Barraqueiras não, buraqueiras!




Imaterial

A alma precisa de tempo
cada intuito
que a ela move
pequeno ou grande
põe o coração.
A velhice demanda espiritualidade
pois a juventude é o seu contrário
física e finita e tola.
Amadurecer
encarquilhar
deteriorar
o corpo encolhe
o core expande.



Eu costumava assistir ao programa "Chegadas e Partidas", me emocionando com aqueles reencontros e despedidas. Apesar de achar a Astrid Fontenelle muito chatinha, a intensidade e a autenticidade daqueles afetos eram irresistíveis. Hoje estou num destes episódios.
Logo à entrada do desembarque, observei um jovem neto e a sua avó. Ele a amparava, acariciava os braços dela, beijava-lhe a testa. Cena mais bonita poucas vezes vi. Ambos angustiados com o até breve ou o adeus. Na idade da velha senhora, os dois sabem que sempre pode ser o último abraço.
Não penso numa derradeira vez em relação ao meu filho, socorro. Multiplicaria a dor no coração já estrangulado.
Ele vai realizar sonhos de uma carreira realizadora, de um amor profundo.
Lá vai o meu rapaz sério, bacana, um espírito de Buda, uma temperança de quase Aquino.
Sentirei falta do meu companheiro de séries e de filmes de suspense.
De suas músicas altas pela manhã.
De comprar seus sucrilhos favoritos.
De quem me ajudava a levar os gatos para as consultas.
De seus amigos em casa fazendo zoeira e bagunça.
Espero que encontre tudo que procura. E que nunca perca suas gigantes empatia e sensibilidade.
Que continue a se divertir e a fazer grandes amizades.
E que saboreie muitos crème brûlée por mim.
Liberté, Égalité et Fraternité!
Je t'aime!


Barraqueiras não, buraqueiras!

Não afeita à rotina, aos domingos ela a mantém. Caminha até a rua ao lado e tenta estabelecer contato com as suas vizinhas. Aproxima-se a passos contidos, tentando imitar a leveza das moradoras daquele lote. Inicia seu monólogo, olá, como estão? Busca um tom amigável, na verdade, meio infantil. Gostaria que não fosse vista como ameaça ou como intrusa. Queria mesmo era flutuar até elas, provando que está ali com boas intenções, as melhores, pois o objetivo é que se tornem amigas, camaradas. Cultivar uma vizinhança acolhedora é sinal de civilidade, não?
Mas o que será que pensa a dupla ao ver aquele ser disforme, imenso, a emitir sons tão estranhos, ininteligíveis? Elas a perscrutam, encaram a invasora sem nada entender daquele ser absolutamente fora do contexto. Não é árvore, não é carcará, balança seus membros compridos em nossa direção e tem algo nas garras, será uma arma, algo que possa nos ferir?
Elas parecem impassíveis, porém estão tensas, ela pode sentir. Ela apenas ansiava por uma conexão poética, todavia uma das pequenas se afasta até o muro ao lado. A outra dá meia volta e se posiciona a uma distância que acredita segura.
A bípede gigante sem asas não arrefece. As aladas criaturas também não.
Ainda não foi agora, talvez não seja nunca.
Bem conhecemos alguns vizinhos que não querem saber de conversa.



Comentários

  1. Bom dia Luciana!
    Não pare de escrever! Não perca seu dom nem se perca!
    O escritor tem uma missão no mundo! Neses momentos, mais ainda!🙏🏼🤗

    Fátyma

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  2. Nem sempre consigo ler, hoje especialmente me tocou muito, nesse feriado estive em Barretos, estar com papai idoso aos 95 anos é um evento. Vimos o Bernardo por vídeo, e papai tinha visto fotos de mamãe e madrinha, falava: essa é a Paula, a memória antiga ainda preservada🙏

    Maria Heloísa

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  3. Viva a Lu 💞💞💞
    Adorei seus textos!
    Eu sinto um aperto no coração todas as vezes que volto da casa dos meus pais ... Meu pai tem 90 anos 💞💞
    Toda despedida é difícil e fazer novas amizades também, como vc observou 😃😃😂🤭

    Karla Liparizzi

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  4. Que bonito, Lu!! Adorei! Concordo: a alma precisa de tempo ✨

    Giovana Tempesta

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