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Mostrando postagens com o rótulo cotidiano

Barraqueiras não, buraqueiras!

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Imaterial A alma precisa de tempo cada intuito que a ela move pequeno ou grande põe o coração. A velhice demanda espiritualidade pois a juventude é o seu contrário física e finita e tola. Amadurecer encarquilhar deteriorar o corpo encolhe o core expande. Eu costumava assistir ao programa "Chegadas e Partidas", me emocionando com aqueles reencontros e despedidas. Apesar de achar a Astrid Fontenelle muito chatinha, a intensidade e a autenticidade daqueles afetos eram irresistíveis. Hoje estou num destes episódios. Logo à entrada do desembarque, observei um jovem neto e a sua avó. Ele a amparava, acariciava os braços dela, beijava-lhe a testa. Cena mais bonita poucas vezes vi. Ambos angustiados com o até breve ou o adeus. Na idade da velha senhora, os dois sabem que sempre pode ser o último abraço. Não penso numa derradeira vez em relação ao meu filho, socorro. Multiplicaria a dor no coração já estrangulado. Ele vai realizar sonhos de uma carreira realizadora, de um amor prof...

Eternas capitais

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Brasília tem um quê de outro planeta. Uma nave em forma de ave que pousou no deserto abandonado e não mais decolou, escangalhada ou presa pelas raízes profundas do que viriam a ser árvores de um futuro incerto. Atlântida ressurgida dos abissais lençóis freáticos. Com estruturas esdrúxulas que se fizeram belas aos olhos de quem sabia apreciar o inédito. Paradoxal cidade mítica forjada por céticos. Da cabeça de ateus brotaram símbolos de imperioso ascetismo. Veneração ao horizonte interminável e à divindade céu azul. Sem falar do Rá ao poente. Acrópole alienígena recebe terráqueos desconfiados que devagar se acomodam em sua estranheza. Miscelânea de utopias disformes e contraditórias. Nada no sistema solar lhe parece. Salvador Chuva de derrubar cacau. O sol de inverno tá barril.  Venha!  Semiescondido como o perro de Goya macambúzio búzio na areia lambido pelas carícias de Iemanjá sonha com Iansã, Ogum ou Xangô Não quer a mãe Oxalá, outra qualidade de amor.  

Delicadezas e silêncios

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A escritora norte-americana Katie Kitamura afirmou, numa entrevista publicada em 19/7 no O Globo, que “vivemos tempos de carência de sutileza”. Sem dúvida, os tempos são brutos. Tudo é explícito ao nível do pornográfico nestas redes sociais. Ostentação e superficialidade agressivas. As pessoas perderam o pudor de se mostrarem rudes, mal-educadas. A empatia saiu de cena. Em contraste com este comportamento árido, temos os gatos. Conviver com eles me dá a oportunidade de aprender com o minimalismo. Eu, tāo barroca, afeita ao exagero, preciso me conter para que eles se sintam à vontade, para que se aproximem. Gatos não curtem movimentos bruscos, barulhos, excessos. São seres comedidos por natureza. Preferem contatos lânguidos e lacônicos. Grandes mestres do etéreo, da leveza e do toque sutil. Eles se aconchegam com precisão em nossos corpos. Não invadem o espaço de ninguém. Tateiam e preparam o terreno antes de pedir passagem. Aos humanos resta entender que a liberdade é irrestrita nos af...

Parece água, mas não é

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Estamos na mesma caravela janelas abertas nada acima além do brilhante céu nada abaixo além do escuro abismo Nossas velas inflam ao vento da audácia desvendar caminhos aquosos. Sextantes mapeiam constelações mas temos nossa miopia a nos desviar das correntes marítimas. Buscamos o horizonte nas manhãs e afora o sol aquaplanando o sal não se divisa o seguro porto destino almejado de todo navegante que apenas espera pela próxima partida. Na entrada do shopping chique, um cãozinho muito simpático. A tutora nem tanto. Não me atrevi a chegar mais perto, apenas acenei: oi, bonito! (Sem saber se tratava-se de uma bonita). Nossa tendência patriarcal de, automaticamente, pensar nos artigos masculinos. Pelas alamedas daquela espaço gelado pelo efeito do ar-condicionado assim como pelas monótonas vitrines elegantes e caríssimas, também circulavam jovens sem graça, padronizados por uma estética de palidez, de esqualidez e de languidez angustiantes, principalmente as garotas, que pena. Como serão ...

