Verão Pluviométrico
Lírica, sem pressa a garoa umedece a rua Lenta maestosa sutileza da natureza. Olhares trocam notas jocosos, fios de cabelo desafinam nos andantes rápidos, expressivos. Nada ordinária fina e gélida chuva rara. Noite em que o céu canta pianíssimo. O vazio do ninho na casa de um músico é duplamente desabitado. Pois a música, em si, é outro corpo, mais material do que o próprio instrumentista. O som do instrumento ocupa todos os espaços, reverbera em todas as paredes, entra involuntariamente pelos ouvidos de quem ali está. É uma presença sólida, maciça, quase uma personificação. É impossível ignorar sua estatura. Espectros dos grandes mestres vêm abençoar as mãos do jovem artista, que perpetua as lições centenárias. Muita energia, vários fantasmas povoam os ambientes, auras melodiosas. E quando o músico não está em exaustivos estudos, lava a louça ou toma banho ouvindo suas escolhas: Bach, Beethoven, Rachmaninoff, Mozart, Egar. Até à piscina não falta uma cantata ou ópera. Palestrin...