Ordens de grandeza
Das pessoas que amamos não permanecem apenas os grandes gestos e os momentos marcantes. As prosaicas ações latejam na memória e reacendem as fagulhas da saudade.
Manuel Bandeira
Para Claudia Jardim
O tatu-bola
me enrola
não me dá bola
O tamanduá-mirim
me esnoba
ai de mim
aqui
na maior bandeira
pena que não me queira.
É a impressão que me dá ao observar as pessoas ao ar livre.
A límpida e ampla manhã não atrai a atenção dos que estão sob o azul. O infinito não causa mais espanto. Sem exceção, todos abduzidos por seus celulares.
Certamente não há urgência ou relevância maior que a beleza daquele espetáculo natural e isto é o que é mais triste. Perdem o movimento das nuvens, o voo de pássaros diversos, o risco do avião, as fases da Lua e até o incensado pôr-do-sol, por bugigangas.
As redes sociais, o Zap são basicamente isso: miçangas, espelhinhos, bagatelas. Não passamos de novos indígenas ingênuos ludibriados pela nova forma de colonização.
Entregamos nossa capacidade de encantamento e de deleite com o entorno por memes num eterno looping de reprodutibilidade.
Como repactuar nosso olhar com a profundidade lúdica da natureza se estamos quase que permanentemente absortos pela luz artificial? Tornamo-nos vulneráveis digitais, sujeitos ao vício, à superficialidade e ao imediatismo.
No filme “Perfect Days”, do diretor Wim Wenders, a personagem principal mantém uma rotina espartana e estoica.
Num primeiro momento, aquele homem aparenta ser monótono e solitário. Mas um dentre outros sinais é de grande prova de riqueza interior: todos os dias ele sai à porta de casa e, antes da jornada de trabalho, olha para o céu.
Eis algo que se perdeu em tanta gente. O universo digital passou a ser mais importante do que o universo astronômico. Se ao menos pudéssemos manter as ordens de grandeza nos seus devidos lugares, estaríamos a salvo da alienação.
A recondução aos alumbramentos celestes é imperiosa. Alguns minutos como exercício diário do olhar. O espaço físico, real, é aliado do pensamento poético, recreacional, criativo, científico. É a nossa humanidade básica, imprescindível, que jamais deveria estar sendo trocada por ninharias virtuais.




.jpg)
❤️❤️❤️❤️
ResponderExcluirFeeling good
ResponderExcluirA última música tocada no filme Perfect Days me tocou, gosto na voz da Nina Simone.
Entre o chão do agora e o céu… me trago presença, as telas nos abduz …
Gostei de te ler , faz tempo que não faço. Amo o mundo interno, você consegue colocar em palavras , muito que permeia os dois… mundo interior e exterior.
Viva
Vida
Beijo
Lu
Luz!
Patrícia Delanny
Oi, Lu . Amei ! O texto do mundo virtual é excelente . Vou mandar para minhas filhas . Quem sabe acordam ...
ResponderExcluirO véio Dantas deve ser depressivo não tratado kkk . Eu adoro olhar o mundo . Deve ser por isso que gosto dos seus textos 😁😁😁
Karla Liparizzi
Adorei essa edição! A começar pelo título. Ordens de grandreza... eu devo falar essa expressão todos os dias. 😅 (De)formações que o ofício imprimem no nosso jeito de falar as coisas.
ResponderExcluirO primeiro texto perpassa, com beleza e simplicidade, ou seja, elegância, fascinantes questões de sensibilidade humana - o valor sentimental e simbólico que as coisas antigas de família carregam, e a delicadeza, ou falta dela, nas relações humanas e seus desdobramentos. E que belíssima peça de relojoaria! Marca chic ou não, é lindo!
O poema é mimoso! O tamanduá da foto é um dos que vimos no museu?
O terceiro texto é muito perceptivo e verdadeiro! As analogias entre celulares e espelinhos e entre os respectivos portadores iludidos pela novidade é muito afiada! Adorei e compartilhei com o Francisco, adolescente que, aqui e ali, precisa ser lembrado que a tela é o novo espelinho!
Mariana
Li o texto do relógio da sua vó👏👏👏
ResponderExcluirLuciana querida: você é demais, além de uma escritora e tanto!
Obrigado, por compartilhar 🤝🤝
Expedito
Que texto maravilhoso, querida... realmente, como nos empobreceu o olhar, o tal do celular... amei o texto! Bjs!
ResponderExcluirAngélica