Parece água, mas não é


Estamos na mesma caravela

janelas abertas

nada acima além do brilhante céu

nada abaixo além do escuro abismo

Nossas velas inflam ao vento da audácia

desvendar caminhos aquosos.

Sextantes mapeiam constelações

mas temos nossa miopia a nos desviar

das correntes marítimas.

Buscamos o horizonte nas manhãs e

afora o sol aquaplanando o sal

não se divisa o seguro porto

destino almejado de todo navegante

que apenas espera pela próxima partida.





Na entrada do shopping chique, um cãozinho muito simpático. A tutora nem tanto. Não me atrevi a chegar mais perto, apenas acenei: oi, bonito! (Sem saber se tratava-se de uma bonita). Nossa tendência patriarcal de, automaticamente, pensar nos artigos masculinos.

Pelas alamedas daquela espaço gelado pelo efeito do ar-condicionado assim como pelas monótonas vitrines elegantes e caríssimas, também circulavam jovens sem graça, padronizados por uma estética de palidez, de esqualidez e de languidez angustiantes, principalmente as garotas, que pena. Como serão esses adultos insípidos, inodoros e incolores? Sacanagem compará-los com a água. Água é vitalidade. Mas os adjetivos lhes cabiam muito bem.

Lembrei-me das palavras de Isabel Allende lidas na noite anterior: “Indiana comia com prazer, embebia o pão no molho, lambia os dedos e repetia a sobremesa diante do assombro de Keller, habituado a mulheres de sua classe, para as quais a anorexia era uma virtude, e a morte, preferível ao flagelo da obesidade. Os ossos dos ricos ficam expostos.”*

Aquelas pessoas no shopping eram a imagem do texto. Cansei-me rápido. Nunca gostei destes paraísos artificiais. Foi apenas o tempo para comprar um presente e me dirigir à mesma entrada para fugir dali.

Eis que o cachorrinho irresistível ainda estava lá, comportado, mas havia um adolescente ao seu lado. Resolvi me aproximar.

Que fofo! Ou é fofa?

É fofo!
Acarinhava sua cabecinha branca, o pelo havia sido tosado.
Qual é o nome dele?
Minas Gerais.
Uau, que original!
É o nome do estado que ele foi resgatado.
Ah, Minas Gerais é maravilhoso. Um dos meus estados favoritos.

Saí menos triste daquele antro de desperdício anímico, refletindo que os nomes dos animais estão cada dia mais engenhosos, não? Semana passada descobri uma cachorrinha chamada Luciana. Luciana! Meu nome saiu de moda entre os humanos e agora pode viralizar entre os pets. Não achei ruim, apenas engraçado.

Talvez esteja ficando uma velhinha descrente desta humanidade que humaniza bichos na medida em que se desumaniza.

Ê, Minas Gerais, ê, Minas Gerais, quem lhe conhece não esquece jamais”…

*trecho do livro “O Jogo de Ripper”, de Isabel Allende


Comentários

  1. Muito interessante. Parabéns.

    Maria da Penha

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  2. Adorei o texto Lu 🤗 sinto muito tb essa desumanização da humanidade…bem como vc descreve das figuras que transitam por esses espaços chamados shoppings, que tb não curto nem um pouco , agora então, menos ainda depois de estar morando já há sete anos na roça , e onde?!?! Minas Gerais 💜
    Cynthia🙏🥰🪷

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