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À procura da transgressão

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"A transgressão das próprias convicções é essencial.  É como no caso da lei, em que a legitimidade depende da hipótese de que,  em dadas condições, a desobediência pode ser a melhor forma de cumpri-la". (Nilton Bonder) Nunca fumei maconha. Nunca experimentei cocaína. Não bebo. Onde você estava, então? Mas você não morava na 715 sul? Incrédulas as perguntas da nova amiga, nascida apenas um ano antes de mim e que também frequentou uma das quadras mais “barra-pesada” de Brasília naqueles longínquos anos da década de 1980. A 715 sul era uma quadra-miscelânea, mosaico de uma cidade que se construiu do nada, reunindo gentes de todos os tipos, objetivos e origens. Suas casas geminadas não foram erguidas para abrigar funcionários do Banco do Brasil, como a vizinha 714. Ou os abastados servidores do Banco Central, a exemplo dos apartamentos da 314 sul. A 715, última quadra da Asa Sul (ou primeira, a depender do referencial) não era o que se classificava, nos p...

Pachamama

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(...)Volver a los diecisiete Después de vivir un siglo Es como descifrar signos Sin ser sabio competente Volver a ser de repente Tan frágil como un segundo Volver a sentir profundo Como un niño frente a Dios Eso es lo que siento yo En este instante fecundo (...) Violeta Parra na voz de Mercedes Sosa A viagem para o Chile e norte da Argentina tinha uma Cordilheira no meio do caminho. Resgatou a verve hispano-americana que cochilava nas minhas vivências adolescentes e juvenis. Tudo da rebeldia e da vontade de mudar o mundo tinha a ver com Mercedes Sosa e Violeta Parra. Estive no museu dedicado a compositora chilena em Santiago (sempre lembrando que amo esse nome). Modesto, porém comovente. Foi o bastante para o jorro de palavras de ordem volver a me enredar naquele sonho febril de igualdade, fraternidade e liberdade. Os Andes mexeram com sentimentos que nem sequer sabia que existiam em mim. Seria eu descendente de mapuches, quechuas, chi...

Negritude ainda que tardia

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- Coloca Michael Jackson! - Coloca Chico Science! - Coloca Luiz Gonzaga! Assim a gente vai rolando as playlists no carro, atendendo aos pedidos dos meninos que, ufa, parecem bem encaminhados no quesito boas escolhas musicais.  Parando para pensar, três artistas negros (pardos se preferirem) da melhor estirpe. Cada um com seu suingue, sua autenticidade e sua genialidade. Ouvimos também um bocadinho de O Rappa: “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro Tudo começou quando a gente conversava Naquela esquina ali De frente àquela praça Veio os homens E nos pararam Documento por favor Então a gente apresentou Mas eles não paravam Qual é negão? Qual é negão? O que que tá pegando? Qual é negão? Qual é negão?” - O que é camburão?, questiona Tomás.  Ele não é do tempo das veraneios vascaínas. Ele não presenciou inúmeros baculejos como eu. Ele próprio nunca foi vítima da truculência ou da desonestidade policial como já fui....

Que las hay, las hay

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Não eram nem oito da manhã e elas já estavam tentando contato.  Saiu para a caminhada com a alegria de um feriado que fosse só dela. Sempre curtiu mais às bruxas do que as fadas. Definitivamente, nunca foi princesa. E se gosta do balé é por causa do Cisne Negro, não da Bela Adormecida.  No meio da caminhada, uma velha esquisita agarrou o braço dela e começou a falar coisas incompreensíveis.  Ela estava com o fone de ouvidos cantarolando e levou alguns segundos para perceber que talvez aquela senhora quisesse apenas lhe mostrar o pássaro que ciscava a grama logo à frente. Puxou um dos fones e notou que a idosa permanecia ininteligível.  Não levou mais do que outros segundos para a velhota se agarrar ao braço dela com valentia. Assustada, ela se desvencilhou, e seguiu no passo vigoroso do exercício matinal, sem olhar para trás, porém um pouco culpada: se a idosa fosse como o seu antigo vizinho, cujo cérebro foi tomado pelo Alzheimer e se pe...

Devocional

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“Eu vi o anjo no mármore e esculpi até que o libertei". (Michelangelo) O pé da bailarina é a escultura de mármore que se move, talhada pelo dom de um escultor titereiro. Ele projeta o pé diáfano, fluido, elástico e tenso. A dança incrustada em cada nervo, em cada músculo. O corpo da bailarina é apenas o pretexto para criar-lhe os pés de pluma em movimento. Lívido, o peito do pé da bailarina se curva numa parábola sobre beleza e infortúnios. Dedos que tocam o chão e se fundem num enlevo para alçar as nuvens do onírico. Tendões rijos e atléticos são postos à prova da leveza e da perícia.  A região plantar se esgarça pela força da impulsão e o pé da bailarina voa além da cabeça, se lança até a lua ou rodopia, em parafuso de cristal, buscando o centro da terra. O pé da bailarina não reconhece fronteiras e limites. Despido, revela a dor de sustentar a perfeição. O volátil pé de mármore da bailarina não está eternizado no museu. Dia após di...

Dia Bombril

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Domingo é dos cães a levar seus humanos para passear. Das velhinhas arrumadas e perfumadas que deixam um rastro de flores a caminho da missa. E do avô que empurra, orgulhoso, o carrinho de sua descendência pelas calçadas. Domingo é dia de olhar com mais atenção o céu de chita dessa época do ano. Carece não perder a disputa dos flamboyants: qual deles é o mais incandescente? Domingo, pede o domínio do espaço para andar de mãos dadas e repor os níveis de vitamina D.  Pedalar, depois deitar sobre a grama à sombra e observar os galhos com seus desenhos irregulares. Abstrações.  Quem sabe fotografar na língua do P: pássaros, peixes e pessoas.  Domingo pode ser de bazar e de brechó. Um sorvete no fim da tarde - na casquinha - é de bom tom. O dia exige vestido, short e chinelo. Ou atravessar as horas na negação do pijama. Pode de ser de terminar aquele livro deitado numa rede ou, em rede, jogar videogame com uma galera em Kathmandu. ...

Faro(lete)

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Inspirada (e expirada) em Eva Furnari, escritora de tantas doidices maravilhosas. Há 38 anos ele suporta a cangalha. Por isso não era de se estranhar que perdesse a noção de si mesmo, sem o peso do jugo daquele apetrecho que apenas cambiava de cor, de grau ou de forma, mas mantinha o domínio.   Contudo, bastou um momento de deslize do parasita para, de repente, se perceber digno. Uma montanha escarpada, sólida, bem desenhada pela combinação de genes. A crista alongada, despida de relevos perceptíveis. Inexistentes depressões e fraturas.  Alpinistas morreriam para escalar aquela face, um deles, inclusive, ousou afirmar que seria perfeito. Assim se sentiu ao se tatear desprovido do indefectível adereço opressor.  Liberto, não somente durante o sono, mas ainda lúcido, permitiu-se a alegre solidão de ser longilíneo e delicado. Às vezes, úmido pelas gotas de orvalho que apareciam de uma hora para a outra.  Estável e simétrico, sem dúvid...