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Mostrando postagens com o rótulo Brasília

Eternas capitais

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Brasília tem um quê de outro planeta. Uma nave em forma de ave que pousou no deserto abandonado e não mais decolou, escangalhada ou presa pelas raízes profundas do que viriam a ser árvores de um futuro incerto. Atlântida ressurgida dos abissais lençóis freáticos. Com estruturas esdrúxulas que se fizeram belas aos olhos de quem sabia apreciar o inédito. Paradoxal cidade mítica forjada por céticos. Da cabeça de ateus brotaram símbolos de imperioso ascetismo. Veneração ao horizonte interminável e à divindade céu azul. Sem falar do Rá ao poente. Acrópole alienígena recebe terráqueos desconfiados que devagar se acomodam em sua estranheza. Miscelânea de utopias disformes e contraditórias. Nada no sistema solar lhe parece. Salvador Chuva de derrubar cacau. O sol de inverno tá barril.  Venha!  Semiescondido como o perro de Goya macambúzio búzio na areia lambido pelas carícias de Iemanjá sonha com Iansã, Ogum ou Xangô Não quer a mãe Oxalá, outra qualidade de amor.  

Inesperado

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À distância, parecia um saco plástico, lixo urbano que insiste em parar no chão pela falta de consciência dos citadinos. A cada deslocamento de ar produzido pelos carros, o objeto rodopiava, evoluindo em piruetas pelas faixas de rolamento do Eixão, convite à distração ao volante. Quando meu carro se aproximou da cena, a surpresa: um balão. Um pequeno balão azul, metáfora da Terra eternizada por Guilherme Arantes. Momento poético ao meio-dia. “An unexpected bonus" na rotina. A audaz bexiga seguia estoica a missão de atravessar a rua sem perder a vida, aliás, a sua leveza de bailarina aérea. Vrum, vrum, os carros passavam e o meu desacelerou ao máximo para conferir o espetáculo gratuito. Segui o papo de anjo, só podia mesmo ter caído do céu de tão azul que era. Pelo retrovisor, testemunhei que alcançou, inteiro, o outro lado da perigosa rodovia que corta o avião de norte a sul. Deve estar descansando sobre a grama do canteiro, ainda verde e convidativa. Sonhos diáfanos até a próxi...

Nefologia

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Enquanto o urubu esquenta suas asas ao sol é sexta. Saberá do melhor dia da semana ao, com malemolência, se exibir no alto do poste alas abertas flanco exposto sempre nos melhores postos de observação? Ciente ele estará da podridão do mundo ao ser exímio lixeiro das carniças animais? O urubu sente o calor da manhã indiferente ao clamor dos sentimentos humanos esses seres que chafurdam nas próprias misérias e os consideram um bicho agourento. Se a ele coubesse tais contradições daria de asas e seguiria abaixo da altostratus   entre térmicas a evoluir sobre a ignorância da espécie autoproclamada sapiens. Asas são riscos palavras no céu. Cruzam as folhas sem pauta  das nuvens preto voo A leveza toma o coração na esquadra de biguás, na arruaça das araras na elegância das garças helvéticas ideogramas suaves. Caligrafia imaculada. Prefiro céu com nuvens. Cores absolutas não dão trégua A imperfeição apazigua, o tom estourado não. Os alvos flocos desiguais dão margem a releitur...

Antes que janeiro termine

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Pare, olhe, escute. como se esperasse o trem. Desligue o motor do carro, da mente,  do celular. Aguarde.  Ouça o deslize das nuvens.  Precisa silêncio de peso para notar a leveza. Stop como os americanos para não levar multa.  Pise no freio e mire lentamente para os lados, para o alto, para além.  Suspire.  Não corra. Não morra antes de viver.  algo incomoda. um cílio na retina pedrisco no sapato. Incomoda a janela daquela casa  sempre fechada. o silêncio do abandono. a loucura do incompreendido.  Algo. A indefinição incomoda.  Um não sei quê um trem sem Minas uma coisa um enrosco sufoco inominável pagão sem certidão incomoda. Alguma falta nenhuma presença entre um vão e um degrau Incomoda a inércia. A letárgica agonia incomoda o pleno nada a vida plana insidiosa  insossa vaga acomodada incomoda. Entrei numa de Vanessa da Mata: tomei um banho de chuva, aliás, um temporal de verão. No início rola um certo desconforto, o frio dos pr...

