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Jaboticabal

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Meu Deus, a gente vai lendo um monte de coisa e daqui a pouco a mente mistura Natal com recurso especial; criança com prêmio Emmy; Greenpeace com mensalão... Dizem que o cérebro tem capacidade de expansão ilimitada. Eu tenho minhas dúvidas. Esse tanto de informação pode mesmo me levar a um curto-circuito.  E se eu endoidecer? Porém, mais doido é ser obrigada a permanecer sete horas no trabalho e você não ter trabalho para preencher as mesmas sete horas. Então, estou entre a cruz e a espada: ou leio e me devoro. Ou não leio e me desespero.  Sei de pessoas que já aboliram os jornais de suas vidas. Deve ser bacana não estar a par de nada. Quase como viver no espaço sideral com todo aquele silêncio imponderável lhe circundando. E eu só tenho servidores públicos a me circundar... Taí, vou mudar o conceito de ilha: ilha é uma Luciana cercada por coleguinhas sem graça por todos os lados!  A amiga Lara ficou brava comigo por eu ter dito, na vitrine planetária...

Ensaiando o retorno

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Tirei férias de escrever e não consigo voltar. Tudo é disciplina nessa vida. Escrever não é igual a andar de bicicleta, que dizem não ser possível esquecer jamais. Será? Acho que tudo se esquece, sim, menos dor de cotovelo e as gracinhas dos filhos.  Na verdade, estava cansada de mim, de me abrir, flor na primavera exposta no jardim. Perdi o objetivo, o foco. Escrever para quê e para quem? Quem me lê? O que tenho a dizer importa? Essas crises existenciais malucas das mulheres de 40... Mas não se preocupem, não estão sendo levadas muito a sério.  Entretanto, não quer dizer que eu volte a escrever. Que eu retorne com minhas autopropagandas na caixa de entrada dos incautos que fazem parte da minha lista. Ninguém deu falta, não é verdade? Ou pior: percebeu e ficou aliviado. Isso, pise em você mesma. Faça drama como uma herdeira trágica do número 4 do Eneagrama.  Não, não sou mais essa melancolia absurda e transbordante. Mas é bom beber da raiz da dor de v...

Presente!

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Para Patty, Giovana  e Carmemcita Sextas, sextas, gosto tanto de sextas-feiras que meus dois filhos escolheram nascer em sextas-feiras encantadas... Imagino cestas transbordantes de pensamentos gordos: sorvetes, cremes brûllées, mousses de chocolate, morangos, silvestres, selvagens...  Sexta é dia de andar a pé pela cidade e cheirar suas verdades. Sexta é dia de fotografar o céu de brigadeiro, as nuvens de algodão, a grama de alface fresquinha colhida da horta orgânica. Sexta é dia de Shabbat, que começa no pôr-do-sol (esses judeus sempre espertos). De ouvir canções que elevem o espírito ao astral máximo do júbilo.  De voltar ao passado e relembrar coisas boas. Dar de cara com o consultório da médica que fez o parto do seu primeiro filho e ter vontade de dizer olá pra ela, que nem deve saber mais quem você é. Ao contrário de você, que lembra até das palavras que ela disse, pois nascimento de filho é sempre inesquecível nos mínimos pormenores que você r...

Natureza morta?

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Ela flagrou a morte da flor. No momento em que abriu a porta do apartamento, lá fora chovia, era noite. A flor morreu na frente de seus olhos cansados. A espádice amarela saltou da proteção do manto branco para o vazio, como se pulasse de uma ponte. Um leve barulho oco sobre o centro da mesa e o lírio do Nilo tombou, sem vida. O copo de leite derramado...  A moça correu a acariciar a elegante calla branca recém-falecida. Era a primeira vez que aquela casa recebia uma flor daquele porte: alva, misteriosa, empertigada. A sala ganhara uma suavidade nunca imaginada. Teria sido seu olhar cansado pousado sobre a flor a causa de sua morte súbita? Mau olhado pode acontecer sem querer...  A empregada levantou outra hipótese metafísica e já foi se desculpando: será que coloquei energia negativa quando troquei a água do jarro, mas eu não tenho dessas coisas?! Todavia, o fato jazia: a Zantedeschia sucumbira. Permanecia branca, embora sem leveza. Estranhamente era como s...

Apocalipse Now!

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Vivendo nessa Brasília escaldante, sauna ao ar livre, não posso deixar de recordar um livro que marcou minha adolescência: “Não verás país nenhum”. Ignácio de Loyola Brandão narra a existência de um país transformado em deserto de água, sombra e de almas leves. Metáfora de um Brasil pós-apocalipse desolado e assustador.  Será que chegaremos lá? A nação nenhuma? Será que vamos desistir? Leio alarmada e mais triste a manchete de jornal: Brasília terá outra região administrativa que, até 2050, deve contar com mais 900 mil habitantes (torço para ter lido errado essa cifra. 90 mil já seria um número exorbitante; 900 mil, ultrajante!). Desastre antinatural em vias de se tornar realidade. Como podemos destruir nosso país assim, sem dó nem piedade? Quando as megalópoles deixarão de ser espaço compatível à vida em sociedade?  Agora é assim no Plano Piloto, ilha da fantasia elitista ao extremo: um sol para cada cabeça. Parece que um astro-rei me segue e queima meus miolo...

O vão do coração

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“O verdadeiro amor é vão", alerta Gilberto Gil em sua antológica Drão . Talvez hoje já esteja pronta para compreender essa constatação. Os filhos são o amor vão. Porque o amor carnal, o amor entre casais (sejam eles formados por quem quer se seja) pressupõe uma troca. Uma contrapartida, um toma lá dá cá. Você não se entrega se outro não se entregar. De papel passado ou não, é contrato. E se houver o desequilíbrio, desanda. É desamor.  O amor pelos filhos, por mais que queiramos, pode ser totalmente desequilibrado. Não aceita papéis nem receitas, nem alianças no dedo. Eles nos amam, obviamente, mas são tão livres. Não se sentem obrigados a nos amar. Para eles é natural que estejamos ali por eles. Eles não sabem que existem tantas crianças sem pai e mãe por aí. Acham que assim que nasce um bebê nasce também uma mãe. Ah, se a bela campanha da Johnson & Johnson traduzisse fielmente a realidade...  O amor vão pelos filhos é soltá-los pela mão... Deixá-los sub...

Marc Chagall

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Vocês se lembram de como as borboletas eram fartas? De todas as cores e tamanhos, elas salpicavam o verde dos gramados, as rosas do jardim... Aliás, vocês se lembram de que havia muitos jardins com roseiras? Na minha quadra de infância, quase todas as frentes das casas eram coloridas por flores.  E os pirilampos, vagalumes? No escuro da noite na roça, esses bichos míticos, mágicos apontavam os caminhos para a imaginação. Onde foram parar esses insetos, os únicos da espécie que não me dão gastura, pois, sejamos francos, insetos são detestáveis. Eu, que sou fã de documentários sobre animais, não dou conta de ver a vida secreta do louva-deus. Ou os métodos bizarros de alimentação da aranha X. Tudo eca!!  Porém, as borboletas, ah, as borboletinhas e suas asas rarefeitas... Quando, enfim, conseguíamos capturar alguma, o pozinho ficava entre as falanges... Nas versões laranja, amarela, azulada, negra e agourenta, branca, listradinha... Pequeninas ou majestosas, as...