Ares rurais
Luciana pé de cana poderia ser apenas rima de efeito jocoso ou efetiva constatação do descontrole com bebidas alcóolicas. Mas acontece que eu sou mesmo pé de cana. Caiana, de preferência.
No Brasil, até o século XIX, a cana-de-açúcar utilizada para fabricar rapadura era a Crioula. Depois, veio a Caiana, que é mais resistente a pragas, e, posteriormente, surgiram inúmeras variedades como a Cana Rosa, Fita, Bambu, Carangola, Cabocla, Preta, entre outras.
O fato é que eu não sei qual é a cana que consigo comprar para consumo próprio. Sabemos pouco sobre esta fruta. Seria fruta? Não, não é. Acreditem, mas a cana-de-açúcar é classificada como uma gramínea. Agora sim entendo melhor: chupar cana demanda uma certa ruminação. Vaquinha. Hahaha.
Com origem na Papua-Nova Guiné, essa grama tropical perene, aqui no Brasil, está mais relacionada à produção de etanol para alimentar veículos e, claro, à fabricação de açúcar, além da tradicional garapa de feira, que também não dispenso.
Entretanto, amo chupar cana. É um ritual iniciado na infância, literalmente pelas mãos de minha mãe. Pensa num hábito arraigado no proto sentimento do amor nutricional. Por óbvio que também transmiti aos meus filhos.
Sei que boa parte dos brasileiros não está nem aí para ela ou simplesmente desgosta. Porém aposto que se tivesse a oportunidade de morder, triturar e mastigar um pedaço de cana na doçura certa, iria se apaixonar.
Claro que ter crescido na roça facilitou meu contato precoce com a iguaria. Quem é da cidade não encontra cana cortadinha em qualquer mercado ou frutaria.
Mamãe pegava o facão afiado, ia até a touceira no fundo da casa (houve época em que havia uma pequena plantação que garantia melado, rapadura e bagaço para o gado e os poucos cavalos), trazia aquela vara roliça, espigada debaixo do braço e sentava-se na mureta da varanda para descascar. Eu ali do lado, passarinho de boquita aberta.
Era preciso uma força rude a fim de desnudar a cana, objeto do desejo um tanto primitivo, que se faz de difícil. Mas a alegria da suculência que invade a boca vale o esforço bruto. Mamãe tinha as manhas e rapidamente cortava os tarugos em quatro pedaços menores, suficientes para que pudesse caber entre os dentes.
Chupar cana até doer as mandíbulas. Não demora muito, é verdade. A degustação exige dentes firmes, quase uma mordida de crocodilo do Nilo. Exagero, mas não deixa de ser uma ação que nos aproxima do que temos de primatas. Arrancar o sumo sem moagem é selvagem, tarefa nada sutil. Por isso é mais apropriado que se faça no espaço íntimo e familiar para que não nos vejam como neandertais à mesa.
Atualmente encontro pedaços de cana cortados e embalados numa quitanda aqui perto de casa ou na feirinha da Ponta Norte. Nunca resisto. Talvez ainda plante minha própria touceira no quintal. Seria uma terna volta aos ares rurais.
Dia desses, passava quatro embalagens de cana (impossível comer uma só) na caixa registradora, quando uma senhora que deveria ter a idade de mamãe, se viva fosse, brilhou os olhinhos:
É cana?
Sim!
Que delícia! Mas tem de mastigar assim, né??? E levou um pedaço imaginário à boca.
Vi que se retraiu de imediato, ressentindo a falta de juventude dentária para tal feito. Por suposto que vou seguir indo ao dentista com regularidade anual apenas com o intuito de manter a arcada feroz calibrada no ponto certo para atacar de engenho.

Hahaha. Adoro cana, responsável pelo meu primeiro implante!🤦🏼♀️
ResponderExcluirMaria de Fátima
Adorei o texto. Lembrei também de quando minha mãe ou meu pai tiravam a casca da cana para comermos.
ResponderExcluirHoje devido à diabetes tenho que pegar leve com cana-de-açúcar, mas não me furto de ir à feira de vez em quando aos sábados e comer um pastel com caldo de cana.
Aqui eles vendem caldo de cana misturado com abacaxi, com hortelã e ao natural é claro.
Mas é claro que não é tão doce quanto as memórias de ficar na calçada mastigando um pedaço de cana.
Obs: fui pesquisar aqui. A cana mais utilizada para o caldo de cana é a cana Caiana mesmo. E para comer é a cana Manteiga.
