segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Thanksgiving





A rádio 106.7 já começou a cantinela natalina. Christmas songs 24 horas por dia, sete dias da semana. Saindo da aula de pilates, flocos de neve caíam do céu e pousavam como caspas no meu casaco preto. 

Estamos no mês da gratidão para os americanos. O Thanksgiving, celebrado nessa quinta, é a mais significativa das celebrações para os EUA.

Os sentimentos no meu coração também são gratos. Principalmente a vocês, amigos que me acompanharam durante toda a aventura de viver fora do país com dois filhos e uma cachorra. 
Aproveito a vibe da gratitude tomando conta da semana para agradecer o apoio de cada um de vocês. Todas as congratulações pelos resultados brilhantes do Tomás (mãe exibindo filho é meio clichê, mas não pude resistir. Quando ele vir o post vai ficar bravo, pois Tomás é assim: um ser humano avesso aos holofotes).

Cada comentário sobre as minhas fotos, cada energia boa que vocês me enviaram pelo zap, cada debate, curtida, amada ou risada foram de grande valia para me manter aquecida tão longe de casa. Obrigada!

A todos os hóspedes, obrigadíssima! Como já disse por aqui, cada uma das visitas me despertou um novo olhar sobre a Big Apple. Maravilhamento!

Sintonizei na rádio natalina e chorei vendo os floquinhos tímidos de neve bater no parabrisa. Fiz de propósito, pois sabia que as canções falando de afeto e white Christmas me fariam derramar lágrimas. 

Há muito tempo O Pequeno Príncipe já havia me alertado: "você corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar". E serei sempre cativada pela beleza exuberante do estado de NY. Por sua cultura soberba, por sua civilidade deliciosa; por seu outono indescritível e inverno de planícies brancas.

Cativada pelos amigos de tantas nacionalidades que fiz e consegui manter nesses 15 anos. Pelos reencontros e pelas conversas em inglês maluco. 

A galera já começou a perguntar como estou me sentindo agora. Estou me sentindo assim: grata, comovida, mexida, dividida. Um caldeirão de emoções. Toda escolha da vida é um ganha e um perde. 

Todavia, o mais importante é a lição que ficou para Tomás, antes retraído; hoje, destemido. Ontem ele nos confessou que nunca havia levado a escola a sério até estudar aqui (mesmo sendo um aluno brilhante também no Brasil). Ele nos disse que agora sabe da importância de estudar e ter cultura para conquistar um futuro melhor. Disse também que perdeu o receio de participar de tudo o que tem vontade. 

Aprendizados, evoluções... Cicatrizes de tombos, de queimaduras na cozinha. Desapego da vaidade. Muitos filmes e séries de diversos países na bagagem...

Vivi umas dez encarnações em 1 ano e meio. Nem sei do que vou sentir mais saudade... Nova Iorque é parte de mim, da minha história de vida. Antes, como casal e now, como família. E vou seguir misturando English com Português, mesmo sendo ridículo. KKK!

E vocês, amigos, nos acompanharam nessa saga repleta de experiências fascinantes. Assistiram de camarote e vibraram com a gente. As redes sociais e a incrível mágica de aproximar os distantes. Só posso estar grata, nada mais!


Jandyra on my mind



"Georgia, Georgia, no peace I find.
Just an old sweet song keeps Georgia on my mind..."
(Hoagy Carmichael)




Dindinha não sai do me pensamento nesses dias... 

Tudo começou no Dia de todos os Santos, quando a rádio que eu adoro estava veiculando músicas que falassem ou tivessem nome de santos. Daí, eles tocaram Saint Jude, do Florence and The Machine. 

Depois, decidi usar o medalhão de São Judas que minha madrinha não tirava do pescoço e eu herdei. 

E hoje resolvi reproduzir a farofa de ovos dos churrascos mensais da paróquia São Judas Tadeu, de Brasília. 

Dindinha morreu em novembro, não recordo bem o dia, acreditem. Eu prefiro lembrar dela viva, recepcionando os comensais no salão de festa da igreja a cada primeiro domingo do mês. 

Saudades desses churrascos que fizeram parte de toda a minha vida...

