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Diurnal

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A feminina tarefa dos pormenores Tirar sangue novamente porque algo deu errado com a coleta anterior Buscar sapato na sapataria Levar relógio de estimação pra consertar Pegar remédios manipulados prontos Comprar capas e enchimentos de almofadas Buscar resultados de exames de imagens Pegar o casaco na lavanderia Comprar guardanapos e panos de chão Almoçar com as amigas. Vide: manter as boas amizades em dia Trabalhar (como se todo o restante não fosse trabalho) No último sábado, fui trocar um presentinho que ficou apertado, entrei na loja, fui atendida pela vendedora Alessandra, que disse precisar fazer meu cadastro. -Ah, você fez aniversário no dia 21? Eu sou do dia 29! - Que legal, somos duas piscianas! Não passou mais do que dois minutos, entra uma família inteira na loja com bolo, vela e balões cantando parabéns para uma Alessandra atônita. Achei massa, cantei junto. Só tinha visto surpresas assim on-line. Ao vivo é incomparável! Uma simples troca de produto virou uma troca afetiva...

Verão Pluviométrico

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Lírica, sem pressa a garoa umedece a rua Lenta maestosa  sutileza da natureza. Olhares trocam notas jocosos, fios de cabelo desafinam nos andantes rápidos, expressivos. Nada ordinária fina e gélida chuva rara. Noite em que o céu canta pianíssimo. O vazio do ninho na casa de um músico é duplamente desabitado. Pois a música, em si, é outro corpo, mais material do que o próprio instrumentista. O som do instrumento ocupa todos os espaços, reverbera em todas as paredes, entra involuntariamente pelos ouvidos de quem ali está. É uma presença sólida, maciça, quase uma personificação. É impossível ignorar sua estatura. Espectros dos grandes mestres vêm abençoar as mãos do jovem artista, que perpetua as lições centenárias. Muita energia, vários fantasmas povoam os ambientes, auras melodiosas. E quando o músico não está em exaustivos estudos, lava a louça ou toma banho ouvindo suas escolhas: Bach, Beethoven, Rachmaninoff, Mozart, Egar. Até à piscina não falta uma cantata ou ópera. Palestrin...

Nefologia

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Enquanto o urubu esquenta suas asas ao sol é sexta. Saberá do melhor dia da semana ao, com malemolência, se exibir no alto do poste alas abertas flanco exposto sempre nos melhores postos de observação? Ciente ele estará da podridão do mundo ao ser exímio lixeiro das carniças animais? O urubu sente o calor da manhã indiferente ao clamor dos sentimentos humanos esses seres que chafurdam nas próprias misérias e os consideram um bicho agourento. Se a ele coubesse tais contradições daria de asas e seguiria abaixo da altostratus   entre térmicas a evoluir sobre a ignorância da espécie autoproclamada sapiens. Asas são riscos palavras no céu. Cruzam as folhas sem pauta  das nuvens preto voo A leveza toma o coração na esquadra de biguás, na arruaça das araras na elegância das garças helvéticas ideogramas suaves. Caligrafia imaculada. Prefiro céu com nuvens. Cores absolutas não dão trégua A imperfeição apazigua, o tom estourado não. Os alvos flocos desiguais dão margem a releitur...

Ares rurais

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Luciana pé de cana poderia ser apenas rima de efeito jocoso ou efetiva constatação do descontrole com bebidas alcóolicas. Mas acontece que eu sou mesmo pé de cana. Caiana, de preferência. No Brasil, até o século XIX, a cana-de-açúcar utilizada para fabricar rapadura era a Crioula. Depois, veio a Caiana, que é mais resistente a pragas, e, posteriormente, surgiram inúmeras variedades como a Cana Rosa, Fita, Bambu, Carangola, Cabocla, Preta, entre outras. O fato é que eu não sei qual é a cana que consigo comprar para consumo próprio. Sabemos pouco sobre esta fruta. Seria fruta? Não, não é. Acreditem, mas a cana-de-açúcar é classificada como uma gramínea. Agora sim entendo melhor: chupar cana demanda uma certa ruminação. Vaquinha. Hahaha. Com origem na Papua-Nova Guiné, essa grama tropical perene, aqui no Brasil, está mais relacionada à produção de etanol para alimentar veículos e, claro, à fabricação de açúcar, além da tradicional garapa de feira, que também não dispenso. Entretanto, am...

Antes que janeiro termine

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Pare, olhe, escute. como se esperasse o trem. Desligue o motor do carro, da mente,  do celular. Aguarde.  Ouça o deslize das nuvens.  Precisa silêncio de peso para notar a leveza. Stop como os americanos para não levar multa.  Pise no freio e mire lentamente para os lados, para o alto, para além.  Suspire.  Não corra. Não morra antes de viver.  algo incomoda. um cílio na retina pedrisco no sapato. Incomoda a janela daquela casa  sempre fechada. o silêncio do abandono. a loucura do incompreendido.  Algo. A indefinição incomoda.  Um não sei quê um trem sem Minas uma coisa um enrosco sufoco inominável pagão sem certidão incomoda. Alguma falta nenhuma presença entre um vão e um degrau Incomoda a inércia. A letárgica agonia incomoda o pleno nada a vida plana insidiosa  insossa vaga acomodada incomoda. Entrei numa de Vanessa da Mata: tomei um banho de chuva, aliás, um temporal de verão. No início rola um certo desconforto, o frio dos pr...

Dezembro, enfim

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Trem bão, coisinha pacífica é se embrenhar entre as colunas de livros. As lombadas variadas em cores e espessuras embaralham a vista. Tiro os óculos, não ajuda muito. Ler com o pescoço tombado para o lado pode dar torcicolo. Melhor é retirar da estante e dar trabalho para o funcionário depois.  Os sebos da atualidade são lugares menos mofados. Há ainda os subsolos entulhados, mas agora é possível esquecer dos ponteiros, até sentar em poltronas com uma obra nas mãos como nas livrarias bacanas.  Às vezes me sento no chão do corredor para garimpar as prateleiras mais baixas.  Saio sempre com achados que serão presenteados com a oportunidade de viver em outra estante, minha ou de outrem, o fundamental é fazer a literatura arejar e reencontrar novos leitores. Assim viajava em alegre sentimento, com minha sacolinha a tiracolo quando senti algo pesado e forte me jogando abruptamente para o lado.  Era um carro em marcha ré saindo da vaga. Gritei. Culpa minha, cabecinha de ...

Saturno

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O tempo singra e sangra perene, implacável. Torniquetes lhe fazem cócegas. Injeções de botox lhe paralisam em pequenas doses, mas as rachaduras do rosto e da alma seguem o caminho inexorável de suas próprias trajetórias. Pulmão, pintura em tela de Malu Engel Chuva após longa estiagem lente de aumento da limpidez sobre uma obra danificada. As tempestades, estilete na mão de uma restauradora habilidosa da tela-vida resgata a natureza combalida. O que estava escurecido e manchado pela fuligem das queimadas,  camadas de poeira dura,  deserto craquelado  é lavado com o poderoso solvente das lágrimas celestes. Opaco dá lugar ao brilho das cores orgânicas.  A obra de arte planetária recupera a vivacidade  respira. A humanidade rebrota Renascença. Seres obscuros, nas gretas, grotas,  de costas a esconder a dignidade perdida na vida de rua, de viadutos impuros casulos de papelão andrajos do caos solidão de marquise concreta iniquidade na cidade indiferente. Desenh...