Guarda-costas insones
Já havia escrito sob a perspectiva do meu nariz (postado por aqui). Folheando um dos caderninhos de anotações miles, esbarrei com um texto incompleto do ponto de vista do meu cotovelo. Tratava-se de um exercício proposto pela poeta Sara Melo num dos encontros do projeto "Literatura a céu aberto". Vamos a ele?
Não entendi. Até ontem não compreendia minha existência para além das metáforas de amor desiludido. Dor de cotovelo, a mão a segurar o queixo acima da mesa, o peso da cabeça, quase cinco quilos, dizem.
Foi então que me vi imóvel, estatelado sobre o asfalto áspero e quente do meio-dia. O que estaria fazendo ali, naquela disfuncionalidade exótica? Literalmente no chão, lugar incomum para cotovelos. O corpo que me contém estirado no betume. Logo eu, um cotovelo audaz e pleno, de repente inerte.
Lutei para agir, mas apenas sentia o tilintar de cacos de vidro. Meu mecanismo espatifado, esmigalhado. Chocalho de ossos diminutos. Emperrei, engastalhei em mim mesmo.
Num átimo sabia que a minha vida estaria mudada para sempre. Nunca mais seria cem por cento flexível, azeitado, articulado e eficiente. Meus movimentos tácitos e sutis perderiam a discrição.
Eu, um cotovelo humilde, sem ambições, teria de ser analisado, examinado e exposto aos olhares de especialistas que julgariam se poderia ser útil novamente.
E, à parte de não gostar nada de me sentir rígido, não me perguntaram se eu aceitava a companhia de uma dupla de parafusos de titânio pela vida afora.
Apreciava minha solidão, hermitāo bem resolvido. Agora, esses dois seres frios e implacáveis não me deixam em paz, guarda-costas insones.
Voltei a ser funcional, não com a fluidez natural que faz cada engrenagem do corpo humano ser um mistério em si mesma. Alcancei até alguma fama: eis a paciente que quebrou os dois cotovelos com uma década de diferença entre eles, proclama o cirurgião, com uma animação que me faz pensar em cotoveladas no nariz dele.
Como iria saber que o cotovelo esquerdo seria invejoso ao ponto de se submeter aos mesmos martírios que eu para ser notado? Um pateta, sem dúvida.
Todavia me parece, não sei ao certo, que ele se adaptou melhor à presença diuturna dos pinos dele. Talvez por ser de esquerda seja mais cabeça aberta, né?
Taí, eu que me achava um cotovelo de boas, acabei me tornando um ressentido. Orgulho é uma merda, cara.

Kkkk maravilhoso, Lu!
ResponderExcluirIncrível como vc narra os acidentes com seus cotovelos Lulu como se foce tão fácil lidar com dores antes e pós cirurgia 😉👏👏👏
ResponderExcluirHahaha, concordo! 😆
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