Inesperado

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À distância, parecia um saco plástico, lixo urbano que insiste em parar no chão pela falta de consciência dos citadinos. A cada deslocamento de ar produzido pelos carros, o objeto rodopiava, evoluindo em piruetas pelas faixas de rolamento do Eixão, convite à distração ao volante. Quando meu carro se aproximou da cena, a surpresa: um balão. Um pequeno balão azul, metáfora da Terra eternizada por Guilherme Arantes. Momento poético ao meio-dia. “An unexpected bonus" na rotina. A audaz bexiga seguia estoica a missão de atravessar a rua sem perder a vida, aliás, a sua leveza de bailarina aérea. Vrum, vrum, os carros passavam e o meu desacelerou ao máximo para conferir o espetáculo gratuito. Segui o papo de anjo, só podia mesmo ter caído do céu de tão azul que era. Pelo retrovisor, testemunhei que alcançou, inteiro, o outro lado da perigosa rodovia que corta o avião de norte a sul. Deve estar descansando sobre a grama do canteiro, ainda verde e convidativa. Sonhos diáfanos até a próxi...

Cariocando

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Provavelmente alguém vai achar que não regulo bem da cachola, mas, no Rio, prefiro a cidade à praia. Claro que não dispenso oferendas ao mar. Ficar frente a frente e render minha devoção. Porém a água muito fria, o sol muito quente, a areia barulhenta, as ondas intimidadoras, nada disso me atrai. Praias, para mim, são as plácidas e mornas, quase desérticas. No Rio, prefiro pisar as pedras portuguesas que guardam a memória do império. Calçamento que singra a terra como naus em diversas direções sugestivas como Urca, Gentileza, Rocinha, Pavuna. As cariocas usam shorts minúsculos combinando com casacos de moletons folgados. Chinelo é de lei nos pés dos habitantes. As ruas estreitas estão sempre apinhadas de carros, táxis, ônibus, caminhões e zilhões de bicicletas elétricas mal-educadas. Cariocas gritam com os conhecidos do outro lado da calçada sem se importarem com a audição alheia. E falam com desconhecidos sem se importarem com qualquer apresentação prévia. Há moradores de ruas às pen...

Caminho interior

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Cheiro de mato intocado vem com o vento embaralha-se ao sonho da noite minha mãe sorri com dentes cavalares  o possessivo nunca é tão forte quanto o dela: minha. A arcada da filha comprova o laço indissolúvel da genética entre soluços e fantasmas.  No comum  o que nos assemelha  antes daquilo que nos afasta  Das personas-muro, cansada. Procura-se pessoas-ponte convivência  Após o dia, vem a noite ciclos vem o outono após o verão  repetição  Do universo ao humano tudo se recolhe e se expande consciência  Fragilidades como alavancas caminho interior Dar a mão às sombras e conduzi-las à luz.  Preparou o almoço acompanhada de música e de sombras. Quedaram-se as pontas dos dedos amareladas de curry .

