais no geral é o mais do mesmo. São tantos os temas objetos de litígio repetidos e repetitivos que bocejar é preciso. Em breve, uma IA e...