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A culpa é do mapa astral

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Passei o fim de semana a-r-ra-sa-da. O adjetivo venerado pelos piscianos (ou seria pelos leoninos?). Whatever, pois para uma pisciana de juba e para as formigas, “a rosa é um lindo palácio e o espinho uma espada fina”. O motivo de tamanha tristeza adveio de haver procurado minha piranha (acessório capilar, gente. Não tenho peixes de estimação). Tinha certeza de que ela jazia dentro da grande bolsa, todavia - barbaridade! - estava enganada. Ó céus, a temida situação se confirmava: perdera a minha piranhinha amada. A melhor que tive em décadas de piranhagem. Preta, fosca, firme. Capaz de segurar o volume de cabelos que ameaçou rarear com a menopausa, mas segue caudaloso como as cataratas do Iguaçu (exagerada também é um adjetivo que se aplica aos piscianos de juba). Desolada quedei-me. Nunca mais encontraria outra igual. Talvez fosse um sinal para cortar a cabeleira que já passa dos ombros. Ocorre que eu gostei tanto da trança da Diane Lane no filme “Let him go”... Tipo assim: até ...

Assim na terra como no céu

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O tamanho da lua cheia prenhe de luz e de assombro ocupava todo a largura do eixo monumental. Ela própria um monumento ao mistério da vida das barrigudas. Parir é divinal: Até na Finlândia mulheres e bebês morrem no parto. O filho gêmeo dos ricos também perece. Viver é muito perigoso, diz o mestre. Na hora da estreia, torna-se estrela:  na terra ou no céu.

Para Lygia

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meus contrários e eu objetos abjetos. No escuro me clareio e visto do avesso a alma sobre o corpo. À luz do dia ela se revela. Tímida, se contrai, contrariada. Exposta se apossa do passo se acomoda no incômodo das suas contradições, costuras em evidência, saliências.  Ninguém nota  a alma dela, aberta,  amornando-se,  harmonizando-se, ao primeiro sol da manhã. "Eu tenho vocação para a alegria, mas é uma vocação mal cumprida". (Lygia Fagundes Telles e eu)

Reverência

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  Para mamãe, na antevéspera do 12º aniversário de sua partida Das pessoas que amamos não permanecem apenas os grandes gestos e os momentos marcantes. As prosaicas ações latejam na memória e reacendem as fagulhas da saudade, ao remexer no baú empoeirado de cartas, cartões e declarações de amor. Em meio às dezenas de agendas/diários; centenas de bilhetes em guardanapos, folhas de caderno arrancadas com segredos e até telegramas de um passado que parece irreal, dou de cara com o boletim do terceiro ano do primeiro grau da aluna do 3ºB, do turno vespertino do Instituto de Educaçāo Integral (Inei), o ponto fora da curva da minha vida escolar, quase exclusivamente transcorrida no Colégio Notre Dame. É um boletim bonito, repleto de notas SS (aproveitamento superior). Naquela época, a sigla não remetia os alunos aos horrores da Alemanha nazista, muito pelo contrário. Era o sonho da turma tirar SS em todas as matérias ou, no máximo, MS (aproveitamento médio superior). Confesso que escrever...

Criação

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A spalla grávida  empina a barriga pipa.  Marca o compasso,  saltita no espaço.  O bebê evolui ao som  dos instrumentos. Flutua e rodopia na fluidez amniótica  da composição. Os minúsculos tímpanos lá de dentro, percutem no ritmo do tímpano cá de fora. O acalanto emana das trompas de falópio  sopradas com esmero, logo atrás dos violinos. (será nina ou nino?)  Um bebê todo ouvidos: absoluto e imerso na música do corpo maternal  casulo-acústico-polifônico-allegro.    Adágio existencial.

Indômita

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Era uma vez um rincão escondido entre Brasília e Goiânia, fincado a 18 km de terra a partir da rodovia BR 0-60. Ali se chega com a poeira que deixa rastro na estrada da montanha-russa. Muitas porteiras a abrir. Um canto do mundo. Um pedaço de chão comprado por meu pai no interior de Goiás. Lá se vão mais de 50 anos que a Salta Pau faz parte da história da família grande. Sete irmãos criados a leite de vaca destas paragens. De onde se avista morros da idade da Terra e o vento frio abraça as madrugadas. Fazenda de cerrado forte. Noventa alqueires banhados pela formosura do rio Corumbá. Sítio de vizinhança alegre, antiga. Todos lá há tanto tempo que parecem ser desde o primeiro dia do homem nas entranhas da terra. Paraíso rústico no qual amigos se banham nas cachoeiras e as maritacas e seriemas atravessam os pastos por cima e por baixo, a galope. Ali se come em fogão à lenha original e o pôr-do-sol cai como uma lata de tinta alaranjada, atirada sobre a paisagem verde. O lugar foi rebatiza...

Lá e cá

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sem sinais vitais a janela exatamente retangular  presa exatamente a uma parede sem forma sempre cerrada. Mistério no espaço branco de sua moldura, lacrada. Ninguém grita lá dentro imóvel, socorro! À janela silenciosa não faz falta o ar da manhã que se renova. Existência sem reflexos. Escuridão refratária ao plexo solar. (Madri, março de 2002, inverno, da varanda do apê da amiga Kédyma, mas poderia ser agora em Mariupol/Ucrânia) de chico(s) Francisco francês livre papa  franciscano São de Assis Francisco velho Chico Buarque Goya Mendes Anísio ciscos alísios Chicão Franchico franco Chiquinho niño sobrinho neto filho filosofal atemporal primeira semana Estupendo é o dia na manhã que principia brilha o amarelo-sol, mas não queima. As nuvens no azul são chumaços de algodão esgarçados  pelos dedos de uma criança afoita. Embrião do outono que se forma.