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Posto que é chama...

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Para Bernardo Mello A vida é a noiva do Frankenstein. Combina coisas e pessoas desconjuntadas num mesmo tempo-espaço. Um prato de self-service no qual você mistura fricassé de frango com salada de berinjela. A eterna insistência de unir o que é desunido por natureza. Murro em ponta de faca. Água mole em pedra dura. A vida só é possível reinventada. Cabal. Entretanto, viver se desenrola pelas reticências até o ponto final. Um e-mail sem descrição do assunto. Um assunto sem o conteúdo da mensagem. Rotina espantosa. Sustos previsíveis. Opostos que se atraem para se repelirem com aversão após o décimo desencontro. Para morrer basta estar vivo. Mas como quantificar o basta: bastante, apenas o suficiente? Vegetais também são seres vivos. Micro-organismos existem, tal qual moscas e ratos. Todos vivinhos da Silva. Pior, barata. Lépida, até avoa. Viver é muito perigoso: dá ideias, ganas. A vida é sertão árido que abriga o oásis para quem tem sede de cruzá-lo. É densa floresta onde se perde o en...

Bolero ao meio-dia

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Estacionei o carro nas vagas enfileiradas do bloco de apartamentos. Como uma pontada, veio a imagem de minha mãe parando o carrinho prata dela no mesmo local, sempre animada para ver a filha e os netos. Fechei os olhos e lembrei imediatamente de um poema escrito na juventude. Não era para a minha mãe, claro, os amores juvenis são tão passionais. Mas hoje passa a ser. Sentimento de orfandade também é visceral. É nas segundas que sinto saudade de ti. Na preparação do jantar sozinha, mastigando pensamentos confusos na cozinha fria e bagunçada. É quando entro em meu quarto que sinto saudade de ti. Arrumando roupas espalhadas como as tuas que também já estiveram assim, tantas... Nua na cama sinto saudade de ti. Na doce preguiça de não ler, não escrever ou na poesia que finjo te dar. É quando consulto minha agenda e repito os pequenos rituais da vida que sinto saudade de ti. E quando estou cansada, à beira do precipício, também sinto saudade de ti. Porque acompanhar teus gestos distraídos ac...

Senti(n)do

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Música para os ouvidos é o shhhzzz do pneu no asfalto molhado. A onomatopeia invade a manhã mais clara do que o sol, cansado de sua onipresença. Luz gris da primavera flores se mostram em relevo sobre o cinza ainda invernal. Caules caiados despontam como mãos em prece. Folhas se alongam debaixo da ducha de chuva. Ecoam as árias-pássaras de gargantilhas límpidas. O canto é um cristal. A natureza toda se banha de transparência. Venta suave e úmido. Septos nasais e pulmões absorvem a prenhez primaveril: abastecem-se de estupor juvenil. O frescor atinge níveis moleculares. Renovação de votos: (tudo o que desejares).

Extremófilos

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O breu da chuva é a única escuridão bem-vinda no Planalto Central, morada de seres extremófilos*, fustigados pelos limites da aridez quase caatinga. O som do trovão não amedronta. Soa melodioso aos ouvidos sedentos. As folhas se voltam para o alto. Nosso coração está no céu que desabafa choro copioso, guardado tanto tempo no peito das nuvens, antes pálidas e reprimidas. Agora, densas e coradas de tempestade. É um marco, um acontecimento, uma mudança de estado físico: do pó à lama.  Relampeja. Apenas os cães se escondem debaixo das camas ou das mesas. Os demais rejubilam-se: aleluia! Por suposto, a chuvarada atrai também um câmbio do estado de alma: da avareza para a abundância. Dos humores ressequidos aos sorrisos de estamparia, aos suspiros aliviados. Uns vão se entediar daqui a pouco com a temporada tempestiva. Outros vão sair cantarolando, dando a máscara à tapa. Com o cheiro de terra molhada, retorna um sentimento familiar. Os ciclos naturais se repetem, mas quanto a nós, serem...

Escrutínio

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"A arte de perder não é nenhum mistério; Tantas coisas contêm em si o acidente De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente. A arte de perder não é nenhum mistério"... (Elizabeth Bishop) Sentaram-se frente a frente, olho no olho. Cara limpa, sem máscaras de ambas as partes. A proximidade era menor do que os dois metros recomendados. Sentada, uma tinha a altura da outra, de pé. Foi nesse momento que se perceberam em profunda intimidade. Iniciou-se um escrutínio mútuo. A que sentou carregava um sorvete. Fazia muito calor. A manhã havia sido de dores de cabeça, problemas internéticos. Ela merecia aquela travessura: duas bolas na casquinha. A que estava de pé, estoica, observava a outra a se deleitar com a estripulia cremosa. A língua sorvia o frio e a doçura. Lábios e olhos se fechavam na sincronia do desejo satisfeito. Sentiu inveja daquela mulher sentada à distância de um toque, porém inatin...

Transeuntes

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A calçada ali na frente é um recorte colorido e barulhento da cidade. Microcosmo em atividade quase incessante. Breves pausas noturnas, entre as horas mais quentes. No mais, pulsa o ritmo da rotina em passos esportivos, de scarpins, chinelos.  Rodas da bike transportam ganha-pão ou só diversão. Lamento de bebês nos carrinhos vigiados por pais zelosos, babás cansadas; pais cansados, babás jovens. Há os que caminham sozinhos, o grupo de amigos, casais hetero e homo. Duplas femininas e masculinas. Sombras e sóis, chuvas e saruês. Vai e vem de velhos, de moradores de rua, de transeuntes perdidos de si mesmos. Alguns ouvem música, uns ouvem os pássaros. O ruído dos carros e das motos é constante, assim como dos latidos dos cães de variados tipos e tamanhos. Há noites invadidas pelo ressoar de cascos no concreto. Algazarra infantil dos dias de abril tem também. Às vezes passa o maluco da quadra a gritar impropérios. Noutras tardes, o clarinetista de Pã. Sirenes de ambulâncias e da políci...

Namoradeira

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Ando com um delay de datas, como se já não me importasse em ser precisa, em demarcar o tempo de calendário. Distingo claro e escuro, lua e sol, sete horas de trabalho e as demais de pouco sossego. Mas conto os minutos para ver a chuva de novo. Todo ano a resistência e a resiliência do existir calango-candango no pó de quatro meses sem uma gota do céu. Água, só das lágrimas. Soube que foi celebrado o dia do cerrado dia desses. Taí, não se ama o cerrado do dia para a noite. Ao menos não foi assim comigo. Precisei curtir o afeto em barril de baru, pequi e gueroba por secas e por trovoadas, secas e trovoadas até que fosse capaz de entender tamanho sofrimento do homem e das árvores contorcionistas. Braços-galhos a suplicar pela compreensão de tão dramática e tortuosa trajetória-convivência. De alguns verões para cá, passei a enxergar beleza contida na feiúra. Porque amar a florada do ipê não é digno de nota. Reparar no carmim da calliandra é de lei. Evoluí ao verso de Adélia Prado: "qu...