quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Deo Gratias!




A luz amarelada do Outono invandia o piso da sala, além do meu coração. A campainha toca, abro a porta. Ele adentra o corredor do apartamento com a serena presença de sempre. Um frescor distante da minha melancolia. 

O lanche da tarde já está sobre a mesa. Ele se senta e começa a mordiscar o pedaço de bolo, conversando sobre o dia na escola. Me posto à sua frente e observo seu rosto de anjo bem esculpido pelos artistas da genética. Meu filho, seria mesmo meu? É uma dádiva. Um menino pronto, bem acabado em forma e conteúdo. Está tão crescido, pubescência. Entretanto ainda resguarda a infância em algumas atitudes, como pedir ao pai ou a mãe que lhe desejem boa-noite ao pé da cama.

Será que teria sido uma criança como ele se tivesse tido uma família a me comtemplar com olhos de benevolência? De onde veio a completude desse quase rapaz? Ele gosta de presentear as pessoas, fazer surpresas. Agora mesmo chegam mensagens dos amigos do colégio em Brasília, embevecidos com os souvenirs que ele fez questão de escolher para cada um. É uma coisa dele que é minha, posso reconhecer: esse prazer em pensar que aquela pessoa gostaria daquele mimo e poder ofertar essa alegria. Me orgulho, é claro.

Suas atitudes não são impulsivas. Ele não é enérgico, nem muito curioso. Sua passividade às vezes incomoda os pais, preocupados com a aparente inércia desinteressada. Parece já ter o coração assentado numa tranquilidade de saber que a vida vai ser boa para ele. Ao menos foi o que disse a amiga astróloga quando me mostrou o mapa astral do primogênito: "Veja todos esses planetas em Vênus, todas as portas estarão abertas para esse menino". Até o momento, sim.

Segue conquistando os corações conhecidos e desconhecidos... Do nada, recebo elogios: "Esse menino é seu filho? Tão polite, tão kind". Fez um teste para participar do time de basquete, competição acirrada entre tantos pré-adolescentes, foi pré-selecionado. Nem ele entendeu, modesto: "mas eu fui o segundo pior!!!".

O caçula, oposto absoluto. Sanguíneo, voraz, guloso de conhecimento. Suga nosso ar e nossa energia. O mais velho compreende que é preciso ser o remo de Rômulo. A bússola e o remanso para que o irmão inquieto e insone se ancore a cada dia.

Fico feliz que sigam irmanados nas brigas e nos afetos como jamais pude experimentar com meus irmãos, dispersos pelas contigências das perdas precoces e suas demandas injustas. Aquieto meu coração nesse pensamento: sempre terão um ao outro. Reconforto. Quem é órfão desde que veio ao mundo carrega a mórbida angústia de achar que vai partir antes da hora. Mas qual seria a hora ideal, enfim?

Por isso, escrevo aos astros, a Deus (ou para mim mesma): grata por enviarem o menino-anjo aos meus cuidados. Sei que não o mereço, mas ele também sabe e ainda me garantiu: "somos uma família feliz, sim, mamis! Com a Frida, ainda mais".

Louvado seja!



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

"Lá vem o pato, patiti, patacolá..."





"And it's all over now, baby blue". Não adiantou o Nobel premiar Bob Dylan como um alerta, uma aviso para deter o horror, o horror. Não adiantaram as denúncias de abuso sexual: milhares de mulheres foram às urnas para eleger Trump. Quando vi uma brasileira que vive na Flórida dizendo que iria votar em Trump por causa de seus valores, tive a certeza de que ele venceria.

Se em um estado progressista e libertário como Nova Iorque era possível ver centenas de carros e casas estampando adesivos de Trump, o que dizer dos EUA profundo? Deu no que deu. E agora a Idade Média se globalizará... Foi só no que pensei hoje, ao acordar: em como a história é cíclica. Só não estava a fim de viver isso nesse momento. Talvez na próxima encarnação, mas não já.


Nem ligamos os telejornais brasileiros hoje cedo. Acordamos deprimidos. A impressão que tenho é de que estou revivendo toda a loucura de 2001, com a vitória de Bush arrastando o mundo para a radicalização islâmica sem precedentes. Pensar que Trump pode alcançar níveis ainda mais baixos é avassalador.