Pois, pois

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"Eu te amo calado, como quem ouve uma sinfonia, de silêncios e de luz." (Lulu Santos) Os sons clássicos retornam. Reverberam pelas paredes porosas de tijolinhos cansados. Já faz um tempo que o rapaz decidiu se expressar por acordes e compassos. Impenetrável a olho nu. As palavras da sua boca saem escassas, monossilábicas. Paradoxalmente, sua música é prolixa. Preciso encontrar o caminho das pautas e dos semitons para alcançá-lo neste novo estágio imaterial. Meu peito em clave de dor ainda se ressente da saudade daquela criança solar que causava tumulto com a sua agitação. Que nos desafiava com suas perguntas mirabolantes e inteligentes. Que sorria facilmente, um sorriso lindo. Sei que soa monocórdica essa melodia de māe em desnorteio. Estou a absorver esta nova realidade abstrata e sutil. Contentar-me com um convívio minimalista e a ouvir as notas de amor sublimadas entre um movimento e outro desta composição: lento, andante, allegro ma non tanto . Filho, pois, pois, é uma pe...

Ordens de grandeza

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  Das pessoas que amamos não permanecem apenas os grandes gestos e os momentos marcantes.  As prosaicas ações latejam na memória e reacendem as fagulhas da saudade. Entre os guardados de vovó Paula, três relógios de punho quebrados de algum modo. O mais bonito, dourado envelhecido pelo tempo, me cativou à primeira vista. Parecia muito antigo. A Paula universitária teria desfilado pelos corredores com o adorno? Teria comprado com o seu primeiro salário? Seria presente do noivo inglês? Ou do marido piauiense? Nunca saberei. Nunca a vi com ele, esquecido na gaveta dos anos. Cyma é a marca do objeto que tenho nas mãos, tampouco conhecia a tradicional relojoaria suíça, fundada em 1862 pelos irmãos Joseph e Theodore Schwob na cidade de Jura. Cismei em saber se tinha conserto. Levei a um relojoeiro no Conjunto Nacional que me pareceu confiável. Senti que ele ficou comovido e desafiado pelo bibelô. Tentou salvar o sistema de corda, mas não deu certo. Os minutos insistiam em atrasar. ...

Diurnal

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A feminina tarefa dos pormenores Tirar sangue novamente porque algo deu errado com a coleta anterior Buscar sapato na sapataria Levar relógio de estimação pra consertar Pegar remédios manipulados prontos Comprar capas e enchimentos de almofadas Buscar resultados de exames de imagens Pegar o casaco na lavanderia Comprar guardanapos e panos de chão Almoçar com as amigas. Vide: manter as boas amizades em dia Trabalhar (como se todo o restante não fosse trabalho) No último sábado, fui trocar um presentinho que ficou apertado, entrei na loja, fui atendida pela vendedora Alessandra, que disse precisar fazer meu cadastro. -Ah, você fez aniversário no dia 21? Eu sou do dia 29! - Que legal, somos duas piscianas! Não passou mais do que dois minutos, entra uma família inteira na loja com bolo, vela e balões cantando parabéns para uma Alessandra atônita. Achei massa, cantei junto. Só tinha visto surpresas assim on-line. Ao vivo é incomparável! Uma simples troca de produto virou uma troca afetiva...

Verão Pluviométrico

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Lírica, sem pressa a garoa umedece a rua Lenta maestosa  sutileza da natureza. Olhares trocam notas jocosos, fios de cabelo desafinam nos andantes rápidos, expressivos. Nada ordinária fina e gélida chuva rara. Noite em que o céu canta pianíssimo. O vazio do ninho na casa de um músico é duplamente desabitado. Pois a música, em si, é outro corpo, mais material do que o próprio instrumentista. O som do instrumento ocupa todos os espaços, reverbera em todas as paredes, entra involuntariamente pelos ouvidos de quem ali está. É uma presença sólida, maciça, quase uma personificação. É impossível ignorar sua estatura. Espectros dos grandes mestres vêm abençoar as mãos do jovem artista, que perpetua as lições centenárias. Muita energia, vários fantasmas povoam os ambientes, auras melodiosas. E quando o músico não está em exaustivos estudos, lava a louça ou toma banho ouvindo suas escolhas: Bach, Beethoven, Rachmaninoff, Mozart, Egar. Até à piscina não falta uma cantata ou ópera. Palestrin...