segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Absoluta Adele






Neva torrencialmente. Nesses últimos dias, vi alguns filmes, a maioria sem menção em nota, pois prometi a mim mesma que não assistiria a nada que me fizesse amolecer o coração, uma vez que já estou vivendo no limite emocional.
Por outro lado, resolvi seguir minha longa lista de filmes do Netflix e o do pôster abaixo estava em primeiro lugar. Pouco sabia sobre ele, além de ter dois atores que curto nos papéis principais. Qual não foi a minha surpresa ao acompanhar o desenrolar da história do quadro "Portrait of Adele Bloch-Bauer"!!!

Admiro as pinturas de Klimt. A menos de um mês, fiz a irmã Marilena enfrentar fila de meia hora no frio para prestigiar o penúltimo dia de exposição de dez obras dele na Neue Gallery (de arte alemã e austríaca), localizada num deslumbrante casarão da Quinta Avenida, próxima ao Metropolitan Museum of Art.
Entre primorosos quadros retratando mulheres enigmáticas, ele reluz divinal. É hipnótico o retrato de Adele. Quem teria sido aquela mulher fenomenal? O filme conta um bocadinho.
Agora preciso voltar à Neue Gallery. Apreciar a Monalisa da Áustria com outros olhos. Aquela mulher existiu. Sofreu, amou, sorriu e morreu no auge, mas, felizmente, antes de ver os horrores que o nazismo produziu na Europa. Seu retrato foi roubado da família, como estimam os estudiosos, mais de cem mil obras pertencentes aos judeus. 

Todavia, essa história nefasta foi trazida à luz num processo judicial sem precedentes (o filme conta um bocadinho). E hoje "Portrait of Adele Bloch-Bauer" deixou de ser "Woman in Gold", nome utilizado para lhe destituir a personalidade. Adele reina absoluta e eterna na parede da Neue, esperando que você não apreenda apenas lições da Arte, mas também, da História.



Austronáutica







O inverno não é chato apenas porque é frio e os dias são curtos. É chato porque você tem sempre de estar alerta porque tudo pode ficar ainda mais frio. E, principalmente, porque você carrega no seu corpo cinco quilos a mais de roupa e essas roupas vão ficando pelo caminho.

É uma luva que cai quando você precisa abrir a porta. É um cachecol que fica na cadeira do restaurante ou uma boina que, sorrateira, se esconde debaixo do assento do carro... 

A casa precisa estar fechada o tempo todo. Janelas, portas. A sensação de claustrofobia é diária!

Você se move lentamente com aqueles casacos pesados, se sente imensa, paquidérmica e astronáutica, mas sem as benesses da falta de gravidade. Sem falar nos choques estáticos horríveis que a gente leva ao tocar nas maçanetas e fazem doer até a alma.

Por isso, quando o dia amanhece bonito assim, tudo o que a gente quer é atravessar a rua como os gansos canadenses! Viva o sol!




Alta tensão








Quem vê essas fotos idílicas, não sabe do sufoco no qual elas nos meteram... Mas vou contar, pois sou um Facebook aberto! KKKK!

Domingo passado, Bernardo foi patinar com Romulito naquele lindo parque chamado Bear Mountain (postei fotos do ice rink a céu aberto aqui). Deixei os dois lá para se encontrarem com o Brian e o Eric (que tem a mesma idade do Rômulo). Marilena (minha irmã mais velha) e eu seguimos para o WalMart mais próximo para comprar uma mala grande para ela. Quando estava no supermercado esperando Nena se decidir (horas são necessárias), Bernardo me envia um zap avisando que vai fazer uma trilha dentro do próprio parque - e me manda a direção na qual é para eu ir resgatá-lo por volta das 17h,18h.

Cheguei ao tal ponto de resgate, mas nada de Bernardo, Rômulo ou Frida. A noite estava começando a cair e o frio a despencar. Muitas pessoas desciam da trilha e... nada. 