Pensar também que oito anos de Obama e Michele nada serviram ao processo de educação moral e cívico dos EUA me deixa absolutamente devastada. Se depois de uma experiência de alto nível intelectual, social e humano promovido por essa dupla, a Casa Branca vai receber uma boneca inflável no posto de primeira-dama, o que esperar de nós, república da piada pronta? Quem o Brasil elegerá em 2018? Trevas...

Fui para a aula de pilates como uma autômata. Os colegas de classe, coroas brancos, remediados e cultos estavam todos deprimidos também. Uma névoa de angústia envolvia todos os olhares. O primeiro trecho de conversa que pesquei foi exatamente: "dark ages". Sim, eles também sabem que os EUA são capazes de promover a escuridão no planeta.

Um alucinado detém o poder da maior potência bélica mundial nas mãos, apoiado pela maioria do congresso americano. Muita insensatez pode brotar dessa conjunção astral nefasta.

O amigo Brain me pegou numa conversa longa ao telefone logo depois da aula. Também estava devastado, o coitado. Disse pensar em aceitar proposta para morar na Holanda.

Tomás e Rômulo seguiram para a escola tristes. Rômulo pediu para ouvir Faroeste Caboclo e eu pensei: sim, é o far west se apossando da evolução social para aprisioná-la num deserto de incivilidade.

Desci as escadas do prédio da YMCA e dei de cara com o cartaz que fotografei e está aí em cima. Quase ri de desgosto, de nervoso, de pavor. Segui para casa sem ligar para a garoa que molhava meus óculos. Qual é a vantagem de enxergar num cenário de breu?

Até o sol foi embora hoje. O dia é cinza para atestar que os americanos, para variar, foram longe demais. O ovo da Serpente está posto e vai eclodir. Quem vai pagar o pato do Donald?



quinta-feira, 27 de outubro de 2016

"Se você disser que eu desafino, amor..."






Enfim o ontem chegou, recheado de coisas especiais, como o aniversário de 4.0 do meu sobrinho primogênito e também a primeira aula no "Women's Vocal Ensemble" do Conservatório de Música de Westchester. 

Eu e minha boca grande ou cara de pau, no que fui me meter? Entro no Conservatório, que fica pertinho de casa, alguns quarteirões na noite densa (apesar de ainda não ter dado sete e meia). O rapaz da recepção me explica que devo subir a escada e entrar na sala 200. No caminho, vou passando por maravilhosos instrumentos sendo executados por alunos aplicados em salas de ensino individual. Uma atmosfera que já dava uma pista de que ali ninguém brinca em serviço.

Alcanço a porta da sala de ensaios e vislumbro cinco mulheres aguardando sentadas debatendo a atuação de Tom Hanks no filme Sully. Entender inglês eu entendo perfeitamente. Meu ouvido já é capaz de acompanhar todo o debate HillaryXTrump sem necessidade de legendas.

Era a primeira vez que eu estava num ambiente de sala de aula totalmente norte-americano. A única forasteira ali era eu. Em todos os sentidos, para o meu pânico. 

De repente, surge a professora. Uma diva! Puta experiência em ópera, em montagem de musicais, em lecionar... Todas as outras alunas, três senhoras na casa dos 60 e as outras duas mais ou menos da minha idade também tinham passagens prévias em corais, em aulas de canto enquanto eu, a sem noção, venho de participações no "Corte em Canto" do STJ e na Sereneta de Natal da UnB (Ok, rolou um curso de canto-coral na Escola de Música de Brasília, but...).

Tratei logo de dizer que era completamente amadora e que só gostava de cantar, apenas isso. Esclareço para vocês que quando me inscrevi, li na proposta do curso que se tratavam de aulas abertas a qualquer pessoa, não era preciso ter experiência.

Mary Elizabeth (as conexões telúricas de sempre, né, Maria Elisabeth Ratz?) pergunta se todo mundo sabe ler música. Hahahaha! I don't!, responde a impostora. 

Tô quase para sair de fininho da sala, mas há outra aluna que também não lê, ufa! A regente distribui uma peça em latim, senta ao piano e faz todo mundo cantar. Depois, lasca um "spiritual" bem igreja batista do Harlem e pede pra gente bater palmas e dançar. Ok, me safo, ela percebe: "você sabe dançar!" Bem, sou brasileira, respondo. "Sim, não esperava menos de você", ela afirma de forma assertiva (característica mais americana, impossível), tocando furtivamente seus cabelos esvoaçantes. E fomos nessa toada até o fim, quando ela concluiu: "You have a lovely voice". Quase derreti, virei suquinho de caju...

