quarta-feira, 27 de setembro de 2017

"To educate and inspire all students..."





Quem me acompanha no FB e também no blog sabe que não sou admiradora devotada do American Way of Life, muito pelo contrário. Acredito que os americanos poderiam levar uma vida muito mais plena e alegre diante da grandeza natural e estrutural do país no qual nasceram. São inegáveis as belezas da Natureza, bem como das criações humanas desse território bem cuidado, organizado e seguro chamado Estados Unidos da América.

Todavia, os americanos são duros, pouco flexíveis com os outros e consigo mesmos. Vivem numa teia neurótica de vilões que a sua indústria cultural reforça a cada novo filme de Hollywood: é medo de terroristas; de psicopatas, de pedófilos; de franco-atiradores; de insanos com uma arma na mão (de fato, o único medo que realmente deveriam ter, uma vez que estimulam e liberam o uso de armamento por quase quem quer que seja). 

Negros e brancos seguem se aturando numa convivência paralela forçada. Caminham lado a lado, porém não se esbarram, não se tocam, não baixam a guarda. A barreira invisível entre as duas sociedades está lá desde os tempos da escravidão, quase tão palpável quanto o muro que Trump pretende erguer entre o universo hispânico e o microcosmo branco adulto sempre no comando. Muro que não vai mudar a equação complexa que se tornou a vida nos EUA: os hispânicos agora formam a terceira linha paralela de existência, não interagindo com os negros e muito menos com os brancos. 

Talvez o único espaço no qual as três comunidades tenham as mesmas oportunidades de crescimento pessoal seja a escola pública. Por isso, dentre todas as qualidades dessa nação, a que mais admiro é constatar que em qualquer vila, qualquer cidadezinha, qualquer metrópole, de leste a oeste; de norte a sul, as escolas são, de longe, as edificações mais imponentes, conservadas e bonitas de todos os distritos. Os arredores podem estar bem decadentes, como já observei várias vezes, entretanto, qualquer escola (elementary, middle, high school, college, university) reluz, se destaca na paisagem. Dá gosto de ver! 

O valor dado à Educação aqui não é frívolo, porém sólido como as colunas greco-romanas que costumam embelezar as instituições públicas de ensino nos EUA.

"Um país se faz com homens (subentende-se idealistas, íntegros, éticos) e livros" (subentende-se bibliotecas majestosas e numerosas; leitores assíduos; literatura acessível a todos gratuitamente ou a preços módicos). Que lástima, o Brasil ainda é carente dos dois, caro Lobato!





terça-feira, 26 de setembro de 2017

Macunaímas e Jecas-Tatus






Revoltante saber que a população de Mariana/MG discrimina e marginaliza as vítimas do desastre da barragem da Samarco. Chamam os antigos moradores de Bento Rodrigues de vagabundos porque recebem um cartão, espécie de auxílio-alimentação, uma esmola, enfim, por ter tido suas vidas rurais ceifadas violentamente. 

Mineiros contra mineiros. As crianças de Bento começaram a ser perseguidas nas escolas. Estigmatizadas com a pecha de “pé de lama”. A prefeitura teve de transferir todas elas para um espaço específico em face das perseguições. Depois a brasileirada gosta de bater no peito e dizer que é gente boa, que é cordial, que é hospitaleira. 

A ignorância do brasileiro é tão desmesurada! Como fazer entender que essas vítimas já teriam sido indenizadas em milhões se o Brasil fosse digno? O povo de Mariana está com inveja de um auxílio-alimentação? Mediocridade nauseante! 

Nunca fui ufanista. Nunca achei que o melhor do Brasil é o brasileiro e outros orgulhos sem razão de ser. Realidades como essa só mostram o quanto deveríamos fazer uma autocrítica profunda para sair da barbárie na qual sempre vivemos. 

Não somos uma nação, não pensamos coletivamente e muito menos de forma comunitária. Aproveitamos as tragédias para desviar ainda mais recursos públicos, como no caso da região serrana do Rio. E estamos sempre prontos para criar um novo golpe na praça. 

