Postagens

Brevíssimos Prolegômenos

Imagem
ou Exsurge, inconteste, dessarte:
Osmundo (se ele se chamasse Raimundo seria uma rima, não uma solução). Podia ser título de uma exposição: Osmundo de Osgêmeos. Tarlan (ação rápida contra torcicolos)Raildo (o que rafoi)Hitanielton (alcunha que passa de geração em geração como homenagem, mas na verdade é uma maldição)Pablinie (nome social para os que não querem ser Pablo)Eutácio (os pais não gostam da letra Q)Osmir (irmão gêmeo do Osmar)Laudemir (o cobrador do laudêmio)Laone (a primeira, a única)Reslia (réstia de coisa qualquer)Rogel (marca de spray para cabelo)Zoélia (zoado - pessoa muito doida no gás hélio)Deyver (concorrente do Dover)Vandair (seria um vândalo por aí?)Ronilson (remédio para ronronar)Vangerly (sabonete íntimo feminino)Valdilson (o dono do megafone)Cledson, aumenta o som!

Ternuras

Imagem
Tudo o que estava precisando, então, era tomar (uma injeção) na bunda. Médico bom é isso: lhe brinda com elogios aos seus cabelos, diz para não se culpar tanto (parte do tratamento) e lhe aplica uma injeção de felicidade instantânea. Ele disse para eu lhe contar como estaria daqui a dois dias. Bem, digo hoje: estou me sentindo energizada como há tempos não experimentava. Que drogas foram essas, dr. Edgar? Não me importaria de levar uma picadinha dolorida dessas toda semana.
Daí acordei às 5h30 da matina naquela disposição típica dos 20 e poucos anos. Fui atrás de uma missão que vinha adiando: caçar, entre os guardados afetivos e profissionais, todos (todos nada, tenho pilhas e pilhas de papéis, cadernos e agendas em um armário gigante na garagem da sogra) a cópia do livro infantil que escrevi, lindamente ilustrado pela amiga Isa Frantz. A ideia é resgatar esse projeto para ser publicado pela Editora Confraria do Vento (editado pela preciosa Karla Melo), com a qualidade e zelo que só …

Pati-amargosa

Imagem
Custava ter seios pequenos e serenidade grande? Meteu uma faca no peito e morreu. Ao menos partiu despeitada, a ingrata. Sim, ingrata. Nem pra me mandar uma mensagem no zap.
Vamo levar o pequi, moça?
A pergunta tirou a mulher de seus pensamentos embaçados sobre a morte da vizinha. Era domingo, dia de feira. Ela gostava de passear entre as barracas de tudo um pouco. Galinhas vivas ou desmembradas, linguiças, queijos, meninos remelentos, milho na espiga, quiabo, gueroba, melancias. 
Aos domingos não ia à missa, preferia a feira. Ritual de comunhão com a intensidade da vida das gentes da roça, uma conexão ancestral com a terra.
Gostava de ver o balé dos feirantes que tomavam a rua inteira, encarapitados em barracas de teto plástico até o fim da ladeira. O caos da lida para ela era contemplação. Um mantra que acalmava os sentimentos perplexos daquele domingo.
A vizinha sempre fora amuada, mas ela insistia na amizade. Levava bolo, tocava a campainha sem ser convidada. Provocava a conversa…

À procura da transgressão

Imagem
"A transgressão das próprias convicções é essencial.  É como no caso da lei, em que a legitimidade depende da hipótese de que,  em dadas condições, a desobediência pode ser a melhor forma de cumpri-la". (Nilton Bonder)

