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Delicadezas e silêncios

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A escritora norte-americana Katie Kitamura afirmou, numa entrevista publicada em 19/7 no O Globo, que “vivemos tempos de carência de sutileza”. Sem dúvida, os tempos são brutos. Tudo é explícito ao nível do pornográfico nestas redes sociais. Ostentação e superficialidade agressivas. As pessoas perderam o pudor de se mostrarem rudes, mal-educadas. A empatia saiu de cena. Em contraste com este comportamento árido, temos os gatos. Conviver com eles me dá a oportunidade de aprender com o minimalismo. Eu, tāo barroca, afeita ao exagero, preciso me conter para que eles se sintam à vontade, para que se aproximem. Gatos não curtem movimentos bruscos, barulhos, excessos. São seres comedidos por natureza. Preferem contatos lânguidos e lacônicos. Grandes mestres do etéreo, da leveza e do toque sutil. Eles se aconchegam com precisão em nossos corpos. Não invadem o espaço de ninguém. Tateiam e preparam o terreno antes de pedir passagem. Aos humanos resta entender que a liberdade é irrestrita nos af...

Verão Pluviométrico

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Lírica, sem pressa a garoa umedece a rua Lenta maestosa  sutileza da natureza. Olhares trocam notas jocosos, fios de cabelo desafinam nos andantes rápidos, expressivos. Nada ordinária fina e gélida chuva rara. Noite em que o céu canta pianíssimo. O vazio do ninho na casa de um músico é duplamente desabitado. Pois a música, em si, é outro corpo, mais material do que o próprio instrumentista. O som do instrumento ocupa todos os espaços, reverbera em todas as paredes, entra involuntariamente pelos ouvidos de quem ali está. É uma presença sólida, maciça, quase uma personificação. É impossível ignorar sua estatura. Espectros dos grandes mestres vêm abençoar as mãos do jovem artista, que perpetua as lições centenárias. Muita energia, vários fantasmas povoam os ambientes, auras melodiosas. E quando o músico não está em exaustivos estudos, lava a louça ou toma banho ouvindo suas escolhas: Bach, Beethoven, Rachmaninoff, Mozart, Egar. Até à piscina não falta uma cantata ou ópera. Palestrin...

Nefologia

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Enquanto o urubu esquenta suas asas ao sol é sexta. Saberá do melhor dia da semana ao, com malemolência, se exibir no alto do poste alas abertas flanco exposto sempre nos melhores postos de observação? Ciente ele estará da podridão do mundo ao ser exímio lixeiro das carniças animais? O urubu sente o calor da manhã indiferente ao clamor dos sentimentos humanos esses seres que chafurdam nas próprias misérias e os consideram um bicho agourento. Se a ele coubesse tais contradições daria de asas e seguiria abaixo da altostratus   entre térmicas a evoluir sobre a ignorância da espécie autoproclamada sapiens. Asas são riscos palavras no céu. Cruzam as folhas sem pauta  das nuvens preto voo A leveza toma o coração na esquadra de biguás, na arruaça das araras na elegância das garças helvéticas ideogramas suaves. Caligrafia imaculada. Prefiro céu com nuvens. Cores absolutas não dão trégua A imperfeição apazigua, o tom estourado não. Os alvos flocos desiguais dão margem a releitur...

Saturno

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O tempo singra e sangra perene, implacável. Torniquetes lhe fazem cócegas. Injeções de botox lhe paralisam em pequenas doses, mas as rachaduras do rosto e da alma seguem o caminho inexorável de suas próprias trajetórias. Pulmão, pintura em tela de Malu Engel Chuva após longa estiagem lente de aumento da limpidez sobre uma obra danificada. As tempestades, estilete na mão de uma restauradora habilidosa da tela-vida resgata a natureza combalida. O que estava escurecido e manchado pela fuligem das queimadas,  camadas de poeira dura,  deserto craquelado  é lavado com o poderoso solvente das lágrimas celestes. Opaco dá lugar ao brilho das cores orgânicas.  A obra de arte planetária recupera a vivacidade  respira. A humanidade rebrota Renascença. Seres obscuros, nas gretas, grotas,  de costas a esconder a dignidade perdida na vida de rua, de viadutos impuros casulos de papelão andrajos do caos solidão de marquise concreta iniquidade na cidade indiferente. Desenh...

Dos reinos vegetal e animal

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Esse negócio de coabitar o recinto dos felinos não está dando certo, não.  Sinto preguiça, uma languidez fenomenal. Os bocejos são muitos, a sonolência, infernal.  Fico pelos cantos, imóvel, estátua sem pedestal.  Semicerro meus olhos, num estado animal.  Penso apenas em me jogar no sofá, na cama, na grama... Horas sem nada a fazer além das folhas da aroeira ver.  Sozinha estar, apreciar o pouco falar. Tenho comido pequenas porções as unhas enormes, de leões.  Serão os gatos feiticeiras transmutando a embusteira?  Dizem as más línguas: gato chega a matar gente! Pois minha humanidade se esvai felinamente. Daqui a pouco abandono os óculos, ganho olhar de lince.  E quando o corpo saltar sem peso não mais me reconheço.  Na dúvida, fotografe todos os pés de nuvem, de algodão doce ternura de noivas na passarela da nave cabelos das avós que não conheci. Tudo dentro da normalidade sem gracinha. Só as flores jamais são sem gracinha na impertinência ...