Nelson Reis
Também chupei muita cana por esse interiorzão de São Paulo. Foi lá pelos meus 8 anos até os 11.Passava minhas férias numa fazenda em Lençóis Paulista, era uma Usina de açúcar. Passeávamos de carroça pelo meio do canavial.Aquele cheiro de açúcar no ar me fazia sonhar com lugares tipo Alice no país das maravilhas🌈
ResponderExcluirAnnie Ruiz
Amo! 😍
ResponderExcluirUm afago no coração esse texto! O que não deixa de ser surpreendente já que morro de agonia da textura da mordida direta na cana. Kkkkkana!
ResponderExcluirÉ que, ao contrário daquela mordida, o sentimento do texto é tão reconfortante!
Mariana Malardi
🤭🤣🤣não consigo chupar cana🤭🤭🫣
ResponderExcluirArrepio inteiraaaaa!
Djelaine
Cresci na cidade, sem nenhum contato com a roça e chupei cana. Desse jeitinho aí q vc relatou no texto: já cortada e embalada kkkk amo!
ResponderExcluirAna Claudia
Adorei!!👏🏻🫶🏻
ResponderExcluirChupar cana e assoviar é difícil!!
"...Agora sim entendo melhor: chupar cana demanda uma certa ruminação. Vaquinha. Hahaha."
😂😂😂😂
Um final muito fofo!🥰
Cris
Luciana, prox vez que eu for passear em Bsb vc me leva comprar esses saquinhos! Por aqui em SP vc sabe que eu instituí pro Rômulo e Tômiko irem na feira de Qui.f na esquina deles comer pastel de carne com ovo e tomar caldo de cana… Agora vc não sabe que em Israel qdo fomos jantar na casa do ator etíope judeu, já saindo no buio da noite, a minha anfitriã se apoiou e descobriu pelo tato que era cana de açúcar crescendo ao lado do portão da entrada! Ele logo pegou o facão e cortou dois canudos pra gente levar - acabei descascando com faquinha feito a gente apontava lápis com estilete na escola, pra cortar uns palitinhos pra minha anfitriã chupar kkkk
ResponderExcluir@Ratzers
Ameeeei 🤩🤩🤩
ResponderExcluirQue assunto importante! Difícil achar alguém pra compartilhar 😍
Adoramos lá em casa. Só peguei leve quando quebrei um dente 😭 agora tenho medo de chupar cana .
Caiana! 😊 Docinha e macia
Só dá pra descascar na roça. Faz uma sujeira no chão kkkk
Karla Liparizzi
Aqui em casa sempre tinha. Não sei onde meu pai arranjava. Eu sabia descascar. Hoje não me atreveria.
ResponderExcluirPastel e caldo de cana. Não posso mais mas lembro com saudade.
ResponderExcluirAdorava na infância e na pré adolescência! Não vejo mais... Seu texto é lindo e me lembrou o Alceu Valença "morena tropicana caldo de cana caiana, eu vou te desfrutar..."
ResponderExcluirCecília Borges
Maravilhoso Lú!!
ResponderExcluirInspirado, um resgate de memória afetivo/gustativa, muito bem humorado, hilariante, delicioso como o prazer de mastigar a cana e sentir o seu caldo descer redondo pela boca e garganta...
Mas, infelizmente não posso mais mascar cana.
A última vez, provocou um desvio maxilar (DTM - DISTÚBIO TÊMPORO MANDIBULAR).
Agora só caldo de cana, como os desdentados, kkk
Marilena Holanda
Adoro a forma como voce se expressa, Lu. Parece que estou falando contigo.
ResponderExcluirUm beijo muito carinhoso 💐🥰❤️
Biva
Sem dúvida um texto muito "gostoso". E claro me trazendo memórias de infância.....minha avó paterna tinha uma engenhoca de moer cana....a criançada empurrava....da garapa saía marmelada, goiabada, açúcar que ela branqueava ao sol, melado, rapadura...
ResponderExcluirVera
Texto saborosíssimo Lu, 😋apesar de ser criada no RJ chupei muita cana na minha infância…e agora no tour que fiz pelo nordeste, passei por muitos canaviais e cruzei com caminhões carregados de cana para produção do etanol, achei interessante a coincidência com o tema do seu texto🙏😘🪷
ResponderExcluirCynthia
Lindo e interessante o seu texto.Foi buscado longe minhas lembranças de infância, Parabéns’!!! 🙏
ResponderExcluirDelícia chupar cana... Faz tanto tempo... Não tenho mais saúde bucal pra isso ... Triste... 3 implantes por enquanto.
ResponderExcluirRenata Assumpção