Nunca fumei maconha. Nunca experimentei cocaína. Não bebo. Onde você estava, então? Mas você não morava na 715 sul? Incrédulas as perguntas da nova amiga, nascida apenas um ano antes de mim e que também frequentou uma das quadras mais “barra-pesada” de Brasília naqueles longínquos anos da década de 1980.
A 715 sul era uma quadra-miscelânea, mosaico de uma cidade que se construiu do nada, reunindo gentes de todos os tipos, objetivos e origens. Suas casas geminadas não foram erguidas para abrigar funcionários do Banco do Brasil, como a vizinha 714. Ou os abastados servidores do Banco Central, a exemplo dos apartamentos da 314 sul. A 715, última quadra da Asa Sul (ou primeira, a depender do referencial) não era o que se classificava, nos primórdios da nova capit…

Pachamama

Imagem
(...)Volver a los diecisiete
Después de vivir un siglo Es como descifrar signos Sin ser sabio competente Volver a ser de repente Tan frágil como un segundo Volver a sentir profundo Como un niño frente a Dios Eso es lo que siento yo En este instante fecundo (...)
Violeta Parra na voz de Mercedes Sosa
A viagem para o Chile e norte da Argentina tinha uma Cordilheira no meio do caminho. Resgatou a verve hispano-americana que cochilava nas minhas vivências adolescentes e juvenis. Tudo da rebeldia e da vontade de mudar o mundo tinha a ver com Mercedes Sosa e Violeta Parra.
Estive no museu dedicado a compositora chilena em Santiago (sempre lembrando que amo esse nome). Modesto, porém comovente. Foi o bastante para o jorro de palavras de ordem volver a me enredar naquele sonho febril de igualdade, fraternidade e liberdade.
Os Andes mexeram com sentimentos que nem sequer sabia que existiam em mim. Seria eu descendente de mapuches, quechuas, chimús, aimaras? Serei reencarnação de alguma índia inc…

Negritude ainda que tardia

Imagem
- Coloca Michael Jackson! - Coloca Chico Science! - Coloca Luiz Gonzaga!
Assim a gente vai rolando as playlists no carro, atendendo aos pedidos dos meninos que, ufa, parecem bem encaminhados no quesito boas escolhas musicais. 
Parando para pensar, três artistas negros (pardos se preferirem) da melhor estirpe. Cada um com seu suingue, sua autenticidade e sua genialidade.
Ouvimos também um bocadinho de O Rappa:
“Todo camburão tem um pouco de navio negreiro Tudo começou quando a gente conversava Naquela esquina ali De frente àquela praça Veio os homens E nos pararam Documento por favor Então a gente apresentou Mas eles não paravam Qual é negão? Qual é negão? O que que tá pegando? Qual é negão? Qual é negão?”

- O que é camburão?, questiona Tomás. 
Ele não é do tempo das veraneios vascaínas. Ele não presenciou inúmeros baculejos como eu. Ele próprio nunca foi vítima da truculência ou da desonestidade policial como já fui. Uma vez, na adolescência; outra, na juventude. E olha que não sou n…

Que las hay, las hay

Imagem
Não eram nem oito da manhã e elas já estavam tentando contato. 
Saiu para a caminhada com a alegria de um feriado que fosse só dela. Sempre curtiu mais às bruxas do que as fadas. Definitivamente, nunca foi princesa. E se gosta do balé é por causa do Cisne Negro, não da Bela Adormecida. 
No meio da caminhada, uma velha esquisita agarrou o braço dela e começou a falar coisas incompreensíveis. 
Ela estava com o fone de ouvidos cantarolando e levou alguns segundos para perceber que talvez aquela senhora quisesse apenas lhe mostrar o pássaro que ciscava a grama logo à frente. Puxou um dos fones e notou que a idosa permanecia ininteligível. 
Não levou mais do que outros segundos para a velhota se agarrar ao braço dela com valentia. Assustada, ela se desvencilhou, e seguiu no passo vigoroso do exercício matinal, sem olhar para trás, porém um pouco culpada: se a idosa fosse como o seu antigo vizinho, cujo cérebro foi tomado pelo Alzheimer e se perdia com frequência?
Afugentou os pensamentos …