Daqui a pouco, recebo um zap do Bernardo dizendo que o celular dele está acabando a bateria e que ele não sabe se onde estou é o lugar por onde ele está descendo.

A tensão começa a se instalar, minutos depois, o quase desespero. Um casal aparentemente bem acostumado com o parque está subindo numa hora esquisita a tal trilha e eu peço para eles ficarem de olho num homem alto com uma criança de 9 anos...

Decido subir a trilha -sem roupa adequada para o frio - gritando o nome dos dois!!! Me esqueci que havia a Frida... Minha garganta está dolorida até hoje!

Retorno sem sucesso. O tempo vai passando, passando, o tal casal desce e diz que não viu ninguém. Começo a me desesperar e digo que vou acionar os guardas do parque. A noite já está plena e o frio, congelante.

Nesse instante, surgem, no meio da escuridão, os três perdidos... 

A moça do casal me abraça - para uma americana estranha lhe abraçar do nada é porque o trem tá esquisito mesmo - e diz que ela também já estava ficando muito preocupada. Ali existem bichos selvagens, of course (não se chama Bear Mountain à toa). Rômulo está teso, morrendo de dores no pescoço...

Ideia de jerico fazer trilha num lugar desconhecido, com pouca bateria e, pra piorar, no inverno. Bernardo confiou que o carro chegasse até a torre onde ficou me aguardando, mas a estrada estava fechada para carros.

Fica a lição para vocês e para nós!



terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Similitudes





Na minha ignorância histórica, nunca havia entendido a relação de amor-ódio entre Cuba e os Estados Unidos. Na verdade, nunca me aprofundei na questão pois, ao contrário de boa parte dos brasileiros oriundos de universidade pública (e de um curso de Humanas), nunca fui apaixonada pela ilha de Fidel. Não tenho nenhum fascínio específico por Havana, como também não nutro especial apreço pela terra do Tio Sam (ao contrário da maioria dos brasileiros, tão magnetizados pelo eldorado consumista norte-americano).

Mas calhou de Mrs. Molly, minha eterna mestra de English, minha "mentora", como ela se autodenominou em relação a mim (e eu concordo), fez questão de levar minha irmã e eu para ver a exposição sobre Cuba no Museu de História Natural de Nova Iorque. De outro modo, não ira mesmo pagar dólares extras para conferi-la. E claro, valeu muito a pena.

Primeiro, para constatar o quanto Cuba e Brasil são similares em seus passados escravagistas brutais; dos latifúndios de cana-de-açúcar. Nesse ponto, fui eu quem iluminei a teacher apontando a questão. Também compartilhamos com os cubanos a ligação com os orixás e o arroz-com-feijão-preto... Quem dera dividíssimos os 99% da população alfabetizada e a saúde pública de qualidade para todos, hein? Mas também temos jacarés e regiões alagadas em comum, além de periquitos, boa música e gente festeira.

Voltando ao início dessa reflexão, somente ontem eu entendi o relacionamento conturbado entre Estados Unidos e Cuba. Os americanos se aliaram aos cubanos para livrá-los do jugo espanhol. Porém, como não existe almoço grátis (só na casa da mamãe), os EUA transformaram Cuba no seu parque de diversões: iam para ilha para fazer tudo o que lhes eram proibido de cometer na América puritana e patrulheira. Sem contar que ainda continuavam a manter os latifúndios e as desigualdades sociais tremendas da época pré-pós Fulgencio Batista (levado ao poder máximo na ilha com o apoio dos norte-americanos, detalhe histórico que, apesar da minha estupidez sobre o assunto, guardava conhecimento).

Agora eu saquei porque os cubanos adoram beisebol e basquete, além de batizar os filhos com nomes horripilantes cheios de Y!!! KKK! Como todo país colonizado (e Cuba foi por duas culturas bem distintas), a população repele e atrae o opressor. Reverencia e repudia quem lhe deu prazer e dor. O eterno jogo da serpente com a presa. Tal e qual nós com Portugal: culpando e cultuando nossas raízes e nossas heranças. 

