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Kintsugi(s)

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Os livros têm uma história além da história que contém. Objetos detentores de sua própria narrativa. Personagens que descrevem caminhos percorridos alhures, de mãos em mãos (afetuosas?); de olhar em olhar. Trajetos que às vezes perdem o registro do princípio. Qual primeiro contato terão estabelecido? De que cidade empreenderam suas jornadas pelo mundo? Por que partiram? Como chegaram até aqui? As folhas amareladas se desprendem. Lombadas carcomidas pelo cansaço dos anos, pelo esforço de abrirem-se ao escrutínio alheio, pedem gentileza. Já passaram da casa dos 50 e a existência deixou marcas indeléveis do percurso. Certamente não foi suave. Os livros podem sofrer de maus-tratos, de indiferença, de solidão. Buscam uma estante segura para manter a dignidade e a memória imortalizadas. Eles não diferem de nós. Baça, a lua me saúda enfadada da obsessão humana por sua figura. A aparição se deu na noite do meu aniversário. Sedento e faminto, um tanto esquálido, um fantasma com chiado dramáti...

Kairós

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  Santo Volpi Rabiolas  bandeirolas céu junino Santo Antônio mais Jesus menino você mais eu amor a pino radiola no forró.  Cinodontes “temos os cavalos no corpo não: somos os cavalos os músculos e não só” (Ana Estarregui) O susto na manhã é o som das solas sobre as folhas secas. O carrinho de bebê passa e o bebê ri do cão que ladra daqui pra lá a chamar outro de sua espécie não se desconhecem. “Kairós e não Kronos” Tempo assimétrico imensurável pelas expectativas inevitáveis. Flores brancas alcançam as nuvens cabelos brancos dançam ao rumor da seiva. (Ainda) somos cinodontes estágios iniciais da compreensão. 

Absurdada

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Ó céus... Percebi, pela recepção da história do álbum de fotografias resgatado do esquecimento, que vocês gostam quando eu me meto em histórias amalucadas, né? Eu também, hehehe. Mas preciso dizer que neste mês de junho já cheguei ao meu limite, sabe? Tô quase concordando com a frase da poeta Elisa Lucinda: pare de falar mal da rotina. No sábado, o reaparecimento do álbum, na terça seguinte, estacionando o carro, sou abordada por um jovem comum (não tinha cara de adventista do sétimo dia, não era mórmon, aliás, cadê esse povo? Batendo ponto no Congresso?), o rapaz se dirige a minha existência lúdica e laica e pergunta: “posso orar por você hoje?” Juro que me senti ofendida.  Se estivéssemos num Brasil anterior a Bolsonaroland, ao PL-1904, à eleição de Damares Alves como senadora pelo Distrito Federal e da Bia Kicis como deputada federal, talvez eu me sentisse apenas surpresa. But… Esta galera fundamentalista está ultrapassando todos os limites de qualquer razoabilidade. Tive vont...

Entranhas

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O mundo anda muito pesado. De todo modo, há belezas!  O gurizinho que joga bola com o seu cão na manhã de maio, sem dúvida não há cena mais bonita hoje. Peraí, há controvérsias. Duas velhotas a caminhar, no amparo do cuidado mútuo: poema sobre afetos irretocável.  Falando nelas, as poesias, tão vastas em temas, são sublimes.  As árvores no processo de amarelecimento, unguentos.   O enorme panda se rotaciona em cambalhotas marotas a troco de quê? Prazer.  Nuvens esparsas,  adesivadas no fundo azul por uma mão sensível,  brilham. A brisa outonal cantarola cirandas, convite ao devaneio. Bancos ao relento cobertos por folhas desapegadas,  flores caídas na calçada.  As cordas da harpa dedilhadas pela fada.  Bálsamo é a serenidade matinal corriqueira para quem está de bobeira.  Uma mulher da rua, com um véu branco a descer pelo seu corpo:  nossa senhora dos mendigos.  A quase certeza de Deus.  Catarina  a menina...

