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À procura da isenção

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Devia ser mais fácil para os pais de antigamente. Era só por filho no mundo, numa repetição histórica dos comportamentos esperados de homens e mulheres que vivem sob o mesmo teto e copulam com regularidade.  Eram filhos anuais, sem dores de consciência. Talvez apenas o tédio e o cansaço da mãe parideira que morria um pouco mais a cada parto. E o orgulho a mais do pai macho que emprenhava sua mulher sem piedade. Não havia preocupações extras a não ser educar pela vara, saciar a fome, repassar os bons modos e as velhas teorias e preconceitos.  OK, não queria ter nascido mulher nesta sociedade. Hoje, ao menos, os machismos excessivos são vistos com maus olhos e somos livres (?) para escolher quantos filhos ter, inclusive não ter nenhum. Não sem a condenação velada ou explícita de quem ainda respira as milenares engrenagens das regras pré-estabelecidas.  Mas também não queria ter todo esse discernimento acerca do poder de mãe para destruir o coração dos...

Vasta gratidão

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Viajar de carro como navegadora de araque é a oportunidade ideal para a germinação de textos maravilhosos. Isso se o caderninho de anotações estivesse à mão e não guardado na mala lá atrás. As paisagens brasileiras se sucedendo entre pastos e plantações. Tantas árvores fotografáveis com seus dramas pedindo clemência ao céu.  Gostaria de ter tempo ilimitado para parar a cada frame e registrar tudo o que meus olhos viram e que, você, que não viaja de carro, jamais verá. Seria a minha contribuição de beleza para a evolução da humanidade.  O fato é que viajar de carro ficou demodê. Um contrassenso se analisarmos que os automóveis hoje são muito mais confortáveis e velozes para singrar o continente Brasil do que eram na nossa infância sem cinto de segurança, sem air bag, GPS, Waze, freios ABS... Até as rodovias são melhores, acreditem. Boa parte duplicada, pedagiada e segura (a tarifa salgada de algumas delas tem de trazer benefícios, certo?).  Mas as fa...

Um viva para a extinção dos anos!

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"Vou enviar um anjo adiante de ti para te proteger no caminho."  (Êxodo 23,20) “Ai, Jesus, que esse ano não acaba...” diz a senhora ali do lado. Mas pra quê que a gente quer que acabe mesmo? Porque história boa é a que tem começo, meio e fim. É aquela na qual a gente compreende a moral e não fica com cara de pastel. Por isso filme francês às vezes é tão chato. E Ingmar Bergman, bem, melhor deixar pra lá.  Ninguém quer ano tipo Luis Buñuel, a vida presa num espaço-tempo por obra de um anjo exterminador que não permite que se saia da festa de gala na mansão. Já imaginou não conseguir findar um ano e recomeçar outro? A sociedade global, já tão truculenta, se tornaria completamente incivilizada, insuportável. Nossas máscaras pessoais desabariam ao passar das horas infinitas de um ano eterno. Seria o fim da raça humana! Algumas outras raças soltariam fogos de artifício para comemorar a extinção da nossa espécie, mas somos animais egocêntricos e queremos a ...

O canal do Panamá

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Que primeiro sutiã que nada. O que a gente nunca esquece de verdade é o primeiro tratamento de canal. Vá por mim! Aliás, você já deve ter ido. Pouca gente chega aos 43 anos virgem dessa experiência, não é verdade?  Mas lá está euzinha ontem com uma imensurável dor de dente. Foi a minha estreia. No dia anterior o dentista, já havia feito misérias no meu molar inferior esquerdo, o de número 36, tentando salvar a vida daquele pequeno ser branco, do devastador ataque de uma cárie insidiosa e sub-reptícia.  Sai do consultório torta de anestesia e com uma dor que só triplicou de intensidade ao longo das 12 horas seguintes. Em profunda agonia, liguei para o meu primeiro algoz que vaticinou: “Então é canal!”. E lá fui eu, de emergência, parar nas mãos de outro torturador lacônico.  Vocês já repararam que esses homens de branco sentados ao nosso lado parecem psicanalistas? Ficam ali só a nos ver sofrer sem emitir palavra. Em compensação, as mãos estão sempre...

O telefone sem fio

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A vida é mais sincera e crua que qualquer ficção. Demorei muito para ver o aclamado filme “A Caça”. Atualmente não tenho mais estômago para filmes de sofrimentos densos. Sabia que o argumento do filme envolvia injustiça. E injustiça é algo que me dá nos nervos, me incomoda ao ponto do insuportável.  Não faz nem duas semanas que, enfim, conferi a película. E ontem, porque a vida é mais sincera e crua que qualquer ficção, meu caçula viveu dilemas muito similares aos expostos no filme, porém sem a conotação sexual, ainda bem. Rômulo levou um tombo no colégio e quase perde um pedaço da língua. Digamos que tirou um pequeno filé. Ficou feio. Penso na dor inenarrável que sentiu, no jorro de sangue que tomou sua boca...  A comoção na escola foi imediata. “Ele foi derrubado pelo Felipe Góis, ele foi empurrado pelo Felipe Góis”. As crianças iniciaram o leviano processo de pré-julgamento baseado em indícios tênues: Felipe Góis, o coleguinha da outra sala de segundo ...

Peixe-Sapiens II

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Paras as Clarices Lispector e Veras,  que sabem: bichos bobos não são idiotas Meu nome é Chico. Eu sou um peixe. Moro num tanque. Tá, vá lá, num laguinho quitinete. Um conjugado na frente de um viveiro de plantas. Dizem que sou uma carpa, o tipo de peixe que os japoneses reverenciam por representar a prosperidade e a alegria. Não entendo nada disso. Se eu fosse próspero, viveria no oceano Atlântico, nos fiordes gelados da Noruega ou no Rio Amazonas. Não nesse aquário, dividindo quarto e sala com tantos outros peixes, não acha?  Ao contrário do que todos pensam, alguns peixes pensam. Espantado? Não sei se é o caso dos meus vizinhos que não param de passar para lá e para cá enquanto eu converso com você, esses mal-educados, mas eu afirmo que penso, logo existo.  Demorou um bocado para as pessoas que vêm e vão daqui todos os dias (parecem meus vizinhos) perceberem que eu tinha consciência. Que era um ser vivo dotado de faculdades mentais diversas d...

Xô, neura!

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Quem é mãe que já não acordou no meio da madrugada para dar um beijo no filho? A exata mãe que carrega a culpa pela incompreensão, pela impaciência. As mães e o poço sem fundo das angústias de se crer infalíveis. Sabendo ser impossível ela foi lá e fez. Que frase de tamanha crueldade, oras!  A mãe não pode fazer nada além do que já faz: parir, nutrir, amar, pentear os cabelos, escovar os dentes, dizer que ama, dar beijo, dar colo, dar bronca. O impossível é pra quem vive de filosofia. E filosofia não cria filhos.  Quando confirmo o brilho nos olhos dos meus filhos, acredito que eles estão tranquilos e seguirão bem resolvidos pela vida. É dilacerante reconhecer numa criança a esperança destruída. Já detectei em muitas. Infelizmente, não apenas nas obviamente maltratadas pelas vilezas de uma existência miserável.  Mas pinta a insegurança de que é imperativo fazer ainda mais e melhor. É uma pressão às vezes desumana. Parece que o comportamento da mãe...