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Delicadezas e silêncios

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A escritora norte-americana Katie Kitamura afirmou, numa entrevista publicada em 19/7 no O Globo, que “vivemos tempos de carência de sutileza”. Sem dúvida, os tempos são brutos. Tudo é explícito ao nível do pornográfico nestas redes sociais. Ostentação e superficialidade agressivas. As pessoas perderam o pudor de se mostrarem rudes, mal-educadas. A empatia saiu de cena. Em contraste com este comportamento árido, temos os gatos. Conviver com eles me dá a oportunidade de aprender com o minimalismo. Eu, tāo barroca, afeita ao exagero, preciso me conter para que eles se sintam à vontade, para que se aproximem. Gatos não curtem movimentos bruscos, barulhos, excessos. São seres comedidos por natureza. Preferem contatos lânguidos e lacônicos. Grandes mestres do etéreo, da leveza e do toque sutil. Eles se aconchegam com precisão em nossos corpos. Não invadem o espaço de ninguém. Tateiam e preparam o terreno antes de pedir passagem. Aos humanos resta entender que a liberdade é irrestrita nos af...

Caminho interior

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Cheiro de mato intocado vem com o vento embaralha-se ao sonho da noite minha mãe sorri com dentes cavalares  o possessivo nunca é tão forte quanto o dela: minha. A arcada da filha comprova o laço indissolúvel da genética entre soluços e fantasmas.  No comum  o que nos assemelha  antes daquilo que nos afasta  Das personas-muro, cansada. Procura-se pessoas-ponte convivência  Após o dia, vem a noite ciclos vem o outono após o verão  repetição  Do universo ao humano tudo se recolhe e se expande consciência  Fragilidades como alavancas caminho interior Dar a mão às sombras e conduzi-las à luz.  Preparou o almoço acompanhada de música e de sombras. Quedaram-se as pontas dos dedos amareladas de curry .

Pois, pois

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"Eu te amo calado, como quem ouve uma sinfonia, de silêncios e de luz." (Lulu Santos) Os sons clássicos retornam. Reverberam pelas paredes porosas de tijolinhos cansados. Já faz um tempo que o rapaz decidiu se expressar por acordes e compassos. Impenetrável a olho nu. As palavras da sua boca saem escassas, monossilábicas. Paradoxalmente, sua música é prolixa. Preciso encontrar o caminho das pautas e dos semitons para alcançá-lo neste novo estágio imaterial. Meu peito em clave de dor ainda se ressente da saudade daquela criança solar que causava tumulto com a sua agitação. Que nos desafiava com suas perguntas mirabolantes e inteligentes. Que sorria facilmente, um sorriso lindo. Sei que soa monocórdica essa melodia de māe em desnorteio. Estou a absorver esta nova realidade abstrata e sutil. Contentar-me com um convívio minimalista e a ouvir as notas de amor sublimadas entre um movimento e outro desta composição: lento, andante, allegro ma non tanto . Filho, pois, pois, é uma pe...

Ordens de grandeza

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  Das pessoas que amamos não permanecem apenas os grandes gestos e os momentos marcantes.  As prosaicas ações latejam na memória e reacendem as fagulhas da saudade. Entre os guardados de vovó Paula, três relógios de punho quebrados de algum modo. O mais bonito, dourado envelhecido pelo tempo, me cativou à primeira vista. Parecia muito antigo. A Paula universitária teria desfilado pelos corredores com o adorno? Teria comprado com o seu primeiro salário? Seria presente do noivo inglês? Ou do marido piauiense? Nunca saberei. Nunca a vi com ele, esquecido na gaveta dos anos. Cyma é a marca do objeto que tenho nas mãos, tampouco conhecia a tradicional relojoaria suíça, fundada em 1862 pelos irmãos Joseph e Theodore Schwob na cidade de Jura. Cismei em saber se tinha conserto. Levei a um relojoeiro no Conjunto Nacional que me pareceu confiável. Senti que ele ficou comovido e desafiado pelo bibelô. Tentou salvar o sistema de corda, mas não deu certo. Os minutos insistiam em atrasar. ...

Ser&Estar

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Por onde passo trespassa o olhar. Felicidade da fruta paga o pedágio das sementes, cascas e caroços. Sol nos ossos, mesa posta É domingo. Galhos tentam alcançar balões azuis de céu, brigadeiros e papagaios. Gatos buscam afagos. A solidão do cachorro encarcerado não atravessa despercebida a manhã florida a desarmar os niilistas. Pesadelos são presentes que agarro de manhã: me mostram  o que jamais imaginaria (Sofia Mariutti) Voltei a sonhar. Para quem dorme bem, não é digno de nota, mas para mim, é um lindo retorno ao mundo de Jung. Sei que todos nós sonhamos, só não nos lembramos deles muitas vezes. Fazia um bom tempo que minhas noites eram um céu sem estrelas porque o Patz apaga a gente e, ao que parece, também apaga as memórias a longo prazo. De acordo com recentes estudos, a medicação pode influir em casos de demência precoce. Por isso, era urgente que eu mudasse de estratégia. Cheguei à conclusão de que insônia é uma doença crônica como hipertensão e diabetes. Já tentei de tu...

