quinta-feira, 22 de junho de 2017

Can I give her some love?






Americanos são especialistas em "small talk", ou em bom Português, jogar conversa fora. Já comentei o traço cultural ianque em outros textos, mas sempre me impressiona a habilidade cordial do típico norte-americano em puxar papo dentro das lojas, nos metrôs, ônibus... 

Para quem conhece bem os cariocas, vão argumentar: ah, a gente sabe bem do que você está falando. Mas não se enganem: os cariocas criam intimidade na fila da padaria e, ao final de dez minutos, passam o endereço da próxima festa na casa deles; algo impensável para os estadosunidenses. Eles são corteses, gentis e polidos num nível no qual a privacidade não seja ferida de modo algum. Ser convidado para fazer parte do círculo invisível que todo cidadão americano tem ao redor de si é tarefa complicada. Eles se preservam com unhas e dentes. São pessoas indoor, reservadas, intimistas. Preferem o inverno ao verão, na maior parte das vezes. 

Mas, em matéria de conversas despretensiosas, são quase imbatíveis. Já vivenciei diversos diálogos nonsenses nessa rotina de dona-de-casa entre um supermercado e outro. Desconfio que os americanos, uns solitários de primeira, desenvolveram essa postura social para que pudessem sobreviver ao isolamento que se impõem atrás de suas portas e janelas bem adornadas. São capazes de papear com a caixa da farmácia por cinco minutos sem se importarem com a fila que se forma atrás. E os que esperam não reclamam, pois estão loucos para chegar a vez deles de interagir.

Estava ontem dentro da TJMaxx garimpando promoções a esmo. Achei uma bolsa bacana por 20 dólares, pus no carrinho. Daqui a pouco passa uma senhora negra que me diz:

- Que bela bolsa você tem aí!
- Sim, não é verdade? E olha como foi barata!, respondo no tom afetando gentileza no qual eles são especialistas (pensem naquela vozinha de mulherzinha meio anasalada. É assim.)
- Ela arregala os olhos para a barganha, toca na bolsa, vê a marca (Nine West) e confirma:
- Excelente compra!

Passa uns minutos, estou zapeando entre as araras de blusas e outra americana, agora branca, meia idade, exclama:

- Não se fazem mais blusas no bom e velho estilo de blusas, não? (É a deixa para estabelecer o contato verbal tão raro)
- Sorrio para ela, que estende uma camiseta vermelha com um enorme caranguejo preto estampado, emendando:
- Essa é bonita, não? (Penso, Deus, é horrível, mas tive vontade de comprar só para tirar sarro do Bernardo, que é do signo de câncer e vive pedindo que eu faça uma tatuagem do bicho asqueroso. Jamais, evidentemente).
- Sim!, respondo simpaticamente, e seguimos na garimpagem, afastando cabides...

Ela passa para o outro lado e daqui a pouco ergue uma blusa vaporosa de fundo amarelo e estampas de flores:

- E essa, o que você acha? É bonita, não?
- Sim, é bem bonita. Eu gosto muito de amarelo (não estou mentindo dessa vez).
- Você acha que dá para usar com um sutiã verde?

Espantada com a pergunta estapafúrdica, como se ela fosse minha melhor amiga, demoro um pouco a entender, mas me recupero a tempo de lhe garantir:

- Of course, it will be great!

Todo dia é assim: small talks surreais, saborosos, hilários... 

Na fila de outra loja, a mulher atrás de mim bufa:

- Mas que fila enorme! Ela quer reverberação, portanto lhe dou de presente a concordância.
- E eu tenho de estar às sete pm em tal lugar!!
- Amanhã é Dia dos Pais, né? Daí a lotação...
- Você não sabe onde tem outra loja da rede, não?
- Penso um pouco e informo outros dois endereços para ela.
- É, mas são meio longe, vou ter de ficar nessa fila mesmo, resigna-se e continua conversando com si própria e comigo.


Os tete-a-tetes surgem do nada e do nada terminam. A ideia é mostrar que são normais, gostam de pessoas, ainda que há uns 30 quilômetros de um abraço. As abordagens podem acontecer por causa das suas tatuagens, de uma roupa que eles gostam, da armação dos óculos... Meses atrás, uma mulher na casa dos trinta me olhava insistentemente, atitude pouco comum para os americanos, que evitam encarar as pessoas, comportamento considerado muito rude por eles. Depois de um tempo, ela se aproximou de mim, pediu mil desculpas e exclamou:

- I loved your glasses! Where did you get them?