Saturno

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O tempo singra e sangra perene, implacável. Torniquetes lhe fazem cócegas. Injeções de botox lhe paralisam em pequenas doses, mas as rachaduras do rosto e da alma seguem o caminho inexorável de suas próprias trajetórias. Pulmão, pintura em tela de Malu Engel Chuva após longa estiagem lente de aumento da limpidez sobre uma obra danificada. As tempestades, estilete na mão de uma restauradora habilidosa da tela-vida resgata a natureza combalida. O que estava escurecido e manchado pela fuligem das queimadas,  camadas de poeira dura,  deserto craquelado  é lavado com o poderoso solvente das lágrimas celestes. Opaco dá lugar ao brilho das cores orgânicas.  A obra de arte planetária recupera a vivacidade  respira. A humanidade rebrota Renascença. Seres obscuros, nas gretas, grotas,  de costas a esconder a dignidade perdida na vida de rua, de viadutos impuros casulos de papelão andrajos do caos solidão de marquise concreta iniquidade na cidade indiferente. Desenh...

Agostinas

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Corrente correnteza Nadar contra ou seguir o fluxo? As correntes costumam lhe prender ou lhe enfeitar? Você, elo mais fraco ou fecho resistente:  não larga mão dos seus devaneios, dos afetos? Nem sempre resistir é sinônimo de coragem. Deixa fluir, diluir os atritos  flutue às margens. Mergulhar até engolir água está no cerne do que autentica (ponto crucial, inegociável). Quero distinção na multidão (alergia ao senso comum) Percebi que não é preciso a rrebentar-se contra os paredões para ser quem sou. Em Brasília, 10%. Copo quase vazio, fastio.  Estertores de agosto,  gosto de pó na boca. Cheiro de queimada? Presente.  Coruja buraqueira busca sombra;  calangos se escondem nas úmidas  frestas das pedras candangos bufam. Beber três litros d'água é de lei se o vivente não for besta. Trabalhar com revisão de decisões judiciais no geral é o mais do mesmo. São tantos os temas objetos de litígio repetidos e repetitivos que bocejar é preciso. Em breve, uma IA e...

Acomodação das placas tectônicas

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A pessoa que visita cemitério e igreja de cada cidadezinha que vai. São Benedito, rogai por mim e pelo amigo de vida que sofre com moléstias malvadas. Entrei na simplória nave, onde três senhoras rezavam os mistérios (As três graças do Brasil, as três Marias, as três irmãs…) “Para alcançar as dádivas divinas não é preciso igreja cheia”, disse a mais velhinha. Eu acredito.  (A pessoa sem fé que se comove com a crença alheia). De repente saiu de mim o creio em Deus pai todo poderoso e completo, como decorado para fazer a primeira comunhão aos dez anos de idade. Estava lá dentro, guardadinho para a ocasião precisa e de precisão. Meus olhos marejaram, a ladainha me acalentava. Um sol morno de inverno adentrou pela porta, límpido. Milagre foi meu coração não ter parado de bater, fulminado pelo Altíssimo.  (A escadaria era de fato bem íngreme) Plano sem piloto Perdi o costume de cruzar as asas em quatro rodas. Que trânsito. A cidade lotou, virou um cargueiro. Não mais plana como o ...

Livro de horas

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Gosto do que a casa tem de imperfeita. A deterioração do tempo nas lascas dos tijolos, o trabalho de mãos que ergueram suas paredes tortas, manifestado. Trancas que mal fecham os basculantes de ferro. Telhas que guardam cicatrizes de secas e de tempestades. Gosto do que há de carcomido no chão. Teias de aranha que aqui também fazem morada. Plantas desabrocham dos rejuntes e árvores sólidas, fincadas nas profundezas das eras. Gosto do que a casa tem de casa dos desenhos de casinhas. Do que ela tem de ruína. Reminiscências, fantasmas, quinquilharias. Casa que não esconde a idade, cem por cento pessoal cheia de personalidade. Uma casa de verdades. Diversificar as chances de ser feliz é a melhor estratégia. Como já dizia nosso amado guru Guimarães Rosa: felicidade a gente encontra é em horinhas de descuido. Brasília tem inúmeros defeitos, sem dúvida, mas o Plano Piloto é um parque urbano belíssimo. Um privilégio viver rodeado por árvores de várias espécies, aves, mamíferos de pequeno por...