Não sei se vou conseguir acompanhar o ritmo das aulas nada iniciantes, mas vou tentar. Espero, com ansiedade, que outra zezinha como eu se junte ao coro. Ou que uma das velhinhas, a mais simpática, me adote. "É fácil aprender a ler música, você tem um piano em casa?" Ó, quanta delicadeza e inocência dessas americanas classe média-alta de Westchester... Depois me disse que adora Astrid Gilberto e fica feliz por eu saber quem ela é. (Só não confesso que não gosto dela, nem do pai dela e nem da irmã dela). Pra quê discutir com madame, né?

PS: a foto que ilustra este post é um detalhe do carpete que decora todo o Music Conservatory of Westchester

Espiem o currículo resumido da teacher:

MARY ELIZABETH POORE
Classical Division: Voice
Degrees and Studies
B.M. and M.M., Indiana University
Music Conservatory of Westchester
Faculty since 1993
Born in: Mt. Pleasant, Michigan

Performances and Distinctions: Ms. Poore has performed throughout the United States at venues including Carnegie Hall’s Weill Recital Hall, the Brooklyn Academy of Music, Merkin Concert Hall, and the Detroit Opera House, and has performed with groups including Michigan Opera Theater, Orlando Opera, Virginia Opera, Mobile Opera, Des Moines Metro Opera, Sarasota Opera, Glimmerglass Opera, and Lyric Opera of Cleveland. She has recorded for labels including Capstone Records, Living Artist Recordings and Newport Classic Records. She was a national winner of the National Federation of Music’s Young Artist of the Year, a first prize winner of the Oratorio Society of New York, a winner of the Distinguished Performance Award of the Minna Kaufman Ruud Fund and a finalist in the Bayrische Rundfunk Munich International Vocal Competition. A devoted music educator, Ms. Poore has taught at the Turtle Bay Music School and is currently on the faculty of the Bel Canto Institute in Florence, Italy.



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Gratitude






Quando moramos aqui em 2001/2002, não existiam as mágicas redes sociais. Os e-mails eram a forma mais moderna de interagir com os amigos e parentes, mas, ainda assim, poucas pessoas o utilizavam fora do ambiente de trabalho. Não era fácil tirar e enviar fotos, pois os celulares mal tinham saído do forno e não traziam com eles câmeras bacanas para viralizar imagens. 

Agora, posso compartilhar com vocês todo o esplendor do outono em NY. É impossível descrever a magnitude da natureza nessas bandas de cá no mês de outubro. Quero parar o carro de minuto em minuto para registrar o que meus olhos podem ver e repartir com vocês essas visões idílicas inacreditáveis. 

Ao caminhar, pareço uma weird americana, parando a cada árvore, a cada raio de sol que bate numa folha tornando-a mais púrpura, mais alaranjada. Frida não me compreende, quer seguir andando. Deixe de ser chata, Frida!, reclamo em bom som, me tornando ainda mais esquisita aos olhos dos que cruzam comigo pelo caminho.

Aliás, não são muitos. As pessoas não deambulham por aqui. Ou don't care about the beauty of life ou já transformaram a estação em evento banal de todos os anos.

Para mim, é uma lição diária de reivenção do tempo. Quem sabe o tapa na cara - com luvas de maple  - com o propósito de me desparalisar frente à sublime vivência da mãe-Terra que me foi concedida.

Acolho o pito. Saio do torpor para enlaçar os arredores, ressuscitando dolorosamente para mais um dia. Mínimo gesto de gratidão.



















quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Calor sensível







O dia está tão bonito que não encontra adjetivo.
O frio faz cócegas nas bochechas dos passantes.
O Sol brilha na exata medida da retina.
Alguns amigos distantes comunicam a morte de seus bichos do coração na semana em que se celebra São Francisco de Assis. Penso na poesia da coincidência e imagino o Irmão Sol recebendo os diletos animais com seu generoso abraço fraternal.
Penso também em Frida, claro, não a Khalo. Em como o olhar dela consegue me arrancar da autocomiseração e buscar o mundo exterior.
A imensa tela do cinema me instiga: "What's your favorite thing on the Earth?" 
Talvez o universo no qual o planeta flutua ordenado e perene?
Quem sabe os raios solares do outono no Hemisfério Norte a nos aquecer sem nos ferir?
Ou seria o inesperado calor humano da colega de classe japonesa ao perguntar: "Se eu conseguir um apartamento maior em Tóquio, como eu quero, você vai me visitar?"