Declamações



Passei o dia com saudade desse momento específico de ontem, quando Romulito encontrou a estante de livros antigos na livraria antiga:

- Mamãe, olha, só livro de poemas! 

Ele me identifica com poesia, me relaciona com ela. Meu coração encharcou de ternura e orgulho. Quantas noites de declamações de ninar... 

Hoje, acordei arrependida de não ter declamado nenhum ali, com meu inglês carregado de sotaque, ao lado dele, um poema de antigamente.


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Criminosa das lentes




A imagem pode conter: árvore, céu, planta, grama, atividades ao ar livre e natureza



Meu ex-professor de inglês na Cultura Inglesa, companheiro de peripécias no FB, ator, provocador e dramaturgo Alexandre Ribondi disse que ficava irritado com fotos de paisagens postadas no Facebook sem informação de localização. 

Então resolvi contar um pouco desses cliques todos que eu tiro em minhas andanças pelo condado de Westchester, estado de NY.

A maior parte deles está nos meus trajetos entre o Westchester Community College e o nosso apê. Podem ser também no caminho das escolas dos meninos em White Plains/NY ou, quem sabe, nas vezes que dirijo até a IBM para deixar Bernardo no trabalho.

Mas o que acho relevante compartilhar com vocês é a dificuldade que tenho para registrar essas paisagens idílicas. 

Pensam que é simples? De jeito nenhum! As estradinhas do condado não têm acostamento. E você não pode entrar na rua de uma casa, por exemplo, caso contrário é invasão de privacidade (os americanos são bem ciosos de seu espaço privado). 

Ainda que exista um acostamento, você só é autorizado a parar nele em caso de emergência. Se um carro da polícia passar e me ver tirando fotos vai me dar um mega sermão e uma mega multa. Bernardo já foi vítima dessa repressão infame ao lirismo diário!

Daí, eu paro loucamente, saio correndo ainda mais alucinadamente, clico e volto para o carro. 

Às vezes, não resisto e entro num desses acessos particulares e faço o registro na mesma velocidade da luz, tipo hit and run!

Por isso que o bom mesmo é passear nos cemitérios como uma alma penada. Neles, me sinto com toda a liberdade do mundo. O carro fica parado em qualquer cantinho, ando entre as lápides, aprecio e fotografo com calma e preguiça.

Todas as árvores lindas deveriam fazer parte desses campos sagrados... Seria mais tranquilo bancar a fotógrafa nesses termos. 

Todavia, não deixa de ser excitante agir como uma criminosa das lentes, me esgueirando furtiva pelas redondezas para conseguir um bom ângulo.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

In loving memory of banchs






Cenários de espera
Cenários de paquera
Meditação
Reflexão
Cigarro na mão...
Os bancos evocam paz de espírito.
Contemplam o mundo com solidez e solidão.
Sugestivos, esperam
Encontros
Risos
Abraços
Sorvetes
Pontas dos pés,
Pernas e palavras cruzadas.
Banco é criança comendo pipoca;
é jovem absorto com fones de ouvido;
é velho espalhando milho aos pombos.
No banco se lê carta, jornal e livro.
Banco é objeto abandonado à própria poesia.



Loja de homem







Aí o garoto que, segundo a amiga Ana Cristina de Aguiar, “sempre nos surpreende”, me faz entrar na loja mais luxuosa de móveis e decorações que eu já fui na vida! Arhaus é o nome dela.

- Eu adoro móveis!, afirma Sherlock e adentra o recinto com desenvoltura. 

Me senti um cadiquim deslocada, mas a cada momento que uma vendedora simpática vinha nos abordar, a mãe explicava:

- This guy said he loves furniture and interior design!

As vendedoras ficaram encantadas e começaram a papear com ele, o que me deixou menos tensa dentro de um lugar que não me pertence! Kkk! (ao menos um dos vendedores disse que a minha saia era bonita, ufa! )
E eu com um saquinho de plástico a tiracolo com o resto dos noodles que sobraram do almoço, pensem!

Ao sair da loja depois de uma eternidade, Sherlock fecha a questão:

- Enfim uma loja de homem nessa rua!

Assino embaixo!



