Outubro Vermelho



Sempre gostei de bonecas
mas também fui sapeca
subia em árvore
caía de cavalo
explorava o mato
me banhava no regaço
fazia papel de professora
para a criançada
era quem maquinava
brincadeiras inventadas
No balanço da infância
penso que foi bem aproveitada.



"Posso, sem armas, revoltar-me?"
Sim, Drummond, você ficaria emocionado, enrubescido, orgulhoso de ver o mar de gente revoltada e desarmada pelo bem da democracia que tomou a capital do seu país. A rosa do povo é mesmo vermelha, amado poeta. E não é feia, é perfeita! E eu choro por você e por mim.



A pessoa na Asa Sul compromissada,
exausta, não pensava em passeata.
Mas pelo caminho tantas bandeiras hasteadas,
tanta gente jovem reunida na calçada
que, com roupa inapropriada,
ela parou no meio da Esplanada.



Ainda sobre o estupendo plot twist das eleições, alguns dados colhidos perto de mim que podem explicar o efeito formiguinha que foi elevando o volume de votos de Lula na reta final. Uma das tias paternas dos meus primos maternos, com 80 anos, não votava há mais de uma década. Disse que não fazia diferença votar ou não. Passei os dias em Inhumas tentando convencê-la do contrário e ela cética. Já na minha despedida, eu falei: vai votar, tia! É só fazer 13 pirilim, pirilim! Ela sorriu e me pareceu mais mexida. No domingo, sua sobrinha-neta, de 22 anos, que também se deslocou para o interior para eleger Lula, me mandou uma mensagem dizendo que havia conseguido levar a tia-avó para votar. Chorei. Uma das minhas melhores amigas votou no pateta do Cury no primeiro turno, acreditando numa terceira via. No segundo turno, disse que iria anular porque não concordava com a política de Lula em relação a Israel (ela é judia). Não adiantava eu enviar argumentos de judeus pró-Lula etc. e tal. Então eu briguei feio com ela. Disse que estava desapontadíssima e que ela iria ajudar a fortalecer o neonazismo no país de seus filhos. Saí do nosso grupo de ZAP e tudo. Não é que deu certo? Votou em Lula pela democracia. Uma professora com quem conversei hoje, confessou que não votou no primeiro turno porque achava que Lula ganharia fácil. Sua zona eleitoral era longe da casa dela e ela ficou com preguiça. No segundo turno, claro, dirigiu de Valparaíso para Formosa e fez a sua parte. Meu sobrinho e afilhado gerencia uma pousada em Olhos d'água/GO e também acabou não votando no primeiro turno por causa de hóspedes no day-use. Disse que ficou com a consciência pesada e por isso fechou a pousada neste domingo. Perdeu dinheiro, mas apertou 13. O filho de uma amiga arrumou uma viagem para ela (bolsonarista), assim ela teve de justificar. Uma jornalista que conheço pagou uma passagem cara de última hora para o filho vir do Rio pra Brasília para que ele votasse. Um livreiro querido (60+) pegou um ônibus na véspera, daqui pra BH, para exercer sua cidadania. É assim como esses, certamente outras milhares de formigas somaram esforços inacreditáveis para salvar o Brasil dos neofascistas. Obrigada!



O corpo flutua no elemento água
No elemento ar o pássaro passa
vejo um morcego gigante
no claro do céu.
Albino e vaporoso ele se expande
até vir a ser plumas de asas angelicais
ou talvez o indefectível coração alado
do olhar treinado
para o cordiforme da natureza.
O azul estala
osso quebrado

dói como a distância dos mortos.



Lombrigas 

Tenho uma dor nas profundezas do glúteo esquerdo há algum tempo. Não sei como ou quando ele ficou magoado comigo. Vai e volta, o edema identificado numa ressonância resolve dar o ar de sua chateação. Hoje a PROFA fez uma mobilização no meu quadrado lombar, apertando com seus dedos fortes o tal do músculo Psoas (sempre achei esse nome pura diversão).

- O psoas é chatinho pacas. Dói, né? É uma tripinha que vai do quadril e pega toda a coluna. 
- Ah, entendi. Estou com problema com vermes, então, né? É dor no lumbrical da mão direita e agora na lombriga das nádegas. HAHAHA Só me resta tomar um vermífugo. 
- Boa, Anitta é uma opção. 
- Não sendo ivermectina, encaro. :)



Sempre gostei do Halloween ou do Dia das Bruxas, pois me amarro neste universo sobrenatural de terror. Mas não é por isso que eu vou fugir do Brasil e me autoproclamar Mortícia Addams (se bem que eu queria muito). Esta história patética e perigosa me lembrou a primeira vez que morei em NY. Me matriculei num curso de inglês para terceiro mundistas e outros marginalizados do planeta numa high school de White Plains (era gratuito e eu queria socializar). 

A teacher, Mrs. Smalls, era profundamente antipática. Antes da aula, exortava todos a se levantarem para fazer o juramento à bandeira norte-americana:

 "I pledge allegiance to the Flag of the United States of America, and to the Republic for which it stands, one Nation under God, indivisible, with liberty and justice for all." 

Obviamente eu me recusava. Me dava arrepios. Todo mundo levantava, os imigrantes todos. Eu estava em posição privilegiada, a minha situação era apenas de moradora temporária. Um dia ela veio me confrontar e eu disse exatamente que estava apenas de passagem, que era brasileira e que jamais juraria lealdade à bandeira de nenhum outro país. Pena que a extrema-direita o que mais quer na vida é se submeter aos ianques. Patriotas my ass!!!


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