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Dos usos e frutos virtuais

Remasterizar está na moda. Tudo é tão fugaz hoje em dia que já vira clássico em dois anos e cai no esquecimento. Então, nada mais prático do que ressuscitar o velho com uma nova roupagem. As tais releituras tão em voga e às vezes tão enjoadinhas. Mas isso tudo é pra dizer que estou remasterizando alguns textos que haviam sido publicados no blog do Vicente, mas não aqui, no meu blog. Esse aí debaixo é um deles. Alguns vão ler e recordar, outros achariam que era inédito se eu não tivesse escrito esses paragráfos que agora faço surgir na tela com as minhas mãozinhas saltitantes no teclado (eu digito com todos os dedos, uma elegância pouco comum aos que nasceram na era do computador). Para alguma coisa serviu as aulas de datilografia do século passado... Mas, sem mais delongas, vamos a ele, o astro-rei da vida em sociedade: Geringonça moderna chamada computador. No meu curriculum vitae estava lançado o desafio: entender esta máquina. Não faz muito tempo. Uns 15 anos, no máximo. Hoje, ele...

Na calçada da fama

Você sabia que Brasília também tem calçadão onde as "celebridades" podem ser vistas como simples mortais? Só que, por aqui, as nossas estrelas são os políticos e ministros do Executivo e Judiciário. Nada comparável à beleza das globais ou ao talento musical e poético do Chico, do Caetano e de outros bambas que circulam pela orla carioca, mas qual candango já não teve de responder à pergunta: “você vê o presidente todos os dias?” Pois é, quando descobrem que a gente vive na capital da República, acreditam que somos íntimos do poder e que tudo na cidade se resume à Esplanada dos Ministérios. Que todos os dias tomamos café com a Dilma e almoçamos com o José Sarney (blergh!). Culpa da mídia, que faz questão de mostrar Brasília como uma freak, localidade cheia de vazios monumentais e de políticos inescrupulosos. Mas somos, sim, uma cidade de carne e osso. Acredite! E, no calçadão da Asa Sul, podemos nos sentir leves para usufruir um lugar quase normal, onde a arquitetura não se ...

Teoria da irmandade

Interessante como as mulheres gostam de mostrar suas dores sem pudores. Estava eu de frente para o inacreditável mar de Maceió, de bem com a vida, sozinha, a desfrutar uma salada na Cabana Lopana. No som, o DJ rolava versões bossa-pop de George Michael, The Carpenters, Pink Floyd, Bonnie Tyler, Bob Marley, U2, Madonna e até A-ha, na voz de Michelle Simonal. O cara bota para tocar “Wish you were here”... Putz! Aí matou a pau. Covardia com o espécime feminino que também estava sentada alone à mesa ao lado. Entretanto, ao contrário de mim, parecia sofrer com vários holofotes voltados para ela. Mulher nova e charmosa bebendo cerveja sozinha num dia de sol pode saber: tem algo errado. É evidente que este pensamento machista atravessou a minha cabeça e a dos demais felizardos que curtiam aquela cabana. O mesmo devem ter pensado de mim – reparem na falta de modéstia pelos autoelogios – quando ali me postei encarando o mar. Mas logo adotei uma postura mais confiante: eu me garanto. Est...

Minha Teresina

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toda rua tem seu curso tem seu leito de água clara por onde passa a memória lembrando histórias de um tempo que não acaba Torquato Neto piauiense fantástico  Olha aí o Piauí, há quanto tempo não vinha por aqui... Do alto do avião, controlando o pânico de voar com espiadas pela janelinha, eu via a terra do pai do meu marido, do avô de meus filhos. Território plano, árido, com milhares de casinhas dispostas no tabuleiro de xadrez da vida sofredora do Nordeste. Um cheque-mate diário nas adversidades. As indefectíveis florzinhas que nascem na rachadura do concreto Chega a ser um milagre todo mundo falar português nesse vasto país tão plural. Os regionalismos são intensos e diversos. É como se a gente visitasse terra estrangeira, mas com o bem estar de se sentir em casa, falando a mesma língua. Calçadão da Av. Frei Serafim Cuzcuz de arroz, bacupari, carneiro, bacuri, doce de mangaba, apito para chamar passarinho, ventilador que joga água, olhe pra isso, oxente, mas rapaz!!!! ...

Medalha milagrosa

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O massacre diário de obrigações e chateações às vezes no faz esquecer da beleza de pequenos episódios pueris. Todavia eles estão lá, sempre acontecem. Nada é só azar, Deus me livre! Estou parecendo um livro de autoajuda, concordo. Tudo porque hoje, a caminho de uma atividade burocrática do trabalho, fui abençoada por um destes minúsculos prazeres cotidianos que, de tão delicados e singelos, podem passar despercebidos. Por isso resolvi escrever. Para que eu mesma, uma pessimista por natureza, puxe as próprias orelhas para enxergar o bom da lida diária. Correndo pelos corredores, atrasada para uma sessão extraordinária de julgamentos, sai do elevador colocando a mão no bolso do casaco para guardar a balinha que me salvaria do tédio e do sono, companheiros que sempre me visitam quando estou sentada lá, naquele sepulcro isolado térmica e acusticamente do mundo, fruto das pirações de Oscar Niemeyer. Esse prédio é um sarcófago. Se a gente pensar na soma da idade dos ministros,...

Se o meu elevador falasse...

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O casal 20 mora ao meu lado. Para ser mais sincera, mora abaixo, aos meus pés. Ou mais precisamente: no segundo andar. Ela tem um Volvo, ele um Audi. Nossos encontros casuais se dão geralmente na garagem, quando juntos pegamos o elevador. O charme de ambos é impressionante e a sensação de eterna felicidade que eles passam também. Nunca pensei que casais 20 pudessem realmente existir e talvez por isso gostasse tanto da série de TV com Robert Wagner e Stephanie Powers. Eles eram puro glamour e romance. The Harts, o mordomo Max e o cachorrinho Freeway em suas aventuras cheias de grana, bom gosto (para a década de 80, esclareço) e adrenalina. Eu sei, eu sei, estou denunciando novamente a minha faixa etária, mas a vida é assim, sempre traiçoeira. Meus vizinhos não têm cachorrinho frufru. Na minha opinião, mais pontos para eles. Também não rola este lance de mordomo porque seria um pouco demais em um apê classe média. Mas, tirando estes “míseros” detalhes, a vida do casal parece...

Mordidas, nacos, lascas, triscos: desabafos de uma chocólatra

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O meu problema é com chocolate. Qual é a probabilidade desta afirmação ter sido proferida por uma mulher? Vou chutar na casa dos 90%. O arqui-inimigo da boa forma, das dietas, da consciência leve como uma pena. Ele, o grande vilão (e por isso mesmo mais charmoso, mais bonito, mais tesudo), reverenciado, desejado e suspirado pela mulherada mundo afora: o lascivo alimento dos deuses maias, astecas, incas e baianos. Quem mandou Ilhéus plantar cacau, pô! Por que será que nós damos a vida por um chocolate, hein? De onde vem esse fascínio de ter o sangue sugado das veias pelo conde Drácula? O flerte com o perigo das espinhas, da obesidade, da diabetes e, menos fatal, entretanto chato, das cáries? Depois de passar quase dois anos me afundando em barras amargas, ao leite e meio amargas, tentando ressuscitar minha mãe por meio de muitas mordidas sôfregas e dilacerantes nos crunchs, alpinos, sonhos de valsa, ouros-branco, serenatas de amor e também, sou filha de Deus, nas iguarias gou...