Resumindo: cinquenta tons de cinza explicam!



Louca nas drogas






Culpem os opiáceos que eu tomo para dormir de vez em quando. Nessa madrugada, me vi numa casa de campo, era verão (que vontade!) e vestia um shortinho jeans (logo eu, que raramente uso shortinho jeans, mas que ando muito a fim de rever minhas coxas, cotovelos e tornozelos). 

Na cena, estava sentada numa cama de pernas cruzadas conversando animadamente com uma garota. Uma tigela de jaboticabas envolvidas em cubos de gelo jazia em meu regaço (logo eu, que odeio jaboticabas!). 

De repente, não mais que de repente, surge Donald Trump e sua comitiva porta do quarto adentro. Ele vem com toda aquela asquerosidade me dar dois beijinhos...

Só muito louca nas drogas para misturar Trump e jaboticaba num mesmo pesadelo!!!!! KKKKK!




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Marc Chagall





Mamãe, como A Maja Vestida, assistia à sua novela. Tia Catarina cortava frango ou seria porco? em filés perfeitos. Tia Book, cebolas como pequenas canoas.

Eu era jovem, fresca e leve, sem as cicatrizes dos filhos; sem o peso das tragédias.

Descia o morro da casa-sede da fazenda como uma noviça rebelde apaixonada. 

No meio do trieiro, cruzava com o sobrinho-afilhado Daniel. Alcançava o curral na planície. Avistava mamãe-Maja-Vestida na sala escurecida pela fumaça do fogão à lenha. Reparava nos pés descalços dela, enrrugados como os meus serão em breve. Corria para receber um abraço: 

- Que saudade, mamãe!

Ela fazia sua indefectível expressão marota e respondia:

- Diego não te esperou, já foi embora para Salvador!

Eu quase desfalecia em seus braços, pois era por ele que meu coração batia. O garoto colombiano do curso de inglês findo em dezembro.

A mãe percebia a dor que a brincadeira causara na filha e remendava:

- Deixe de ser besta. Ele está ali, no meio das vacas!

E assim acordei: jovem, leve e fresca, no domingo de fog londrino no Hemisfério Norte.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

To serv and protect





Para se ter uma imersão verdadeira no American Way of Life, não podia faltar a participação especialíssima do policial americano. Foi o que consegui proporcionar à minha irmã na tarde de hoje, procurando o escondido Neureberger Museum of Art, incrustado no imenso e belo campus da Purchase College, no condado de Westchester.

Rodando com a ajuda do Waze à caça do bendito lugar, dirigia olhando para todos os lados a 20 Km por hora (ou ínfimas milhas), até que ouvi um uiouiuou (barulho da sirene do carro de polícia). Olhei pelo retrovisor e pensei comigo mesma (péssima ideia): será que é pra mim? Continuei seguindo a 10 Km por hora e ouvi o segundo e definitivo uiouiouou... OK, acho que me ferrei. Parei o carro.

O da polícia parou quase encostado no meu. O policial veio caminhando com olhos de raio-X para dentro do meu porta-malas, banco traseiro e: documentos do carro e do motorista! A voz de barítono negro era tão assustadora que atingiu o rosto apavorado da minha irmã sentada no banco do carona. Ele era hostil, normal, eu já sabia disso, mas Marilena, não. Gostaria de entender porque a abordagem deles é sempre nada amistosa.

Mostrei a carteira de motorista brasileira, ele ficou ainda mais bravo: você não tem nenhum documento do estado de NY? Não, eu só vou ficar aqui até o fim desse ano e volto para o Brasil. Mas tenho a permissão internacional para dirigir e o passaporte... Mostrei para ele. Documento do carro, ele exigiu. Aí foi aquele atabalhoamento. Nunca tinha acessado os documentos do carro no porta-luvas. Pedi pra Nena pegar que, atordoada e espantada, não era de grande valia. Eram tantos papeizinhos!!!Perguntei para ele qual deles era o essencial: THE YELLOW ONE, THE YELLOW ONE, brandiu, com uma amabilidade de amolecer o coração.

