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Arrastão

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Canção de ninar À cama, tamborila o travesseiro imitando as batidas do coração captadas pelo ouvido esquerdo. O corpo em posição fetal. Recordou a infância dividindo o dossel com a amiga. Naquelas noites de confidências, as tramas da feminilidade eram urdidas.   A amiga ninava a si mesma com um embalinho suave. À época, achava o ritual engraçado, mania estranha. Não imaginava que suas futuras madrugadas seriam insones. Que necessitaria de tantos artifícios para aplacar seu espírito sonâmbulo, as almas penadas de estimação. O colchão é pequeno para tanta resistência.  Rimas pobres Alva alma Sabores amores Étnico ético Fricção ficção. Orquestras eteceteras. Noite notes anotes as estrelas restantes. Autofricção Ontem conversávamos sobre o ato de chorar ou de não chorar.  Vontade de chorar, chorar demais, por qualquer coisinha. Chorar de menos, precisar chorar. No quesito choro, Cat Stevens/Yosuf é fatal. Ouço e choro.  Lágrimas quentes perpassam o rosto, deságuam n...

Horizonte de Eventos

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Reservam a data!!! Em breve, minha vida serão três livros abertos + 1 blog!  Bora proclamar a República da Poesia de Brasília na noite de 16/11?  Espero velhos e novos amigos para um abraço poético no "Horizonte de Eventos"!  Só venham e tragam seus afetos! Postiça A nova natureza da cidade É a brisa morna da tarde. Adentra pela janela o vento incomum, quente, ardente dos sertōes de Euclides. Mais perto:  vapores escaldantes das nascentes infernais  de Caldas Novas. As pedras do calçamento escravizado de Pirenópolis estão aqui.  A nova natureza da cidade  é praiana sem praia. Ventiladores sonolentos  moscas mortas. Pingos condensados despencam das máquinas. Ruídos brancos evocam:  o tempo da friagem chuvosa já tarda demais.  A nova natureza da cidade é artificial. Clarisseanas Tia, você vai na minha peça? Cláááro, não perco! E você vai no lançamento do meu livro, né? Quantas coisas legais em Novembro… Tia, você vai ficar famosa? Taí, ach...

Vicissitudes

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Pellanda, escritor curitibano que acabo de conhecer, diz que passarinho é matéria indefectível de crônicas geralmente bonitinhas. E as baratas, seriam inspiração para o esgar inimaginável? Deve ter entrado pelas janelas escancaradas no terceiro andar. O calor até então desconhecido para os habitantes da cidade, também lhe acometeu da pior maneira. Quedou-se, serena ou esgotada, sobre a esquadria branca. Quem primeiro notou a presença dela foi a gata, que começou a saltitar, indócil. A felina escalou os objetos do chão rumo ao teto crente que alcançaria o bote fatal. Acompanhei o intento e dei de olhos com ela. À certa distância, minha miopia divisou apenas um ponto escuro em destaque na alva moldura. Ó, uma cigarra desgarrada da sua árvore-natal! Aproximei-me desarmada e se tratava de uma barata. Sem poética, sem canto, muda, repulsiva, horrenda. O asco de sua presença tomou a casa inteira de assalto. Fugi dali em pavoroso grito. Alguns minutos de histeria coletiva deram lugar à reação...

Mães&filhos

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Na falta de travessas de fato, passeamos pela Travessa de estantes. Mãe e filho estão na parte infantil e procuram algo específico: acho que não tem nenhum livro sobre peixes, meu filho. A pisciana a postos em mim foi imediatamente fisgada pela conversa, como assim? Ah, tem um da Clarice chamado “A Mulher que matou os Peixes”, mas acho que não é bem isso que ele quer, né? A mãe ficou temerosa, se aproximou do filho como se eu fosse uma ameaça real à integridade física do garoto. Ele quer um livro que tenha os nomes dos peixes, afirmou com antipatia atroz. Percebi que havia atacado de bisbilhoteira e resolvi desanuviar: Peço desculpas, é que eu escrevo e gosto de literatura infantil. Por isso estou aqui pensando em algo que agrade ao seu filho. Seria uma pena sair da livraria sem um livrinho para ele. A mãe fez uma cara menos hostil, mas só um pouquinho menos. Desisti. Teria indicado o poético “Diário das Águas”, de Gabriela Romeu e Kammal João. E, claro, o delicioso “Banho!”, da Marian...

Total eclipse of the heart

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O que não podemos deixar é que o mundo desapareça e que, em seu lugar, reste apenas uma narrativa de ódio e de segregação.” (Guilherme Ghisoni) Apenas acho que sem Estado Palestino, a carnificina só vai piorar. Não que o Estado Palestino seja garantia de paz duradoura. Mas sem ele, fica difícil competir em pé de igualdade. A Faixa de Gaza e outros lugares onde os palestinos são amontoados me parecem bastante com um campo de concentração nos quais são os israelenses quem decide os que entram ou os que saem... Há muita miséria ao redor e muita riqueza no enclave chamado Israel. Então tudo isso causa revolta das grandes.  Israel é o pequeno Davi que conta com um gigante Golias EUA para lhe proteger desde o princípio. Você viu Golda? Parece tanto com o que ocorre agora. Tudo se repete de forma cada vez mais sangrentamente bem sucedida. Hamas, Hezbollah, Al Qaeda… Versões truculentas de animais selvagens, mas Israel e seu aliado americano de todas as horas, ao modo deles, também são. Am...

Onde bate o sol não há dubiedade

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Seres luminescentes das profundezas marítimas, monstruosos e misteriosos, habitariam os escuros das águas gregas? Céu desce para a terra na bioluminescência dos cupins de Goiás. As ilhas gregas são pacíficas. O que me fascinou foi a paz nelas contidas, aprisionada pelas longas distâncias do Mar Egeu. Gostosura. Paz de cemitério, mas sem ser cemitério. Se bem que ao conhecer o cemitério de Teresina - a família do meu marido deve achar que eu sou doida varridinha, pois acordar naquele calor teresinense e me embrenhar logo no cemitério - nunca o tinha visitado). Esperei encontrar aquela paz boa das necrópoles, mas esbarrei com duas maritacas em sua forma humana. Uma dupla de funcionárias da limpeza do Cemitério São Judas Tadeu (minha madrinha iria aprovar o nome, mas, nem sequer assim acho que gostaria de ser enterrada, pois deixou a cremação acertada anos antes de sua morte). Entre o carpir de um mato e outro, ambas, numa distância considerável uma da outra, gritava daqui, respondia aos ...

Ritos Finais

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Tempo parado no ar Há dias, calor, insônia Oh, noite… (Djavan) Pego o lado esquecido da calçada onde os carros estacionados obstruem a passagem e  o mato desgrenhado exala liberdade. Ando comovida com tanta poesia:  palavras, letras, imagens. Não lembrava mais o que era chorar à toa, juro.  As pedras estão se quebrando, não nos rins ou na vesícula,  sem embargo,  na carapaça do caranguejo,  no exoesqueleto do bernardo eremita. Gosto de silêncio ou de música; podcast é  intrusão. Preciso me acostumar com esse falatório que tomou conta do mundo.  No fim dos tempos que nos atingiu nas últimas semanas,  o paraíso (ar)tificial condicionado nos refugia. Será, por fim e desgosto, o destino da gente, a distopia? Nossa culpa, nossa máxima culpa. Se o cataclisma agora se instala,  penso em trocar Brasília por Ushuaia.  Haverá ainda algum gelo por lá, para hibernar? Se é a esperança a última que morre, que seja congelada!  Não pretendo ...