Com a Frida, então, eles se sentem mais ávidos e descontraídos. Há uma verdadeira adoração por Corgis nessas bandas. Algumas garotas entram em histeria quando veem a Frida, não estou exagerando, juro. Em Manhattan, uma delas quase chorou. Vários filmam ou pedem para tirar fotografia dela. Hoje sei o que deve ser a vida de uma celebridade. Caminhar com a lady por Nova Iorque dá nos nervos: somos parados de dois em dois minutos por alguém pedindo com polidez:

- Can I pet her/him?

Certa feita, houve um cara ousado:

- Can I give her some love?

Claro, vá em frente, dê todo o amor do mundo. Afinal, all we need is love!




terça-feira, 20 de junho de 2017

Dilemas







Uma das preciosidades do acervo da Morgan Library, em NY, é o único livro escrito pela então escrava Phillis Wheatley. Rômulo estava estudando sobre a autora na escola pública de White Plains.

Mas quantas décadas ainda precisaremos para reparar o perverso problema da escravidão, geradora do racismo/preconceito (ou teria sido o contrário, a velha questão do ovo e da galinha)?

Ontem me pus a pensar sobre a questão novamente, quando fui colocar Romulito para dormir. Ele está lendo "As Aventuras de Tom Sawyer", clássico da literatura norte-americana, aliás, do mundo, escrito por Mark Twain. Resolvi ler algumas páginas com ele, em voz alta, quando me deparo com seguinte trecho:

"- Ora, ele disse a Jeff Thatcher, e Jeff disse a Johnny Baker, e Johnny disse a Jim Hollins, e Jim disse a Ben Rogers, e Ben disse a um negro, que foi quem me disse. É isso aí.
- Ah, foi, é? Todos eles mentem. Só não sei o negro, pois não conheço ele. Mas nunca vi um que não mentisse."

Ler essas afirmações em voz alta me deu uma angústia, uma espécie de dor no estômago. Estava chocada. Tamanho racismo proferido inocentemente por uma das personagens infantis mais reverenciadas do planeta me levaram a matutar: gerações e gerações de crianças cresceram lendo essas mesmas páginas; introjetando os mesmos conceitos aberrantes sem ter pai e mãe -
ou ainda professores - a lhes explicarem o contexto histórico do abjeto juízo de valor contido na obra. Pior: muitos professores e pais nem enxergam a perfídia e vivenciam o ódio desde criancinhas.

Lembrei da discussão sobre a censura aos textos de Monteiro Lobato exatamente pelo caráter rascita delas. No Brasil, milhões de crianças foram embaladas por ideias preconceituosas proferidas por personagens carismáticas. Quanto estrago sem nos darmos conta!!

Confesso que me sinto confusa. Sou contra qualquer tipo de censura à liberdade de expressão, mas será de fato concebível uma literatura, ainda que presa em seu contexto histórico e social, seguir pregando conceitos obtusos?

Ok, era o discurso-padrão das elites intelectuais à época, porém, persite o dilema maior: devemos reescrever os grandes clássicos da literatura mundial, suprimindo afirmações semelhantes ou simplesmente parar de lê-los? As obras perdem sua importância literária por serem racistas?

Talvez só outras luzes de outras leituras e o debate incessante sobre o tema possam minimizar as trevas da intolerância nesse mundo que caminha cegamente...






sexta-feira, 19 de maio de 2017

Capitolando







A Itália me encanta, mas nunca tive tempo ou grana para passar uns 20 dias por lá. Todavia, está decidido: o próximo país que irei conhecer será a Itália da Renascença. 

Com um filho chamado Rômulo, também não posso deixar de visitar Roma, a cidade das sete colinas.
Não sabia disso, aprendi hoje na aula de Análise de Pinturas Renascentistas. 

Assim como não sabia que Michelangelo deu vários pitis para não pintar o teto da Capela Sistina. Até que conseguiu total liberdade para criar como quisesse e realizar quase tudo sozinho. Foram quatro anos ininterruptos de trabalho, que lhe custaram um pescoço lesionado para o resto da vida. 

Sete colinas... Rômulo escolheu nascer no dia 27/07/2007. Não poderia ser batizado como Érico. Seu destino é, sem dúvida, pintar o sete!



