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Intercursos

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  Cansada das minhas limitações. Você também, eu sei. Na caminhada de ontem, a música que abria a playlist Release Radar , do Spotify se chamava “Demoro a dormir”, do rapper Djonga, com participação especial do Milton Nascimento. Nunca ouvira antes. O legal destas listas aleatórias - pero no mucho - do aplicativo é justamente lhe obrigar a escutar algo que de outro modo você jamais selecionaria. Não curto muito rap e afins, apesar de alguns serem ótimos como este. Mas a voz do Bituca, a princípio, é quase irreconhecível. É um esgar, um fiapo. Comoveu por tudo o que ele representa para a minha vida e para a MPB. Abaixo de um sol impertinente, quis chorar. Aliás, voltei aos níveis de choro de uma boa pisciana descompensada. Tudo me leva às lágrimas ultimamente. Porém, segui firme nas passadas e resolvi prestar atenção na letra, poderosa, idealista, fodida mesmo. O choro virou revolução mental. Digo tudo isso porque na noite anterior, sábado, tinha conferido um pocket show com um...

Overdose

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One of these mornings You're gonna rise, rise up singing You're gonna spread your wings Child, and take, take to the sky Lord, the sky... (Summertime/Janis Joplin)  Acordei entre "Nostradamus", de Dusek e "O Tempo não para", de Cazuza. Abri os olhos e minha cama estava cheia de gatos e minhas ideias não correspondiam aos fatos. Me senti no fim do mundo como antes fora. O sonho misturou Índia com Harry Potter. Nem sequer os cogumelos do amigo, que mastiguei macerados ao mel num longínquo domingo, me deram delírio igual. Penso que talvez tenha tido uma overdose emocional. Até que foi divertido participar daquela alucinação onírica. Fazia parte de uma família com chapéus incríveis que pegava elevadores que iam do nada para lugar algum. O trânsito caótico da cidade repleto de tuk-tuks. Clã de bruxas com roupas vitorianas. Surrealismo espanhol e expressionismo alemão totais. Resultado final de um ontem caótico. Não almocei, já na ansiedade do voo do primogênito...

Kintsugi(s)

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Os livros têm uma história além da história que contém. Objetos detentores de sua própria narrativa. Personagens que descrevem caminhos percorridos alhures, de mãos em mãos (afetuosas?); de olhar em olhar. Trajetos que às vezes perdem o registro do princípio. Qual primeiro contato terão estabelecido? De que cidade empreenderam suas jornadas pelo mundo? Por que partiram? Como chegaram até aqui? As folhas amareladas se desprendem. Lombadas carcomidas pelo cansaço dos anos, pelo esforço de abrirem-se ao escrutínio alheio, pedem gentileza. Já passaram da casa dos 50 e a existência deixou marcas indeléveis do percurso. Certamente não foi suave. Os livros podem sofrer de maus-tratos, de indiferença, de solidão. Buscam uma estante segura para manter a dignidade e a memória imortalizadas. Eles não diferem de nós. Baça, a lua me saúda enfadada da obsessão humana por sua figura. A aparição se deu na noite do meu aniversário. Sedento e faminto, um tanto esquálido, um fantasma com chiado dramáti...

Mercês

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Persigo a incidência do sol que escreve a versão áurea dos fatos. Anel Aviário Engana-se quem pensa ser o céu plácido.  Intenso tráfego de asas traçam rotas diagonais paralelas  acrobáticas. Nunca vi pássaros se chocarem em voo. Trajetórias nada aleatórias  atravessam nuvens que também  transpiram e transitam.  Turbinas invasoras constantes  perfuram a harmonia dos itinerários.  Espaço aéreo, anel aviário. Comezinho, no azul, apenas a imensidão.  Lua pisciana: meio plena, meio ausente. Esperança Venta, vai chover. (ou não) a expectativa da chuva basta. Coração goteja dadivosamente.

Folguedos

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Os meninos-Portinari içam suas pipas coloridas contra o céu zangado. Eram muitos com camisetas vermelhas e pés no asfalto, uma horda de velejadores aéreos a manejar pesos e contrapesos, administrando as rajadas de vento e a permanência das rabiolas na altura dos sonhos mais alegres. Outro grupo, este com meninas, passa uma bola de mão em mão, naquela ciranda instintiva da infância. Disputam espaço com carros estacionados. Sem árvores à vista, a chama do mormaço derrete as crianças-velas sobre a cobertura asfáltica. É uma festa. A algazarra límpida da periferia viceja sem as benesses do planejamento urbano. A elite, enclausurada pelo dinheiro, jamais experimentará o valor destes folguedos. Rupturas recomeços mudar em meio à mudança. Partir repartir. O silêncio passeia pelo interior, mão da criança invisível tateando a parede. De fora chega a nesga do sol e o silvo dos micos costumeiros. Os cães aprisionados ao lado lamuriam. Quero que durmam para sempre. Parafraseando o belo título do...

E nada se faz sozinho...

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Gosto de morar numa casa antiga onde as velhas telhas saem do traçado exato. Guardam memórias de chuvas intensas  nos musgos e de sóis abrasadores no desbotado do barro. Gosto de abrir a janela, admirar os telhados desgastados ao redor. Transpiram as Geraes dum tempo de reverência aos céus dos santos, à ira divina.  Pisos descascados pelos cascos verdes brotam das frestas carcomidas. Rusticidade de uma vida menos farta de excessos.  Noitevagar apascentada junto aos fantasmas. Antepassar. O que eu preciso para sobreviver não é o fogo ardendo com raiva e ódio. Eu tenho muito fogo em mim. O que necessito é de um dente-de-leão na primavera. O amarelo brilhante que significa renascimento ao invés de destruição. A promessa de que a vida pode continuar, não importa o quão terríveis foram nossas perdas. Que pode ser bom novamente." (Katniss Evergreen) Na vibe do Tordo de Jogos Vorazes para começar mais um ano revolucionário! Tenho vestido muitas peças verdes. Percebo que estou ...

De tudo um pouco

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"Vivo no passado e no presente. Na minha cabeça e na rua. Às vezes, olhar para trás é doloroso. Perdi tanta gente. Mas outras vezes uma fotografia ou um livro te permitem trazê-los até o presente e te devolvem essa pessoa por um momento. A imaginação serve para viajar para o desconhecido ou para o conhecido. Tem essa força. Seria um erro não aproveitar esse potencial."   (Patti Smith)   Ideograma Asas são riscos, palavras no céu. Cruzam as folhas sem pauta das nuvens gradativamente mais pesadas. O preto do voo então se funde à página-chumbo e desaparece. O corpo cá no chão plana no azul da piscina a despeito das pedras. Ao fim das tardes, a leveza toma o coração na esquadra de biguás, na arruaça das araras ou na elegância das garças helvéticas a formar ideogramas suaves. Caligrafia imaculada. Na era do cancelamento, até os pães clássicos mudam de nome. - Esta aqui é a língua de sogra? - É sim. - Mas eu gostava muito da minha sogra, comento. - Eu também, diz a atendente da ...