Todas as alternativas estão corretas.



quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Conto de Deer





As manhãs de segunda são fadadas ao sono excessivo e ao resmungo. Sem falar no atraso e no esquecimento das coisas. As manhãs de segunda só não são mais excruciantes do que as noites de domingo. Então a indefectível manhã de segunda apareceu, com suas chatices habituais (os dias da semana também gostam de rotina, provavelmente). Tira os meninos dos sonhos, corre com o café para não perder o bus school, atira o pijama em cima da cama... 

O trajeto familiar rumo ao norte do estado de Nova Iorque é o diário: sempre bonito, bonito que enjoa. Nada de novo no dia que começa cinza até que ele salta na frente do carro: uma aparição do verde da mata para o chumbo da highway. Ele salta e meu grito salta com ele. Um grito de assombro e maravilhamento. Estanco o fôlego, suspense: será que ele consegue chegar do outro lado nesse vai e vem de carros enormes na hora de pico?

Um cerdo, majestoso e volumoso, jé flagrado pela retina na segunda-feira. Não é uma pedra no caminho, mas um ser vivo, viçoso e imponente, que transita entre os contos de fada e a realidade. Ele salta uma, duas, vara a barreira de proteção de concreto e pousa lépido do outro lado da via lotada. Vai ver que se toma por grilo ao invés de musculoso e portentoso cervo. E do modo que surgiu, desapareceu na mata à esquerda. O grito dentro do carro nem havia alcançado o ponto de exclamação. O voo do cervo foi mais rápido do que o meu espanto.

Só restou deixar o marido no trabalho e seguir pelas vicinais em busca do cervo perdido. A procura me leva a uma estradinha que indica um santuário ecológico. Adentro lentamente com o banheirão e vejo casas nas sombras dos red maples... Casinhas de boneca no meio da floresta. Maria ou Chapeuzinho para o carro na solidão do condado e pega uma trilha. Os irmãos Grimm lhe levam pela mão. 

As folhas amareladas tocam o chão como passos. É lindamente assustador. A menina segue mais um pouco, os passos aumentam, lhe cercam. Floresta adentro, ela sente olhos enfeitiçados à espreita se esgueirando pelos troncos úmidos. Um vapor entorpecente emana dos  musgos e cogumelos gigantes. 

Decide voltar antes que o conto de Hans Cristian Andersen se torne uma história de Edgar Allan Poe. Envelhecer dá medo.



segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Valei-me, Nilse!





A louca dos patos está lá. Não, ela não é louca e nem os patos são patos, mas gansos canadenses. As imprecisões de sempre, os rótulos. A fuga confortável. Mas me incomoda ela ocupar a parte potável do espelho d´água com suas visitas diárias. Ela leva uma cadeira, leva um laptop. Ela conversa com os bandos e, a despeito de uma placa pedindo que as aves não sejam alimentadas, desconfio que não liga, a mulher desgrenhada, parecendo a Dian Fossey dos plumados. Desse modo, tenho de escalar umas pedras pontiagudas com Frida para que ela possa refrescar a garganta com a água do lago.

A caminhada é puxada para as perninhas curtas da corgi, mas se não fosse Frida, talvez nem caminhasse, sucumbida pela melancolia do subúrbio. A ressaca pós o excesso auditivo, olfativo, visual e tátil de Manhattan deriva numa inércia que beira o intransponível. Mas Frida me olha com olhos de súplica pela brincadeira e saio da autocomiseração para o mundo lá fora, que ainda está bonito, não muito quente anymore, que bom! E no caminho que margeia o Bronx River, que deve ter sido um majestoso rio num passado distante, porém hoje é só um córrego com pinta de poluído, mas bem disfarçado pelas matas ciliares lindas, vou cruzando com os seres estranhos produzidos pela sociedade americana, pródiga em criar personagens solitários, excêntricos, obesos, assassinos.

