Eternas capitais
Brasília tem um quê de outro planeta. Uma nave em forma de ave que pousou no deserto abandonado e não mais decolou, escangalhada ou presa pelas raízes profundas do que viriam a ser árvores de um futuro incerto. Atlântida ressurgida dos abissais lençóis freáticos. Com estruturas esdrúxulas que se fizeram belas aos olhos de quem sabia apreciar o inédito. Paradoxal cidade mítica forjada por céticos. Da cabeça de ateus brotaram símbolos de imperioso ascetismo. Veneração ao horizonte interminável e à divindade céu azul. Sem falar do Rá ao poente. Acrópole alienígena recebe terráqueos desconfiados que devagar se acomodam em sua estranheza. Miscelânea de utopias disformes e contraditórias. Nada no sistema solar lhe parece. Salvador Chuva de derrubar cacau. O sol de inverno tá barril. Venha! Semiescondido como o perro de Goya macambúzio búzio na areia lambido pelas carícias de Iemanjá sonha com Iansã, Ogum ou Xangô Não quer a mãe Oxalá, outra qualidade de amor.