Delicadezas e silêncios
A escritora norte-americana Katie Kitamura afirmou, numa entrevista publicada em 19/7 no O Globo, que “vivemos tempos de carência de sutileza”.
Sem dúvida, os tempos são brutos. Tudo é explícito ao nível do pornográfico nestas redes sociais. Ostentação e superficialidade agressivas.
As pessoas perderam o pudor de se mostrarem rudes, mal-educadas. A empatia saiu de cena.
Em contraste com este comportamento árido, temos os gatos. Conviver com eles me dá a oportunidade de aprender com o minimalismo. Eu, tāo barroca, afeita ao exagero, preciso me conter para que eles se sintam à vontade, para que se aproximem.
Gatos não curtem movimentos bruscos, barulhos, excessos. São seres comedidos por natureza. Preferem contatos lânguidos e lacônicos. Grandes mestres do etéreo, da leveza e do toque sutil.
Eles se aconchegam com precisão em nossos corpos. Não invadem o espaço de ninguém. Tateiam e preparam o terreno antes de pedir passagem.
Aos humanos resta entender que a liberdade é irrestrita nos afetos, mas relativa no convívio social. A vida em comunidade precisa de delicadeza e de silêncios.
Se você não é nativo do Cerrado nativo, não cresceu explorando grotas, formando trieiros no meio do mato, não pegou carrapato na seca, não colheu pequi do chão, não tomou banho de córrego gelado, capaz que você nunca tenha ouvido falar.
Ou se ouviu falar não conhece o gosto. Nunca catou, nem sequer reconhece o pé, que na verdade é um arbusto de beira de estrada de terra, de picada no meio da savana brasileira. Porque é uma planta discreta, porte modesto, suas moitas raramente ultrapassam um metro de altura.
Sabicea brasiliensis é o nome científico desta preciosidade, popularmente conhecida como Sangue-de-Cristo, uma das alcunhas populares mais poderosas da nossa flora, e descreve a cor viva e profunda de seus pequenos frutos, que brotam como gotas de vida sobre a paisagem.
Aliás, pequenos não, o Sangue-de-Cristo chega a ser diminuto. É preciso colher quase todos os cachinhos para a gente saciar a vontade de mastigá-lo.
Encontrar um pé coalhadinho no meio da caminhada é uma alegria infantil, pois na infância reside as memórias de explorações poeirentas. O pouco sumo quase azedo refrescando a garganta rascante na aridez de julhos e agostos no planalto central
Tem sabor selvagem, para dizer o mínimo. É peculiar e para você, na qualidade de ignorante da existência de tal iguaria, talvez não entenda para quê tanta folia em torno de uma coisinha dessas tão ínfima, uma das muitas pragas que o Cerrado abriga.
Até hoje, nada para mim tinha gosto similar ao do Sangue-de-Cristo. Mas descobri que você não precisa mais ficar com inveja dos matutos sortudos que cresceram nas roças de Goiás. A tal blueberry, mirtilo, se assemelha bastante ao nosso frutinho vermelho-vivo de paladar exótico. Com a vantagem de ser bem maior e a desvantagem de custar bem mais.
Daí, me pergunto: por que não domesticamos o Sangue-de-Cristo e passamos a vendê-lo em bandejas nos supermercados? Creio que faria sucesso. Ou será apenas a minha lembrança afetiva que lhe dá tanto valor?
De todo modo, fica a dica para a Embrapa. ;)
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E o bacupari?
ResponderExcluirMuito lindo, Lu ! A idade para mim trouxe a necessidade de menos estridência . Não dou conta de tantos estímulos para processar .
ResponderExcluirEstridência do sentido de exagero de tudo ...
Karla Liparizzi
Amo seus escritos poeticos, que perfeitamente representam nossos sentimentos 🥰
ResponderExcluirAmo esse jeito silencioso e sutil dos gatos , e sua maneira de quase “pedir” licença pra se chegar, eles são muito sábios…não conheço esse fruto, vou prová-lo..:muito legal te ler….quando vc demora sinto falta 🤗
ResponderExcluirCynthia🌸🥰