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“Museu de grandes novidades”

Ultimamente, os versos de Cazuza em “O tempo não para” não me saem da cabeça. Acho que nunca uma música foi tão atual como essa, o que prova o poder do artista como sensível observador da sociedade. Sei que há muita gente que odeia Cazuza. Já recebi emails ofensivos sobre o compositor, citando que o cara era filhinho de papai, drogado, gay, promíscuo. “Se assim não fosse, não teria morrido de Aids, a doença dos perdidos”. Mas, na verdade, o que temos a ver com isso? E daí se a vida dele foi o que foi? O que importa é o valor do cara como artista. E como artista ele é mágico, versátil, inteligente. Assim como outros tantos gênios criativos que também morreram drogados, prostituídos e muitas vezes incompreendidos. Nestas férias rolou uma discussão entre a galera que estava compartilhando a casa de praia: quem foi o grande poeta do rock brasileiro? Cazuza ou Renato Russo? Meu marido votou no Renato, o amigo dele em Cazuza. Eu fiquei, digamos, dividida. Aliás, sem ter conhecimento técn...

Era pra ser uma manhã como as outras

Ela sai da cama na marra. Não, ela não é dorminhoca, pelo contrário. Inveja os que avançam pelo sono durante a manhã. Mas ela precisa. É hora de começar uma rotina de caos: aprontar dois meninos e ela própria para a lida do dia. Colégio, trabalho, café da manhã, lanche, uniforme, choro, chateação, escovar os dentes, lavar as mãos, colocar tênis, trocar o cocô do mais novo, que ignora o vaso sanitário, gotinhas homeopáticas... Ela pensa: um dia terá saudade de tudo isso? Tudo isso é realmente inesquecível? Ou traumático? Não cansa de achar que tem algo errado com a ordem do universo...Por que as mulheres inventaram esta tal emancipação?... A grana no fim do mês é boa, mas fazendo as corretas deduções emocionais, não há lucro. Perda no mais das vezes. Empate se o parceiro for humano o bastante para saber que o fardo precisa ser compartilhado. Não são nem oito horas e parece que o dia está na metade. Ela sai pela porta esbaforida, quase descabelada, cheia de coisas nas mãos: chaves do...

Ilha Paviloche

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Florianópolis tem praias e recantos para todos os gostos e bolsos e isto não é clichê. Eu sei que vocês já devem ter lido esta mesma frase em alguma matéria de revista de viagem, mas não pude evitar a exata constatação. Santo Antônio de Lisboa Tem argentino brotando da terra como erva daninha também. Em Canasvieiras, uma grande feira do Paraguai, ops, da Argentina a gente não sabe se existem mais quinquilharias para abarrotar os turistas ou argentinos a gritar pelas calçadas em bandos, como gralhas tostadas pelo sol. Comecei a pensar que o estrangeiro ali era eu e que estava nas férias erradas. Não sou xenófoba, já escrevi esta sentença aqui também (acho que hoje estou muito repetitiva), mas seria um tantinho legal se a prefeitura de Floripa ou a secretaria do meio ambiente e turismo fizesse uma campanha a cada verão com o tema: “Salvem as areias finas e brancas das praias catarinenses dos tocos de cigarro!!!!” Argentinos...êta povo que fuma! E depois espalha seu vício por to...

Verborragia sem pedir licença ou “Para não acharem que sou só frivolidades”

Quando querem transformar dignidade em doença, quando querem transformar inteligência em traição, quando querem transformar estupidez em recompensa, quando querem transformar esperança em maldição: é o bem contra o mal, e você de que lado está? Legião Urbana Falar em ética jornalística, ética médica, ética política é reduzir o conceito ético e permitir, algumas vezes, condutas um tanto reprováveis em nome da classe, da corporação, do grupo. Por isso não acredito em tipos de ética. O valor-ética, o padrão-ética, a postura ética é uma só, pois esse é um conceito que faz parte do âmago da vida social. Se não fôssemos humanos, se não nos organizássemos em comunidades, não haveria a necessidade de conduzir nossas ações pelo viés moral da ética. É lógico, e vivenciamos isso todos os dias, que o fato de vivermos em sociedade não nos impede de sermos antiéticos o tempo todo. É quando a força fala mais alto. A força política, jornalística, médica que surge quando usamos o poder de coerção, ...

Pé de pato, mangalô, três vezes

“bailam corujas, pirilampos, entre os sacis e as fadas e lá no fundo azul na noite da floresta, a lua iluminou a dança, a roda, a festa..” João Ricardo e Luli Via o prazo final para o envio do texto se esgotar e continuava no vácuo criativo. Escrever sobre o quê? Se pelo menos eu fosse uma versão feminina do Veríssimo e soubesse imprimir humor e reflexão nos assuntos mais sem graça, estaria salva. Aí, de repente, abro minha caixa de mensagens e encontro um recado da amiga paulistana: “Halloween é o cacete/Viva a cultura nacional”. Pronto, num passe de mágica típico das fadas, o tema se apresentou. Primeiro levei um pequeno susto, afinal esta minha cara companheira de estrada é das pessoas mais finas que eu conheço. Eu acho que nunca a vi xingando ninguém. Mas também sei o quanto ela é brava com a história do halloween . Ela vive promovendo o Dia do Saci e uma das óperas favoritas dela é, claro, “O Guarani”, do nosso Carlos Gomes. Mas brigar contra o Dia das Bruxas não é uma brig...

Divagações em sol maior

A música de Villa-Lobos é cachoeira, passarada, é céu azul em sol nascente, é noite de lua nova e  estrelas, é floresta e cerrado, é princípio sem fim de um enorme desejo de encontrar no canto a nossa redenção. Fabiano Canosa Passei dez dias no eixo Rio e São Paulo. Foi a segunda vez que curti esta experiência: sair de Sampa rumo à cidade maravilhosa. É interessante enxergar as diferenças gritantes entre as duas maiores metrópoles brasileiras, pois elas ultrapassam, é óbvio, as paisagens urbanas diversas de cada uma. Acho que a praia dá mesmo uma leveza ao Rio que é impossível encontrar em São Paulo. Em compensação, não encontramos em São Paulo tanta gente disposta a passar a perna na gente quanto no Rio. Xi, agora ferrou! Os cariocas vão me linchar em praça pública. E olha que eu nem uso minissaia e não existe filminho de transa minha circulando na internet (eu acho), ou seja, ainda posso ser considerada uma moça de “boa família”. Mas a malemolência do Rio realmente frustra....

Fernanda de Beauvoir

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Eis que passa por mim, com sua simples altivez, a estupenda Fernanda Montenegro. Quase engasgo com o meu sanduíche de peito de peru, mussarela de búfala e saladinha. Quase vou lá tietar. Mas um flash de sensatez me deixou sentada onde estava, num café do boçal shopping Fashion Mall (com este nome já diz tudo). Esperava justamente ela, mas não ali nos corredores, como uma vovó elegante olhando as vitrines. Daqui a meia hora estaria de frente para a maior artista viva do país em “ Viver sem tempos mortos ”. Foi deveras interessante perceber o quanto Fernanda é mesmo uma deusa do Olimpo das artes. Este encontro inesperado no corredor do shopping deu a prova definitiva de que não é preciso quase nada para alguém talentoso operar o milagre de se transformar em outra pessoa. O santo baixa em mínimas sutilezas. No tablado ela estava com a mesma camisa branca de gola que vestia ao passear pelo shopping. O que ela fez foi sentar numa cadeira, tirar os óculos de armação negra e prender o cabe...