É inesgotável o sonho do brasileiro de se dar bem sem esforço algum. E 2018 vem aí para que os brasileiro elejam os mesmos canalhas de sempre.

Às vezes, gostaria de ter a alma atormentada de imigrante para manter meus filhos longe de um país tão assustador e deprimente.



Swan Lake







Posso ir embora para o Brasil mais feliz! Apresentação magnífica de O Lago dos Cisnes, com variantes interessantes do balé que já havia visto com o American Ballet Theatre. O NY City Ballet teatralizou alguns pontos e fez um final, na minha opinião, mais poético. Nada de salto para a morte. Odette simplesmente voa junto com seu bando, eternamente cisne...

Vocês sabiam que Tchaikovsky criou a história com final feliz e que a primeira apresentação de Swan Lake foi um fracasso total? Só depois da morte dele é que a história foi modificada para o final trágico que é o clássico dos clássicos até os dias de hoje.

A orquestra fez um show à parte! Estava radiante, perfeita! Dava pra ouvir cada instrumento com muita limpidez e harmonia... A composição de Tchaikovsky merece esse carinho, né?

Debulhei algumas lágrimas... Chorar de beleza é uma alegria!






quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Protossentimento






Viajava com mamãe pela rodovia quando avistamos uma cidadezinha que bem era a mistura de Inhumas, São Jorge e Alexânia.

Dona Maria vai até um vendedor ambulante de pamonhas, mas chamo ela de lado e digo:

- Não, mamãe, vamos ver se a gente acha uma pamonha de verdade! 

Abro o Foursquare e explico pra ela como funciona.

O primeiro restaurante da lista se chama "Goiabeira Linda". A página se abre e surgem dezenas de fotos da tia Belina e da prima Tiana saboreando, com gosto, muitas pamonhas fumegantes.

Aí a gente já está a pé procurando o tal do Goiabeira Linda, que mamãe afirma saber onde é. Caminhamos um pouco, mas mamãe se perde. Então paramos à sombra de uma árvore rente a um muro. Começo a ativar o Google Maps quando mamãe reclama:

- Tô apertada, preciso mijar!
- Ai, mamãe, que mania de falar mijar, coisa feia! Como é que a gente vai pra Europa de mochileiras se a senhora não aprender a fazer xixi em qualquer lugar? Por que não fez lá naquele boteco que nem eu?

Acordei feliz. Mamãe, obrigada pela visita!

Cris Brandão, obrigada por me provocar olho gordo com aqueles biscoitos fritos de queijo que amo! A culpa desse sonho bom foi toda sua, revolvendo meu protossentimento de raiz goiana! :)


Urbanas







1 - Para variar, esqueci o mapa


Então você pensa: a cor é igual, o trajeto é igual... Daí pega a linha D uptown ao invés da B. Assiste impotente à sua estação de descida ficar pra trás na velocidade da luz e a composição seguir veloz e expressa deixando a ilha de Manhattan e seu encontro com as amigas cada vez mais distante. Você se desespera: agora só para em Coney Island, fim da linha, puta que o pariu!

Mas antes que a sua mousse de abacate vá para o brejo nesse calor insano, o trem para na 125st. Ufa, ainda estamos na ilha! Resta voltar pela B até a 81st...

Jecar na Big Apple é preciso!



2 - Small talk on the sidewalk


- Is it a lion?, perguntou a voz de barítono gospel às minhas costas.

- A lion and a bull?, insistiu.

Demorei, mas saquei que era comigo que o cara falava. Diminuí o passo e olhei pra trás.

- Yeah, they are my sons...

O cara fez uma expressão "não entendi nada", então prossegui:

- In the zodiac one is lion and the other is bull!

- Wow, cool!, respondeu com um sorriso simpático e seguiu atravessando a rua.

E eu me dei conta de que no verão, com as costas de fora e o cabelo no rabo de cavalo, minhas tatuagens ficam bem visíveis.





