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Mostrando postagens de fevereiro, 2026

Verão Pluviométrico

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Lírica, sem pressa a garoa umedece a rua Lenta maestosa  sutileza da natureza. Olhares trocam notas jocosos, fios de cabelo desafinam nos andantes rápidos, expressivos. Nada ordinária fina e gélida chuva rara. Noite em que o céu canta pianíssimo. O vazio do ninho na casa de um músico é duplamente desabitado. Pois a música, em si, é outro corpo, mais material do que o próprio instrumentista. O som do instrumento ocupa todos os espaços, reverbera em todas as paredes, entra involuntariamente pelos ouvidos de quem ali está. É uma presença sólida, maciça, quase uma personificação. É impossível ignorar sua estatura. Espectros dos grandes mestres vêm abençoar as mãos do jovem artista, que perpetua as lições centenárias. Muita energia, vários fantasmas povoam os ambientes, auras melodiosas. E quando o músico não está em exaustivos estudos, lava a louça ou toma banho ouvindo suas escolhas: Bach, Beethoven, Rachmaninoff, Mozart, Egar. Até à piscina não falta uma cantata ou ópera. Palestrin...

Nefologia

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Enquanto o urubu esquenta suas asas ao sol é sexta. Saberá do melhor dia da semana ao, com malemolência, se exibir no alto do poste alas abertas flanco exposto sempre nos melhores postos de observação? Ciente ele estará da podridão do mundo ao ser exímio lixeiro das carniças animais? O urubu sente o calor da manhã indiferente ao clamor dos sentimentos humanos esses seres que chafurdam nas próprias misérias e os consideram um bicho agourento. Se a ele coubesse tais contradições daria de asas e seguiria abaixo da altostratus   entre térmicas a evoluir sobre a ignorância da espécie autoproclamada sapiens. Asas são riscos palavras no céu. Cruzam as folhas sem pauta  das nuvens preto voo A leveza toma o coração na esquadra de biguás, na arruaça das araras na elegância das garças helvéticas ideogramas suaves. Caligrafia imaculada. Prefiro céu com nuvens. Cores absolutas não dão trégua A imperfeição apazigua, o tom estourado não. Os alvos flocos desiguais dão margem a releitur...

Ares rurais

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Luciana pé de cana poderia ser apenas rima de efeito jocoso ou efetiva constatação do descontrole com bebidas alcóolicas. Mas acontece que eu sou mesmo pé de cana. Caiana, de preferência. No Brasil, até o século XIX, a cana-de-açúcar utilizada para fabricar rapadura era a Crioula. Depois, veio a Caiana, que é mais resistente a pragas, e, posteriormente, surgiram inúmeras variedades como a Cana Rosa, Fita, Bambu, Carangola, Cabocla, Preta, entre outras. O fato é que eu não sei qual é a cana que consigo comprar para consumo próprio. Sabemos pouco sobre esta fruta. Seria fruta? Não, não é. Acreditem, mas a cana-de-açúcar é classificada como uma gramínea. Agora sim entendo melhor: chupar cana demanda uma certa ruminação. Vaquinha. Hahaha. Com origem na Papua-Nova Guiné, essa grama tropical perene, aqui no Brasil, está mais relacionada à produção de etanol para alimentar veículos e, claro, à fabricação de açúcar, além da tradicional garapa de feira, que também não dispenso. Entretanto, am...