Unidos pelo chauvinismo




Homens latinos, geralmente uns machistas-chauvinistas...

Estava na fila do caixa da loja de roupas Uniqlo na Quinta Avenida. À minha frente, uma moçoila; atrás de mim, um pai italiano com seu filho pequeno.

A moçoila vestia uma legging justíssima, deixando toda a abundância de sua bunda linda e perfeita em evidência. Claro que era esse o efeito que ela queria imprimir nos demais seres humanos: admiração e torpor. 

Olhei para a bunda redonda e lisa da moça quando ela ficou de costas pagando a conta dela. Quem não olharia? A questão não é essa, pois se ela vestiu aquela legging justa era para fazer valer o ditado "o que é bonito é pra se mostrar".

O problema é que o pai italiano atrás de mim não se contentou em apenas encarar a bunda da moça, como também passou a instigar o filho pequeno, que deveria ter uns 7,8 anos, a fazer o mesmo. Piadinhas ao pé do ouvido do moleque que nada estava entendendo, pois não tem idade para saber que aquela bunda era uma bunda desejável. 

Achei patético, nojento. O menino meio desconfortável querendo agradar o pai e praticamente sendo obrigado a encarar a bunda à sua frente. A expressão facial do guri transparecia estranhamento e assombro. 

Não era capaz de assimilar, evidentemente, porque o pai estava quase tendo um ataque cardíaco (ou uma ereção, não me dei ao trabalho de conferir) na fila do caixa da Uniqlo.



Esperando o Outono





A imagem pode conter: árvore, céu, planta, casa, atividades ao ar livre e natureza


Cadê o outono que não veio? Creio estar muito quente debaixo da linha do Equador, assim com aqui em cima. A exuberância da estação no ano passado parece que não vai se repetir. Que triste!

Cadê o Halloween que ainda não veio? Os americanos estão mais tímidos na decoração talvez pelo mesmo motivo: faz calor para o fim de outubro. Os dias ainda estão muito claros. Americanos não gostam de não viver as estações muito bem definidas. Acho que eles perdem o pique.

Falando nisso, estava numa ressaca de cansaço terrível. Passei o dia meio escorada pelos cantos, arrumando a casa com desleixo. 

Daí, resolvi sair com a Frida para apreciar mais um indiscutível fim de tarde magnífico. 

Caminhar e fotografar curam estados sombrios d’alma...




Gun situation







Os americanos vivem em perene luto pelos recorrentes massacres causados por armas de fogo. Talvez por serem tão frequentes, a sociedade americana não consiga sair do primeiro estágio do pesar, que, segundo a Psicologia, é o da negação. 

Eles se recusam a enxergar a relação direta entre os assassinatos em massa e a premissa constitucional que dá direito ao cidadão de portar armas. 

A afirmação do presidente dos EUA sobre o ataque de ontem, de que não se trata de uma "gun situation", reflete o pensamento de boa parte da população. Provavelmente, a maioria dos mortos e feridos na igreja da pequena cidade do Texas também compartilhava da mesma forma de pensar: portar armas é um direito individual inviolável! Trump não foi eleito à toa, certo?

Me parece óbvio que alguém que comete assassinatos em massa sofre de algum tipo de distúrbio mental ou é um sociopata. Todavia, se esse indivíduo não tivesse acesso quase ilimitado à compra de armas, o estrago social que provocaria estaria restrito ao círculo familiar dele, no máximo.

Enquanto a sociedade americana não ultrapassar o primeiro estágio do luto, ou seja, parar de mentir para si mesma, não alcançará a última fase do luto, que é a da aceitação. Compreender que modificar a constituição - responsável pela cultura de velho oeste tão arraigada no país - é preciso.

Mas, sinceramente, acho pouco provável que essa gestalt seja fechada em médio prazo. Para o horror do mundo, ainda testemunharemos muitos massacres "sem conexão" com "gun situations".



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Goodbye, good Education!






Open School... Engraçado o ano letivo começar de ponta à cabeça para nós, nativos do hemisfério sul. A qualidade da escola, do staff e, principalmente, dos professores das escolas públicas de NY sempre me deixam boquiaberta. E agora com uma dor no peito. Romulito vai perder tantas coisas bacanas que serão feitas ao longo do quinto ano. 