Maribel








O clima no estado de NY pode variar alucinadamente de um dia para outro. Ontem, 30 e tantos graus. Hoje: 21 de máxima e chovendo.

Passei em frente da Good Will Store e me deu vontade de checar a bugigangas. Fazia tempo que não entrava no gigantesco brechó que tem de tudo um muito. Maneira divertida de gastar tempo até buscar Tomás no Avid Summer Camp.

Quando terminava de pagar meus garimpos, uma hispânica me perguntou as horas em espanhol. Eles sempre acham que eu sou hermana com esse fenótipo inca-maia-tupi-guarani...

Respondi na língua nativa dela, mas ela seguiu me olhando com um ar de cachorro que caiu da carroça.

Abria a porta do carro quando ela teve coragem de perguntar:

- Você está indo para onde? (em espanhol, claro).

Levei alguns segundos para reprogramar o cérebro a fim de não responder em inglês.

- Você não fala espanhol, né?, sacou.

- Sí, yo soy brasileña, hablo portugués. Pero puedo hablar español también.

Ela me pediu uma carona, pois os ônibus realmente levam séculos no condado de Westchester e não há metrô por essas bandas.

Disse que sim, afinal ela estava indo para a mesma direção. Tadinha, ficou tão contente!

Seguimos hablando em espanhol. Descobri que era cabelereira e trabalhava num salão de White Plains.

Mora aqui há três anos e ainda não consegue falar uma palavra sequer em inglês...

Maribel tem uma filha de 17 anos e outro de dois anos e meio. Me mostrou as roupinhas que comprou para o filho enquanto as roupas da família estavam sendo lavadas e secadas na laundry que, coincidentemente, foi a primeira que utilizamos para lavar nossas roupas quando chegamos à cidade ianque.

Uma bela estampa indígena tem a peruana. Contei que tenho duas grandes amigas também nascidas no Peru: Mary Carmem e Ilda. Uma vive aqui; a outra já voltou para a terra-natal faz tempo.
Maribel também quer voltar para casa, mas não vai fazer isso, pois nos EUA a filha tem estudo público de melhor qualidade; alguma chance de prosperar. O mais novo já nasceu americaninho...

- Aquí no és bonito! Aqui se pone el corazón duro. Son muy fríos!

Concordei. E me senti triste por ela, por saber que os hispânicos imigram, vivem em guetos, não aprendem inglês, são tratados como gente de terceira categoria e se submetem a tudo isso porque os países latinoamericanos patinam entre o bolivarianismo, chavismo, evismo, peronismo e lulismo que não lhes oferecem saída para evoluir como cidadãos.

Um rol de assistencialismo e populismo eternos que nos colocam, sul-americanos, numa espécie de armadilha cheguevariana perpétua. Vide Venezuela recebendo apoio de PT e PCdoB brasileiros para seguir destruindo qualquer avanço social-democrático.

A chuva caía forte. Parei na porta da deprimente laundry (lembro como me senti terrível lá dentro, os meninos criados no Plano Piloto de Brasília assustados com a feiúra e pobreza que emanavam dali). 
Maribel perguntou meu nome e tomou nota do meu telefone. Fez questão de me passar o dela e suplicou me abrançando:

- Me llama!

Fiquei sentada ao volante com um nó na garganta.




A primeira década do leão






Hoje acordei com a mensagem do meu primo-irmão que dizia: "seu leãozinho cada dia mais ão e menos inho". 

Verdade, a vida anda pra frente e ele completa uma década. Ao menos, como todo felino, ainda curte um colinho, uma coçadinha nas costas...

Romulito pirulito, Sherlock Rômulos, Menino Maluquinho... Garoto de múltiplas facetas, todas elas desafiadoras e instigantes. Queria ser capaz de compreender toda a amplidão desse ser que saiu de mim com uma bocona aberta, rugindo poderoso.

Dez anos de aprendizados incríveis, boa parte deles acompanhados por vocês por meio das perguntas e conclusões desconsertantes que já leram aqui no FB.