Gigante gentil

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Um piano bem tocado é imbatível. Engraçado ter me vindo à cabeça exatamente este adjetivo, uma vez que não se bate num piano nem com uma flor. Quanto mais belamente acionadas as teclas, mais suave é, ainda que a composição exija vigor e rapidez estonteantes para mãos que parecem agir independentemente dos braços. Mãos autônomas como a Mãozinha da Família Addams (usei essa analogia antes, mas Renato Russo me absolve). Pois ontem foi uma noite sublime. A sala de teatro da Poupex é o que de melhor temos em Brasília no momento que parece infinito, quando o Teatro Nacional Cláudio Santoro segue agonizando em Eixo Monumental público. Som muito bom, cadeiras confortáveis, iluminação acolhedora, acústica idem, estacionamento amplo. Espaço perfeito para abrigar óperas, concertos, recitais e outras apresentações mais intimistas, apesar de não ser pequeno, muito pelo contrário. O único senão é ficar distante das paradas de ônibus e das estações de metrô. A plateia também estava de parabéns. Pou...

Mixórdia (mamãe falava michórnia e eu achava lindo)

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Do sul, onde faz divisa com o estado da Bahia, ao norte, que deságua no mar de Luís Correia, fizemos 1.100 km. Só de Piauí. Caraúbas Caxingó Piracuruca Campo Maior Piripiri Buriti dos Melos Canto dos Buritis Esperantina… Nomes que afagam. Haja vastidão neste país. O Piauí ele próprio uma nação de belezas ímpares e de cultura singular. Paredões paleolíticos, rupestres pinturas compartilham a ancestralidade com o novos modelos de agronegócio. Escassos agora são os jegues cor de asfalto. Todavia, segue abundante por aqui a intensidade de sabores, de afetos, de calor do sol e das pessoas. Aliás, tudo o que não falta nessas léguas longínquas é sol, sol, sol. Energia solar para clarear as insondáveis escuridões. O sertão, buraco amarelo. Bem pontuou a amiga Karla ao ver as fotos que tirei: "o Sol aí parece maior". À beira-mar, as varandas das redes bailam sob a regência eólica possante, incessante. Ipês, caneleiros, mutambas, angicos, sapucaranas se irmanam à caatinga. Carnaúbas ca...

Presentim de Natal

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"Disfarço de excesso tudo que me falta" (Fabiana Motta) Menina que junta os retalhos da paternidade perdida antes da linguagem, qualquer fiapo serve de alinhavo para a fabricação das memórias tão caras e tão fartas a tantos. Imagino se não é por isso que escrevo em desmedida, para compensar o que me foi negado pela ausência de palavras, de convívio com uma mãe antes da viuvez, com irmãos ainda em tenra idade, como uma família convencional, pois essa normalidade faz bem, torna o caminho menos turvo. A prima Tiana, belo apelido para a neta batizada com o nome da avó Sebastiana, também morta antes do seu nascimento, antes do meu e de todos os netos, há muito queria me contar uma lembrança. Eis que o tempo se configurou para ser agora, nas nossas meia-idades. “Prima, seu pai colocou todo mundo na kombi, a gente ia para Trindade, a tia Maria grávida de você, com um barrigão já. Ele colocava a gente pra cantar, tio Rondon gostava de cantar. A música era uma tal de Pena Verde, “pena...

Arrastão

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Canção de ninar À cama, tamborila o travesseiro imitando as batidas do coração captadas pelo ouvido esquerdo. O corpo em posição fetal. Recordou a infância dividindo o dossel com a amiga. Naquelas noites de confidências, as tramas da feminilidade eram urdidas.   A amiga ninava a si mesma com um embalinho suave. À época, achava o ritual engraçado, mania estranha. Não imaginava que suas futuras madrugadas seriam insones. Que necessitaria de tantos artifícios para aplacar seu espírito sonâmbulo, as almas penadas de estimação. O colchão é pequeno para tanta resistência.  Rimas pobres Alva alma Sabores amores Étnico ético Fricção ficção. Orquestras eteceteras. Noite notes anotes as estrelas restantes. Autofricção Ontem conversávamos sobre o ato de chorar ou de não chorar.  Vontade de chorar, chorar demais, por qualquer coisinha. Chorar de menos, precisar chorar. No quesito choro, Cat Stevens/Yosuf é fatal. Ouço e choro.  Lágrimas quentes perpassam o rosto, deságuam n...