Vernáculos
(Palavras voam, o que está escrito permanece)
Desde ontem palavras estranhas me assaltam: modorrentas, acabrunhamento, demasia, arvorar-se. Decidem vir à tona sem que eu as procure. De algum recôndito (outra estranheza) estão cansadas do ostracismo (haha, mais uma) e procuram a luz da superfície, demandando o seu uso. Ah, o Português…
Lembrei de um dia em que falei peculiar e unique numa conversa em inglês. Acharam que eu era versada na língua, muito culta, indeed.
Os norte-americanos, em geral, não têm noção do latim na própria língua. Menos do que a gente, que deveria ter aulas do idioma morto-vivo, pois ainda somos assombrados pela presença espectral do latim no nosso dia-a-dia, do Direito à Arte e à Biologia. Afinal, ele, junto com o grego, são as mais importantes línguas clássicas do Ocidente.
Por exemplo: na prática de canto coral, se entoa belas missas em latim. Confesso que são as que mais gosto de pronunciar: benedictus, pacem, ora pro nobis, ventris fructus, agnus Dei, inmulieribus… Misteriosas sonoridades, poesia no ler e no pronunciar.
Não que precisássemos regredir para cultos que ninguém entendia, mas não seria de todo desagradável aprender um pouco mais deste léxico-fundador dramático, de profundis.
Os Lusíadas, saga inaugural da nossa identidade linguística, foi traduzido parcialmente para o latim (Cantos I e IV), por volta de 1675, pois o latim era, nesta época, o idioma internacional europeu, praticado pelos eruditos e utilizado também para fins diplomáticos. E foi em latim que o mitológico poeta romano Virgílio compôs a sua epopeia heroica, a Eneida.
Entretanto, foi o latim vulgar (não de grosseiro, mas de comum), a modalidade coloquial e popular falada no dia-a-dia pelos habitantes do Império Romano, que evoluiu e originou as línguas românicas, incluindo o português, o francês, o italiano e o espanhol.
E agora me pego pensando que meu filho se chamar Rômulo acaba sendo uma bonita homenagem ao latim. Um parêntesis curioso: conheci um Físico italiano que nos disse que o nome Rômulo (que lá é Rómolo) é raro na sua terra natal. Uma surpresa para mim.
Às vezes penso que deveria ter me formado em Letras para ir a fundo, mas eu gosto mesmo é de nadar no raso, sem mergulhar, deambulando filosofias sem compromisso. Como disse Clarice numa de suas inúmeras famosas elucubrações, também não quero ser profissional. Como amadora, não perco a liberdade de escrever coisinhas à toa.
Só sei que eu toparia resgatar o latim do papel tumular-eclesiástico-botânico. E você?
"Omnia aliena sunt, tempus tantum nostrum est"
("Todas as coisas são dos outros, só o tempo é nosso" - Sênica)
Quando atravesso a cidade
é ela que me atravessa.A limpidez do outono incide
sobre o traçado retilíneo. É tudo exato.
Tudo expandido pelo vento
que entranha o corpo e
chama os galhos para uma dança-mantra.
Folhas bailam em rodopio eufórico
como os longos cabelos da moça
que espera para cruzar o Eixo W
desta capital rígida
em forma
fluida em horizontes.


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Adorei o texto. Bonito e esclarecedor.
ResponderExcluirAdooooro! 🥰
ResponderExcluirSabe, sempre achei que o mínimo de conhecimento do latim traria um grande domínio da língua portuguesa e de outras línguas de origem Latina, o difícil é você achar que ensine.
ResponderExcluirMatéria restrita a algumas poucas universidades.
Então como advogada, me restou os verbetes em latim do direito...
Cristina
Eu, ao contrário de você, não gosto de latim… Kkkk!! Mas gosto de ouvir latim, acho bonito. 🤩
ResponderExcluirLuciene Miranda
Estou levando hj ora-pro-bis na salada😁
ResponderExcluirMaria de Fátima
Texto lindo!
ResponderExcluirParabéns, Lu 👏🏻👏🏻👏🏻
Virgínia Pozzatto
Não há nada mais belo do que ver uma escritora fazer da própria língua uma obra de arte ao falar sobre ela mesma …👏🤩
ResponderExcluirAndriano Schulc
Bonita crônica, lindo poema.
ResponderExcluirEu achei este texto muito Machadiano! Adorei!
ResponderExcluirBianca
Muito esclarecedora sua crônica Lu, e belo poema🙏🥰
ResponderExcluirCynthia
Oi Lulu, tão linda a poesia desse post! Amei! Entre ontem e hoje lembrei de vc três vezes ao me deparar com os seguintes nomes: Terranea, Celijane e Jeniere... podiam ser da mesma familia né?🙂🙃😀
ResponderExcluirAndréa Bolzon
Lulu, Regis um dia escreveu grande em um papel pra mim a frase "Repetitio mater studiorum" , "Repetição mãe da aprendizagem" . Depois que ele faleceu, eu coloquei em uma moldurinha aqui em casa e tirei cópias para deixar com algumas pessoas também ☺️
ResponderExcluirClarice Veras
Bom dia. Obrigado pela sua erudição e dica de culto ao redivivo latim. Eu o estudei na infância e na adolescência, mas a maturidade o esvaiu fruta que caiu.
ResponderExcluirProf. Luiz Martins
É, querida Luciana, nos tempos de escola de minha saudosa mãe, estudava-se latim!!
ResponderExcluirEu, cheguei a estudar francês, em escola pública!!
Porém, hoje, "estuda-se" inglês. E, ainda, muito superficialmente.
Beijo,
Paulo Magno