Psicho Killer






Você decide ver um filme de terror idiota para esquecer os horrores da vida real no seu país. Já é quase meia-noite e você se lembra que está fedida depois de mais um dia de pilates, aula de artes, supermercado, lavação de louça, arrumação de casa, preparação de lanche dos filhos, da janta...

Entra no chuveiro para dar uma relaxada no silêncio da madrugada que se inicia, mas... Mas... A luz do banheiro se apaga do nada!

Resta tirar o xampu dos cabelos de olhos bem abertos. Afinal, é melhor ficar com as janelas da alma ardendo do que morrer sem nem ficar sabendo.




quarta-feira, 17 de maio de 2017

"Rejoice, everybody rejoice!"






Daí Shakira começa a tocar na rádio, o dia de Primavera é gorgeous, as janelas do carro estão abertas e o vento amornado pelo Sol abraça meu corpo.

Loucamente, começo a dançar enquanto aguardo a luz verde do semáforo.

O americano do carro à frente nota a frenética movimentação atrás dele pelo retrovisor. Ele gosta do que vê e ajeita o espelho para conferir com mais acuidade.

Percebo a atitude, mas não me intimido. Sigo quicando no banco. A manhã está perfeita para ser feliz.

(Nesse momento a imagem congela e entra Tomás em participação previsivelmente adolescente:
- Mamãe sempre mata a gente de vergonha!, diria, se estivesse ali.)

Os carros aceleram e seguem seus trajetos. O americano abre o teto solar do Hunday dele, coloca meio braço para fora e acompanha meu movimento pendular. Resolve, também, ligar o pisca-alerta num ritmo de música.

Sorrio e aceno um joia enquanto viro à direita para o campus do College. Ele continua na via principal.

Será que foi dançando até o trabalho? Gosto de pensar que sim.




One Way









Ontem, em dois momentos diferentes nas andanças pela Big Apple, fui parada por outros pedestres com as perguntas:

- A sexta avenida é para lá ou para cá?

- A oitava avenida é para lá ou para cá?

Estaria incorporando o jeito new yorker de ser ou tinham a intenção de me distrair para aplicar um golpe qualquer?

Brasileiro que é brasileiro está sempre catimbado, né? Ainda que NYC seja uma megalópole das mais seguras que existem.

Como a carteira e o celular ainda estão comigo, deve ter sido apenas uma dupla perdida na cidade suja como yo!



Dream Catcher










A tento

A tempo

Em tempo

(En) tendo

A (s)sumo
Assino.

Acordo
Aceito.


Sonhei que lia o poema num quadro.

Psicografado?




Renascença






Em fevereiro de 2002, quando estava morando aqui em NY pela primeira vez, fugi do rigoroso inverno na Big Apple e passei 15 dias conhecendo Madri. Só tenho lembranças magníficas dessa escapada. Dentre elas, a de ter visitado o Museu Thyssen-Bornemisza, o acervo mais encantador que meus olhos leigos já puderam apreciar. Absolutamente todas as obras do lugar, colocaria nas minhas paredes. 

Uma delas, o "Retrato de Giovanna Tornabuoni", me impressionou sobremaneira, tanto pela beleza perfeita da pintura, como por perceber que a jovem retratada era uma cópia quase fiel da minha sobrinha Marianna. Comprei uma reprodução para ela, que nunca ligou para o presente (talvez não tenha se visto na garota ou tenha achado a jovem muito pequeno-burguesa, vá saber).

Falando em burguesia, hoje tive a primeira aula de "Appreciating Renaissence Paintings", no Westchester Community College. Na sala, só outra mulher com menos de 50 anos como eu, uma francezinha. No mais, americanos classe-média-culta típicos.

Não é que lá pelo meio da aula do excelente prof. John Coppola, ele estampa o retrato de Marianna, ops, Giovanna, na tela? E afirma que se trata da pintura renascentista de que mais gosta? Conexões telúricas que me embeveceram. Afinal, meu olhar amador não está de todo mau.

By the way, hermana Marilena, já pendurou a reprodução na sua parede? Se ainda não o fez, compro de volta de você!



terça-feira, 16 de maio de 2017

Tempo de densidade











Fui para aula de Arte na Renascença e o professor cabulou. Fiquei brava, mas aí me lembrei de que poderia, então, curtir o recital de meio-dia na Grace Church de White Plains. 

Em tempos de tanto debate no Brasil sobre suicídios de jovens, compartilho imagens de crianças e adolescentes que estão fazendo algo muito mais interessante do que passar horas se alienando em joguinhos na web. 