Outro dia, um desses estava ao longe bem no meio da trilha. Um capuz cobria seu rosto, ele se balançava de um lado para o outro exatamente no local onde eu deveria passar em breve. A imaginação fomentada por anos de filmes policiais e de terror americanos me dizia que ali estava o psicopata esperando uma vítima desprevinida, no caso, eu e Frida que, creio, não é do tipo de cachorro que vai defender a sua dona com unhas e dentes. 

Alguns metros atrás de mim vinham o que julguei ser uma futura avó ao lado da filha grávida. Hesitei rumar ao inevitável encontro com o homem de capuz e moleton largos, mas elas, não. Seguiam animadas na passada e eu disse a mim mesma que deveria ser coisa da minha cabeça. Era, evidentemente. Fui me aproximando do cara e concluindo que era só mais um doido desses comuns por aqui, esperando alguma coisa ou nada no meio do caminho. Nos EUA, é recomendável rever seus preconceitos. Eles gritam na sua cara a cada minuto e toda hora você precisa repensá-los. 

Se você se lança à rua, inevitavelmente ruzará com figuras a lhe provocar desconforto imediato. E não por serem moradores de rua, viciados em crack ou mendigos, como no Brasil. Apenas por serem esquisitões que se sentem à vontade em ser esquisitões.

O casal que ontem pedia dinheiro na pracinha das fontes de White Plains (cena que nunca tinha visto antes por aqui), hoje estava sentado comendo junk food à beira da trilha. Ontem, uma mulher correndo pelas calçadas de Manhattan gritou que ela corria ali e que a gente deveria sair do caminho dela. Quase falei fuck yourself, sua crazy bitch! Ela assustou os meninos que vinham tranquilamente subindo a ladeira. Mas os americanos são assim: eles acham que todo mundo tem de aguentar a piração de cada um.

Já experimentou fazer compras de supermercado aqui nos EUA? De cinco em cinco segundos você é importunada com um excuse-me, com um sorry, com alguém que simplesmente não pode mover o  carrinho dela ou tocar no seu carrinho para empurrá-lo um pouquinho para lá. A pessoa se acha no direito de passar bem no meio e ela vai exigir isso de você. Então você não fica em paz para apreciar as gôndolas, pois têm de estar de olho se o seu carrinho não está atrapalhando o trajeto de todos os reis da privacidade.

Saio das compras com vontade de descarregar uma metralhadora de impropérios: povo louco, louco, louco!!!! Então fica fácil entender porque alguns cidadãos sentem a mesma gana e descarregam suas semiautomáticas nas cabeças das pessoas. É uma sociedade com altíssimo nível de repressão moral e social. Sufoca.

No clube dos abonados brancos de Westchester, um calor daqueles e todo mundo vestido. Ninguém passa de biquini ou maiô para lá ou para cá. Só tiram as roupas para cair na piscina e depois colocam novamente. Nem as adolescentes. O corpo é um tabu. Depois falam da opressão da burka. Não vejo muita diferença entra as mulheres inorgásmicas de camisetas largas e o burkini.

No parque dos cachorros (aqui você só pode soltar seu cachorro da coleira em parques específicos para isso) um new yorker reclamava exatamente do excesso de regras até para se ter um cachorro nos EUA. "Gente que não tem o que fazer". Concordei. 

Será que é o preço a se pagar por um pouco de civilidade? Esse big brothernismo, um Estado que defeca regras e mais regras para que a comunidade se comporte com um mínimo de razoabilidade? O excesso de cuidados, de under vigilance trazem o conforto necessário ou parece mais uma ilusão de controle que escorre pelos dedos quando se nota as altíssimas taxas de assassinatos e suicídios para um país de primeiro mundo?

Sei lá, não sou socióloga, porém fiz os mesmos questionamentos a um amigo do Bernardo, filósofo e físico, ou seja, alguém anos-luz mais esperto do que eu. Sua resposta foi que eu não me desesperasse porque alguns países da Europa conseguiram um meio-termo mais razoável entre deveres e direitos do que os EUA. Alívio.

Viver cerceada por regras estúpidas me deixa louca como a louca dos patos. Valei-me, Nilse da Silveira!


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Surprise






A senhora atrás do balcão era o fenótipo da americana culta. Alva, quase transparente, com a típica educação polida + simpatia de giz que os americanos brancos têm. Estava no Music Conservatory of Westchester, a dois quarteirões da nossa casa, para pagar minha matrícula no Coro de Mulheres. 

