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Pois, pois

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"Eu te amo calado, como quem ouve uma sinfonia, de silêncios e de luz." (Lulu Santos) Os sons clássicos retornam. Reverberam pelas paredes porosas de tijolinhos cansados. Já faz um tempo que o rapaz decidiu se expressar por acordes e compassos. Impenetrável a olho nu. As palavras da sua boca saem escassas, monossilábicas. Paradoxalmente, sua música é prolixa. Preciso encontrar o caminho das pautas e dos semitons para alcançá-lo neste novo estágio imaterial. Meu peito em clave de dor ainda se ressente da saudade daquela criança solar que causava tumulto com a sua agitação. Que nos desafiava com suas perguntas mirabolantes e inteligentes. Que sorria facilmente, um sorriso lindo. Sei que soa monocórdica essa melodia de māe em desnorteio. Estou a absorver esta nova realidade abstrata e sutil. Contentar-me com um convívio minimalista e a ouvir as notas de amor sublimadas entre um movimento e outro desta composição: lento, andante, allegro ma non tanto . Filho, pois, pois, é uma pe...

Verão Pluviométrico

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Lírica, sem pressa a garoa umedece a rua Lenta maestosa  sutileza da natureza. Olhares trocam notas jocosos, fios de cabelo desafinam nos andantes rápidos, expressivos. Nada ordinária fina e gélida chuva rara. Noite em que o céu canta pianíssimo. O vazio do ninho na casa de um músico é duplamente desabitado. Pois a música, em si, é outro corpo, mais material do que o próprio instrumentista. O som do instrumento ocupa todos os espaços, reverbera em todas as paredes, entra involuntariamente pelos ouvidos de quem ali está. É uma presença sólida, maciça, quase uma personificação. É impossível ignorar sua estatura. Espectros dos grandes mestres vêm abençoar as mãos do jovem artista, que perpetua as lições centenárias. Muita energia, vários fantasmas povoam os ambientes, auras melodiosas. E quando o músico não está em exaustivos estudos, lava a louça ou toma banho ouvindo suas escolhas: Bach, Beethoven, Rachmaninoff, Mozart, Egar. Até à piscina não falta uma cantata ou ópera. Palestrin...

Algum tanto

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Ao viajar de avião à noite  constelações d e ponta à cabeça, no breu da planície terrestre.  Ao amanhecer, a viagem retoma o seu prumo  perfura o edredom das nuvens plana-se dentro do sonho. A claridade é uma estrada infinda,  sem sarjetas ou sinalização.  Sou a única orientação.   Sampa sempre intensa sabores, tribos, desejos  lampejos de belezas e de feiu ras. Rococó Art déco paúra. Hinos e bandeiras  hordas, fileiras marginais, quintais. Verde, cinza, arco-íris  vão livres, cubículos mendigos líricos.  Meca, Big Apple Tropicália-sertão tupi-guarani Cariri-Japão.   Deus e o diabo na terra dos Andrade liberdade.   O filho dela está ali, mas já é outro. E então ela sentiu saudade daquele que o filho já foi. A cratera se abriu entre eles e ela sente saudade do que ele é naquele momento, pois sabe que amanhã ele já não será aquele momento. Amanhã o garoto já não dará o beijo forçado pela mãe na frente dos amigos. Ele ...

E nada se faz sozinho...

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Gosto de morar numa casa antiga onde as velhas telhas saem do traçado exato. Guardam memórias de chuvas intensas  nos musgos e de sóis abrasadores no desbotado do barro. Gosto de abrir a janela, admirar os telhados desgastados ao redor. Transpiram as Geraes dum tempo de reverência aos céus dos santos, à ira divina.  Pisos descascados pelos cascos verdes brotam das frestas carcomidas. Rusticidade de uma vida menos farta de excessos.  Noitevagar apascentada junto aos fantasmas. Antepassar. O que eu preciso para sobreviver não é o fogo ardendo com raiva e ódio. Eu tenho muito fogo em mim. O que necessito é de um dente-de-leão na primavera. O amarelo brilhante que significa renascimento ao invés de destruição. A promessa de que a vida pode continuar, não importa o quão terríveis foram nossas perdas. Que pode ser bom novamente." (Katniss Evergreen) Na vibe do Tordo de Jogos Vorazes para começar mais um ano revolucionário! Tenho vestido muitas peças verdes. Percebo que estou ...

Cerratenses

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  Espécie pioneira e perenifólia capaz de suportar sombreamento mediano. a aroeira salsa é altamente tolerante à seca, resiste às geadas e apresenta boa capacidade de regeneração natural. Floresce de agosto a novembro, e a maturação dos frutos ocorre entre dezembro e janeiro, permanecendo na árvore até março.  A casa das novas janelas trapezoidais, a vila italiana, a casa infinito. A casa da progressão geométrica 2, 4, 8 ou  dos múltiplos de dois ou do teclado matricial (matriarcal) 2x4=8.  A casa das pitangas, de um a dupla de aroeiras salsas, do pau-brasil e das arecas. A casa dos tijolinhos ( white brick road ), do ipê também branco, da luz oblíqua.  A casa dos papeis de parede “trazidos da Índia”  e das igualmente falsas, porém bonitas, cerâmicas hidráulicas. A casa da Nossa Senhora de Fátima e  do jardim mágico do castelo da Bela Adormecida. A casa da escada em caracol, do gazebo realocado. A casa da profusão de espadas de São Jorge (muito bem g...

Gigante gentil

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Um piano bem tocado é imbatível. Engraçado ter me vindo à cabeça exatamente este adjetivo, uma vez que não se bate num piano nem com uma flor. Quanto mais belamente acionadas as teclas, mais suave é, ainda que a composição exija vigor e rapidez estonteantes para mãos que parecem agir independentemente dos braços. Mãos autônomas como a Mãozinha da Família Addams (usei essa analogia antes, mas Renato Russo me absolve). Pois ontem foi uma noite sublime. A sala de teatro da Poupex é o que de melhor temos em Brasília no momento que parece infinito, quando o Teatro Nacional Cláudio Santoro segue agonizando em Eixo Monumental público. Som muito bom, cadeiras confortáveis, iluminação acolhedora, acústica idem, estacionamento amplo. Espaço perfeito para abrigar óperas, concertos, recitais e outras apresentações mais intimistas, apesar de não ser pequeno, muito pelo contrário. O único senão é ficar distante das paradas de ônibus e das estações de metrô. A plateia também estava de parabéns. Pou...