Dezembro, enfim



Trem bão, coisinha pacífica é se embrenhar entre as colunas de livros. As lombadas variadas em cores e espessuras embaralham a vista. Tiro os óculos, não ajuda muito. Ler com o pescoço tombado para o lado pode dar torcicolo. Melhor é retirar da estante e dar trabalho para o funcionário depois. 

Os sebos da atualidade são lugares menos mofados. Há ainda os subsolos entulhados, mas agora é possível esquecer dos ponteiros, até sentar em poltronas com uma obra nas mãos como nas livrarias bacanas. 

Às vezes me sento no chão do corredor para garimpar as prateleiras mais baixas. 

Saio sempre com achados que serão presenteados com a oportunidade de viver em outra estante, minha ou de outrem, o fundamental é fazer a literatura arejar e reencontrar novos leitores.

Assim viajava em alegre sentimento, com minha sacolinha a tiracolo quando senti algo pesado e forte me jogando abruptamente para o lado. 

Era um carro em marcha ré saindo da vaga. Gritei. Culpa minha, cabecinha de marolas, pisciana desvairada. 

De repente a mulher ao chão na companhia de Bandeira, Hilst, Inês Pedrosa e Alice, não no País das Maravilhas, porém virando estatística no Brasil, o terceiro colocado mundial em mortes no trânsito.

O/a motorista, mais assustado/a do que eu, brecou em tempo de não me transformar em Macabéa. 

Dezembro caridoso fazendo das suas. 




“Equaciono quimeras”

(HH)

Ehud!

O quê?

Errrrudddd, estes nomes desérticos. 

Como obrigada a engolir areia e coordenar o grito. 

Hilda histriônica Hilst

hilstórias, prosa-torrente

🌙 fértil. 

De peixes prateados e baobás.

O pescador com a rede preta lança

a linguagem ao longe

e captura o não escrito, apenas dito.

Liberto pelo buraquinho minúsculo

da vulva-opérculo.




Aos domingos costumo caminhar energeticamente no Parque Vivencial à beira do Lago Paranoá na borda norte.
Hoje, com o tempo mais carrancudo, o trajeto estava deserto. Coloquei ainda mais energia, comecei a correr, pois o medo bateu. O velho e terrível medo que todas as mulheres brasileiras têm de sua vulnerabilidade numa sociedade machista, misógina e feminicida.
Não aguentamos mais ser caçadas, trucidadas por predadores que não vieram do espaço, muito pelo contrário. Eles geralmente frequentam nossos espaços mais íntimos: casa, família, escola, trabalho.
Saí do parque, voltei pelo asfalto, ao lado dos carros que zuniam. Outra vez tolhida em minha liberdade de ir e vir de onde eu bem entender.
Eis o que é ser mulher no Brasil. Dói e amedronta. Revolta. 
Basta.




Comentários

  1. Enfim, chegamos ao final de mais um ano🙏gratidão sempre será minha palavra de ordem, pois creio que tudo é benção, até o que nos chega como lição, rasteirinhas da vida…e espero que vc Lu, com sua escrita continue nos encantando, por isso a incluo na minha lista de “gratidões “
    Cynthia 🌹

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  2. Eita, Manalú!
    Nosso a Anjo da Guarda, tbm falha, cochila....
    Mais cuidado, mais atenção, irmã!!
    Bom texto, por sinal...

    Marilena Holanda

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  3. Lu do céu! Eu confesso que tambem atravesso a rua sem olhar muito os carros dando re! Muito perigoso! Que bom que foi só um susto!
    E quanto aos feminicidios, li uma verdade: preferem a gente morta a ver a gente livre. Nao mudou muito da idade média, ne?

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  4. Sobreviventes Lu, sorte e cuidado. Beijos e um final de ano tranquilo ( antes de mandar percebi que o corretor tinha trocado para trágico, socorro) 😘🌹🍀.

    Lolô

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  5. Que susto, Lu!!!! Muito lindo teu texto
    Muito, mesmo.

    Ana Tavares

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  6. Nossa fazia tanto tempo que não lia nada seu, estava com saudades. Muito bom, espero que não tenha acontecido nada com você, nem com o carro. Amo sebo.
    O outro texto, infelizmente não evoluímos muito nessa história de feminicidio.

    Renata Queiroz

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  7. Menina de deus! Que susto, ein!! Chegou a machucar??
    Ótimos textos! E intensos!!

    Mariana

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