Vou te contar alguns segredos


Coisas que aprendo com o meu jardim


  • A grandiosidade da natureza está nos detalhes.

  • A cada momento do dia as plantas mudam de lugar ainda que estejam em repouso. Ou seria o nosso olhar que capta o movimento sob a luz que muda?

  • As amoras se escondem entre as folhas, recatadas. A impressão é que não querem ser tocadas. A gente mira e não vê, mas dá um passo à frente ou outro atrás e elas se desnudam. Mágica.

  • Colher amores, ops, amoras, dá um comichão danado. Existe uma espécie de pó de pirlimpimpim nas folhas. Recomenda-se um banho após o processo.



  • Ainda no quesito amoras, encher um potinho pequeno delas é bem cansativo, sem falar que a frutinha é de uma sensibilidade atroz: morrem esmagadas ao primeiro toque, as puritanas vindas do hemisfério norte. Agora entendo o valor das danadas nas gôndolas.



  • Já as pitangas são despudoradas. Pequenas lanternas chinesas acesas. Mini pumpkins (porém comunistas) vermelho-alaranjadas brilhando entre os verdes. São rijas, aguentam o tranco porque são antes de tudo nordestinas acostumadas à aridez dos afetos. 

  • Clichê: pássaros de várias espécies aparecem para catar pitangas e amoras, um espaço democrático para grandes e pequenos. Outro dia um magnânimo tucano pousou no alto da pitangueira para desfrutar. Fez a festa de seu estômago e a do meu coração.

  • Saruês são de lei pelas redondezas. Incômodos à primeira vista, pois gostam da penumbra, ganham nosso acolhimento pela fofura dos filhotes. Eles também gostam de amoras.



  • Cigarras não são seres estáticos apenas nos troncos das árvores. No rés da grama também se quedam para o nosso assombro. Outro dia me aproximei de uma delas, crente que a horrenda criatura, só não mais asquerosa do que a barata, com o intuito da fotografia de seu cadáver. A bicha saiu num ímpeto de caça partindo de porta-aviões. Caí literalmente de bunda no chão, o grito de pavor ecoou pelo Lago Norte.

  • Os chorões assim são chamados porque realmente choram quilos de pequenas folhas por dia. Cry me a river everyday. Se você tem neura de limpeza, não tenha um, quanto mais dois, o meu caso. Com certeza você vai ganhar mais ordem na sua rotina. Entretanto perderá imensamente em poesia.    



  • Matinhos e praguinhas miles abundam entre as plantas de elite. Um jardim é também um reflexo da nossa sociedade desigual. 

  • Clichê: largar a tela virtual para rolar o feed natural é um bálsamo para retinas fatigadas e para almas alquebradas. Não há a mínima possibilidade de tédio e de ódio entre flores e folhas que vicejam únicas pelas horas encantadas.

  • Seco ou úmido. Vivo e morto. Um jardim é eternamente o mesmo e completamente outro.  







Tive de ir viver hoje. Foi difícil. Eu aqui, na minha Casa Grande, pensando na Senzala. Na Senzala de onde vieram meus ancestrais, provavelmente. Meu pai um cafuzo, minha avó uma preta pobre, abandonada pelo pai dos filhos. Rondon Herculano, este nome tão forte, foi mesmo um bravo. Passou fome, mas se formou em Direito pela Universidade Federal de Goiás (jamais teria conseguido se não fosse o ensino público), o primeiro da família dele. Arrastou os primos para a profissão. Alguns enriqueceram. Meu pai não chegou a enriquecer. Éramos sete filhos, minha mãe dona-de-casa com pouco estudo. Mas ele conseguiu nos deixar um teto e uma roça. Morreu cedo, aos 50 anos, de câncer.

Eu aqui na filosofia de botequim (sem beber, não sei se meu pai incutiu uma neura contra jogos e bebida na gente, pois vários irmãos e primos morreram devido ao alcoolismo), pensando nas motivações do povo brasileiro para ser fascista sem saber que é.

E elas são as mais rasteiras. As pessoas querem ser Vorcaro. O MEI sonha em ser um cara rico num piscar de olhos. Os brasileiros sonham em fazer justiça com as próprias mãos como milicianos. Então pensam coletivamente: meu pirão primeiro. Se minha família se safa está ótimo. É a autodestruição social. A família B é Hitler, Mussolini e Salazar à sua maneira. Autocracia teocrática. Inauguramos um subproduto, um chorume de sistema de governo.

Ética zero. Humilhar os outros, passar a perna, espancar, roubar, corromper. O lance é que o Brasileiro quer chegar lá e fazer o mesmo. Ele sente inveja dessa Casa Grande que se dá bem. Não temos senso de corresponsabilidade. Ainda estamos num primitivo “pega pra capar” após mais de 500 anos. Vamos todos nos ferrar de verde e amarelo, abraçando uma bandeira patética.

O brasileiro lascado que precisa do Estado vota para dizimá-lo só pela imbecilidade de achar que está mudando a realidade das coisas.

Os mais pobres e os mais ricos votam igualmente. Os extremos se assemelham, mas por razões diferentes. Os despossuídos creem que um dia serão ricos como seus eleitos. Os refestelados querem que os miseráveis sigam soterrados, nos trabalhos análogos à escrividão.

É a lógica da Casa Grande & Senzala que não nos abandona. Nosso maior passivo social foi a escravatura. Até hoje esta mentalidade, esta cultura define o Brasil.

A psique do brasileiro médio é a do capataz. Nunca será senhor de engenho, mas lhe é devoto e taca a porrada em quem está abaixo.

“De repente vendi meus filhos para uma família americana”... Caetano sempre atual.

Sim, estou desolada e amarga. Os mais jovens não têm a menor noção do que vou escrever agora: a Senzala contemporânea é a reedição da Lei de Gerson. Se você não sabe, pesquise aí. Não vou me entregar assim de bandeja também não.

* Imagem: única foto conhecida de Ana Lourenço, minha avó paterna.


Comentários

  1. Reflexões poéticas da beleza e equilíbrio da natureza, coisa linda!!!e o contraste, a constatação da realidade humana, muitas vezes ignorante e bizarra!!! arrghhhh
    Cynthia🌸

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  2. Equilibrar é tudo...
    Lulu, eu não tenho conseguido me refugiar na meditação. Vou pra música.
    A contemplação é um excelente caminho.

    Bianca Duqueviz

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  3. Belíssimas reflexões, com imagens que nos convidam a participar desse bate-papo profundo sobre a condição humana e nossa existência neste planeta. Você é uma excelente escritora. Sou sua fã. Abraços poéticos

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