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Nefologia

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Enquanto o urubu esquenta suas asas ao sol é sexta. Saberá do melhor dia da semana ao, com malemolência, se exibir no alto do poste alas abertas flanco exposto sempre nos melhores postos de observação? Ciente ele estará da podridão do mundo ao ser exímio lixeiro das carniças animais? O urubu sente o calor da manhã indiferente ao clamor dos sentimentos humanos esses seres que chafurdam nas próprias misérias e os consideram um bicho agourento. Se a ele coubesse tais contradições daria de asas e seguiria abaixo da altostratus   entre térmicas a evoluir sobre a ignorância da espécie autoproclamada sapiens. Asas são riscos palavras no céu. Cruzam as folhas sem pauta  das nuvens preto voo A leveza toma o coração na esquadra de biguás, na arruaça das araras na elegância das garças helvéticas ideogramas suaves. Caligrafia imaculada. Prefiro céu com nuvens. Cores absolutas não dão trégua A imperfeição apazigua, o tom estourado não. Os alvos flocos desiguais dão margem a releitur...

Ares rurais

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Luciana pé de cana poderia ser apenas rima de efeito jocoso ou efetiva constatação do descontrole com bebidas alcóolicas. Mas acontece que eu sou mesmo pé de cana. Caiana, de preferência. No Brasil, até o século XIX, a cana-de-açúcar utilizada para fabricar rapadura era a Crioula. Depois, veio a Caiana, que é mais resistente a pragas, e, posteriormente, surgiram inúmeras variedades como a Cana Rosa, Fita, Bambu, Carangola, Cabocla, Preta, entre outras. O fato é que eu não sei qual é a cana que consigo comprar para consumo próprio. Sabemos pouco sobre esta fruta. Seria fruta? Não, não é. Acreditem, mas a cana-de-açúcar é classificada como uma gramínea. Agora sim entendo melhor: chupar cana demanda uma certa ruminação. Vaquinha. Hahaha. Com origem na Papua-Nova Guiné, essa grama tropical perene, aqui no Brasil, está mais relacionada à produção de etanol para alimentar veículos e, claro, à fabricação de açúcar, além da tradicional garapa de feira, que também não dispenso. Entretanto, am...

Antes que janeiro termine

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Pare, olhe, escute. como se esperasse o trem. Desligue o motor do carro, da mente,  do celular. Aguarde.  Ouça o deslize das nuvens.  Precisa silêncio de peso para notar a leveza. Stop como os americanos para não levar multa.  Pise no freio e mire lentamente para os lados, para o alto, para além.  Suspire.  Não corra. Não morra antes de viver.  algo incomoda. um cílio na retina pedrisco no sapato. Incomoda a janela daquela casa  sempre fechada. o silêncio do abandono. a loucura do incompreendido.  Algo. A indefinição incomoda.  Um não sei quê um trem sem Minas uma coisa um enrosco sufoco inominável pagão sem certidão incomoda. Alguma falta nenhuma presença entre um vão e um degrau Incomoda a inércia. A letárgica agonia incomoda o pleno nada a vida plana insidiosa  insossa vaga acomodada incomoda. Entrei numa de Vanessa da Mata: tomei um banho de chuva, aliás, um temporal de verão. No início rola um certo desconforto, o frio dos pr...