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Louca por tempestades

Você já experimentou a velhice chegando a galope na sua vida? Que pergunta mais besta. Quem é que deseja uma coisa dessas? Mas às vezes é involuntário. Acontece. Eu não queria, juro, mas fui obrigada. Uma pseudogripe não me abandonava há mais de mês. Decidi, pela primeira vez, procurar um otorrinolaringologista. Dor de garganta não faz parte do meu histórico médico. Ainda bem. Minhas amígdalas não foram extirpadas como foram de tantos da minha geração. Não pude tomar potes de sorvete para me recuperar da cirurgia, tratamento que me dava uma inveja daquelas. Mas eis que o meu ouvido direito começou a doer no meio da madrugada. Agosto em Brasília é mesmo um tour de force. Deveriam dar férias coletivas para toda a população. As aulas retornando somente “quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos”, ou seja, naquele momento em que a chuva, tão sumida, tão querida, retornasse para a salvação das vias aéreas superiores dos habitantes desse não regadio planalto central. Então e...

Para vencer o concreto de Niemeyer

Canta, canta passarinho, canta, canta miudinho; Na palma da minha mão Quero ver você voando, quero ouvir você cantando; Quero paz no coração Quero ver você voando, quero ouvir você cantando; Na palma da minha mão (Geraldo Azevedo) Ele aparece escondido entre os arbustos, piando alto. Sua cabeça listrada de cinza e preto surge em meio ao verde vivo. “Olha aí, já está pedindo comida”, explica Roberto Teixeira Barbosa, 45 anos, segurança do Superior Tribunal de Justiça há 18 anos. Essa rotina se repete há mais de seis anos na portaria lateral do edifício Ministros I: passarinhos de várias espécies fazem do lugar um porto-seguro para procriação e alimentação graças ao talento de Roberto para interagir com os bichinhos. Roberto estala a língua e de repente já são dois tico-ticos. Ressabiada, a dupla vai se aproximando do pedaço de pão até dar a primeira bicada. Depois, é só alegria. “Eu comecei a conversar com eles, a chamá-los de nego... Eles foram chegando, chegando... Todo dia e...

Sem peso nem medida

Eduquemos os adultos de hoje, e teremos as crianças do amanhã. Pitágoras O pediatra dos meus filhos estava desconsolado. Comentava comigo que o maior problema enfrentado no consultório ultimamente era a permissividade dos pais. “As crianças dormem tarde, mandam na casa, os pais não têm tempo para viver a vida a dois, os meninos perdem horas importantes de desenvolvimento”. Com certeza ele sabe do que fala. Tenho uma amiga que reclama não ter mais controle sobre o controle remoto: “A gente não consegue ver mais nenhum filme. São dez da noite e ela ainda acordada”. Informação importante: a filha da minha amiga acabou de completar três anos. Três anos e tiranizando os pais. Que fenômeno maluco é esse que roubou a autoridade dos mais velhos? De uns anos pra cá parece que papais e mamães tomaram água envenenada com o pó da omissão. Ou terá sido leitura em demasia? “Como criar meninos”, “Como criar meninas”... Excesso de informações criou deseducação, embaralhou o pensamento. Ninguém m...

Fotogramas

Se a vida não faz sentido por que é que morrer haveria de fazer? Arnaldo Antunes e Nando Reis Tenho mania de rever trechos de filmes ao acaso. Não importa se são do início, do meio ou do fim. A ordem dos fatores não altera o produto, já dizia irmã Servácia, a professora de matemática da quinta série. Só existe uma única regra para o meu passatempo: não vale pegar pedaço de filme que eu já não tenha visto integralmente. Cinéfilos não devem estragar o prazer do ineditismo por causa de alguns minutos. Meu marido acha que não bato bem porque vejo filmes em pedacinhos. A questão é que ele não capta o deleite dessa prática. Rever, rever e rever uma película que agrada a gente é o mesmo que bebericar o mesmo bom vinho em várias oportunidades diferentes. Ou desfrutar daquele tipo de bombom preferido sempre que tiver uma chance. Não dá para deixar passar, entende? Com o advento da TV a cabo, cultivar esse tipo de maluquice ficou ainda mais fácil. Na época do videocassete, era um tal de ap...

Hexadivagações

Veja bem. Quando a gente engata com essa, não se iluda: vem encrenca. Eu tive uma chefe que amava o tal do veja bem. Em seguida, ferrava a gente, desculpe o trocadilho em ano de Copa, de verde e amarelo. Falando nas nossas cores mais emblemáticas, o que deu na cabeça daquele paspalho do Alexandre Herchcovitch ao afirmar que acha essa combinação cromática “pavorosa”? O cara tá ficando mais rico com o modelo Dunga desfilando casaco de marinheiro da marca dele e tem coragem de ficar cuspindo na bandeira do país que compra as coisas que ele inventa? Eu avisei: o veja bem não tem boa fama. Mas, veja bem. Eu escrevo esse texto numa quinta-feira e o jogo da verdade ainda demora 24 horas para acontecer. Não sei se o Brasil vai passar da Holanda, porque esse é o primeiro jogo de fato que vamos jogar nessa Copa. Mas eu torço, claro, para que façamos aquela final tão sonhada: Tupiniquins x Hermanos. É ou não é o desejo enrustido de todos nós? Sei que o risco de ter de engolir Maradona, o deus c...

Vida campeira

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Cavala de flancos intensos, patas rebeldes, sem dono nem domação, rebentando espumas nesse galope, namora mais do que o amor, a sorte. Lya Luft Esse país sempre surpreende. E não apenas quando entrega o jogo das quartas de final para a Holanda. É de arrepiar o ecletismo do Brasil-mosaico. Num momento você pensa que está na Itália, comendo galeto da Colônia. Não o que encontramos aqui em Brasília, mas o verdadeiro, pequenino e tenro franguinho. Asinhas e coxinhas quase garnizés, acompanhadas de polenta suculenta, não esturricada. E de raddichio novinho, colhido na horta do fundo da casa. Cem quilômetros pra frente, já estamos em outra história. O que se vê são os Campos de Cima da Serra da tal Vacaria, que hoje poderia trocar de nome para Sojaria. O gado se foi, mas a tradição de criar cavalos crioulos fincou pé. Não tem monocultura que faça esses animais valentes saírem do coração dos gaúchos. Na minha volta ao mundo brasileiro em cinco dias, nunca imaginei que fosse pernoit...

Rascante

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...Não se apresse não, que nada é pra já.  Amores serão sempre amáveis... Chico Buarque Às sete amanhece no Vale dos Vinhedos. Sinto nessa frase o potencial para um romance. “Olhai os lírios do campo”, “Floradas na Serra”, “Orgulho e Preconceito”... Pelo menos pronta para pegar uma tuberculose eu já estou, aqui fora, escrevendo em pé imersa em uma sensação térmica de grau negativo. Os dedos enrijecidos truncam o pensamento. Os arruaceiros quero-queros parecem ser os únicos acordados comigo. Então adentro o parreiral ressequido. É inverno. Tempo de refletir, não de “bloomir”. E sem que me dê conta, me transponho para um campo de concentração. Que nebulosas associações mentais uniram a bela vinícola à funesta comparação. Videiras Os primeiros empregados do lugar chegam para mais uma jornada. Faz diferença trabalhar nesse recanto especial ou logo se enjoa e nem se liga? A solidão do nazismo volta à carga. A trama irregular dos fios de arame, os galhos retorcidos das videiras s...