Romulito é fogo, é paixão. Sabe fazer confusão como ninguém! KKKK!

Mas também é pau pra toda obra, sempre pronto para aprender e colocar a mão na massa!

Energia pura, solar, furacão. Tem muito de mim nas estrepolias, no amor pelos cavalos, no despachamento.

Tem muito do pai na vocação para os problemas complexos, para a exploração do microcosmo e macrocosmo que nos rodeiam.

Feliz primeira década de vida, meu filho de Marte, amado leãozinho, bebê pequeno!

Só posso pedir ao universo que me deixe viver para lhe ver o "biogeólogo" que você quer ser! :)



Vida em estado de alerta








Quando todos os trabalhadores braçais resolvem estar a pleno vapor em sua rua e você chega desavisadamente com a roupinha fitness da caminhada...

Ser mulher, às vezes, é muito cansativo. Sem contar que você nunca está totalmente à vontade na bela trilha/ciclovia quase deserta e cercada por intensa vegetação nativa. 

Hoje, meus filhos assistiram a uma reportagem sobre violência contra a mulher no Brasil que o telejornal Hora Um transmitiu. Eles entenderam o significado de feminicídio, conversamos sobre o assunto.

Acho que é assim que as relações de gênero vão evoluir para um patamar civilizado. Mas não já, não daqui a pouco, quem sabe daqui a uma década? Sei não. Enquanto isso, as mulheres buscam a liberdade, mas a sombra da vulnerabilidade lhes turva o espírito, diariamente.



Borderline







Aproximamo-nos da fronteira Canadá-EUA com uma certa tensão, afinal, como falei anteriormente, os americanos são noiados, repressores. 

O agente na cabine foi, como os oficiais costumam ser, áspero e nada amigável. Fez várias perguntas, insistiu muito comigo e olha que tenho um visto menos chinfrim, J2. Queriam saber se eu tinha pedido outro tipo de visto, se estava trabalhando ou estudando, se tinha pedido visto no Canadá...

Mandaram a gente encostar o carro e descer para responder mais perguntas no escritório da fronteira. Lá, só eu fui chamada para responder mais questões desconfiadas e hostis. Até o momento em que falei que voltaria em dezembro para o meu trabalho na Suprema Corte no Brasil. O funcionário me olhou pela primeira vez nos olhos e rosnou:

- Do you work at Supreme Court?

- Yes!

Ele passou a me tratar como um ser humano naquele momento. Dois minutos depois, liberou a gente.



Maple heart






Aproveitamos Ottawa até o último segundo. Vontade de ficar mais um bocadão... O Canadá corroborou a minha teoria de que é possível viver num país civilizado, porém mais leve. 

Os americanos são tão patrulhadores e reprimidos, não me sinto em casa lá. Me senti aqui, onde falar um inglês com sotaque latinizado não te enquadra como um imigrante que "veio ferrar o meu país". Você se mescla no meio das várias culturas e da bilinguidade que molda a convivência, tornando-a mais flexível, mais simpática, mais descolada.

O Canadá abarca muito bem o espírito do velho mundo com a alma contemporânea. 

As cidades têm parquinhos com areia de verdade, abertos, não cercados como os americanos que, pra piorar, ainda estampam regras policialescas que intimidam a criança a não se divertir. 

O país é essencialmente jovem. Os vendedores são simpáticos, not pushing como os americanos. Os imigrantes daqui me pareceram viver menos infelizes do que os imigrantes nos EUA.

Tivemos muita sorte em vir nesse ano de especial celebração para os nativos! Descobri que o maravilhoso conjunto arquitetônico do Parlamento ficará fechado ao público pelos próximos dez anos, por causa de uma ampla reforma.

Descobri, também, que se tivesse me tornado uma antropóloga, adoraria estudar os povos do frio como os inuits, nanavuts ou esquimós. As paisagens geladas e as tradições orais dos chamados first peoples me hipnotizam. 

