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Sem legendas

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Pouso o queixo na gaveta aberta. Aspiro um cheiro inconfundível de ontem: mistura de pós, cremes e couro cabeludo. Um cheiro familiar, minha mãe ou minha madrinha, odor de velhice. Recuo assustada, aquela é a minha gaveta.  Hoje sou mais antiga do que ontem, não tem escapatória. Os sonhos me ajudam a escrever e a recontar a história. Num deles estou em Paris, jovem com cabelos chanel. No outro, vasculho o sótão da velha casa da fazenda... Quando sonho me sinto mais viva na manhã. Convulsionada de ideias forçando passagem em carta psicografada.  Talvez tenha sido a lua negra. A praça que é de guerra transformada em praia numa noite de domingo. Não sei se faço sentido, mas o onírico não necessita de legendas. Só quero reter comigo o céu negro, o barulhinho do pandeiro ali perto e a textura suave dos meus filhos que estavam de volta à minha barriga, apertando minhas costelas num incômodo gravado na memória de toda mulher que carrega a vida dentro de si.  ...

Independência no Brasil: um grito do Ipiranga e dezenas de batalhas

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Poucos brasileiros desconhecem a imagem portentosa de Dom Pedro I com a espada em riste vaticinando “Independência ou Morte!” reproduzida à exaustão nos livros didáticos de História. Trata-se de um recorte no gigantesco quadro do artista Pedro Américo que habita o Museu Paulista (antigo Museu do Ipiranga), em São Paulo, atualmente fechado para reformas e sem data para reabertura.  E assim como essa imagem é apenas um fragmento da obra de proporções intimidadoras, cercada de polémicas quanto à veracidade de suas informações*, também é distorcida e fragmentada a visão que o povo brasileiro construiu sobre o processo de Independência do Brasil ao longo dos anos.  A maioria dos brasileiros assimilou a narrativa de que nossa emancipação de Portugal se deu por meio de um parto natural tranquilo e rápido, quase indolor. Mas se aprofundarmos um pouco o olhar para os estudos mais verossímeis de importantes historiadores, começamos a pintar uma outra cena: a de uma inde...

Arte ao alcance de um clique

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Museu Casa Portinari Viajar sem sair do lugar; conhecer o mundo em um clique. Não, ainda não inventaram o tele transporte, mas ainda bem que existe a internet. E com ela, um sem fim de opções fascinantes para desbravar os ilimitados campos do saber. Um deles vem ganhando opções cada vez mais instigantes de navegação: o Museu Virtual.  O museu virtual ainda é novo na museologia, mas muitos o consideram bem mais que um site de museu. Trata-se de um espaço virtual de mediação e de relação do patrimônio com os visitantes. Ou seja, para ser um museu virtual não basta que imagens das obras de arte, devidamente catalogadas, estejam disponíveis para o acesso via internet. É necessário prever atividades nas quais o público possa interagir com estas referências patrimoniais. Sua função é paralela e complementar à do museu físico, pois privilegia a universalização do conhecimento de acervos, antes acessíveis somente em caráter presencial.  Os museus virtuais favorecem o...

Bichinha de Sustança

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Um bocadinho da vida e obra de uma cearense cabra da peste! “Na verdade, eu não gosto de escrever e se eu morrer agora, não vão encontrar nada inédito na minha casa”, dizia Raquel de Queiroz. Mas para quem “não gostava de escrever”, a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL) marcou gerações com obras fundamentais para a literatura nacional como “O Quinze”, “As Três Marias”, “Dôra, Doralina” e “Memorial de Maria Moura”.  Raquel de Queiroz nasceu em Fortaleza (CE) no dia 17 de novembro de 1910 em uma família de intelectuais. O pai era juiz de Direito e a mãe era parente do renomado escritor José de Alencar. Raquel tinha mais três irmãos e uma irmã e passou a infância no interior do estado, na fazenda “Não me deixes”, em Quixadá.  Em 1915, uma seca devastadora atinge o sertão e a família se muda para o Rio de Janeiro. Na adolescência, Raquel retorna para a sua cidade do coração e se forma professora ainda adolescente. N...

A alma do negócio

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O importante é nunca se esquecer do que é essencial. Eis a moral da história dessa nova versão cinematográfica de “O Pequeno Príncipe”. Mas fica a pergunta complicada: o que é essencial? A resposta pode representar exatamente o oposto, incluindo um sem fim de sentimentos e coisas.  Essencial é deveras abstrato, deveras pessoal. O filme tenta dizer que não. Que essencial é não se vender ao sistema capitalista voraz; não se esquecer da sua criança interior; não desdenhar os sonhos; não controlar a vida com mãos de ferro. Quem discorda? Ninguém, almeja meu eu utópico.  Mas fazendo uma filtragem menos óbvia, começa a confusão. O que é essencial para mim pode não ser para você. Onde estaria o essencial personalizado, o essencial “Itaú” - feito para você? Eis o pulo do gato.  Provavelmente para a mãe sentada na mesma fileira do que eu e que não largava o celular, o essencial estava muito longe dali e, talvez por isso, a filhota não parasse de falar tent...

Para todas as outras coisas existe Mastercard

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Ele está sentado ao meu lado, mas não está ali. Seus pensamentos focados na conversa com os os amigos no whatsapp ... Encaro e admiro o perfil do meu filho. Tão límpido; tão bonito. Ele sente a pressão dos meus olhos sobre ele:  - O que foi, mamãe?  - Tomás, Tomás...  - O quê?  - Você está crescendo. E eu não posso fazer nada além de me conformar...  Vida de pai e mãe: o conflito de preparar o solo para amadurecer uma alma que você quer que permaneça infantil. Não por superproteção, mas por super afeição. Daqui a pouco não poderei mais vê-lo pelado, beliscar seu bumbum ou fazer ataques de beijos no sofá.  Ontem foi ele quem me devolveu a chuva de beijinhos e quase me machuca com sua força, hoje mais perto da potência de um homem feito.  - Ei, assim não vale, você já está ficando muito mais forte do que eu!  Vai dormir e ainda responde “também te amo, mamãe, tenha sonhos coloridos”. Sabe-se lá até que mês....

Experimento

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O tédio como fonte criadora. Literalmente de papo pro ar, me deparo pela primeira vez com o texto, digo, o teto branco e suas rachaduras. O fluorescente das longas lâmpadas espirra sua cegueira, mas me recuso a atender aos apelos dele. E aí experimento digitar olhando para o texto, digo, teto. O supremo teste das aulas de datilografia: digitar com os dez dedos sem olhar para o teclado. É divertido, é antiAlzheimer. Daqui a pouco eu olho pra saber o quanto deu certo. Tem um buraco no texto (ato falho de novo), um buraco no teto! Um vão, uma calha pra dentro. Será que vai chover em mim ou vão cair folhas secas? Nessa época do ano em Brasília só folha seca mesmo. Volto a olhar para a tela: passei no teste! Alzheimer belamente digitada sem um errinho sequer olhando para o teto! Concluo que digito bem em qualquer posição. Se bem que ainda não testei usar o teclado e o kama sutra simultaneamente. Ainda dá tempo! Afinal, ralo no Pilates para quê? Faço as devidas correções e deito a...