Deliberare

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Passava em frente ao Mercado das Flores no ápice da tarde seca quando uma coroa moribunda cruzou o meu caminho... Nasce-se e morre-se nos dias quentes. Ambas as urgências independem da temperatura lá fora. Ambos os movimentos vêm de dentro.  Penso que a morte no dia quente torna a vida de quem fica ainda mais dilacerante. As flores murcham no velório escaldante. Camisas se mancham de suor. Lágrimas mornas chamuscam as faces. É desconfortável abraçar demoradamente num dia quente e tudo o que necessitamos na partida de quem amamos é um gesto de carinho autêntico, desbragado.  Um cemitério árido, implacável, mata um pouco os que seguem na vida. Nascer num dia quente, por sua vez, é duplamente alvissareiro. Tudo o que se quer é um lugar fresquinho para se aconchegar. O hospital, de repente, torna-se este espaço de acolhimento de alegrias, com suas salas frias. Ninguém se importa com a impessoalidade das paredes brancas, com os longos corredores de portas para o abismo, pois os ...

Agostinas

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Corrente correnteza Nadar contra ou seguir o fluxo? As correntes costumam lhe prender ou lhe enfeitar? Você, elo mais fraco ou fecho resistente:  não larga mão dos seus devaneios, dos afetos? Nem sempre resistir é sinônimo de coragem. Deixa fluir, diluir os atritos  flutue às margens. Mergulhar até engolir água está no cerne do que autentica (ponto crucial, inegociável). Quero distinção na multidão (alergia ao senso comum) Percebi que não é preciso a rrebentar-se contra os paredões para ser quem sou. Em Brasília, 10%. Copo quase vazio, fastio.  Estertores de agosto,  gosto de pó na boca. Cheiro de queimada? Presente.  Coruja buraqueira busca sombra;  calangos se escondem nas úmidas  frestas das pedras candangos bufam. Beber três litros d'água é de lei se o vivente não for besta. Trabalhar com revisão de decisões judiciais no geral é o mais do mesmo. São tantos os temas objetos de litígio repetidos e repetitivos que bocejar é preciso. Em breve, uma IA e...

Ser&Estar

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Por onde passo trespassa o olhar. Felicidade da fruta paga o pedágio das sementes, cascas e caroços. Sol nos ossos, mesa posta É domingo. Galhos tentam alcançar balões azuis de céu, brigadeiros e papagaios. Gatos buscam afagos. A solidão do cachorro encarcerado não atravessa despercebida a manhã florida a desarmar os niilistas. Pesadelos são presentes que agarro de manhã: me mostram  o que jamais imaginaria (Sofia Mariutti) Voltei a sonhar. Para quem dorme bem, não é digno de nota, mas para mim, é um lindo retorno ao mundo de Jung. Sei que todos nós sonhamos, só não nos lembramos deles muitas vezes. Fazia um bom tempo que minhas noites eram um céu sem estrelas porque o Patz apaga a gente e, ao que parece, também apaga as memórias a longo prazo. De acordo com recentes estudos, a medicação pode influir em casos de demência precoce. Por isso, era urgente que eu mudasse de estratégia. Cheguei à conclusão de que insônia é uma doença crônica como hipertensão e diabetes. Já tentei de tu...

Livro de horas

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Gosto do que a casa tem de imperfeita. A deterioração do tempo nas lascas dos tijolos, o trabalho de mãos que ergueram suas paredes tortas, manifestado. Trancas que mal fecham os basculantes de ferro. Telhas que guardam cicatrizes de secas e de tempestades. Gosto do que há de carcomido no chão. Teias de aranha que aqui também fazem morada. Plantas desabrocham dos rejuntes e árvores sólidas, fincadas nas profundezas das eras. Gosto do que a casa tem de casa dos desenhos de casinhas. Do que ela tem de ruína. Reminiscências, fantasmas, quinquilharias. Casa que não esconde a idade, cem por cento pessoal cheia de personalidade. Uma casa de verdades. Diversificar as chances de ser feliz é a melhor estratégia. Como já dizia nosso amado guru Guimarães Rosa: felicidade a gente encontra é em horinhas de descuido. Brasília tem inúmeros defeitos, sem dúvida, mas o Plano Piloto é um parque urbano belíssimo. Um privilégio viver rodeado por árvores de várias espécies, aves, mamíferos de pequeno por...