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Passagem para Minas

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- Bão! - Bão! - Chuveu muito por lá? - Xi, intornô! Minas e sua prosa única, suas amabilidades e florezinhas nas montanhas. Quem conhece a região de carro, pousando aqui e acolá, compreende porque os maiores escritores brasileiros nasceram naquelas paragens. Drummond, Guimarães Rosa, Adélia Prado... Picos e vales que inspiram uma caminhada profunda rumo ao interior da alma.  A onipresença dos dormentes, estações e vagões pede para a gente parar, olhar e escutar tudo que ao redor está. Não me canso de conhecer os recantos mineiros e de apreciar sua gente brejeira, gentil, matuta e bem resolvida. Minas é um estado de espírito elevado, vamos combinar!  Até breve, assim seja!

Abram alas que Chiquinha Gonzaga quer passar!

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Na minissérie apresentada pela Rede Globo, que levou ao grande público a vida e obra dessa grande artista brasileira, coube à atriz Regina Duarte interpretar a personagem principal. Porém, não se surpreenda: Chiquinha Gonzaga era a terceira dos nove filhos de José Basileu Neves Gonzaga – militar - e Rosa de Lima Maria, filha alforriada de uma escrava mestiça. Portanto, Chiquinha também era negra.  Compositora, maestrina e pianista, Chiquinha Gonzaga é reconhecida hoje não só como um dos grandes nomes da música brasileira dos séculos XIX e XX, mas também como uma mulher marcante e atuante, que abriu caminhos e rompeu barreiras em diversos segmentos da sociedade patriarcal na qual viveu, tornando-se pioneira na defesa dos direitos autorais de músicos e autores teatrais.  Francisca Edwiges Neves Gonzaga nasceu em 17 de outubro de 1847, no Rio de Janeiro. A menina Chiquinha, como era comum à época, aprendeu as primeiras letras em casa. A educação musical fez parte...

Olho mágico

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A vida e seus singelos presentes. Brasília, cidade na qual os vizinhos quase sempre são estranhos que cruzam nossos caminhos entre a garagem e a porta do apartamento. No máximo um bom-dia, um como vai. Seres esvaziados de sentido comunitário. Pessoas que não acrescentam nada em nossas apressadas existências.  Mas por alguma obra fantástica do destino, eis que recebemos uma graça sem esforço, sem pagar promessa. E eu, que vivo querendo fazer roteiros de cinema da minha rotina, ganhei o argumento perfeito, daqueles de filmes saborosos e inspiradores: uma família queniana morando há poucos meses no sexto andar da nossa prumada.  Ah, quem me dera tivesse o talento para contar essa história que vem se desenrolando em forma de quitutes. Uma intensa troca de gentilezas alimentares que surpreende a cada toque da campainha em horários pouco usuais.  Primeiro foi o paizão, gigante negro com sorriso farto e voz de baixo. Jamal é o nome dele. Trouxe samosas ou ...

Alheamento

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A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei. Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexões com a realidade. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado. Sou fraco para elogios. Manoel de Barros Vocação para o detalhe não carrego. A precisão me enfada. Por isso tudo que faço é meio capenga, falhas daqui e dali. Não tenho paciência para recontagem, revisões, reescritas. Geralmente vou deitando sobre o papel as ideias, deixo vir sem nenhuma autocrítica. Releio, sim, é claro, mas em modo pente grosso. Não é pente de catar piolho, pois buscar a perfeição nunca me motivou.  Deve ser por isso que não sou boa cozinheira. Quem cozinha de verdade precisa de atenção. A meticulosidade de juntar as porções devidamente balanceadas. Vivo na ...

Tiros no coração

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Gatilhos, gatilhos, trigger: “recurso de programação executado sempre que o evento associado ocorrer”. Cérebro: computador “bugado”, como dizem meus filhos. Os atentados de Paris dispararam gatilhos de um estresse pós-traumático que tenho sem levar muito a sério. Aquelas imagens de velas acesas e empilhadas pelo chão; aquelas mensagens e flores pelos cantos... Isso tudo de novo nas manchetes me trouxe a depressão e ansiedade vividas em Nova Iorque após o 11 de setembro.  A maior parte das pessoas que me lê já está caduca de saber que eu estava em Manhattan no dia da queda traumática das Torres Gêmeas. Eu é que às vezes me esqueço de que não se experimenta um evento dessa proporção sem sequelas. Voltaram os arrepios pelo corpo, a descrença na humanidade, o pavor da Terceira Guerra mundial, o medo de nunca mais ver a minha mãe, vejam vocês. Minha mãe, que já está morta há cinco anos!  Mas foi essa a minha angústia maior quando vi o avião entrando na segunda to...

Frida, mas poderia ser Clarice

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Fui imune ao amor canino pela metade da vida (se levarmos em consideração que a vida começa aos 40). Talvez por ter crescido numa fazenda rodeada de animais de grande porte: vacas, touros, cavalos, mulas, onças pintadas das quais só vi pegadas; lobo-guarás aguardados, em vão, todas as noites...  Os cachorros, galinhas, gatos, patos, pintinhos e porcos eram triviais demais para mim. Eu queria os tatus furtivos; as cobras enigmáticas; as mariposas funestas e as corujas, ah, as corujas soberanas.  Quem sabe também os cães tenham sido associados à onipresença da irmã que sempre me rejeitou. Provavelmente projetei nos bichinhos a recusa daquela moça ciumenta e imatura que não soube se desapegar do posto de caçula.  Seja como for, passei décadas convivendo lado a lado com cadelas e cachorrinhos de vários tamanhos, raças e vira-latices sem lhes dar a menor pelota. Refratária aos seus olhinhos lânguidos e sorrisos, cheguei à maturidade. E na maturidade, vence...

Gratidão

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Céu fecundo, gris  Que trouxe o vento que confundiu meus olhos  E refez outros nós nos fios das teias, dos cabelos, das trepadeiras.  Os galhos acenam sim, com vigor  Solícitos acolhem o chamado verde  E se entregam lascivos aos carinhos das lufadas frias da chuva  Que traz o vento que confunde meus pensamentos  Devotos, servis, reverentes, clementes ao poder da natureza plúmbea.  Enganadores uivos que insinuam tempestades  Ainda as espero ávida, grávida do cheiro de terra molhada até o útero do planeta.  Para que não reste dúvida de quem reina no meu coração:  as gotas pesadas, lágrimas, da nublada paisagem.