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Parece água, mas não é

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Estamos na mesma caravela janelas abertas nada acima além do brilhante céu nada abaixo além do escuro abismo Nossas velas inflam ao vento da audácia desvendar caminhos aquosos. Sextantes mapeiam constelações mas temos nossa miopia a nos desviar das correntes marítimas. Buscamos o horizonte nas manhãs e afora o sol aquaplanando o sal não se divisa o seguro porto destino almejado de todo navegante que apenas espera pela próxima partida. Na entrada do shopping chique, um cãozinho muito simpático. A tutora nem tanto. Não me atrevi a chegar mais perto, apenas acenei: oi, bonito! (Sem saber se tratava-se de uma bonita). Nossa tendência patriarcal de, automaticamente, pensar nos artigos masculinos. Pelas alamedas daquela espaço gelado pelo efeito do ar-condicionado assim como pelas monótonas vitrines elegantes e caríssimas, também circulavam jovens sem graça, padronizados por uma estética de palidez, de esqualidez e de languidez angustiantes, principalmente as garotas, que pena. Como serão ...

Inesperado

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À distância, parecia um saco plástico, lixo urbano que insiste em parar no chão pela falta de consciência dos citadinos. A cada deslocamento de ar produzido pelos carros, o objeto rodopiava, evoluindo em piruetas pelas faixas de rolamento do Eixão, convite à distração ao volante. Quando meu carro se aproximou da cena, a surpresa: um balão. Um pequeno balão azul, metáfora da Terra eternizada por Guilherme Arantes. Momento poético ao meio-dia. “An unexpected bonus" na rotina. A audaz bexiga seguia estoica a missão de atravessar a rua sem perder a vida, aliás, a sua leveza de bailarina aérea. Vrum, vrum, os carros passavam e o meu desacelerou ao máximo para conferir o espetáculo gratuito. Segui o papo de anjo, só podia mesmo ter caído do céu de tão azul que era. Pelo retrovisor, testemunhei que alcançou, inteiro, o outro lado da perigosa rodovia que corta o avião de norte a sul. Deve estar descansando sobre a grama do canteiro, ainda verde e convidativa. Sonhos diáfanos até a próxi...

Cariocando

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Provavelmente alguém vai achar que não regulo bem da cachola, mas, no Rio, prefiro a cidade à praia. Claro que não dispenso oferendas ao mar. Ficar frente a frente e render minha devoção. Porém a água muito fria, o sol muito quente, a areia barulhenta, as ondas intimidadoras, nada disso me atrai. Praias, para mim, são as plácidas e mornas, quase desérticas. No Rio, prefiro pisar as pedras portuguesas que guardam a memória do império. Calçamento que singra a terra como naus em diversas direções sugestivas como Urca, Gentileza, Rocinha, Pavuna. As cariocas usam shorts minúsculos combinando com casacos de moletons folgados. Chinelo é de lei nos pés dos habitantes. As ruas estreitas estão sempre apinhadas de carros, táxis, ônibus, caminhões e zilhões de bicicletas elétricas mal-educadas. Cariocas gritam com os conhecidos do outro lado da calçada sem se importarem com a audição alheia. E falam com desconhecidos sem se importarem com qualquer apresentação prévia. Há moradores de ruas às pen...

Vernáculos

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Verba volant, scripta manent. (Palavras voam, o que está escrito permanece) Desde ontem palavras estranhas me assaltam: modorrentas, acabrunhamento, demasia, arvorar-se. Decidem vir à tona sem que eu as procure. De algum recôndito (outra estranheza) estão cansadas do ostracismo (haha, mais uma) e procuram a luz da superfície, demandando o seu uso. Ah, o Português… Lembrei de um dia em que falei peculiar e unique numa conversa em inglês. Acharam que eu era versada na língua, muito culta, indeed . Os norte-americanos, em geral, não têm noção do latim na própria língua. Menos do que a gente, que deveria ter aulas do idioma morto-vivo, pois ainda somos assombrados pela presença espectral do latim no nosso dia-a-dia, do Direito à Arte e à Biologia. Afinal, ele, junto com o grego, são as mais importantes línguas clássicas do Ocidente. Por exemplo: na prática de canto coral, se entoa belas missas em latim. Confesso que são as que mais gosto de pronunciar: benedictus, pacem, ora pro nobis,...

Guarda-costas insones

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Já havia escrito sob a perspectiva do meu nariz (postado por aqui). Folheando um dos caderninhos de anotações miles, esbarrei com um texto incompleto do ponto de vista do meu cotovelo. Tratava-se de um exercício proposto pela poeta Sara Melo num dos encontros do projeto "Literatura a céu aberto" que compartilho com vocês. Não entendi. Até ontem não compreendia minha existência para além das metáforas de amor desiludido. Dor de cotovelo, a mão a segurar o queixo acima da mesa, o peso da cabeça, quase cinco quilos, dizem. Foi então que me vi imóvel, estatelado sobre o asfalto áspero e quente do meio-dia. O que estaria fazendo ali, naquela disfuncionalidade exótica? Literalmente no chão, lugar incomum para cotovelos. O corpo que me contém estirado no betume. Logo eu, um cotovelo audaz e pleno, de repente inerte. Lutei para agir, mas apenas sentia o tilintar de cacos de vidro. Meu mecanismo espatifado, esmigalhado. Chocalho de ossos diminutos. Emperrei, engastalhei em mim mesmo...

Caminho interior

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Cheiro de mato intocado vem com o vento embaralha-se ao sonho da noite minha mãe sorri com dentes cavalares  o possessivo nunca é tão forte quanto o dela: minha. A arcada da filha comprova o laço indissolúvel da genética entre soluços e fantasmas.  No comum  o que nos assemelha  antes daquilo que nos afasta  Das personas-muro, cansada. Procura-se pessoas-ponte convivência  Após o dia, vem a noite ciclos vem o outono após o verão  repetição  Do universo ao humano tudo se recolhe e se expande consciência  Fragilidades como alavancas caminho interior Dar a mão às sombras e conduzi-las à luz.  Preparou o almoço acompanhada de música e de sombras. Quedaram-se as pontas dos dedos amareladas de curry .

Pois, pois

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"Eu te amo calado, como quem ouve uma sinfonia, de silêncios e de luz." (Lulu Santos) Os sons clássicos retornam. Reverberam pelas paredes porosas de tijolinhos cansados. Já faz um tempo que o rapaz decidiu se expressar por acordes e compassos. Impenetrável a olho nu. As palavras da sua boca saem escassas, monossilábicas. Paradoxalmente, sua música é prolixa. Preciso encontrar o caminho das pautas e dos semitons para alcançá-lo neste novo estágio imaterial. Meu peito em clave de dor ainda se ressente da saudade daquela criança solar que causava tumulto com a sua agitação. Que nos desafiava com suas perguntas mirabolantes e inteligentes. Que sorria facilmente, um sorriso lindo. Sei que soa monocórdica essa melodia de māe em desnorteio. Estou a absorver esta nova realidade abstrata e sutil. Contentar-me com um convívio minimalista e a ouvir as notas de amor sublimadas entre um movimento e outro desta composição: lento, andante, allegro ma non tanto . Filho, pois, pois, é uma pe...