Rômulo e eu já elegemos nossa expedição: Artic Safari! Doze dias navegando no meio da Baffin Bay... Quem sabe em outro agosto, não é?


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Fraternidade Assunção


Presentinho que ganhei da irmã Nena aqui nos EUA

"Família, família, cachorro (dezena de raças e vira-latas), gato (vários), galinha..." (muitas, centenas, incluindo cocás, patos e perus) e irmãos, no meu caso, também muitos: cinco. Engraçado os Titãs não terem citado irmãos nessa equação familiar, pois eles são o que de fato fazem da família uma grupo em perene renovação de laços e neuroses. Mana Marisa partiu ontem à tarde. Mulher de sorte: desde ontem à noite não temos água quente no prédio. Dormimos fedidos. 

Irmãos... A temporada americana tem me presenteado com muitos aprendizados e novidades, mas talvez a mais profunda seja ter tido a oportunidade de conviver intimamente com duas irmãs. Livre das balbúrdias e distrações das festas de aniversários, dos maridos, dos sobrinhos, dos netos, dos Natais e Dias das Mães, dos problemas do Brasil. Éramos apenas elas e eu. Primeiro, Marilena, a mais velha, com quem já havia tido outros momentos de fraterna companhia, e agora Marisa, com quem jamais estive por tanto tempo sozinha, em intenso convívio.

Estreitar os afetos dissipados pelas pressões da rotina, pelas perdas precoces difícies, pelas diferenças geracionais (que consequentemente geraram memórias e traumas nelas diferentes dos meus), foi de fato uma bênção que só agora estou me dando conta. O relacionamento com minhas irmãs atingiu um outro patamar, aquele que nem todos os irmãos têm: intimidade. Enfim somos sangue do mesmo sangue, ainda que Marisa tenha o ato falho de se referir ao nosso pai como sendo o meu avô: -"O seu avô dizia... Avô não, Marisa! Pai, ele era o meu pai também!" KKKK!

Ela não está tão equivocada. Afinal, idade para tanto papai tinha quando faleceu e deixou a caçula sem desfrutar de suas manias excêntricas. Uma delas, fazer os filhos lerem matérias do jornal do dia em voz alta antes do jantar. Outra: obrigar os pirralhos a fugir para a casa da vizinha para ver televisão, uma vez que ele decidiu não ter um aparelho malévolo daqueles na própria sala.

Aqui e ali vou preenchendo os vazios dessa figura paterna tão longe e tão perto. Vou me reconhecendo nele e nas minhas irmãs. Vamos descortinando o quanto somos parecidas, misturadas e, logicamente, dessemelhantes.

Marilena e Marisa gostam de comer frutas picadinhas pela manhã. É um método. Acordava com a salada de frutas já pronta. Achava engraçado, pois prefiro a fruta inteira: morder, abocanhar, roer. Descobri que é possível cozinhar junto com Marisa, mas não com Marilena, que gosta que tudo saia do jeito dela. Porém ambas desenvolveram um apego similar e ferrenho às datas de validade dos produtos. Logo elas, criadas na roça em meio ao esterco de curral, numa época na qual se sorvia leite ao pé da vaca sem nenhuma bola para pasteurização. 

Descobri também que Nena não gosta de cebola (eu amo, sou capaz de comer uma cabeça por dia) e precisa inventar meios de disfarçá-la para comer. Mas ela insiste que gosta, orgulho besta! KKK! Ah, sim, orgulho e vaidade de sobra tem minha hermana mignon. Canseira absoluta dos mil cremes e rituais de beleza que a acompanham em qualquer viagem. E eu que pensava que era muito vaidosa, agora penso que sou apenas normal. 

Mana Marisa, à primeira vista o estereótipo da desorganização, é bem mais focada do que Nena, empenhada em transmistir uma imagem de mulher da razão, com seu ar sério de engenheira. Mana Marisa me surpreendeu em tantos aspectos... Foi uma delícia ver minha irmã gordinha ir se revelando dia após dia.