Esse carro é de quem? Do meu marido. E qual é o nome do seu marido? Bernardo Mello. Quase ri me lembrando da música da Blitz: "qual é o seu signo e pra quê time torce?"... Ele olhou, olhou e concluiu que não deveríamos ser terroristas suicidas, noivas de Alá, pois diminuiu os decibéis:

- Você sabe por que eu te parei?
- Nooo, miei.
- Porque você não parou no sinal de STOP. (Aqui, você precisa parar MESMO no sinal de stop. Não adianta estar a 10 Km por hora.)
- Verdade, eu não vi, sorry! Estava olhando para os lados procurando o Neuberger Museum. O senhor poderia me dizer onde fica?

Ele arrancou sua armadura de homem mal e me explicou tudo direitinho, com a diligência de quem está nas ruas to serv and protect. Thank you! E seguimos. Entretanto, Marilena demorou um bocadinho para se livrar do medo de, segundo ela, ser jogada no xadrez, incomunicável, para ser deportada sumariamente alguns dias depois.

Já imaginou? Bernardo em New Orleans, Rômulo sozinho em casa, Tomás chegando da escola, a noite caindo, Frida cabisbaixa e os guris sem saber onde teriam se metido as duas maricotas míopes...

Mas entendo o susto da Nena. Dão medinho mesmo os policiais ianques. Eles trasmitem, com precisão, o sentido prepotente da ostensividade.




quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

No caminho...





Rever um belo filme é reencontrar outros tantos detalhes cênicos e palavras despercebidas. Faz frio, claro, é inverno em NY. Um inverno que costuma ser longo e duro até para os suíços (encontrei um colega de Bernardo na IBM reclamando, o que me espantou). 

A experiência de viver fora de casa, com uma rotina sem rotina é emoção extenuante. Por isso, não tenho me desafiado além da conta com filmes que possam chacoalhar o coração. Todavia, não resisti em mostrar para a irmã Marilena, nesse dia de chuva ininterrupta, na temperatura introspectiva de 3 graus Celsius, sem falar nos filhos doentes, esta joia em prata da Cruz de Santiago de Compostela.

Ter conhecido a cidade de mesmo nome e sua catedral magnífica, de portas abertas para todos os peregrinos, para todas as dores, promessas, desejos e realizações, foi uma das vivências mais profundas que já experimentei. Não à toa trago a tatuagem da mesma cruz de prata no punho, para me lembrar de como a vida é dura e mágica. Naquele momento, perdia minha mãe para o câncer e estar ali, compartilhando da intensidade de milhões de passos, sussuros e pedidos me pareceu sobrenatural.

Tive, sem dúvida, uma experiência metafísica e ainda nem caminhei por nenhuma das rotas que nos levam até lá. Cheguei no final do percurso, mas pretendo partir de algum início ainda nessa encarnação. Para vocês, fica a dica do filme e um convite: quem topa?



quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Deo Gratias!




A luz amarelada do Outono invandia o piso da sala, além do meu coração. A campainha toca, abro a porta. Ele adentra o corredor do apartamento com a serena presença de sempre. Um frescor distante da minha melancolia. 

O lanche da tarde já está sobre a mesa. Ele se senta e começa a mordiscar o pedaço de bolo, conversando sobre o dia na escola. Me posto à sua frente e observo seu rosto de anjo bem esculpido pelos artistas da genética. Meu filho, seria mesmo meu? É uma dádiva. Um menino pronto, bem acabado em forma e conteúdo. Está tão crescido, pubescência. Entretanto ainda resguarda a infância em algumas atitudes, como pedir ao pai ou a mãe que lhe desejem boa-noite ao pé da cama.

