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Estamparia curativa

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Estou sentindo falta da Poli, Poliana, minha gentil e super profissional manicure e podóloga. Uma menina que batalha, que tem sonhos e voa. Agora mesmo, está experimentando uma vida irlandesa. Foi aprender inglês e espiar o velho mundo. Não sei se volta pra cá, um mundinho geologicamente novo, mas ideologicamente arcaico. Vou entender se ela quiser se sentir cidadã todos os dias. Sem medo de assalto, sem engarrafamentos exasperantes, sem falta de civilidade. Uma boa manicure na Europa é um tesouro disputado! Habilidade valorizada.
A ausência de Poli perto de casa me fez rebolar. Conheci Stefane, a manicure que trabalha no subsolo do Tribunal. Ela também me parece uma menina bacana, com ideias muito próprias, mas com uma certa sombra no olhar que reconheci imediatamente. Semana passada descobri que ela fora atropelada na infância enquanto aguardava educadamente na calçada para atravessar a rua (a selvageria do Brasil da miséria humana).
Passou meses, quase um ano, no hospital, lutando…

Basta um!

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Ó céus, o Natal! É novembro e eu sobrevivo. Não quero montar árvore, não quero comprar presente, tô amuada. Logo eu, uma entusiasta das festas de fim de ano. 
A prima de São Paulo alerta: “essa energia atual é pesada”. Pió que é. Sinto a atração irresistível do buraco-negro querendo sugar toda a luz. “Tudo demorando em ser tão ruim”, desde que o samba é samba, desde que o país é país. 
O Brasil é uma história azeda desde que eu nasci. A gente releva, a gente disfarça, a gente sublima, a gente finge que não vê, a gente assiste à série finlandesa cheia de neve, a gente viaja, a gente mora fora, a gente tem filho e espera que o futuro seja melhor, a gente entorpece, mas volta a chorar quando a personagem da reportagem ainda mora numa tapera, a verdadeira casa “na Rua dos Bobos, número zero”: sem esgoto, sem e-le-tri-ci-da-de, porém almejando “uma aguinha gelada” para tomar. 
Há 40 anos vejo reportagens do Fantástico com os mesmos miseráveis do sertão nordestino. Os mesmos deslizamentos …

Campânula

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para Karla, de Sampa

São dez as badaladas da noite. Elas singram o caminho aéreo e entram enviesadas pela janela, onde me alcançam, ainda que haja ruídos de pneu no asfalto e da TV ligada no telejornal. 
Desligo da capital modernista e me transporto para alguma vila colonial baseada nas montanhas. É exatamente o sentimento que o badalo oferta: a cumplicidade com um passado de existir compassado; de temores metafísicos, com odor de velas e pecado. 
Ao menos ainda existem as músicas que atravessam os séculos enquanto aguardamos a invenção da máquina do tempo. Creio que nunca iria ao futuro, que sempre se mostra mais trágico. Ao ontem, no entanto, a atração tem tom sépia, conforto para os olhos cansados de tantas telas brilhantes. 
Os novíssimos retrocessos que ameaçam vingar nos espreitam, “dementadores” de esperanças. À frente, apenas o buraco negro à caça da via Láctea. Aciono o modo paralisia. Nem escrever atrai quando as livrarias fecham e pensamentos obtusos cobrem os vales de fuli…

Power and Flower

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“Eu vou torcer pela paz, pelo amor, pela alegria
Eu vou torcer pelo sorriso, pela dignidade
Pela amizade, pelo céu azul
Eu vou torcer pela tolerância, pela natureza
Pelos meninos, pelas meninas
Pelas diferenças, pela compreensão
Eu vou torcer pela pista cheia!” (Fernanda Abreu)


Quem me dera ver o Eduardo Jorge no segundo turno debatendo ideias, valores de paz e bem com aquele jeitão pós-hippie. A vida parecendo um campo florido de girassóis, não, de flores silvestres. Marina e sua voz de taboquinha rachada peitando o adversário ogro com dignidade estridente: “devo lembrar que isso é antidemocrático. Eu vou governar para todos, o diálogo é a arma dos que buscam a evolução”. 
Toda sociedade estaria mais vegana do que carnívora. Aquela aura zen que até dá nos nervos da gente, meio pálida, doentinha, mas que produz menos bílis, temos de admitir. 
Os eleitores reprimiriam seus instintos básicos primitivos como sempre se esforçaram para fazer apesar dos pesares. A galera iria começar a abr…

#Truenews

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Para mim, todos que não se posicionaram no primeiro turno em prol de uma terceira via queriam - conscientemente ou não - que Haddad perdesse de lavada para Bolsonaro. Taí uma vingança arriscada.
Mas temos que convir que a lava-jato, com sua postura mais à direita (Sérgio Moro é claramente conservador), reforçou o antipetismo, que acabou se confundindo com políticas sociais na cabeça de boa parte dos brasileiros. 
Agora, ser a favor dos direitos humanos, de um Estado social-democrata, é ser petista, feminazi e “do lado de bandido”. 
O povo preparou uma sopa indigesta. E vamos ter de engolir! Bolsonaro será eleito e vamos assistir, de novo, milhões de eleitores decepcionados com mais um presidente tão fake quanto as notícias disseminadas por ele e seus correligionários.











Personalíssima

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Uma boa amiga me manda essa mensagem ontem: “Afie os dedos no Facebook. Depois que você começou a extravasar nas mídias sociais você ficou muito mais tolerante. Não fica com a necessidade de expor sua opinião no trabalho”.
Morri de rir pensando que talvez ela esteja certa. Ou sejam os mais de dez anos de prática de yoga; quem sabe o processo de envelhecimento ou ainda os anos no exterior, aprendendo a lidar com sofrimento e solidão.
De fato, o local de trabalho não é espaço para falar o que se pensa, mas, sim dos sonsos: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Ao menos no ambiente do serviço público, ter “personalidade” não costuma te levar a lugar algum. E a boa amiga sabe o quanto fui desajuizada nesses anos todos, custando-me uma carreira pífia na Administração Pública.
Mas aqui na minha timeline, não posso deixar de ser quem eu sou. Minhas ideias podem incomodar, irritar e até chocar. Tenho consciência de que sou às vezes radical e crua, mas não posso concordar quando me acusa…

Pesar

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Minha seção eleitoral é a mesma desde a primeira vez em que votei, aos 18 anos: Escola Classe da 316 Sul. Geralmente vou de bike, mas devido à cirurgia, resolvi ir a pé. Tomás me fez companhia pelas 13 quadras. E que bom estar com ele, tão sereno, atento, ouvido aberto a encurtar distâncias.
Apreciávamos as paisagens que a caminhada nos oferecia... Debatemos séries, filmes, democracia. Mostrei minha colinha para ele. 
- A gente consegue perceber que o país está virando uma ditadura pra sair daqui?
- Acho que sim, filho, mas vamos torcer para que não retrocedamos a esse ponto. Entrei na fila da seção 147, sempre demorada, cheia de velhinhos passando à minha frente. Ao redor, fascistas disfarçados de patriotas com camisetas no tom amarelo ou da seleção brasileira. 
Foi me dando uma angústia danada. Um desprazer. E desesperança acima de tudo. A elite econômica e cultural do país apostando numa besta quadrada. Já tivemos pretensões mais idealistas e alegres. 
Voltei pra casa de metrô (To…