Cariocando


Provavelmente alguém vai achar que não regulo bem da cachola, mas, no Rio, prefiro a cidade à praia. Claro que não dispenso oferendas ao mar. Ficar frente a frente e render minha devoção. Porém a água muito fria, o sol muito quente, a areia barulhenta, as ondas intimidadoras, nada disso me atrai. Praias, para mim, são as plácidas e mornas, quase desérticas.
No Rio, prefiro pisar as pedras portuguesas que guardam a memória do império. Calçamento que singra a terra como naus em diversas direções sugestivas como Urca, Gentileza, Rocinha, Pavuna.
As cariocas usam shorts minúsculos combinando com casacos de moletons folgados. Chinelo é de lei nos pés dos habitantes.
As ruas estreitas estão sempre apinhadas de carros, táxis, ônibus, caminhões e zilhões de bicicletas elétricas mal-educadas.
Cariocas gritam com os conhecidos do outro lado da calçada sem se importarem com a audição alheia. E falam com desconhecidos sem se importarem com qualquer apresentação prévia.
Há moradores de ruas às pencas, vagueando insensatos. Angústia que dá seus corpos estirados abaixo das marquises, os amigos cães ao lado.
As conversas cariocas entrecortadas que pescamos aqui e ali quase sempre tem futebol.
Coroas elegantes em pequenos grupos frequentam cafés e sessões de teatro.
Hispânicos tomaram de assalto os calçadões de Copa e de Ipanema. Entretanto, o Rio é a cidade brasileira com a maior diversidade de sotaques estrangeiros.
Ambulantes e camelôs vendem de um tudo. Divertido parar e futucar suas muambas.
O centro da cidade está depauperado, todavia mantém um fascínio altivo.
A princípio, tive receio de perambular sozinha, com cara de turista. Mas depois que três pessoas em ocasiões diferentes me perguntaram onde ficava tal rua ou tal restaurante, percebi que atingira o meu objetivo: parecer uma legítima carioca, ainda que não estivesse de shortinho minúsculo.
Não topei com sorveterias pelas andarilhanças. Tive de procurar bem. Numa capital tão quente deveria haver casquinhas de duas bolas caprichadas, pães-de-açúcar em cada esquina.
Para mim, sem dúvida o outono é a melhor estação para se estar no Rio. Ventos carinhosos carregam as folhas das amendoeiras, não sentimos calor, os turistas não são tantos e o sol oblíquo espalha ternura na medida exata.





Se for preciso,
irei buscar um sol
para falar de nós.
(Ana Luísa Amaral)

Não sabia que Ipanema regurgitava conchas.
Um delicado nácar parou na minha mão.
O mar brincava de esconde-mostra, hide and seek, pique-esconde.
Quase impossível colher espécimes sem levar um caixote vexaminoso.
Entretanto a garota ali ao lado, nativa à beira da espuma, já pescara uma porção.
Nossa, quantas!
Ela sentira meus olhos cobiçosos ou seria naturalmente generosa, como os que nascem sob a abundância oceânica?
Quer estas?
Queria a menina, mas me contentei com a lasca do coral.



À espera do sinal verde para cruzar a Avenida Atlântica no Leme, o rapaz se vira para mim:
- Você é muito bonita, mas não pode engordar, senão fica feia.
O sotaque do jovem é de português além-mar. Me assusto ao mesmo tempo em que sorRio. Os homens e a empáfia de falar o que querem a quem querem.

Você é carioca?
Não, de Brasília.
Ah, da capital, mulheres ricas.
HaHaHa.
E você, de onde é?
Do Senegal, mas cá estou fazendo tempo.

O sinal abriu para os pedestres.
Cada qual se escoou por uma fenda da Cidade Maravilhosa.






Comentários

  1. Oba ! 😍😍😍
    Ameeei !
    Achei interessante ter visto poucas sorveterias. Devem estar todas em Ipanema kkkk
    E o senegalês, hein ? Intimidade em 10 segundos . Típico dos cariocas kkkk

    Karla Liparizzi

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  2. Como sempre Lu, vc tem uma capacidade que me encanta de retratar e relatar os encantos e desencantos de um lugar…Rio é assim mesmo”cidade maravilha,purgatório da beleza e do caos”💜hoje sou adepta de praias desertas…lá no Rio, tá difícil, tem que viajar um pouco mais, chegando na de Grumari, que é linda, mas mesmo assim, só temos sossego dia de semana, final de semana lota!
    Cynthia🙏🥰

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  3. 🩷 eu tb prefiro a cidade às praias.

    Bianca Duqueviz

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