Ela adora carros, conhece todos os tipos e marcas. Dirigindo pelas highways e parkways, Marisa apontava esse ou aquele, dizia quais já estavam no Brasil, quais nunca tinha visto. Gostava de tirar fotos das placas diferentes como eu. E, ao contrário do que todo mundo pensa a respeito dos gordos, ela não come de tudo e não gosta tanto de junk food. O comportamento da mana reforçou uma teoria que formulei (nutricionistas, perdoem minha pretensão!): todo mundo que briga com a balança ou dela desistiu, é muito seletivo para comer. Elege alguns alimentos favoritos e os comem aos borbotões. 

Nena, ao contrário, se lançava às experimentações gastronômicas à disposição na Big Apple. Topava tailandês, indiano, chinês, peruano, italiano... Mas não curtia abrir mão de carne não, postura intrigante, pois sempre achei que ela fosse muito mais natureba do que eu, que passo à comida vegetariana por dias sem problema.

Outra surpresa: mana Marisa tem dote para tingir cabelos! Insistiu para que eu não fosse ao Canadá tão desmazelada. Comprei a tinta um tanto desconfiada, todavia, com delicadeza, paciência e precisão, ela cobriu os fios brancos da minha vasta cabeleira.

Marisa generosa, perdulária, afetuosa. Ela me perguntou se havia mudado ao longo do tempo. Não! Permanece a ursinha carinhosa, menina grande, fácil de agradar e também de manipular, o que me deixa apreensiva. Minha irmã do meio é franciscana, do tipo que conversa com os passarinhos e esquilos do Central Park. Ela é lúdica e contemplativa como eu, traços do espírito que Nena, em sua sôfrega hiperatividade, não tem.

Marisa gosta das músicas do Roupa Nova. Bernardo foi torturado por mais de uma hora durante o passeio até o monastério budista. Já sei quem vou convidar para, enfim, ir comigo ao show mais brega da minha vida! Nena eu vou continuar convidando para as orquestras, teatros e feirinhas. Entretanto, não devo chamar nenhuma das duas para ver um filme de suspense... "De onde vem essa sua morbidez, minha irmã?", questionou a eterna preocupada Marilena, sempre carregando as densidades do mundo nos ombros, carma de todo arrimo de família? 

Já Marisa me considera uma arrogante: "Essa loja do museu só tem livro, só serve pra você, intelectualoide, cadê os chaveirinhos?". Hahaha!

Poderia ficar aqui me divertindo com essas lembranças por horas. É tão bom redescobrir as pessoas; desvendá-las frente a frente num café ou lado a lado nos assentos do metrô. Quando a vida lhe der essa chance, abrace-a! 

Love you, hermanas!


sexta-feira, 21 de julho de 2017

Backwarding





Por causa de um episódio do Masterchef no qual os concorrentes foram desafiados a preparar torteletes de frutas, voltei ao passado na 715 sul, tentando me lembrar do nome da negra que falava português de Portugal e vendia tortinha de morangos e suspiros de tirar suspiros da garotada. Ela morava na casa bem em frente da casa da minha tia Leila, na parte superior da quadra. Passávamos dias e dias juntando moedinhas para poder comprar as tais delícias. 

Mandei um zap para Leila, ela deveria se lembrar do nome da quituteira que, se não me engano, tinha vindo de Angola. Sim: dona Natalina! Para a criançada era um Natal de sabores aquelas tortinhas delicadas e vermelhinhas, num tempo em que morangos eram iguarias caras e raras. 

De dona Natalina para as outras figuras diferentes da 715 sul foi um passo. De repente, me lembrei do amigo do meu irmão Eduardo que só vivia de calção de banho, se exibindo para quem quisesse ver... Era uma estátua de sunga amarela no meio do gramado o jovem rapaz. Nem sei se era bonito, mas se achava. Pensando bem, ele era parecido com o He-Man, hahaha! Taí um apelido apropriado, caso o desenho animado já fosse uma referência. 

