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Dimensão assombrada

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Amanhece  o cobertor de nuvens ainda esquenta  as encostas.  Garças preguiçosas mantêm-se à distância da água fria. Parte das árvores, braços desnudos, clama piedade. Resoluto, São Pedro engole o choro até setembro. Fotografar a ausência  fantasmas sem lençóis  de fato incorpóreos indistinguíveis.   O vazio do não dito subentendido  oculto pelas eras do tempo.  Elementos imateriais indícios  refletem memórias  fragmentadas pelos lapsos da senilidade. Tomar decisões difíceis  procurar rastros, vestígios  símbolos que não estão mais lá.  O não óbvio entrando em foco. A natureza cobre, mas não apaga. Cinza e sangue na seiva das árvores.  A poeira das lembranças  arrastada pela brisa dimensão assombrada.  Falta. Qualquer detalhe que se vê no hoje  resguarda vínculo ancestral. Apelo visceral. Uma canção resgata a paixão mais leve que o ar queimadura de primeiro grau quase primeiro amor.  Deixou um ...

Kairós

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  Santo Volpi Rabiolas  bandeirolas céu junino Santo Antônio mais Jesus menino você mais eu amor a pino radiola no forró.  Cinodontes “temos os cavalos no corpo não: somos os cavalos os músculos e não só” (Ana Estarregui) O susto na manhã é o som das solas sobre as folhas secas. O carrinho de bebê passa e o bebê ri do cão que ladra daqui pra lá a chamar outro de sua espécie não se desconhecem. “Kairós e não Kronos” Tempo assimétrico imensurável pelas expectativas inevitáveis. Flores brancas alcançam as nuvens cabelos brancos dançam ao rumor da seiva. (Ainda) somos cinodontes estágios iniciais da compreensão. 

Absurdada

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Ó céus... Percebi, pela recepção da história do álbum de fotografias resgatado do esquecimento, que vocês gostam quando eu me meto em histórias amalucadas, né? Eu também, hehehe. Mas preciso dizer que neste mês de junho já cheguei ao meu limite, sabe? Tô quase concordando com a frase da poeta Elisa Lucinda: pare de falar mal da rotina. No sábado, o reaparecimento do álbum, na terça seguinte, estacionando o carro, sou abordada por um jovem comum (não tinha cara de adventista do sétimo dia, não era mórmon, aliás, cadê esse povo? Batendo ponto no Congresso?), o rapaz se dirige a minha existência lúdica e laica e pergunta: “posso orar por você hoje?” Juro que me senti ofendida.  Se estivéssemos num Brasil anterior a Bolsonaroland, ao PL-1904, à eleição de Damares Alves como senadora pelo Distrito Federal e da Bia Kicis como deputada federal, talvez eu me sentisse apenas surpresa. But… Esta galera fundamentalista está ultrapassando todos os limites de qualquer razoabilidade. Tive vont...

Coisas da vida

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Tem coisa que só acontece comigo. Afirmação carregada de estrelismo de uma ascendente em Leão. Reformulemos. Tem coisas que acontecem com muita gente, mas nem todas elas percebem a “graça gratuita das nuvens” nelas contidas. Não melhorou muito em arrogância. Hahaha. Acabei de ler a coluna da Bia Braune, na Folha de SP, e fiquei morrendo de inveja dela porque, além de escrever colunas para a Folha, ainda encontrou um caderno mágico de 1922, com memórias de uma tal Glorinha, na caçamba de entulhos na sua rua. Na caçamba da reforma da minha futura casa só encontro entulho mesmo. Sacos de cimento vazios, pedaços de tubulações, plásticos vários e galhos podados de um jardim confuso. A maioria destes resíduos são jogados ali pela pessoa aqui, inclusive, uma vez que os pedreiros parecem não ligar para a bagunça ao redor. Vão deixando o rastro de destruição se acumular, o que para mim, detentora de um certo TOC, causa agonia exasperante. Mas, deixemos os pedregulhos e falemos de fatos intrigan...

Lampejos

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Por que as bombas de chocolate são sempre decoradas com uma clave de Sol? Fui atrás do significado de éclair, antes de disso, lembrei que éclair poderia vir de fecho-éclair, então teria a ver com fecho, chave, em francês. Daí a clave (chave) de Sol. Acontece que fermeture éclair, literalmente, significa fechamento-relâmpago. Surgiu no século XIX para botas e rápido substituiu os milhões de botões das roupas. Ou seja, éclair é na verdade um raio, um corisco. O docinho tradicional da pâtisserie da França recebeu este nome porque seria uma explosão de sabor ao entrar em contato com paladares sortudos. O que nos leva ao bom nome no Brasil: bomba. No entanto, não explica a preferência decorativa pela clave de Sol.   "O equacionar do Sol entre as cortinas,   calculado em sombra e luz."                                         (Matheus Guménin) Não pertenço. Folha so...

Entranhas

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O mundo anda muito pesado. De todo modo, há belezas!  O gurizinho que joga bola com o seu cão na manhã de maio, sem dúvida não há cena mais bonita hoje. Peraí, há controvérsias. Duas velhotas a caminhar, no amparo do cuidado mútuo: poema sobre afetos irretocável.  Falando nelas, as poesias, tão vastas em temas, são sublimes.  As árvores no processo de amarelecimento, unguentos.   O enorme panda se rotaciona em cambalhotas marotas a troco de quê? Prazer.  Nuvens esparsas,  adesivadas no fundo azul por uma mão sensível,  brilham. A brisa outonal cantarola cirandas, convite ao devaneio. Bancos ao relento cobertos por folhas desapegadas,  flores caídas na calçada.  As cordas da harpa dedilhadas pela fada.  Bálsamo é a serenidade matinal corriqueira para quem está de bobeira.  Uma mulher da rua, com um véu branco a descer pelo seu corpo:  nossa senhora dos mendigos.  A quase certeza de Deus.  Catarina  a menina...

Cerratenses

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  Espécie pioneira e perenifólia capaz de suportar sombreamento mediano. a aroeira salsa é altamente tolerante à seca, resiste às geadas e apresenta boa capacidade de regeneração natural. Floresce de agosto a novembro, e a maturação dos frutos ocorre entre dezembro e janeiro, permanecendo na árvore até março.  A casa das novas janelas trapezoidais, a vila italiana, a casa infinito. A casa da progressão geométrica 2, 4, 8 ou  dos múltiplos de dois ou do teclado matricial (matriarcal) 2x4=8.  A casa das pitangas, de um a dupla de aroeiras salsas, do pau-brasil e das arecas. A casa dos tijolinhos ( white brick road ), do ipê também branco, da luz oblíqua.  A casa dos papeis de parede “trazidos da Índia”  e das igualmente falsas, porém bonitas, cerâmicas hidráulicas. A casa da Nossa Senhora de Fátima e  do jardim mágico do castelo da Bela Adormecida. A casa da escada em caracol, do gazebo realocado. A casa da profusão de espadas de São Jorge (muito bem g...