É possível, sim, manter a garotada ativa em outras paragens. Dá trabalho, claro. No Brasil, temos ainda o fator "grana" (as bandas aqui são formadas nas escolas públicas gratuitas e integrais). Mas com um pouco de criatividade, dá pra inventar moda com seus filhos sem ter de gastar dinheiro também. 

Resta aos pais mudarem os próprios hábitos de lazer, ou seja, sair da frente da TV ou abrir mão do churrascão de todo domingo para, quem sabe, fazer um rolé com os filhos de bike? A pé? Visitar uma exposição gratuita? Levar para os concertos da Orquestra Sinfônica de Brasília, que são grátis? 

Você conhece todos os pontos turísticos da sua cidade? E os museus? Que tal chamar seu filho pra fazer um ensaio fotográfico sobre árvores, flores, prédios? Eis um belo uso para os celulares! 

Shopping não vale. Isso não é passeio com densidade emocional. Vitrines e compras são apenas prazeres imediatos que se dissipam imediatamente. 

Acredito piamente que falta mais música clássica e poesia na vida de todas as famílias. Arte, enfim! A Arte, em todas suas formas, ajuda a dar sentido à existência; responde muitas perguntas; instiga e tranquiliza... 

Hoje, o jazz rolou solto dentro da casa do Senhor. E eu mantive a esperança de que esse papo de Baleia Azul é mesmo para quem não tem acesso livre ao que realmente faz a diferença nessa vida!




Treze






A parada era para celebrar o início da temporada de primavera de baseball para a garotada. Pais que amam o esporte se voluntariam para treinar novas gerações a amar o esporte. Assim é o americano, com seus fortes laços com a comunidade na qual vive.

No meio da balbúrdia de tantos garotos e garotas caminhando pelas ruas de White Plains, ouço uma voz masculina chamando com insistência e sotaque ianque:

- Tomás, Tomás!

Cutuco meu filho e ele reconhece o professor de Educação Física da Middle School. Ele sorri, os dois se cumprimentam e entabulam conversa animada em inglês. Alguns minutos depois, o professor se dá conta de que sou a mãe do menino e vem apertar a minha mão dizendo:

-Tomás é um grande garoto, é realmente um prazer tê-lo nas minhas aulas!

Assim é! Por onde passa, esse guri vai colecionando elogios espontâneos das pessoas. Como o e-mail que a professora de inglês mandou na semana passada, apenas para contar que Tomás havia compartilhado maravilhas sobre a viagem pela costa-oeste.

Ele é desse jeito, nasceu assim. Sua empatia e sensibilidade são naturais, bem como sua reserva e certa indulgência. Tomás é a personificação do tal "menino de ouro" que agora se torna, para os americanos, um oficial teen: thirTEEN!

Happy Birthday, bebê grande! Love you!



segunda-feira, 27 de março de 2017

OkrA!









Hoje está chovendo a cântaros, mas a semana promete ser, enfim, mais quentinha. Minha vida: um dia gata borralheira; noutro Cinderela. Num momento, em Manhattan para conferir a nova montagem de La Traviata; no outro, guarda a louça e lava a roupa. 

Rotina de empregada doméstica mesclada com dia a dia de madame. É meio esquizô, mas é a vida de todo mundo por aqui. No Brasil é que a classe média é mal acostumada à beça. Fato.

27 de março. Aniversário de Dindinha, que já estaria para lá de centenária. Acordei pensando nela e com saudades das festinhas anuais com bolo de glacê verde no galpão da São Judas Tadeu. 

Na aula de pilates, o colega coroa que tem um irmão casado com uma brasileira (e mora em Sampa), fala de comidas baianas que provou e adorou. Justo hoje, no dia de Dindinha, a mais baiana das capixabas! 

Ele lembra da moqueca e de um tal de okra. E repete a palavra okra e tenta explicar do que se trata. Bernardo e eu demoramos para pescar... Enfim, sacamos: quiabo! O colega americano amou quiabo. Amou Caruru e uma espécie de farofinha que ele provou com quiabo "like dust", afirmou.

Eu detesto quiabo, porém Dindinha o reverenciava. Vire e mexe preparava Caruru e me obrigava a comer aquela coisa babenta feiosa. Quando eu ia à Bahia, sempre me encomendava camarão seco das feiras de Itapoã... 