Havia o sr. Vitalino, de outra casa de esquina. Ele sofria de vitiligo e isso era estranho para as crianças que não tinham a mínima ideia do que se tratava. Um negro manchado de branco, por quê?

No mesmo bloco da minha tia, morava a benzedeira da quadra, dona Diná. Velhinha franzina e simpática, mãe de um cara que era uma lenda: Jorge Maluco. Jorge Maluco se assemelhava a um Jesus Cristo morenado pelo sol. Seus cabelos caindo pelos ombros, sempre sem blusa pedalando sua bicicleta... As más línguas diziam que ele traficava drogas. Será? Talvez. Mas traficante nos anos 70 era do tipo inocente, comparado aos criminosos profissonais violentos de hoje.

Tia Leila me confirmou que dona Diná segue vivendo na casa onde levei Tomás e Rômulo para serem benzidos a contragosto do pai cientista incrédulo. Se já me parecia encarquilhada há dez anos, imagina agora...

Não poderia deixar de mencionar tia Denize, a grisalha fada encantanda que nos ensinava artesanatos miles. Sua casa era meu refúgio, pois sempre me atraí por bruxas do bem. Tia Denize me hipnotizava com sua sabedoria e doçura. Sr. Celano, marido dela, também era uma peça. Ia e vinha do antigo supermercado Jumbo (atualmente Pão de Açúcar) com a sacola de papel lotada sobre a cabeça em perfeito equilíbrio. Ele era capaz de trazer uma melancia no cocoruto por mais de meia hora, caminhando suavemente ao atravessar a W3 sul. Pensa na farra para a gurizada!

A quadra 715 sul... Micro universo classe média baixa que me forjou em meio a maioria de cariocas e nordestinos. Ali, as famílias grandes eram regra. Então não me sentia tão deslocada sendo a caçula entre seis. Cachorros abundavam nas ruas, assim como crianças criadas soltas subindo em árvores, brincando de polícia e ladrão, pique-pega, carniça, pique-esconde e queimada.

Atrás do bloco E, o meu bloco, havia um parquinho bem cuidado por um senhor com pinta de polonês (se não me engano era mesmo). Ele tomou pra si a missão de manter a roda, os balanços, o trepa-trepa, dois escorregadores e o vai-e-vem sempre tinindo de novos, pintadinhos de cores vivas, engrenagens bem lubrificadas. 

Na casa da esquina defronte à nossa, morava a família dos irmãos Mônica e Marcos. Eles eram jovens quando eu era criança e a mãe deles, dona Matilde, morria de ciúmes da dupla de pequineses mais chata do universo. Raça da moda nos anos 70, ainda bem que lá ficou. Cachorrinhos insuportáveis e horrorosos!

Eduardo, meu jovem irmão popstar, tinha amigos saindo pelo ladrão (alguns talvez até fossem pivetes de fato). Os apelidos, ao menos, me soavam suspeitos à epoca: Micão, Zinho, Ná, Vasco, Curumim, Guta, Júnior Bill e tantos outros que agora não recordo. Remexo nas memórias e vislumbro a diversidade daqueles rapagões... Um deles tinha um defeito no nariz, que não tinha septo. Era baixinho e fanho, evidentemente. O rosto como se tivesse levado uma direita de Mike Tyson.

Em outra esquina (a quadra tinha mais de uma dezena de blocos de casas geminadas), vivia a família Coqueiro. Achava muito divertido o sobrenome, levando em consideração que mais pareciam um bando de alemães aloirados e altos (coqueiros albinos, quem sabe?). Era uma penca de irmãos cujo o pai era dono de uma oficina mecânica de certo prestígio chamada, claro, Coqueiro. Um dos filhos, João, era amigo do meu pop irmão. O cara gostava tanto de corrida de fórmula 1 que batizou o primeiro rebento como Gille Villeneuve.

Deus do céu, quantas reminiscências uma tortinha de morango é capaz de resgastar...