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Esse americanismo vale a pena imitar

Passei um ano e dois meses nos Estados Unidos. Não foi intercâmbio de estudante, mas me sentia como tal: livre, sem grana e sem emprego a descobrir as maravilhas da América. Meu marido sim, estava bastante ocupado com um pós-doutorado na IBM. Moramos no desbundante estado de Nova Iorque, que nem precisava ser tão bonito tendo Manhattan para ofertar, mas é. Ô pedaço de chão de tirar o fôlego! Fiz um curso de aperfeiçoamento de inglês no Hunter College e acabei amigona da professora, a very nice Mrs. Molly McGrath. Ela se encantava com os brasileiros e o tal calor humano que realmente temos e eles não. Saíamos muito, conversávamos à beça extraclasse, e com ela curti momentos preciosos da rotina nova-iorquina. Fizemos até um amigo oculto ao estilo brasileiro no Natal. A turma toda foi para a casa dela, cada um levou um prato típico do país de origem (Coréia do Sul, Brasil, Peru, Polônia...Assim é Manhattan: o mundo todo numa só ilha) e a noite foi linda e divertida. Infelizmente, não...

Sobre a baixa estima coletiva

No jornal de hoje me deparo com a foto do presidente da Huyndai – uma das maiores empresas da Ásia – numa creche, vestindo um avental. Foi flagrado pelas lentes do fotógrafo ao dar mamadeira para um bebezinho. Que situação surreal para nosotros desse país tropical. O empresário septuagenário foi condenado por fraude e corrupção e, ao invés de ir para prisão, o judiciário sul-coreano determinou que ele cumprisse 300 horas de prestação de serviço à comunidade da qual ele deveria pensar 300 vezes antes de roubar. Aqui no Brasil nem isso acontece. Ninguém que tem poder vira um reles mortal pagando penitência. Ninguém com dinheiro é preso e muito menos tem de passar por essa expiação. As pessoas atropelam, matam e pagam seu crime com cestas básicas. Marcos Valério, ‘mensaleiro”, é condenado a pagar uma multa ridícula de dois salários-mínimos por se lambuzar com muita, muita grana pública. Está achando que isso é clichê? Não é não, meus caros. Eu trabalho no Judiciário e vejo...

A ponta do iceberg

milhares de anos antes da existência da América o Egito já chegara à maturidade” Ahdaf Soueif Estou quase terminado um romance muito interessante: O Mapa do Amor , da escritora egípcia Ahdaf Soueif. Quando chegar à última página, terei a certeza de que não é o melhor livro que já li, mas ressuscitou, dentro de mim, a antropóloga que gostaria de ter sido. Com uma narrativa delicada, embrenhada de fatos sociais e históricos para mim desconhecidos sobre o mitológico Egito, o livro resgatou o conceito de relativismo cultural que estava ligeiramente empoeirado, coitado, pelo excesso de informação globalizada da mídia. Globalizada, uma ova! Lendo este livro me peguei matutando: serão mesmo as mulheres árabes umas pobres coitadas massacradas, violentadas em suas liberdades, seres inferiores para seus homens? Antes que me tachem de simpatizante do nazismo e de outras ideologias hediondas, informo que sou contra qualquer tipo de tortura, degradação e aniquilamento da espécie humana, sem...

“Onde há escola, há esperança”*

O Brasil é mesmo um país surreal, ou como definiu Luís Fernando Veríssimo em várias de suas crônicas sobre os problemas brasileiros anacrônicos, um país “além da imaginação”. Viver num lugar que supera nossa capacidade de compreensão não é mole. Meu coração está na garganta desde a manhã de hoje, quando fui prestigiar a festinha de encerramento da escola do meu filho mais velho. Não é novidade para os que acompanham esta coluna que Tomás frequenta o Jardim de Infância da 303 Sul, ou seja, ele estuda na rede pública de ensino. Não foi uma decisão fácil apostar nosso tesouro, o bem maior de todo pai e mãe, e matricular nosso pimpolho de cérebro aberto para o mundo numa “escola do governo”. Agora, ao final deste primeiro ano, não poderíamos estar mais satisfeitos e orgulhosos de nossa escolha. Os preconceitos que envolvem a escola pública são tantos que a família de classe média não consegue enxergar o que acontece na ponta do nariz. Nem pára para olhar da janela do apartamento o que...

Surfando no tsunami

Como uma apaixonada e dependente das palavras impressas no papel, me recuso a acreditar que livros e jornais desaparecerão um dia, e tudo o que nos restará será este espaço virtual em que agora navego. Mas não se pode negar que a internet é a “quarta onda” que, talvez, Alvin Toffler tenha querido prever, mas não ousou acreditar tanto. Afinal, quem poderia imaginar a existência de uma mídia versátil que numa única interface pode assumir a postura de jornal, revista, rádio ou televisão? A internet está aí e ainda é um desafio para todos nós que trabalhamos com comunicação. Os meios tradicionais são veículos que comunicam em uma única direção, tendo como objetivo levar uma mensagem para muitas, milhares de pessoas. A tão propalada, estudada e criticada “comunicação de massa” da nossa velha companheira “Escola de Frankfurt”. Entretanto, o hipertexto e as tecnologias são aspectos da internet que permitem uma maior personalização e interatividade, o que muda totalmente a maneira de transmi...

Baião de dois

Viviam há três meses na mesma casa. Ela, publicitária. Ele, físico. Era um apartamento desses antigos: quarto, sala, banheiro e cozinha, que no inverno permaneciam mais frios e, no verão, obviamente mais quentes. Cada objeto havia sido comprado com carinho. Muitos foram presentes. Uma toalha de mesa, algumas plantinhas, jogo de panelas... O par encontrara um belo armário numa dessas feiras de antigüidades de São Paulo. Gostou. Levou. E assim foi-se compondo os espaços do apartamento 1006. Não tinham dinheiro. Ele, pesquisador de universidade. Ela, recém-formada. Porém, maiores problemas não os afetavam. Ele, com seus dilemas quânticos. Ela, com sua mania de escrever poesias. Curtiam aquela vida diferente. Ela, desempregada. Ele, romântico. Aproveitavam os programas gratuitos no Parque do Ibirapuera. Mas pagavam, quando a grana dava, um bom cineminha. Ela, meio cult. Ele, completamente intelectual. Um acordo tácito dividiu as tarefas domésticas. Ele sofria de asma. Ela, de alerg...

Mi Buenos Aires querido

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Oi galera amiga, voltamos de Buenos Aires com a energia renovada. A viagem foi uma delícia. Tudo deu certo apesar de os aeroportos brasileiros torcerem contra. E olha que tivemos que descer e subir seis vezes, tanto na ida quanto na volta. Sabe como são essas viagens de milhas da Varig: conexões múltiplas...Pelo menos a comida do avião estava gostosa. A Varig age como aquelas famílias que perderam a grana, mas não perderam a pose...:) Congresso Nacional Buenos Aires é uma festa! Realmente uma cidade apaixonante e apaixonada. Há dez anos estivemos por lá e naquele tempo nos deu vontade de comprar um apê na capital argentina e viver como esses intelectuais que moram temporadas em Paris, Nova Iorque, Milão...Depois disso, conhecemos Paris e moramos em Nova Iorque (quem iria imaginar algo assim), mas Buenos Aires não perdeu o seu charme: ainda gostaria de ter um apê ali, principalmente se ele fosse no bairro de Palermo, perto da Plaza Julio Cortárzar. Na verdade, Buenos Aires é uma ...