Antes que janeiro termine


Pare, olhe, escute.

como se esperasse o trem.

Desligue o motor do carro, da mente, 

do celular.

Aguarde. 

Ouça o deslize das nuvens. 

Precisa silêncio de peso para notar a leveza.

Stop como os americanos

para não levar multa. 

Pise no freio e mire lentamente para os lados,

para o alto, para além. 

Suspire. 

Não corra.

Não morra antes de viver. 




algo incomoda.

um cílio na retina

pedrisco no sapato.

Incomoda a janela daquela casa 

sempre fechada.

o silêncio do abandono.

a loucura do incompreendido. 

Algo.

A indefinição incomoda. 

Um não sei quê

um trem sem Minas

uma coisa

um enrosco

sufoco

inominável

pagão

sem certidão

incomoda.

Alguma falta

nenhuma presença

entre

um vão

e um degrau

Incomoda a inércia.

A letárgica agonia

incomoda

o pleno nada

a vida plana

insidiosa 

insossa

vaga

acomodada

incomoda.



Entrei numa de Vanessa da Mata: tomei um banho de chuva, aliás, um temporal de verão. No início rola um certo desconforto, o frio dos primeiros pingos. Após alguns minutos, a gente está com a alma lavada, segue a caminhada e tenta não pisar nas poças mais profundas.
Não sei se minhas sandálias vão sobreviver. Não era minha intenção inicial tomar um banho de chuva de dois km. O vestido branco, ensopado, começou a pesar. Não era transparente, não se animem. Não me pareceu sexy como na música do Jorge Benjor,
apesar de despenteada.
Me senti uma andarilha que se conforma com o seu destino incompreendido pela sociedade de consumo em quatro rodas.
Gostei de representar este papel.



Janeiro em Brasília
O aguaceiro procura limpar a alma conspurcada do ano anterior.
Recomeçar com o copo vazio
da lama que lhe impõem os ímpios
das lágrimas indignadas.
É desproporcional o que chora o mês primeiro.
Cidade contraditória:
bode expiatório e esperança.
Catarse de um país inteiro.



Três meninas brincam perto do pilotis. Uma delas propõe: vamos brincar de cidadão "alguma coisa" (não entendi a palavra)? A outra pergunta: "O que é cidadão?"
Olham-se sem resposta. Eu resolvo dar uma forcinha:
- Cidadão somos nós, vocês, eu, quem faz o bem, quem joga o lixo na lixeira, respeita a faixa de pedestres, os professores, que pede por favor e diz obrigado.
Elas me olham entre curiosas e abismadas e voltam a brincar como se ninguém tivesse se intrometido.
Não disseram obrigada.
Será que fui longe demais? 😃


Comentários

  1. Muito bons, todos eles...
    E muita coisa incomoda e não há o que se fazer...
    O silêncio pesa, a indignação é tanta, abafa qqr ensaio de leveza...
    Mas viver é preciso...
    E qto às 3 meninas? Tudo indica que nada apreenderam...

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  2. Uhuuuuuu! Muito bons ! O primeiro acho que vou colocar na minha parede de casa 😀
    O último adorei.
    Deu uma de mãe kkkk

    Karla Liparizzi

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  3. Tudo muito bonito e poético. Olha que lindo isso: .." é desproporcional o que chora o mês primeiro" nessa "cidade contraditória...." Amei, Lu.

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  4. Sempre encantada🙏🥰
    Cynthia 🌻

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  5. Lu, vou é a minha poetisa favorita. E contadora de causos tbem! Amo! 🥰

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  6. Boa tarde, Lú! Muito gostoso ler seus poemas. 👏🏻👏🏻👏🏻

    Virgínia Pozzatto

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  7. "Não morra antes de viver". Isso é ótimo. É por aí. O propósito com a casa é olhar mais as nuvens. É tão bom. Adoro. Um beijo.

    Isabel Frantz

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  8. Ouça o deslize das nuvens.
    Precisa silêncio de peso para notar a beleza.
    Bonito isso , Lulu.

    Clarice Veras

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  9. Gostei da "forcinha" às meninas, da definição de cidadão, Lu. Beijos. Claudia Boudrini

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  10. Obrigada Luciana, seu texto é delicioso!

    Annie Ruiz

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  11. Fantástico texto, lúdico e verdadeiro. Obgda,

    Telma

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  12. Muito bons os textos, partiu 2026 mesmo e apertei o cinto que estão dizendo que será mais punk que o passado. Que Iemanjá rainha do mar nos proteja.😘

    Renata Assumpção

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  13. No dia 30 de abril de 2025, saí para caminhar logo após finalizar o preenchimento da Plataforma Sucupira da CAPES (que é um monstro burocrático) e fui pega por uma tempestade totalmente inesperado (era Abril!). Ao invés de correr da chuva, resolvi me entregar a ela. Melhor coisa! Lavou o ranço de meses na frente da tela do computador, meses de servidão a planilhas e sistemas.
    O macacão, de um tecido mais grosso, pesava uns 10 kg no final!
    Igualzinho no seu texto, "gostei de representar este papel".
    "Não morra antes de viver." Essa frase calou fundo. Ressoa com meu momento atual...
    O texto do cidadão é genial! ✨🤣✨

    Mariana

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