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Não seja por isso

Sei que as pessoas estão pulando na jugular uma das outras. Sei que viver está cada dia mais dificultoso. Mas de novo vos digo: sejamos delicados. E, se necessário for, cruelmente delicados (Affonso Romano de Sant’Anna) Talvez não seja o momento mais adequado, quando o país pega fogo literalmente. Esse clima selvagem, com a seca a maltratar nossos corpos de norte a sul. Acho que nunca vi o Brasil sofrer tanto com a estiagem. O fim dos tempos parece cada dia mais palpável. Nossos desmandos contra a natureza também. Mas o que mais me aflige atualmente, apesar de estar rogando a Deus como uma sertaneja pra chuva cair nesse sertão, é a indelicadeza sistematicamente crescente das pessoas. Não sou a única a perceber tal fenômeno atmosférico, ainda bem. Sinto em alguns textos (e em alguns incautos) a preocupação em resgatar o que há de humano na espécie. De quando em quando, a gente vê um adesivo no carro que pede gentileza. Uma crônica que nos faz sonhar, um obrigado desavisado, um ...

“Aquele que não deve ser nomeado”

Li numa manchete de O Globo que a campanha eleitoral 2010 não está empolgando a classe artística e nem as celebridades. Por acaso está animando alguém? Desde que vivemos nessa democracia do voto popular, que não é lá muito democrática - se pensamos na obrigatoriedade de sair de casa para eleger representantes que acabam não nos representando - eu não sentia tanto desprazer por uma eleição. Bons tempos aqueles em que, com cara pintada e faixa na mão, fomos para a frente do Congresso Nacional pedir o impeachment de Collor. Também fomos para a porta da mansão dele xingar com a paixão da juventude que estava se firmando como cidadã. Linda passagem da vida também aquela da primeira posse de Lula, a Esplanada coberta de povo. O choro incontido de eleger um presidente pra chamar de nosso. Bandeiras agitadas, abraços nacionalistas. O Brasil todo embalado numa esperança fervorosa. Também não me esqueço do voto orgulhoso para Cristovam Buarque. Lá estava eu na porta da residência de Águas Cl...

Louca por tempestades

Você já experimentou a velhice chegando a galope na sua vida? Que pergunta mais besta. Quem é que deseja uma coisa dessas? Mas às vezes é involuntário. Acontece. Eu não queria, juro, mas fui obrigada. Uma pseudogripe não me abandonava há mais de mês. Decidi, pela primeira vez, procurar um otorrinolaringologista. Dor de garganta não faz parte do meu histórico médico. Ainda bem. Minhas amígdalas não foram extirpadas como foram de tantos da minha geração. Não pude tomar potes de sorvete para me recuperar da cirurgia, tratamento que me dava uma inveja daquelas. Mas eis que o meu ouvido direito começou a doer no meio da madrugada. Agosto em Brasília é mesmo um tour de force. Deveriam dar férias coletivas para toda a população. As aulas retornando somente “quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos”, ou seja, naquele momento em que a chuva, tão sumida, tão querida, retornasse para a salvação das vias aéreas superiores dos habitantes desse não regadio planalto central. Então e...

Para vencer o concreto de Niemeyer

Canta, canta passarinho, canta, canta miudinho; Na palma da minha mão Quero ver você voando, quero ouvir você cantando; Quero paz no coração Quero ver você voando, quero ouvir você cantando; Na palma da minha mão (Geraldo Azevedo) Ele aparece escondido entre os arbustos, piando alto. Sua cabeça listrada de cinza e preto surge em meio ao verde vivo. “Olha aí, já está pedindo comida”, explica Roberto Teixeira Barbosa, 45 anos, segurança do Superior Tribunal de Justiça há 18 anos. Essa rotina se repete há mais de seis anos na portaria lateral do edifício Ministros I: passarinhos de várias espécies fazem do lugar um porto-seguro para procriação e alimentação graças ao talento de Roberto para interagir com os bichinhos. Roberto estala a língua e de repente já são dois tico-ticos. Ressabiada, a dupla vai se aproximando do pedaço de pão até dar a primeira bicada. Depois, é só alegria. “Eu comecei a conversar com eles, a chamá-los de nego... Eles foram chegando, chegando... Todo dia e...

Sem peso nem medida

Eduquemos os adultos de hoje, e teremos as crianças do amanhã. Pitágoras O pediatra dos meus filhos estava desconsolado. Comentava comigo que o maior problema enfrentado no consultório ultimamente era a permissividade dos pais. “As crianças dormem tarde, mandam na casa, os pais não têm tempo para viver a vida a dois, os meninos perdem horas importantes de desenvolvimento”. Com certeza ele sabe do que fala. Tenho uma amiga que reclama não ter mais controle sobre o controle remoto: “A gente não consegue ver mais nenhum filme. São dez da noite e ela ainda acordada”. Informação importante: a filha da minha amiga acabou de completar três anos. Três anos e tiranizando os pais. Que fenômeno maluco é esse que roubou a autoridade dos mais velhos? De uns anos pra cá parece que papais e mamães tomaram água envenenada com o pó da omissão. Ou terá sido leitura em demasia? “Como criar meninos”, “Como criar meninas”... Excesso de informações criou deseducação, embaralhou o pensamento. Ninguém m...

Fotogramas

Se a vida não faz sentido por que é que morrer haveria de fazer? Arnaldo Antunes e Nando Reis Tenho mania de rever trechos de filmes ao acaso. Não importa se são do início, do meio ou do fim. A ordem dos fatores não altera o produto, já dizia irmã Servácia, a professora de matemática da quinta série. Só existe uma única regra para o meu passatempo: não vale pegar pedaço de filme que eu já não tenha visto integralmente. Cinéfilos não devem estragar o prazer do ineditismo por causa de alguns minutos. Meu marido acha que não bato bem porque vejo filmes em pedacinhos. A questão é que ele não capta o deleite dessa prática. Rever, rever e rever uma película que agrada a gente é o mesmo que bebericar o mesmo bom vinho em várias oportunidades diferentes. Ou desfrutar daquele tipo de bombom preferido sempre que tiver uma chance. Não dá para deixar passar, entende? Com o advento da TV a cabo, cultivar esse tipo de maluquice ficou ainda mais fácil. Na época do videocassete, era um tal de ap...

Hexadivagações

Veja bem. Quando a gente engata com essa, não se iluda: vem encrenca. Eu tive uma chefe que amava o tal do veja bem. Em seguida, ferrava a gente, desculpe o trocadilho em ano de Copa, de verde e amarelo. Falando nas nossas cores mais emblemáticas, o que deu na cabeça daquele paspalho do Alexandre Herchcovitch ao afirmar que acha essa combinação cromática “pavorosa”? O cara tá ficando mais rico com o modelo Dunga desfilando casaco de marinheiro da marca dele e tem coragem de ficar cuspindo na bandeira do país que compra as coisas que ele inventa? Eu avisei: o veja bem não tem boa fama. Mas, veja bem. Eu escrevo esse texto numa quinta-feira e o jogo da verdade ainda demora 24 horas para acontecer. Não sei se o Brasil vai passar da Holanda, porque esse é o primeiro jogo de fato que vamos jogar nessa Copa. Mas eu torço, claro, para que façamos aquela final tão sonhada: Tupiniquins x Hermanos. É ou não é o desejo enrustido de todos nós? Sei que o risco de ter de engolir Maradona, o deus c...