Atenta aos sinais

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Vazio ou Saudade? Sempre as dualidades. Não à toa Cecília Meireles escreveu um de seus poemas mais célebres exatamente sobre esse eterno dilema humano: “Ou isto ou aquilo?” Lembrei de Rômulo perguntando "mamãe, de que o Exupéry gostava mais: escrever ou pilotar aviões?" As crianças e sua maneira dual de entender o mundo. Seus “pretos nos brancos” a colocar em xeque as nossas estruturas. Pois então, entre vazio e saudade, sem dúvida a saudade me faz mais companhia. Mas não pensem que foi simples chegar a esta revelação. Mais de ano na análise e o papo com uma amiga de longa data me descortinaram da névoa que levou metade do que vivi para se dissipar. Agora, aos 54, enfim compreendi. Posso discernir a diferença entre vazio e saudade e não misturar os sentimentos que um e outra proporcionam. É como se eu tivesse feito uma cirurgia de catarata e voltasse a enxergar limpidamente. Clarear me deixou mais leve. Me tirou toneladas de dejetos do peito. Assunto recorrente na terapia era...

Na península

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Céu eletrificado choques esparsos ao toque pontiagudo das estrelas. A casa é lugar de um sem fim de seres visíveis microscópicos metafísicos (almas roubadas das rosas) O grilo não se cansa de seu canto. Os gatos se enrodilham nos mesmos cantos. Os artigos são definidos, não definitivos. Noite, tempestade de aranhas no vácuo. Foi na pandemia que a urgência de morar numa casa se tornou mais forte, como para milhares de outras pessoas. Mas o desejo já existia, sem dúvida. Entretanto, a localização e o conforto do apartamento não podiam ser desprezados. Os meninos iam para todos os lados a pé, de bike, bus ou metrô: escola, Clube de Vizinhança, esportes, amigos. O tentáculo mãetorista foi pouco acionado, ufa. Eu também fazia muita coisa pé. Morar numa superquadra idealizada por Lúcio Costa é um baita privilégio. O confinamento imposto, todavia, me deixou totalmente extenuada das paredes do terceiro andar. Insisti tanto que compramos um terreno no bairro Park (a)Way. Este pedacinho de ter...

Intercursos

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  Cansada das minhas limitações. Você também, eu sei. Na caminhada de ontem, a música que abria a playlist Release Radar , do Spotify se chamava “Demoro a dormir”, do rapper Djonga, com participação especial do Milton Nascimento. Nunca ouvira antes. O legal destas listas aleatórias - pero no mucho - do aplicativo é justamente lhe obrigar a escutar algo que de outro modo você jamais selecionaria. Não curto muito rap e afins, apesar de alguns serem ótimos como este. Mas a voz do Bituca, a princípio, é quase irreconhecível. É um esgar, um fiapo. Comoveu por tudo o que ele representa para a minha vida e para a MPB. Abaixo de um sol impertinente, quis chorar. Aliás, voltei aos níveis de choro de uma boa pisciana descompensada. Tudo me leva às lágrimas ultimamente. Porém, segui firme nas passadas e resolvi prestar atenção na letra, poderosa, idealista, fodida mesmo. O choro virou revolução mental. Digo tudo isso porque na noite anterior, sábado, tinha conferido um pocket show com um...

Que o próximo ano não te cancele!

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Adoro o barulho dos pneus espalhando água da chuva. Isto quer dizer que o dia está denso e cinza-reflexivo. Como você pode estar de bom humor numa manhã chuvosa como essa? Estou. A chuva me fecunda. Dias londrinos me dão uma leveza diametralmente oposta ao peso das nuvens no céu.  Natal tem de ser assim: branco. A autora da frase é Claudia, a amiga do mercado comum europeu. Ela não gosta de inverno (um paradoxo para uma austríaca), mas admite que Natal tem de ter neve. É verdade. No caso do Brasil, no mínimo, tem de ter gris-pluviométrico. Família reunida ao redor da mesa trocando presentes combina com noites aconchegantes de inverno. O verão pede festa com amigos no meio da rua. É duro comer tanto pernil, peru e farofa suando em bicas.  Bem que a gente podia ter um mês de frio. Só um mês bem frio, para casacos até os tornozelos e cachecóis. O equilíbrio no mundo poderia existir ao menos no clima. Acontece que com o termostato planetário cada dia mais azuretado, babau. Fico f...

Achados amarelados

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“É preciso continuar escrevendo. Inclusive quando não interessa a ninguém.” (Ágota Kristóf, escritora suíça-húngara) Banguela Quando as crianças me olharam nos olhos, era o mesmo momento do vento provocando a inércia das árvores. O sorriso banguela da menina ao balanço claro, aberto… como o céu de um azul azulíssimo! Abracei, pois, a ideia outonal. Voei e caí, madura sobre a grama. Plágio Você não alimenta as minhas fantasias. Eu, louca, louca, escrevo. O que não projeto em palavras, copio de Adélia, de Quintana, de Clarice. Mas você não me entende. Não chega com o seu cavalo branco. Talvez delire demais. Ou seja mulher, o que torna tudo diferente. O que faço com a parafernália de computadores neste corre-engole de fumaça tediosa, de praças imundas e de pessoas sofrendo?  Palavras insípidas não convencem, tampouco tranquilizam. Umbilical Olhava para a sua pupila com insistência. Queria arrancar algum sentimento meu  que pudesse ela guardar. Nada encontrei além daqueles olhos...