Quiabo: verdinho como Dindinha, que só se vestia com a cor do manto de seu santo de devoção. Engraçado o colega americano falar de baianidades justo hoje, no aniversário da minha preta velha! Conexões telúricas são como bruxas: a gente não acredita nelas, mas que existem, existem!



terça-feira, 7 de março de 2017

Feijoada no Céu







O sonho da madrugada reuniu dois mortos queridos. Talvez porque uma gostasse de cozinhar; o outro, de comer. Dindinha morreu no fim de 2009. Claudio Roberto, no início de 2017, para ser exata, no dia do meu aniversário: 21 de fevereiro. Recebi a notícia por mensagem do facebook de outro amado: Marco Antônio que, sem saber que estava para jantar relaxadamente sozinha com o marido na última noite em Miami, me repassou a notícia.

Ainda bem que já havia retido na janela da alma as cores intensas da capital da Flórida. Também já havia armazenado o calor da brisa morna das ruas mais latinas do que norte-americanas, pois, de repente, tudo ficou gelado e escuro. O prato de ravióli, largado pela metade (Claudio Roberto iria me repreender por tanta heresia). Quem mandou conferir as redes sociais enquanto o marido estava no banheiro?

Claudio Roberto, o segundo amigo de infância que perco na vida. O primeiro foi o vizinho e amor platônico Toninho, sobre quem escrevi à época. Claudio Roberto era amigo, sempre foi. E sempre foi duplo como o nome dele: gordo. E não pensem que estou depositando o peso do preconceito no adjetivo que por si só é pesado. Não me importava com esse fato, apenas constato. Ele era dos nossos. Entrou para o grupo que morava ali no cantinho final da Asa Sul: Marco Antônio, na 316; Larinha, na 714; eu, 715 e Claudio Roberto, na 115. 

Filho de militar, uma mãe que me parecia superprotetora e pouco preocupada em frear as gulodices do filhão, vivíamos uns nas casas dos outros, principalmente eu, criada solta, liberta, moleca. Nunca me esqueço da tarde de cachorros-quentes no apartamento do Claudio Roberto. Bandejas e mais bandejas... Assim como guardo no coração a gente assistindo ao "Purple Rain", embasbacados com aquele som e figura revolucionários do Prince na sala de Marco Antônio.

Era a descoberta da adolescência; das festinhas da vassoura ou do lenço; dos primeiros batons e beijos na boca. Era o fim do ginásio no Colégio Notre Dame, lugar que reuniu galera tão diversa em personalidade numa amizade de forte conexão emocional capaz de resistir ao tempo e à distância, amenizados por esse mesmo facebook milagroso.

Nunca mais vi Claudio Roberto. Há décadas não nos encontrávamos, apesar de morarmos na mesma cidade e, coincidentemente, termos escolhido a mesma profissão: Publicidade. Mas acompanhava de perto sua vida de professor da área na faculdade IESB (e o admirava por isso). Curtia de verdade, não apenas por netiqueta, suas postagens às vezes ácidas, outras, irônicas; às vezes melancólicas, outras, divertidas; às vezes, solitárias; outras, agradecidas, no ativo perfil que mantinha no FB. Quase me sentia amiga da esposa dele, de tanto que ele escrevia com amor sobre a Mônica.

E, do nada, ele morre assim, eu longe, sem nem poder dizer um tchau? Putz, foi triste. Mas o sonho, esse mecanismo delicioso de unir o impossível; de resgatar o inalcansável, coloca Dindinha e Claudio Roberto num mesmo encontro onírico.

Será que Claudio Roberto gostaria de comer a galinha ao molho pardo preparada por Dindinha que jamais tive coragem de provar? (todo aquele sangue que eu via se esvair do pescoço semi-degolado da pobre coitada não me parecia nada apetitoso). Será que ele pediria mais do cação ensopado da Dindinha que me apavorava? Odiava aquele peixe com gosto de peixe que era obrigada a comer na infância... 

Ou Claudio Roberto gostava apenas de guloseimas? Não, ele era um glutão com bom gosto, aposto! Tenho certeza de que não recusaria o feijão preto da preta velha. Esse, sim! Um feijão preto feijoada, suculento, denso, temperado com amor de madrinha. Ela gostaria de vê-lo devorar tudo com devoção nos almoços de sábado.

Então, Dindinha, põe mais um prato aí na mesa do céu, porque já convidei o amigo. Aproveita e chame a comadre Maria também. Ela vai gostar de rever o Claudio Roberto!