Ela perguntou o meu nome, expliquei que já havia preenchido todo os formulários pelo site (aqui você preenche formulários extensos e chatíssimos para tudo, inclusive para se inscrever em ensaios de coral).

- Last name?

- Assunção

A senhora repetiu assunção com uma familiaridade impossível para os americanos. Depois, repetiu Luciana perfeitamente, me deixando muito confortável. Só no final do atendimento, a danadinha me disse que era portuguesa, do arquipélago dos Açores.

Mais um caso de "quem vê cara, não vê coração".




sexta-feira, 19 de agosto de 2016

"Bitter Sweet Symphony"






Momentos de euforia, momentos de banzo. Quem passa pela experiência de estar exilado da terra-natal vive nesse revezamento olímpico. Para alguns, dura mais do que para outros. Não lembro quanto tempo levei da primeira vez para me sentir menos desconfortável nos EUA. A impressão é que envelheci para me meter nessa gangorra emocional. Sinto-me enfastiada como se já tivesse feito tudo o que eu precisava fazer: oba, as férias acabaram, vamos voltar pra casa? Sinal visível de rabujice como os cabelos brancos que insistem em aparecer sem serem chamados. Ainda bem que aqui na CVS Pharmacy você encontra um spray da Loreal que disfarça bem aquelas entradas grisalhas. Poderia existir um para disfarçar tédio e mal-estar.

Outro dia Tomás pediu que a gente colocasse música brasileira. Rosa Passos trouxe um conforto auditivo que fez bem até ao estômago, comida de mãe, mingau de maizena. Hoje fui eu quem corri para o spotify e tasquei Marisa Monte. Não podia suportar mais nenhuma narração esportiva em inglês. Deveria ter assinado a Globo para ver as Olimpíadas, vacilamos, mas não tivemos tempo para pensar sobre isso com um apartamento para mobiliar nas costas. Costas, elas andam bravas comigo nesse momento em que varrer, esfregar e lavar entraram no meu dia a dia. Mas os guris já estão devidamente adestrados para limpar o próprio banheiro. Guardam sua própria roupa e lavam as panelas. Trabalho infantil mais do que recomendado.

Hoje conseguimos, enfim, fazer a matrícula dos meninos no sistema público de educação de White Plains. Tivemos de preencher uns dez formulários diferentes, além de receber outras tantas informações que me deixaram mareada. O cérebro anda recusando a entrada de novos dados, dado o acúmulo de aprendizados recentes. Aos poucos, alguma rotina vai se assentando. Em breve, estarei fazendo minhas aulas de smart housewife: balé, coral e um cadiquim de inglês. Creio que a sensação de desconforto latente vai passar quando esses compromissos se tornarem parte da vida.

Todavia, sigo me perguntando como é que um brasileiro consegue atravessar a exitência nos EUA de boa, até feliz. Não é pra mim não. Abraço de gringo é sem graça. Não vou falar da comida porque seria chover no molhado. Pessoas que cultivam impecáveis jardins e os deixam abandonados, sem usufruir do prazer que eles proporcionam, me angustiam. Imagina a sofrência de Manoel de Barros com esse povo esquisito!!! A mãe de uma conhecida minha, que mora há anos na Califórnia, afirmou dias atrás: "os americanos não sabem viver". I agree with her.

Mas devo admitir que houve uma mudança significativa no comportamento social dos americanos brancos, heterossexuais, sempre no comando. Vejo mais famílias curtindo os parques do que em 2001/2002. Talvez a presença massiva de hispânicos, com postura mais gregária e extrovertida, esteja influenciando nesse ponto também. 

Falando neles, nossa vizinhaça é formada por latinos que vivem em multifamily houses, além de negros. Os poucos brancos da rua estão no nosso prédio. Somos uma ilha de brasilidade cercada de hispanicidade por todos os lados. Entre os formulários a ser preenchidos durante o registro dos meninos na escola, estava o de origem racial/cultural. Bernardo queria que eu marcasse hispânica. Oras, que ideia! Conversei com a funcionária, expliquei que não tinha background hispânico. Somos portugueses, africanos, indígenas, mas não cucarachas! 