Será que teria sido uma criança como ele se tivesse tido uma família a me comtemplar com olhos de benevolência? De onde veio a completude desse quase rapaz? Ele gosta de presentear as pessoas, fazer surpresas. Agora mesmo chegam mensagens dos amigos do colégio em Brasília, embevecidos com os souvenirs que ele fez questão de escolher para cada um. É uma coisa dele que é minha, posso reconhecer: esse prazer em pensar que aquela pessoa gostaria daquele mimo e poder ofertar essa alegria. Me orgulho, é claro.

Suas atitudes não são impulsivas. Ele não é enérgico, nem muito curioso. Sua passividade às vezes incomoda os pais, preocupados com a aparente inércia desinteressada. Parece já ter o coração assentado numa tranquilidade de saber que a vida vai ser boa para ele. Ao menos foi o que disse a amiga astróloga quando me mostrou o mapa astral do primogênito: "Veja todos esses planetas em Vênus, todas as portas estarão abertas para esse menino". Até o momento, sim.

Segue conquistando os corações conhecidos e desconhecidos... Do nada, recebo elogios: "Esse menino é seu filho? Tão polite, tão kind". Fez um teste para participar do time de basquete, competição acirrada entre tantos pré-adolescentes, foi pré-selecionado. Nem ele entendeu, modesto: "mas eu fui o segundo pior!!!".

O caçula, oposto absoluto. Sanguíneo, voraz, guloso de conhecimento. Suga nosso ar e nossa energia. O mais velho compreende que é preciso ser o remo de Rômulo. A bússola e o remanso para que o irmão inquieto e insone se ancore a cada dia.

Fico feliz que sigam irmanados nas brigas e nos afetos como jamais pude experimentar com meus irmãos, dispersos pelas contigências das perdas precoces e suas demandas injustas. Aquieto meu coração nesse pensamento: sempre terão um ao outro. Reconforto. Quem é órfão desde que veio ao mundo carrega a mórbida angústia de achar que vai partir antes da hora. Mas qual seria a hora ideal, enfim?

Por isso, escrevo aos astros, a Deus (ou para mim mesma): grata por enviarem o menino-anjo aos meus cuidados. Sei que não o mereço, mas ele também sabe e ainda me garantiu: "somos uma família feliz, sim, mamis! Com a Frida, ainda mais".

Louvado seja!



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

"Lá vem o pato, patiti, patacolá..."





"And it's all over now, baby blue". Não adiantou o Nobel premiar Bob Dylan como um alerta, uma aviso para deter o horror, o horror. Não adiantaram as denúncias de abuso sexual: milhares de mulheres foram às urnas para eleger Trump. Quando vi uma brasileira que vive na Flórida dizendo que iria votar em Trump por causa de seus valores, tive a certeza de que ele venceria.

Se em um estado progressista e libertário como Nova Iorque era possível ver centenas de carros e casas estampando adesivos de Trump, o que dizer dos EUA profundo? Deu no que deu. E agora a Idade Média se globalizará... Foi só no que pensei hoje, ao acordar: em como a história é cíclica. Só não estava a fim de viver isso nesse momento. Talvez na próxima encarnação, mas não já.


Nem ligamos os telejornais brasileiros hoje cedo. Acordamos deprimidos. A impressão que tenho é de que estou revivendo toda a loucura de 2001, com a vitória de Bush arrastando o mundo para a radicalização islâmica sem precedentes. Pensar que Trump pode alcançar níveis ainda mais baixos é avassalador.

Pensar também que oito anos de Obama e Michele nada serviram ao processo de educação moral e cívico dos EUA me deixa absolutamente devastada. Se depois de uma experiência de alto nível intelectual, social e humano promovido por essa dupla, a Casa Branca vai receber uma boneca inflável no posto de primeira-dama, o que esperar de nós, república da piada pronta? Quem o Brasil elegerá em 2018? Trevas...

