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Caminho interior

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Cheiro de mato intocado vem com o vento embaralha-se ao sonho da noite minha mãe sorri com dentes cavalares  o possessivo nunca é tão forte quanto o dela: minha. A arcada da filha comprova o laço indissolúvel da genética entre soluços e fantasmas.  No comum  o que nos assemelha  antes daquilo que nos afasta  Das personas-muro, cansada. Procura-se pessoas-ponte convivência  Após o dia, vem a noite ciclos vem o outono após o verão  repetição  Do universo ao humano tudo se recolhe e se expande consciência  Fragilidades como alavancas caminho interior Dar a mão às sombras e conduzi-las à luz.  Preparou o almoço acompanhada de música e de sombras. Quedaram-se as pontas dos dedos amareladas de curry .

Dezembro, enfim

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Trem bão, coisinha pacífica é se embrenhar entre as colunas de livros. As lombadas variadas em cores e espessuras embaralham a vista. Tiro os óculos, não ajuda muito. Ler com o pescoço tombado para o lado pode dar torcicolo. Melhor é retirar da estante e dar trabalho para o funcionário depois.  Os sebos da atualidade são lugares menos mofados. Há ainda os subsolos entulhados, mas agora é possível esquecer dos ponteiros, até sentar em poltronas com uma obra nas mãos como nas livrarias bacanas.  Às vezes me sento no chão do corredor para garimpar as prateleiras mais baixas.  Saio sempre com achados que serão presenteados com a oportunidade de viver em outra estante, minha ou de outrem, o fundamental é fazer a literatura arejar e reencontrar novos leitores. Assim viajava em alegre sentimento, com minha sacolinha a tiracolo quando senti algo pesado e forte me jogando abruptamente para o lado.  Era um carro em marcha ré saindo da vaga. Gritei. Culpa minha, cabecinha de ...

Atenta aos sinais

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Vazio ou Saudade? Sempre as dualidades. Não à toa Cecília Meireles escreveu um de seus poemas mais célebres exatamente sobre esse eterno dilema humano: “Ou isto ou aquilo?” Lembrei de Rômulo perguntando "mamãe, de que o Exupéry gostava mais: escrever ou pilotar aviões?" As crianças e sua maneira dual de entender o mundo. Seus “pretos nos brancos” a colocar em xeque as nossas estruturas. Pois então, entre vazio e saudade, sem dúvida a saudade me faz mais companhia. Mas não pensem que foi simples chegar a esta revelação. Mais de ano na análise e o papo com uma amiga de longa data me descortinaram da névoa que levou metade do que vivi para se dissipar. Agora, aos 54, enfim compreendi. Posso discernir a diferença entre vazio e saudade e não misturar os sentimentos que um e outra proporcionam. É como se eu tivesse feito uma cirurgia de catarata e voltasse a enxergar limpidamente. Clarear me deixou mais leve. Me tirou toneladas de dejetos do peito. Assunto recorrente na terapia era...

Crença

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A gente se tatua porque precisa mostrar ao mundo no que a gente acredita. E acredita tanto que tem a coragem de marcar a pele para sempre com a nossa crença. Você tem de ter consciência de que será uma espécie de eterno cartaz ambulante, levando, onde for, a sua mensagem perpetuada em tinta. Hora do rush na padaria. Três atendentes se espremem atrás dos caixas. A fila cresce para pedir o pão, para pagar o bolo.  Uma das funcionárias pergunta por cima do burburinho:  É um livro? Percebo que a pergunta é para mim. Ato contínuo, me dou conta da tatuagem (a gente se esquece de si mesma quando se vê todos os dias). Caramba, como ela conseguiu divisar o desenho no braço direito, estando do lado esquerdo àquela distância e naquele entra e sai de pessoas e de sacolas? Ah, sim! Faço um sinal positivo com a cabeça.  Bonita. Você é escritora? É, eu escrevo. (A gente não consegue se assumir. Falta um tantão de terapia). Só podia. E sorri. Pago meus pães e, a caminho do carro...

Voltamos para o sol

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Qual seria a distância segura entre a mulher e um homem desconhecido?  A mulher é sempre um artigo definido. O homem é incerto. Sua força-motriz guarda o instinto predador.  Mesmo na manhã límpida, um homem estranho na mesma rua tira a leveza de espírito da mulher. A dor se instala em seu coração. Parar ou prosseguir? Diminuir a marcha até que a distância se torne intransponível.  Qual seria, em passos, a inalcançabilidade? Por que a mulher não pode caminhar em quietude pela calçada de sábado quando vislumbra um homem qualquer? Antes a mulher só intuía o que lhe ocorreria se um homem alheio lhe fizesse de presa. Hoje, câmeras mostram o desespero da mulher diante do algoz.  Cenas atrozes e inesquecíveis enquanto a mulher espera que um homem de costas suma do alcance de suas vistas míopes.  O desassossego é a sombra da mulher livre.    Fui atendida por uma médica chamada Luciana. Era apenas uma consulta insípida e mecânica. Precisava de uma receita e o...

Entranhas

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O mundo anda muito pesado. De todo modo, há belezas!  O gurizinho que joga bola com o seu cão na manhã de maio, sem dúvida não há cena mais bonita hoje. Peraí, há controvérsias. Duas velhotas a caminhar, no amparo do cuidado mútuo: poema sobre afetos irretocável.  Falando nelas, as poesias, tão vastas em temas, são sublimes.  As árvores no processo de amarelecimento, unguentos.   O enorme panda se rotaciona em cambalhotas marotas a troco de quê? Prazer.  Nuvens esparsas,  adesivadas no fundo azul por uma mão sensível,  brilham. A brisa outonal cantarola cirandas, convite ao devaneio. Bancos ao relento cobertos por folhas desapegadas,  flores caídas na calçada.  As cordas da harpa dedilhadas pela fada.  Bálsamo é a serenidade matinal corriqueira para quem está de bobeira.  Uma mulher da rua, com um véu branco a descer pelo seu corpo:  nossa senhora dos mendigos.  A quase certeza de Deus.  Catarina  a menina...

Desavisado

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Ao contrário de tanta gente, ela não tem o costume de entrar no chuveiro assim que acorda. Prefere um banho noturno, relaxante, antes de dormir. Pela manhã não gosta de sacrificar minutos a mais no café-da-manhã saboreado com mais calma, geralmente sozinha, pois logo sai para o trabalho. Hoje fez diferente. Tomar uma ducha, se animar, é sexta, seu dia preferido, é Carnaval, feriadão, alguns bloquinhos, descanso ali no horizonte, desfrute. Da metade para o final da ducha, notou uma mancha no fundo da banheira ali do lado, Cinco graus de miopia, tudo que via era isso: um borrão. Nossa, está sujo, registrado. Pegou seu frasco de óleo corporal, uma mulher cremosa que não vive sem hidratação em profusão. A tampa do frasco caiu das mãos na banheira. A sujeira se mexeu. Deuses, ela se enrolou na toalha às pressas e vazou do banheiro. Ainda bem que o homem da casa ainda estava em casa. Homens da casa são imprescindíveis nesses raros momentos de covardia feminina. Olha, tem algo ali na banhei...