Não me levem a mal, porém sou mais Pessoa do que Lorca, entende? O Português é meu grande amor. Nada posso contra a força da língua-materna. Engraçado como o orgulho e o patriotismo afloram nessas horas de desterro. A funcionária concordou comigo e respondeu que me entendia perfeitamente. Então marquei um X em outros, pronto.

Os guris já fizeram um amiguinho na Harmon street. É negro (aqui tem de falar black) e cheio de irmãos menores e maiores. Lembrei da minha infância nas ruas da quadra 715 sul. Minha primeira amiga era negra, Vanessa, com suas irmãs Cláudia, Elaine e irmãos: Gustavo e Márcio. Em White Plains, Tomás e Rômulo terão a oportunidade de conviver com a diversidade de etnias, de realidades menos burguesas do que a deles. Um aprendizado cidadão para todos nós.

Houve um hiato do começo do texto para o final. Saí para desfrutar da natureza e afastar a deprê que ameaça se instalar, logo na sexta, o melhor dia da semana! Aqui a gente passa fome (a inanição permanente provoca tristeza), mas os parques, ah, os parques, são redentores!

See you, hasta luego, inté!


* Título de uma canção do grupo The Verve




segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Groundhog Day







Estava tudo azul na manhã de segunda a caminho do aeroporto JFK. Bernardones iria cruzar o país leste-oeste para uma conferência em Santa Bárbara, Califórnia. Deixei o rapaz no terminal 4 e apertei o GPS com destino casa. Pra quê...

Teve início a jequice do dia. Para evitar pedágios, o GPS me enfiou na Queensboro Bridge, a mesma que atravessamos para visitar a amiga Agnes no Queens. Peguei um puta congestionamento porque todo mundo quer alcançar Manhattan na segunda por volta das 9h30 am.

Fui fondo, fui fondo, seguindo o GPS pela FDR (Franklin Delano Roosevelt Drive) no sentido norte, mas, de repente, algum acesso fechado - sempre tem alguma coisa em construção ou reforma em NY - e o GPS começa a recalcular a rota. Você não pode ficar parada no meio do trânsito com a sua banheirona Subaru e não tem acostamento e não tem via de escape e não tem vaga e você perde a saída certa e, de repente, está voltando para o mesmo caminho da Queensboro Bridge.

Nessa eu fiquei umas três vezes, juro. Me senti personagem do clássico "O Anjo Exterminador", sem conseguir sair daquela ponte amaldiçoada. Legal que a vista de Manhattan é linda, mas a gasolina estava se esvaindo e não podia nem pensar em ficar sem combustível no meio do huge traffic jam!!
Driving in circles feito uma abestada e entrando em desespero, segurei o trevo de quatro folhas pendurado no meu pescoço, presente de Rosinha Encarnadinha recifense, e pedi ajuda aos anjos, à mamãe, à dindinha para sair daquele "Feitiço do Tempo" nada divertido. Afinal, não tenho o nonsense de Bill Murray e muito menos a beleza de Andie MacDowell. Saquei, devo ter sido escalada para ser a marmota! Elementar, minha cara otária!!!!

Quando imaginei que não haveria nada a fazer a não ser ligar para o friend Brian para vir me resgatar a brasileira sem noção à milhas de distância (coragem para pedir ajuda para americano cheio de dedos é foda), vi uma placa de sinalização indicando Albany I-87. Albany fica para o norte, é a capital do estado. É preciso passar por Westchester para chegar lá. Dei aquela guinada no banheirão, levei uma super buzinada do carro que vinha atrás, torci para não haver nenhuma viatura policial e me desembestei pela esquerda.

Quando divisei outra placa atestando que havia adentrado o Westchester County, soltei um urro. Mas quando vi a placa indicando White Plains, comecei a sorrir histericamente!!! Quase abandono o carro no meio da highway em surto digno de "Garota, interrompida". Só para constar: deveria estar em casa por volta das 10h30. Só estacionei na vaga ao meio-dia e tanto.

O dia que eu tiver um dia normal, terei de narrar um factoide, pois estou deixando vocês mal acostumados, não é verdade?