Fui para a aula de pilates como uma autômata. Os colegas de classe, coroas brancos, remediados e cultos estavam todos deprimidos também. Uma névoa de angústia envolvia todos os olhares. O primeiro trecho de conversa que pesquei foi exatamente: "dark ages". Sim, eles também sabem que os EUA são capazes de promover a escuridão no planeta.

Um alucinado detém o poder da maior potência bélica mundial nas mãos, apoiado pela maioria do congresso americano. Muita insensatez pode brotar dessa conjunção astral nefasta.

O amigo Brain me pegou numa conversa longa ao telefone logo depois da aula. Também estava devastado, o coitado. Disse pensar em aceitar proposta para morar na Holanda.

Tomás e Rômulo seguiram para a escola tristes. Rômulo pediu para ouvir Faroeste Caboclo e eu pensei: sim, é o far west se apossando da evolução social para aprisioná-la num deserto de incivilidade.

Desci as escadas do prédio da YMCA e dei de cara com o cartaz que fotografei e está aí em cima. Quase ri de desgosto, de nervoso, de pavor. Segui para casa sem ligar para a garoa que molhava meus óculos. Qual é a vantagem de enxergar num cenário de breu?

Até o sol foi embora hoje. O dia é cinza para atestar que os americanos, para variar, foram longe demais. O ovo da Serpente está posto e vai eclodir. Quem vai pagar o pato do Donald?



quinta-feira, 27 de outubro de 2016

"Se você disser que eu desafino, amor..."






Enfim o ontem chegou, recheado de coisas especiais, como o aniversário de 4.0 do meu sobrinho primogênito e também a primeira aula no "Women's Vocal Ensemble" do Conservatório de Música de Westchester. 

Eu e minha boca grande ou cara de pau, no que fui me meter? Entro no Conservatório, que fica pertinho de casa, alguns quarteirões na noite densa (apesar de ainda não ter dado sete e meia). O rapaz da recepção me explica que devo subir a escada e entrar na sala 200. No caminho, vou passando por maravilhosos instrumentos sendo executados por alunos aplicados em salas de ensino individual. Uma atmosfera que já dava uma pista de que ali ninguém brinca em serviço.

Alcanço a porta da sala de ensaios e vislumbro cinco mulheres aguardando sentadas debatendo a atuação de Tom Hanks no filme Sully. Entender inglês eu entendo perfeitamente. Meu ouvido já é capaz de acompanhar todo o debate HillaryXTrump sem necessidade de legendas.

Era a primeira vez que eu estava num ambiente de sala de aula totalmente norte-americano. A única forasteira ali era eu. Em todos os sentidos, para o meu pânico. 

De repente, surge a professora. Uma diva! Puta experiência em ópera, em montagem de musicais, em lecionar... Todas as outras alunas, três senhoras na casa dos 60 e as outras duas mais ou menos da minha idade também tinham passagens prévias em corais, em aulas de canto enquanto eu, a sem noção, venho de participações no "Corte em Canto" do STJ e na Sereneta de Natal da UnB (Ok, rolou um curso de canto-coral na Escola de Música de Brasília, but...).

Tratei logo de dizer que era completamente amadora e que só gostava de cantar, apenas isso. Esclareço para vocês que quando me inscrevi, li na proposta do curso que se tratavam de aulas abertas a qualquer pessoa, não era preciso ter experiência.

Mary Elizabeth (as conexões telúricas de sempre, né, Maria Elisabeth Ratz?) pergunta se todo mundo sabe ler música. Hahahaha! I don't!, responde a impostora. 

