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Lepdópteras

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Sei que você não vai acreditar, primo. Você é um cético. Te conheço. Você tem certeza que herdei o traço das irmãs Militão para imaginar além da conta. Para exagerar o concreto com a fertilidade uterina e de pensamento que carregamos nos genes. 
Mas aconteceu. Acordei às 4h45 depois de um profundo sonho com a Tatiana (ex ou ainda atual namorida do meu sobrinho Rodrigo). O que ela fazia me apresentando sua nova casa aos moldes de Gaudi, foge ao meu entendimento. Tenho tido passeios oníricos muito estranhos com pessoas distantes da minha rotina nos últimos dias. Coincidiram com a leitura do livro de Haruki Murakami. 
Um livro chamado Sono que fala sobre uma mulher que não dorme. Surreal é o conto do autor japonês, ilustrado magistralmente por uma alemã. Coincidência também seria o fato de ter recebido um convite para uma festa de aniversário na Alemanha na semana passada? De uma amiga germânica que há muito não dava sinais de que ainda me conhecia? 
Só sei que tem sido assim, primo. E …

Ópios

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Mais um Copa se inicia apesar dos protestos, das injúrias e das difamações. Afirmo difamações porque coitado do futebol, sempre culpado por “alienar as massas”. Pão e circo, dizem os ditos politizados; os que pairam acima do bem e do mal com seus jargões politicamente corretos de quem frequentou mestrado e doutorado e se acha mais ciente das coisas do mundo.
Ópio do povo sempre vai existir, e de vez em quando é bom ficar doidão de alegria, pegar leve, se divertir. O problema dessa geração engajada de hoje é essa chatice de debater tudo seriamente até os ossos. E é fácil utilizar o futebol como alvo perfeito para levar flechada, como se as mazelas do Brasil se perpetuassem por causa dele.
Os EUA são o que são e a população é viciada em basquete. O Japão é o que é a população reverencia o Sumô. A Alemanha é o que é e investiu com garra nas categorias de base para ter jogadores de futebol do nível que tem. O Canadá é o que é e o hóquei no gelo arrasta multidões (para os padrões canadens…

Limonada Suíça

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Faço parte desse povo sonhador


“Tempo é um meio de transporte no qual as pessoas surgem, se movem e desaparecem sem deixar traço…. No tempo surgem e desaparecem cidades maciças. O tempo as levam e as traz. O tempo deságua no homem e no Estado, se aninha neles e depois saí, e o homem, o Estado ficam…o reino ficou, mas seu tempo se foi…o homem está lá, mas seu tempo sumiu. Onde ele está? Eis o homem: ele respira, ele pensa, ele chora, mas aquele tempo particular, único, pertencente apenas a ele, se foi, sumiu, passou. O mais difícil é ser enteado do tempo. Não há sorte mais dura que a do enteado, vivendo em um tempo que não é o seu. Os enteados do tempo são facilmente reconhecíveis…. (...) Assim é o tempo: tudo passa, mas ele fica. Tudo fica, mas só tempo passa. Como tempo passa ligeiro e silencioso. Ontem mesmo você era seguro, alegre, forte: um filho do tempo. Mas hoje veio outro tempo e você não entendeu”.
(Vasilli Grossman, escritor russo em "Vida e Destino")


O tempo nunca foi…

Faltou teste vocacional

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Você é o que você quis ser quando cresceu? Peraí, não quero um texto pessimista quando até Trump mostra sua versão Nutella para o mundo. Acontece que nunca gostei de halzenuts misturadas ao chocolate. Sou uma chocólatra que não engole qualquer versão de cacau ao leite. Avelã é uma palavra bonita, de textura aveludada, mas é a castanha que nunca compro. 
Fechado o parêntesis, dias atrás o questionamento anterior me pegou de assalto. Recebi uma mensagem no zap de uma amiga sobre dubladores. Havia me esquecido completamente que já quis ser dubladora. Não seria o máximo dar voz brasileira a tantas personagens bacanas do cinema? Hoje em dia percebo a heresia de matar a interpretação do ator, cuja entonação faz parte da construção da persona que interpreta. Detesto qualquer filme ou série dublada, porém reconheço que a dublagem no Brasil é muito competente. 
Mas o fascínio infanto-juvenil pela profissão se explica: seria estar imersa na Arte sem precisar ter o talento do artista original. …

Libelo ao multicolor

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Ser analógico tem lá suas vantagens nesse mundo millennium. Nunca pensei que gostaria de ser rotulada por um termo utilizado em informática e outras tecnologias, mas a definição da palavra vinda do grego (algo que já é bacana), significando que tudo varia de modo contínuo e gradual, diz muito sobre essa evolução constante e agradável que me toma depois da curva da meia idade da vida. 
Além do mais, nunca me liguei em arte contemporânea mesmo. Meu lance é retrô-barroco-idade média-renascença e pé palito. Do contemporâneo me gusta a libertação das mulheres, o programa Word, que livrou os pseudoescritores da máquina de escrever, e os filmes e séries da Netflix e Amazon. Se bem que dá uma saudade danada das salas de cinema e cineclubes da década de 1980. 
Quem é millennium nunca vai saber o que foi aguardar por um lançamento da Sétima Arte com toda aquela expectativa. Hoje se produzem filmes aos borbotões e a gente se perde no emaranhado de títulos. Não dá para follow up! É insano. Aliá…

Corações ao alto

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A luz oblíqua de maio, sol frio, tons acinzentados nas nuvens. O outono está sendo gentil e amoroso comigo. Me leva de volta ao apartamento da 18 Harmon street. Suas fartas janelas trazendo a claridade diáfana dos dias acima do trópico de câncer. 
Sinto saudades daqueles silêncios, daquela introspecção forçada, muitas das vezes, mas salutar de alguma maneira. Em algum ponto, mudei. Sou mais plena de mim. Foram semanas intermináveis de Frida, eu e a transparência das manhãs. 
Hoje sou mais solitária do que sempre fui, todavia, mais serena. Gosto de estar comigo mesma, ruminando futuras narrativas, tirando fotos, vendo séries em série, pedaços de filmes. Começo a me visualizar como uma ermitã soft, equilibrando recolhimento e festas familiares.
A varanda na qual me sentava para sentir frio faz parte desta aprendizagem. No verão, só era possível estar ali à noite. Mas os EUA são cancerianos de nascimento. Apreciam a tradição e o conforto do lar nos longos meses de friagem. Aprendi, port…

Alegria em combustão

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“O melhor do Brasil é o brasileiro”. Tenho sérias ressalvas em relação à afirmativa. Acredito que a premissa carece de autocrítica. Aliás, o brasileiro, em geral, tem escassez de visão de mundo e sempre se teve em alta conta, como se realmente fôssemos relevantes para o planeta. Não, não somos. Talvez a Amazônia seja. O Brasil também não é o país mais bonito do globo. Tem suas belezas incríveis, mas não é para tanto. Aliás, nem sei qual é o país mais bonito da galáxia, mas, com certeza, não é o Brasil. Eis outra falácia, outra mania de grandeza tupiniquim. Ser gigante em território nos deixou inflados e cegos para o relativismo da vida.
Mas não sejamos azedos num domingo pela manhã, apesar de imersos em mais uma crise absurda na nação sem noção. Faz um friozinho de outono-inverno supimpa lá fora e ontem, num lance de sorte e jogo rápido, consegui abastecer meu carro sem traumas.

Já havia decidido relevar a greve dos caminhoneiros e deixar as filas para segunda-feira. Ir a pé ou de bi…