See you soon, hasta luego, inté!


sábado, 6 de agosto de 2016

Unforgettable night






Tô assistindo a abertura dos Jogos do Rio no delay. Os comentaristas da NBC estão gostando do que estão transmitindo . É engraçado ler no FB tudo o que já aconteceu e que eu tô aqui lutando pra permanecer vendo... O sono está grande, mas não posso perder a primeira e última Olimpíadas da minha vida no meu país. Acho que foi uma abertura digna. Bem melhor do que a da Copa, muito fake. Hoje foi mais brasileira. Afinal, quando o mundo pensou em testemunhar Gisele B. pulando de alegria, descabelando como qualquer mortal no meio da galera? Adorei!

"In Brazil, fun is contagious, joy is contagious. They did very well". Certamente, nosso maior patrimônio é essa espontaniedade afetuosa. Para uma menina que cresceu amando Jogos Olímpicos alhures, é arrepiante ver a primeira Olimpíada da América do Sul acontecer no Brasil (ainda que agora seja eu a estar alhures). Vida, sua irônica!

Difícil foi dormir com o nariz entupido ontem, depois da meia-noite, momento em que terminou a exibição da abertura dos Jogos do Rio pela NBC com um super delay (o canal tinha exclusividade de transmissão). Faltava aos narradores conhecimento de causa sobre o Brasil, mas foram simpáticos e gostaram do que viram. O The New York Times também: "The opening ceremony of the Games disguised Brazil’s wounds for a few hours and let the country celebrate its history".

Sim, a gente é especialista em esquecer a dor e celebrar. Fizemos isso lindamente ontem. Só a Frida me viu chorar no escuro da pequena sala. A entrada da bandeira olímpica carregada por Joaquim Cruz, um dos meus heróis esportivos, foi tocante. Assim como ver Oscar Schmdit bem, recuperado do câncer. Na minha opinão, excelente a escolha dos "carregadores". 

Depois, Guga adentrando o estádio com a tocha, trazendo a emotividade do choro, tão brasileira, me arrepiou toda. Hortênsia e Vanderlei Silva acendendo a pira, que justa homenagem!! 

O frio metal se transformando em verdes-vivos arcos olímpicos; Paulinho da Viola, nervoso, engrandecendo o Hino Nacional; Anitta, cantando bem e bem vestida ao lado de um alquebrado Gilberto Gil e de um sempre elegante leonino Caetano... E, por fim, o som umbilical das baterias de escola de samba, trazendo de vez meu coração para fora do peito, na melhor expressão da qualidade musical que o Brasil tem. 

Parabéns! Foi singela e apaixonante a abertura dos Jogos. Não nos pavoneamos, não demos passos maiores do que as pernas. Fomos humildes e criativos. Consequentemente, autênticos e gigantes! 


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

NYPD






Não sei se as coisas inacreditáveis acontecem comigo porque gosto de escrever ou se é porque a Lei de Murphy me ama. Anyway, tava aqui no apê atacando de diarista nesse verão insano enquanto aguardava o técnico da Verizon que viria instalar a Internet e a TV a cabo. 

Dou uma chegada na varanda e vejo um monte de carro de polícia ( a foto já foi postada aqui). Logo depois, estaciona o furgão da Verizon. Um branquelão de dois metros sai da van e eu aceno para ele. Ele acena de volta e brinca: espero que tudo isso (a polícia) não seja pra você. Eu digo: também não. 

Desço pra abrir a chatice da porta com senha. Estamos os dois na porta do elevador pra subir quando ela se abre e aparece uns cinco (dentre eles uma mulher) policiais super becados, na estica, uniformes impecáveis, armados, levando um cara algemado do meu prédio!!!!!!!!! 

O técnico da Verizon e eu ficamos deveras espantados, ele começa a trabalhar na instalação e resolve descer pra pegar outros equipamentos. Daí o cara não volta nunca e eu começo a me perguntar o que poderia ter acontecido. A van está lá embaixo closed and empty. 

De repente, o telefone toca e é o chefe do cara me dizendo que ele ficou preso no elevador. Não podia crer!!! Ligo para o número da emergência pregado no quadro de avisos, a atendente me faz esperar um bocado até me dizer que o help is coming. Só que o help nunca vem e o cara tá assando no elevador sem ventilação. 

Conversando através da porta, decidimos chamar os firefighters. Dois segundos depois, eles aparecem e salvam o cara - Fred - que sai do caixote pior que camarão, mas ainda bem-humorado , sei lá como. Resumindo: um dia de faxina pode se transformar num dia de Chicago PD e Chicago Fire, só que em NY! :)