Tô quase para sair de fininho da sala, mas há outra aluna que também não lê, ufa! A regente distribui uma peça em latim, senta ao piano e faz todo mundo cantar. Depois, lasca um "spiritual" bem igreja batista do Harlem e pede pra gente bater palmas e dançar. Ok, me safo, ela percebe: "você sabe dançar!" Bem, sou brasileira, respondo. "Sim, não esperava menos de você", ela afirma de forma assertiva (característica mais americana, impossível), tocando furtivamente seus cabelos esvoaçantes. E fomos nessa toada até o fim, quando ela concluiu: "You have a lovely voice". Quase derreti, virei suquinho de caju...

Não sei se vou conseguir acompanhar o ritmo das aulas nada iniciantes, mas vou tentar. Espero, com ansiedade, que outra zezinha como eu se junte ao coro. Ou que uma das velhinhas, a mais simpática, me adote. "É fácil aprender a ler música, você tem um piano em casa?" Ó, quanta delicadeza e inocência dessas americanas classe média-alta de Westchester... Depois me disse que adora Astrid Gilberto e fica feliz por eu saber quem ela é. (Só não confesso que não gosto dela, nem do pai dela e nem da irmã dela). Pra quê discutir com madame, né?

PS: a foto que ilustra este post é um detalhe do carpete que decora todo o Music Conservatory of Westchester

Espiem o currículo resumido da teacher:

MARY ELIZABETH POORE
Classical Division: Voice
Degrees and Studies
B.M. and M.M., Indiana University
Music Conservatory of Westchester
Faculty since 1993
Born in: Mt. Pleasant, Michigan

Performances and Distinctions: Ms. Poore has performed throughout the United States at venues including Carnegie Hall’s Weill Recital Hall, the Brooklyn Academy of Music, Merkin Concert Hall, and the Detroit Opera House, and has performed with groups including Michigan Opera Theater, Orlando Opera, Virginia Opera, Mobile Opera, Des Moines Metro Opera, Sarasota Opera, Glimmerglass Opera, and Lyric Opera of Cleveland. She has recorded for labels including Capstone Records, Living Artist Recordings and Newport Classic Records. She was a national winner of the National Federation of Music’s Young Artist of the Year, a first prize winner of the Oratorio Society of New York, a winner of the Distinguished Performance Award of the Minna Kaufman Ruud Fund and a finalist in the Bayrische Rundfunk Munich International Vocal Competition. A devoted music educator, Ms. Poore has taught at the Turtle Bay Music School and is currently on the faculty of the Bel Canto Institute in Florence, Italy.



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Gratitude






Quando moramos aqui em 2001/2002, não existiam as mágicas redes sociais. Os e-mails eram a forma mais moderna de interagir com os amigos e parentes, mas, ainda assim, poucas pessoas o utilizavam fora do ambiente de trabalho. Não era fácil tirar e enviar fotos, pois os celulares mal tinham saído do forno e não traziam com eles câmeras bacanas para viralizar imagens. 

Agora, posso compartilhar com vocês todo o esplendor do outono em NY. É impossível descrever a magnitude da natureza nessas bandas de cá no mês de outubro. Quero parar o carro de minuto em minuto para registrar o que meus olhos podem ver e repartir com vocês essas visões idílicas inacreditáveis. 

Ao caminhar, pareço uma weird americana, parando a cada árvore, a cada raio de sol que bate numa folha tornando-a mais púrpura, mais alaranjada. Frida não me compreende, quer seguir andando. Deixe de ser chata, Frida!, reclamo em bom som, me tornando ainda mais esquisita aos olhos dos que cruzam comigo pelo caminho.

Aliás, não são muitos. As pessoas não deambulham por aqui. Ou don't care about the beauty of life ou já transformaram a estação em evento banal de todos os anos.

Para mim, é uma lição diária de reivenção do tempo. Quem sabe o tapa na cara - com luvas de maple  - com o propósito de me desparalisar frente à sublime vivência da mãe-Terra que me foi concedida.

Acolho o pito. Saio do torpor para enlaçar os arredores, ressuscitando dolorosamente para mais um dia. Mínimo gesto de gratidão.