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Aos que ficam

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“Quem é que quer flores depois de morto?”  (J.D.Salinger) 
Desde muito pequena convive com defuntos. Não, não é daquelas que veem fantasmas ou têm premonições funestas. Ela não vê gente morta, só sabe que a ausência delas é presença quase física, bloco de concreto no meio do caminho que precisa ser refeito em atalhos mais serenos. 
O pai foi o primeiro de cujos que teve de aprender a decifrar em tenra idade. Como alguém que não estava perto dos olhos podia fazer tanta falta ao coração? Ainda na infância também houve o padrinho, uns tios e o avô materno, o único dos avós que chegou a conhecer. Acostumou-se a velórios e a enterros, portanto. 
Sem falar naquela “tia” por afinidade, a vizinha de bloco, Denize Cellano, uma bruxa boa que lhe acolhia para aulas de artesanato e para curativos nos ralados oriundos da molecagem de rua. Passou, então, a pensar que a vida era feita de precoces e constantes perdas. 
Na adolescência, teve certeza: o segundo pai morre de repente, num trágico acidente…

Bússolas

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"Livro é tão bom que deveria ser elogio. Tipo: 'você é tão livro!'" (frase de camiseta)

Na noite em que pisei numa livraria como autora pela primeira vez, estava em pânico. Fui apresentada a algumas pessoas do meio literário carioca, sorri, fingi naturalidade, me achei gorda e temi pelo desastre.
Sem poder fugir do compromisso que eu mesma havia assumido, vaguei pelo espaço a folhear livros sem vê-los. A ansiedade me comia viva.
Decidi respirar um pouco do lado de fora, foi quando me dei conta que a vitrine esquerda da Blooks estava tomada pelos livros de Lygia Bojunga. Todos eles em nova e padronizada edição. 
Senti alegria, alívio e certeza de que Lygia me salvaria de achar que nada daquilo ali me dizia respeito. Porque foi Lygia quem me reconduziu ao mundo quando eu pensava que não pertencia a ele.

Foi com “A Bolsa Amarela” que descobri que outras meninas podiam nascer em famílias grandes e se sentirem deslocadas no tempo-espaço. Raquel me traduziu, virou meu alte…

Vermelhas e Amarelos

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Característica carioca marcante são as bancas de vendas de livros espalhadas pela região central ou pelas calçadas da zona sul. Foi numa delas, ao lado do prédio do Banco Central, que garimpei a adaptação de “O Mágico de Oz” que leio agora. 
Gosto muito do filme, mas o roteiro tem algumas pontas soltas. As personagens soam um pouco forçadas a se reunir num encontro amalucado. A obra, claro, resolve a questão, ainda que não esteja lendo o original. 
Estou me divertindo muito com essa fuga estratégica para um lugar mítico que faz parte da minha cinefilia. Ontem, pouco antes de dormir, invejava Dorothy Gale tombar, inebriada pelos efeitos sedantes dos campos vermelhos de papoulas. Tudo o que eu queria era um opioide que também me fizesse apagar todas as noites, a noite inteira. 
Lembrei da pobre Judy Garland e do seu vício nos chamados barbitúricos, tão em voga naqueles tempos. Eram comprimidos para dormir, para acordar e para se manter magra e viável na pele da menina Dorothy quando já…

Cutucando o Bem com vara curta

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Cortar o mal pela raiz (ou ao menos pelo broto). Adélio Bispo de Oliveira, quem diria, foi um grande visionário, verdadeiro patriota.
Delirante como o xará Arthur Bispo do Rosário, Adélio (também AB) idealizou uma obra de arte aos moldes de Caravaggio: violenta, cabal. Poderia haver criado um mártir de araque, todavia, forjou um mito fajuto e com ele, diversas teorias da conspiração.
Mas se tivesse dado certo? Bolsonaro sairia da vida para entrar para os livros de História como o improvável que, se não fosse o louco, receberia a faixa presidencial. Ah, os quase, os por um triz, os senões do destino. Ao meu ver, o Brasil estaria melhor sem a família B, esse ninho de cobras, cabeça de Medusa que transforma corações em pedras brutas; que espalha truculência e salga a terra por onde olha e pisa. 
Desde que o ilibado jurista Milton Luiz Pereira me explicou que o direito coletivo DEVERIA se sobrepor ao direito individual, penso que extirpar (ou estripar B., como pretendia Bispo) seria um h…

Caudalosa

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Desci na estação Uruguaiana, centrão do Rio. Ao subir pelas escadas o céu estava entre o azul e o cinza. O formigueiro humano me atingiu como um ataque coordenado. Estaria evidente que era brasiliense burguesa no meio do Saara? Deixei para lá, me fundi. Comecei a olhar todos aqueles sobrados decadentes e arruinados lindos e desejei uma revitalização imediata daquele coração da cidade alquebrado pelo descaso. 
São Sebastião do Rio de Janeiro seria ainda mais inesquecível se lhe respeitassem como uma anciã detentora dos saberes ancestrais da etnia Brasil. 
Olhei para o lado e no fim do beco havia uma fachada barroca monumental. Não resisto ao apelo das igrejas. Elas estão nos meus poros, no meu subconsciente infantil desprotegido. 
Que nave! São Francisco de Paula. Rococó exuberante de 1865, inaugurado pelos imperadores Dom Pedro e Teresa Cristina. 
Caminhei mais um pouco pelas ruas de pedra e lá estava o Real Gabinete Português de Leitura, desejo antigo enfim deleitado. Emocionei, mas…

Follow that cat

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Gatos podem passar a vida inteira aquartelados num apartamento. Estoicos, reinventam a si mesmos diariamente. Não parecem se entediar com a rotina geograficamente limitada. Não sofrem de autocomiseração nem buscam aprovação.
Deslizam entre os móveis, escalam as janelas, fecham os olhos e deixam o sol amornar o corpo num salutar abraço.
Às vezes, concedem aos bípedes um pulo de gato e vêm para o colo. Ficam o tempo que lhes convém e retornam à existência lânguida, impávida e reservada de suas almas plenas.
Gatos não perdem a curiosidade. Por isso, encontram prazer em qualquer distração. 
Eles encaram os humanos de igual para igual, não como os cães, geralmente submissos.
Felinos domesticados, mas só até certo ponto. Não atendem pelo nome se não estiverem a fim, por exemplo. Não pedi para me chamar Leopoldina, o problema é seu.
Gatos são muito fotogênicos. Sua figura esguia e flexível é a elegância que gostaríamos de refletir no espelho.
Eles são autênticos e descolados de verdade. Não…

O dilema da maçã

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Queria me inspirar para escrever coisas bonitas. Esperei mais de uma hora por uma ideia lírica, mas ela não veio. 
Pensei na animação da Branca de Neve e me lembrei daquele aplicativo que envelhece as pessoas. Eu fiquei a própria horrenda bruxa má que entrega a maçã envenenada. 
O pensamento saltou para as flores, as abelhas e a desmesurada delicadeza dos japoneses. 
Daí parei na foto que acabara de receber da sobrinha-neta Eva Maria, a primeira menina na família após 19 anos. Senti palpitação. A afloração desmesurada de algo que reconheço como amor à primeira vista. Ela me fará pecar pelo excesso de chamegos, pode anotar.
Percebi o quanto de sentimento represado e reprimido estava em mim e tive medo. As últimas experiências com meninas foram tanto traumatizantes como perturbadoras. Experiencio um paradoxo: me entregar à paixão ou me manter reticente?
Não é fácil escrever sobre essas questões. Contudo, melhor expor para esquecer ou, ao menos, para apascentar. Gosto muito desse verbo …