Kintsugi(s)
Os livros têm uma história além da história que contém. Objetos detentores de sua própria narrativa. Personagens que descrevem caminhos percorridos alhures, de mãos em mãos (afetuosas?); de olhar em olhar. Trajetos que às vezes perdem o registro do princípio. Qual primeiro contato terão estabelecido? De que cidade empreenderam suas jornadas pelo mundo? Por que partiram? Como chegaram até aqui? As folhas amareladas se desprendem. Lombadas carcomidas pelo cansaço dos anos, pelo esforço de abrirem-se ao escrutínio alheio, pedem gentileza. Já passaram da casa dos 50 e a existência deixou marcas indeléveis do percurso. Certamente não foi suave. Os livros podem sofrer de maus-tratos, de indiferença, de solidão. Buscam uma estante segura para manter a dignidade e a memória imortalizadas. Eles não diferem de nós. Baça, a lua me saúda enfadada da obsessão humana por sua figura. A aparição se deu na noite do meu aniversário. Sedento e faminto, um tanto esquálido, um fantasma com chiado dramáti...