São passeios, atividades extras como aula de música, aula de instrumento (a professora nos disse que ele está muito bem no clarinete, vamos manter as aulas no Brasil), coral, laboratório, mad science, biblioteca interativa linda, onde aprendem a pesquisar em livros, online além de serem apresentados à grande literatura. 

Falando nisso, Tomás tem aulas sobre Shakespeare e outro dia estava lendo um conto de Tchekov. No Brasil, nos limitamos a ler literatura brasileira e portuguesa. É provinciano. 

Nas classes de Arte, o professor vai trabalhar Picasso e George O’Kiefe! Quase ri, pensando que só conheci a artista já adulta e velha! Kkk! Vão fazer esculturas de argila também.

Enquanto isso, nas melhores escolas privadas de Brasília, a gente paga uma fortuna para ter apenas o básico do básico. Todo o mais tem de ser pago extra-mensalidade. E o nível dos professores e a animação dos mesmos, melhor nem comparar...

É uma pena ter de abrir mão desse rico e amplo universo educacional, feito por quem entende, com seriedade e vocação. 

A preocupação com a leitura e a escrita é forte! Eles têm uma programação específica para os dois tópicos e os meninos aprendem a lidar e produzir diversos tipos de textos: de poesias à memórias e informações técnicas. 

Resumindo, sem resumir, dá vontade de arrancar os cabelos ao pensar na mediocridade da Educação no Brasil.


My dear raven






Sou admiradora do escritor Edgar Allan Poe. Lembro da alegria de ganhar da mamãe uma adaptação infanto-juvenil chamada “O Gato Preto e outras Histórias”. Foi o primeiro livro sobrenatural e de mistério que li na vida. Me apaixonei pelo tema. E também pela escrita dele.

Poe foi o primeiro autor da Literatura a escrever uma história de detetive: “Os crimes da Rua Morgue”, conto que inspirou Conan Doyle a criar Sherlock Homes.

Pois esse genial escritor morou os últimos três anos de sua vida nessa humilde casa na região rural do The Bronx do idos 1800 e poucos. Era bem pobre, apesar de “O Corvo” ter feito relativo sucesso. 

A mulher dele, Virgínia, que era sua prima em primeiro grau, morreu de tuberculose na cama de uma das fotos. Na minúscula sala de estar, Poe escreveu “O Barril do Amontilado” e outros textos importantes. Devastado pela morte da companheira de 20 anos, ele sucumbiu em circunstâncias misteriosas (envenenamento, raiva canina, cirrose avançada?) três anos depois da esposa. Tinha 40 anos. 
Foi muito interessante conhecer melhor o Bronx. A rua que corta o borough me lembrou a Comercial ou a Sandu de Taguatinga: comércio popular fervilhante, muitos carros e pessoas para lá e para cá. 

Aproveitamos para cruzar a High Bridge, ponte para pedestres e bikes que, no passado, foi um aqueduto que abastecia NYC.

Poe costumava caminhar sobre a ponte pensando em sua amargurada e sombria vida... 

Um gato preto cruzou nosso caminhar pela calçada na volta para o carro. Deve ter sido Poe agradecendo a reverência!



Painted Post


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Hoje, no pocket show de jazz, relembrei do nome dessa cidadezinha que, infelizmente, não visitamos em nossa road trip até o Canadá. Parece que jazz é bom tanto para dar sono quanto para emergir ideias viajantes: 

Ela chegou a Painted Post numa manhã de verão.

Encontrou pessoas esmaecidas nas praças, estátuas de si mesmas em atitudes cotidianas.

No canto esquerdo da cidade, uma mancha de café tomava boa parte da rua principal.

O céu, antes cobalto, o tempo levou. Entretanto, as flores do canteiro primaveril, defronte à escola elementar, resistiram em tons vermelhos e alaranjados.

Painted Post permanceu alijada de sua própria densidade.

Cristalizou-se na parede pintada como musa do artista.

E, assim como anunciou-se intrigante na sinalização da rodovia, retornou à querida inércia das memórias de viagem não feitas.