Postagens

Refugos

Imagem
Joana falou comigo hoje. Tirou a máscara e pediu - na elegância costumeira - qualquer quantia para completar o valor de um remédio. Ver Joana de longe, passando com suas sacolas e cabelos brancos, é uma alegria que sói acontecer na entrequadra 406 e 407 sul. Ela está habituada a transitar por ali. Poucas vezes pede algo. Nessa tarde, me abordou quando cruzamos nossos olhares na calçada. Eu indo, ela vindo. Honrada fiquei ao ouvir aquele fio de voz altivo. Sua presença espectral não causa pena ou angústia. Ela parece ser bem resolvida na vida de andarilha que lhe coube. O mesmo não se constata sobre a crescente horda de zumbis a vagar pelas ruas, a dormir sob as marquises, a urinar atrás das árvores mais bojudas. Ou do guri de quatro anos que urrava acomodado num carrinho de supermercado. O descalabro contido no paradoxo: dois meninos-mercadorias com fome à porta da farmácia. Era para ser um pastel com suco ao cair da tarde. Levantei da mesa e fui ter com aquela jovem mãe. Ela explicou

Iodo

Imagem
Ausente e lassa, queria  estar pisando  a areia fina de Arraial do Cabo,  a areia grossa de Amaralina,  em Goiás Velho urdir a tarde  com Bernardo Elis e Cora Coralina,  farejar  cheiro de candeia por toda Ouro Preto…  mas estou presa à molduras de todos os meus retratos.  (Limite – Olga Savary)  Busco o mar fora do mar, como Dorival Caymmi, que não sabia nadar e nunca enfrentou a lida dos pescadores além dos arrecifes. Prefiro observar o mar a entrar no mar, aos moldes de Neruda, que construiu duas de suas três casas-poemas com vistas privilegiadas do oceano pacífico. O mar me habita, mas não passo de uma fingidora. Não sou poeta, não sou contista, não planejo romances. Amo o mar como o amo as palavras, próxima, porém distante. Sereia trôpega, mal flutuo. Canhota, anjo torto. Tropeço nos mesmos temas e obsessões. Ondas de ideias vêm e vão. Desértica e marítima, persigo o abissal, contudo, morro na praia. As metáforas não passam de espuma. As algas? Nem sequer alcanço, quiçá, as profun

Coralinas

Imagem
Aqui os velhim tudo dirige devagarinho nessas ruas de pedras primitivas, lascadas. Entre um beco e outro um aroma de fogão à lenha que acabou de arder, lufada de ruína, de cidade-fantasma. Vila Boa de Goiás, Goiás Velho, Goiás: o nome encurta ao longo do tempo. A cidade diminui: senil. Portas fechadas janelas entreabertas igrejas lacradas como túmulos, túmulos coloridos como casas. O chão de Cora enrubesce a face no esforço ladeira acima, na direção celeste. Serra Dourada, casas caiadas gatos andarilhos fardos de polvilho tucanos vivazes, goyazes: pra mode ser Minas, faltam os trilhos.

Hiper-realidade

Imagem
Ainda na vibe insetívora/inseticida (afinal, tenho agonia deles, bichos estranhíssimos, craquelados, saídos da imaginação bizarra d'algum realismo mágico genial). Seja lá quem criou essas criaturas - deus, big bang, Darwin - certamente é um invento dotado de personalidade e originalidade ímpares. O caçula estava às voltas com um besouro dias atrás. Colocou o coitado numa tupperware e só descobri quando o pobre jazia, sem uma das perninhas, indefectível de barriga-tanquinho exposta ao céu. Detalhe: ele não leu o meu texto da semana passada. Ele não se interessa pelas ficções sentimentais da mãe. Apenas por livros informativos científicos e musicais. A mãe, aquela que enxerga conexão telúrica em quase tudo, achou bacana o sincronismo. Detalhe dois: o caçula tem asco à maioria dos insetos. Logo o típico survival boy, sempre disposto a se embrenhar no mato e a rolar em superfícies suspeitas. Mas os insetos são assim: provocam nossos sentimentos reptilianos paradoxais. Repulsa e excitaç

Sísifos

Imagem
“Onde quero chegar? E lá sei eu? Essa lição aprendi com Rubem Braga: um escritor precisa saber de onde deseja partir. Quanto ao ponto de chegada, isso não lhe diz respeito. Até porque, a rigor, ele não existe. Um escritor não chega a lugar algum, um escritor se limita a partir e isso já é bastante cansativo. Ainda assim, mesmo não chegando, se caminha. E muito. Então vamos em frente!”  (José Castello) Ele não tem o apelo grotesco da barata, tantas vezes retratada em excruciantes passagens literárias. Basta fazer uma pesquisa no google para averiguar que o besouro não mereceu livros e crônicas dos cânones da língua portuguesa (talvez não soube procurar. Se conhecerem alguma, me enviem). O besouro mais famoso do mundo, claro, é um grupo: The Beatles. Depois veio o carro de mesmo nome, mas jamais o automóvel ultrapassou o carisma do fusca. Por aqui, O Escaravelho do Diabo fez história numa geração que soube gostar de ler. Começar com a letra B, portanto, não garante o sucesso de ninguém.

Preces

Imagem
atmosférico aos quatro ventos midiáticos se espalham as palavras. Algumas se escondem nas gavetas, outras se propagam pela aldeia. as retidas nos ventrículos podem ferir ou ruborizar As enviadas ao cérebro se expandem em memórias, glórias e histórias recontadas aos quatro cantos. Pontos cardeais são quatro, as direções, inúmeras. Uma palavra la(n)çada à corrente de ar retorna bumerangue ou acerta o infinito. retalhos Refúgio: refugo o cotidiano. Incessante busca pelos rejuntes de poesia,  os tais hábeis remendos para as fendas da existência.

Brasil

Imagem
sofria Sofia a menina com as larvas na cabeça. Lava de vulcão queimando os pensamentos a mãe levando as mãos à cabeça em aflição de desamparo. Buscava desanuviar o desespero da filha em carne viva os vermes apodrecidos, os dias sem guarida, a pobreza da existência. Mãe e filha enredadas nas vísceras do mundo. Sofia em agonia não brincava, não comia. Sonhava com laço no sapato e com futuro sem feridas.