Ordens de grandeza

 Das pessoas que amamos não permanecem apenas os grandes gestos e os momentos marcantes. As prosaicas ações latejam na memória e reacendem as fagulhas da saudade.


Entre os guardados de vovó Paula, três relógios de punho quebrados de algum modo. O mais bonito, dourado envelhecido pelo tempo, me cativou à primeira vista.
Parecia muito antigo. A Paula universitária teria desfilado pelos corredores com o adorno? Teria comprado com o seu primeiro salário? Seria presente do noivo inglês? Ou do marido piauiense?
Nunca saberei. Nunca a vi com ele, esquecido na gaveta dos anos.
Cyma é a marca do objeto que tenho nas mãos, tampouco conhecia a tradicional relojoaria suíça, fundada em 1862 pelos irmãos Joseph e Theodore Schwob na cidade de Jura.
Cismei em saber se tinha conserto. Levei a um relojoeiro no Conjunto Nacional que me pareceu confiável. Senti que ele ficou comovido e desafiado pelo bibelô. Tentou salvar o sistema de corda, mas não deu certo. Os minutos insistiam em atrasar.
Resolvemos substituir pela moderna bateria. Ressuscitou.
Feliz da vida eu e meu relógio de vovó até que ele caiu ao chão e os ponteiros perderam o juízo.
Fiquei com preguiça de voltar ao Conjunto Nacional, sempre uma chatice pegar aqueles elevadores.
Passei um dia em frente à relojoaria Dantas e resolvi entrar.
Havia me esquecido de como o proprietário era ranzinza. De cara falou que Cyma era uma marca vagabunda, que o serviço estava mal feito, que isso e que aquilo. Na vitrine um aviso impresso: não dê opinião. Que pachorra!
Afirmei que se tratava de valor sentimental e me calei.

- O marcador descolou, colei novamente, explicou em seu eterno mau humor.
 - Obrigada, quanto ficou?

Não cobrou. Entregou meu relógio como se fosse uma bugiganga qualquer. Incrível como alguém que atende clientes há tanto tempo seja completamente insensível.
De todo modo, fui para casa com o aparelho funcionando e assim ele está até hoje.
Não volto mais aos Dantas. E se quiserem ir a um especialista cordato, ele se chama Aécio e fica no sexto andar do Conjunto Nacional.


Manuel Bandeira

Para Claudia Jardim


O tatu-bola

me enrola 

não me dá bola 

O tamanduá-mirim

me esnoba

ai de mim

aqui 

na maior bandeira

pena que não me queira. 



As telas nos tiraram o céu.

É a impressão que me dá ao observar as pessoas ao ar livre.

A límpida e ampla manhã não atrai a atenção dos que estão sob o azul. O infinito não causa mais espanto. Sem exceção, todos abduzidos por seus celulares.

Certamente não há urgência ou relevância maior que a beleza daquele espetáculo natural e isto é o que é mais triste. Perdem o movimento das nuvens, o voo de pássaros diversos, o risco do avião, as fases da Lua e até o incensado pôr-do-sol, por bugigangas.

As redes sociais, o Zap são basicamente isso: miçangas, espelhinhos, bagatelas. Não passamos de novos indígenas ingênuos ludibriados pela nova forma de colonização.

Entregamos nossa capacidade de encantamento e de deleite com o entorno por memes num eterno looping de reprodutibilidade. 

Como repactuar nosso olhar com a profundidade lúdica da natureza se estamos quase que permanentemente absortos pela luz artificial? Tornamo-nos vulneráveis digitais, sujeitos ao vício, à superficialidade e ao imediatismo. 

No filme “Perfect Days”, do diretor Wim Wenders, a personagem principal mantém uma rotina espartana e estoica. 

Num primeiro momento, aquele homem aparenta ser monótono e solitário. Mas um dentre outros sinais é de grande prova de riqueza interior: todos os dias ele sai à porta de casa e, antes da jornada de trabalho, olha para o céu.

Eis algo que se perdeu em tanta gente. O universo digital passou a ser mais importante do que o universo astronômico. Se ao menos pudéssemos manter as ordens de grandeza nos seus devidos lugares, estaríamos a salvo da alienação. 

A recondução aos alumbramentos celestes é imperiosa. Alguns minutos como exercício diário do olhar. O espaço físico, real, é aliado do pensamento poético, recreacional, criativo, científico. É a nossa humanidade básica, imprescindível, que jamais deveria estar sendo trocada por ninharias virtuais.




 

Comentários

  1. ❤️❤️❤️❤️

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  2. Feeling good
    A última música tocada no filme Perfect Days me tocou, gosto na voz da Nina Simone.
    Entre o chão do agora e o céu… me trago presença, as telas nos abduz …
    Gostei de te ler , faz tempo que não faço. Amo o mundo interno, você consegue colocar em palavras , muito que permeia os dois… mundo interior e exterior.
    Viva
    Vida
    Beijo
    Lu
    Luz!

    Patrícia Delanny

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  3. Oi, Lu . Amei ! O texto do mundo virtual é excelente . Vou mandar para minhas filhas . Quem sabe acordam ...
    O véio Dantas deve ser depressivo não tratado kkk . Eu adoro olhar o mundo . Deve ser por isso que gosto dos seus textos 😁😁😁

    Karla Liparizzi

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  4. Adorei essa edição! A começar pelo título. Ordens de grandreza... eu devo falar essa expressão todos os dias. 😅 (De)formações que o ofício imprimem no nosso jeito de falar as coisas.

    O primeiro texto perpassa, com beleza e simplicidade, ou seja, elegância, fascinantes questões de sensibilidade humana - o valor sentimental e simbólico que as coisas antigas de família carregam, e a delicadeza, ou falta dela, nas relações humanas e seus desdobramentos. E que belíssima peça de relojoaria! Marca chic ou não, é lindo!

    O poema é mimoso! O tamanduá da foto é um dos que vimos no museu?

    O terceiro texto é muito perceptivo e verdadeiro! As analogias entre celulares e espelinhos e entre os respectivos portadores iludidos pela novidade é muito afiada! Adorei e compartilhei com o Francisco, adolescente que, aqui e ali, precisa ser lembrado que a tela é o novo espelinho!

    Mariana

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  5. Li o texto do relógio da sua vó👏👏👏
    Luciana querida: você é demais, além de uma escritora e tanto!
    Obrigado, por compartilhar 🤝🤝

    Expedito

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  6. Que texto maravilhoso, querida... realmente, como nos empobreceu o olhar, o tal do celular... amei o texto! Bjs!

    Angélica

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