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Sentimentos russos

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A primeira vez que ouvi Legião foi na voz de um paquera chamado Rodrigo, que não se cansava de cantarolar “Por Enquanto”.
O LP “Dois” escutei por inteiro na casa do Murilo, meu namorado por três anos, que amava “Andrea Dória”. Aquele som me comoveu tanto! “Acrilic on Canvas”, “Índios”... Virei fã, mas mamãe não me deixou ir ao famoso show catastrófico do estádio (os sextos sentidos maternais). 
“Teatro dos Vampiros” me lembra a melhor amiga que tive durante toda a adolescência e calourice na UnB: Dani (que também me mostrou tudo dos Beatles). 
“Eu era um Lobisomem Juvenil” me recorda um poeminha rabiscado pelo colega Carlos de Lannoy na disciplina Leitura e Produção de Textos, da faculdade de Comunicação.
E “Sereníssima” é uma das minhas preferidas, mas quase ninguém canta.
Quando Renato Russo morreu, havia acabado de ser operada para me livrar da miopia. Bernardo Mello entrou no quarto escuro, ressabiado, para me dar a notícia. Resultado: chorei montes e fiquei com olhos de sapo. A m…

Morfeu não mora mais aqui

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Tenho um fuso horário para chamar de meu: acordar, quase todas as madrugadas, por volta das 3h30. Raras são as vezes que, sem medicação, consigo despertar perto das 6h da manhã. Nunca precisei de despertador, nem na adolescência. Também, nunca fui boêmia. Não sei se justo pelo fato de me constatar pouco afeita aos braços de Morfeu, se porque nunca gostei de beber ou pela junção de ambos.
Sou um número quatro do Eneagrama (entendidos entenderão e quem não é, por gentileza, faça uma pesquisa básica na Googleland). Sendo assim, meu pecado de raiz é a inveja. Sim, invejo demais quem dorme como um anjo (olha eu aí falando deles novamente). Dormir bem é celestial! Hoje, que consegui vencer a barreira da insônia livre de soníferos e abri os olhos na aurora, me senti realizada. São pequenas e raras vitórias, porém, são bem-vindas. Passo o dia com uma energia incrível.
Imagino se fosse boa de cama. Mataria um leão com as mãos, diariamente. Mas pra quê matar o leão? Ditado infeliz! Deixemos o …

Bem-amados

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De onde vem minha fixação com os anjos, não sei. Peraí, acho que sei: quando encontrei um suvenir de anjo da guarda numa lojinha de igreja, grávida do primogênito. De lá para cá, não, peraí, na sala do apê já havia um anjo esculpido em madeira por um artesão de mão cheia lá do Piauí, antes mesmo de pensar em ter filho. Peraí... 
A palavra Anjo é derivada do latim, angelus, e do grego, angelos, e significa “mensageiro”. Chamado, nos primórdios da Grécia, de “daimones” eram espécies de espíritos da condição humana, isto é, personificações de vários estados da existência: emoções, ações e moralidade. Os daimones de moralidade foram divididos em Agathoi (o bem, virtude) e KaKoi (o ruim, vícios). 
Depois, em algum momento, deve ter rolado uma diáspora canônica e os anjos do mal viraram os demônios e os anjos do bem viraram os anjinhos fofos, de cabelinhos encaracolados e pele alva, bem arianos como são quase todas as representações eurocêntricas da iconografia religiosa ocidental, infeliz…

Aquosa

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Chove Chuvinha Dilui Distende Transparece Enxágue Aguaceiro Liquefaz Translúcida Transborda Limo Lodo Mofo Líquens Lava A cena O cume Arredonda Cavuca O chão Cristalina Água Asseia A alma Desnodoa O cerne Alveja Dissipa O Não Aclara Âmago Solução (aquosa)

Estamparia curativa

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Estou sentindo falta da Poli, Poliana, minha gentil e super profissional manicure e podóloga. Uma menina que batalha, que tem sonhos e voa. Agora mesmo, está experimentando uma vida irlandesa. Foi aprender inglês e espiar o velho mundo. Não sei se volta pra cá, um mundinho geologicamente novo, mas ideologicamente arcaico. Vou entender se ela quiser se sentir cidadã todos os dias. Sem medo de assalto, sem engarrafamentos exasperantes, sem falta de civilidade. Uma boa manicure na Europa é um tesouro disputado! Habilidade valorizada.
A ausência de Poli perto de casa me fez rebolar. Conheci Stefane, a manicure que trabalha no subsolo do Tribunal. Ela também me parece uma menina bacana, com ideias muito próprias, mas com uma certa sombra no olhar que reconheci imediatamente. Semana passada descobri que ela fora atropelada na infância enquanto aguardava educadamente na calçada para atravessar a rua (a selvageria do Brasil da miséria humana).
Passou meses, quase um ano, no hospital, lutando…

Basta um!

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Ó céus, o Natal! É novembro e eu sobrevivo. Não quero montar árvore, não quero comprar presente, tô amuada. Logo eu, uma entusiasta das festas de fim de ano. 
A prima de São Paulo alerta: “essa energia atual é pesada”. Pió que é. Sinto a atração irresistível do buraco-negro querendo sugar toda a luz. “Tudo demorando em ser tão ruim”, desde que o samba é samba, desde que o país é país. 
O Brasil é uma história azeda desde que eu nasci. A gente releva, a gente disfarça, a gente sublima, a gente finge que não vê, a gente assiste à série finlandesa cheia de neve, a gente viaja, a gente mora fora, a gente tem filho e espera que o futuro seja melhor, a gente entorpece, mas volta a chorar quando a personagem da reportagem ainda mora numa tapera, a verdadeira casa “na Rua dos Bobos, número zero”: sem esgoto, sem e-le-tri-ci-da-de, porém almejando “uma aguinha gelada” para tomar. 
Há 40 anos vejo reportagens do Fantástico com os mesmos miseráveis do sertão nordestino. Os mesmos deslizamentos …

Campânula

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para Karla, de Sampa

São dez as badaladas da noite. Elas singram o caminho aéreo e entram enviesadas pela janela, onde me alcançam, ainda que haja ruídos de pneu no asfalto e da TV ligada no telejornal. 
Desligo da capital modernista e me transporto para alguma vila colonial baseada nas montanhas. É exatamente o sentimento que o badalo oferta: a cumplicidade com um passado de existir compassado; de temores metafísicos, com odor de velas e pecado. 
Ao menos ainda existem as músicas que atravessam os séculos enquanto aguardamos a invenção da máquina do tempo. Creio que nunca iria ao futuro, que sempre se mostra mais trágico. Ao ontem, no entanto, a atração tem tom sépia, conforto para os olhos cansados de tantas telas brilhantes. 
Os novíssimos retrocessos que ameaçam vingar nos espreitam, “dementadores” de esperanças. À frente, apenas o buraco negro à caça da via Láctea. Aciono o modo paralisia. Nem escrever atrai quando as livrarias fecham e pensamentos obtusos cobrem os vales de fuli…