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Mostrando postagens de abril, 2026

Caminho interior

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Cheiro de mato intocado vem com o vento embaralha-se ao sonho da noite minha mãe sorri com dentes cavalares  o possessivo nunca é tão forte quanto o dela: minha. A arcada da filha comprova o laço indissolúvel da genética entre soluços e fantasmas.  No comum  o que nos assemelha  antes daquilo que nos afasta  Das personas-muro, cansada. Procura-se pessoas-ponte convivência  Após o dia, vem a noite ciclos vem o outono após o verão  repetição  Do universo ao humano tudo se recolhe e se expande consciência  Fragilidades como alavancas caminho interior Dar a mão às sombras e conduzi-las à luz.  Preparou o almoço acompanhada de música e de sombras. Quedaram-se as pontas dos dedos amareladas de curry .

Pois, pois

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"Eu te amo calado, como quem ouve uma sinfonia, de silêncios e de luz." (Lulu Santos) Os sons clássicos retornam. Reverberam pelas paredes porosas de tijolinhos cansados. Já faz um tempo que o rapaz decidiu se expressar por acordes e compassos. Impenetrável a olho nu. As palavras da sua boca saem escassas, monossilábicas. Paradoxalmente, sua música é prolixa. Preciso encontrar o caminho das pautas e dos semitons para alcançá-lo neste novo estágio imaterial. Meu peito em clave de dor ainda se ressente da saudade daquela criança solar que causava tumulto com a sua agitação. Que nos desafiava com suas perguntas mirabolantes e inteligentes. Que sorria facilmente, um sorriso lindo. Sei que soa monocórdica essa melodia de māe em desnorteio. Estou a absorver esta nova realidade abstrata e sutil. Contentar-me com um convívio minimalista e a ouvir as notas de amor sublimadas entre um movimento e outro desta composição: lento, andante, allegro ma non tanto . Filho, pois, pois, é uma pe...

Ordens de grandeza

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  Das pessoas que amamos não permanecem apenas os grandes gestos e os momentos marcantes.  As prosaicas ações latejam na memória e reacendem as fagulhas da saudade. Entre os guardados de vovó Paula, três relógios de punho quebrados de algum modo. O mais bonito, dourado envelhecido pelo tempo, me cativou à primeira vista. Parecia muito antigo. A Paula universitária teria desfilado pelos corredores com o adorno? Teria comprado com o seu primeiro salário? Seria presente do noivo inglês? Ou do marido piauiense? Nunca saberei. Nunca a vi com ele, esquecido na gaveta dos anos. Cyma é a marca do objeto que tenho nas mãos, tampouco conhecia a tradicional relojoaria suíça, fundada em 1862 pelos irmãos Joseph e Theodore Schwob na cidade de Jura. Cismei em saber se tinha conserto. Levei a um relojoeiro no Conjunto Nacional que me pareceu confiável. Senti que ele ficou comovido e desafiado pelo bibelô. Tentou salvar o sistema de corda, mas não deu certo. Os minutos insistiam em atrasar. ...