segunda-feira, 27 de março de 2017

OkrA!









Hoje está chovendo a cântaros, mas a semana promete ser, enfim, mais quentinha. Minha vida: um dia gata borralheira; noutro Cinderela. Num momento, em Manhattan para conferir a nova montagem de La Traviata; no outro, guarda a louça e lava a roupa. 

Rotina de empregada doméstica mesclada com dia a dia de madame. É meio esquizô, mas é a vida de todo mundo por aqui. No Brasil é que a classe média é mal acostumada à beça. Fato.

27 de março. Aniversário de Dindinha, que já estaria para lá de centenária. Acordei pensando nela e com saudades das festinhas anuais com bolo de glacê verde no galpão da São Judas Tadeu. 

Na aula de pilates, o colega coroa que tem um irmão casado com uma brasileira (e mora em Sampa), fala de comidas baianas que provou e adorou. Justo hoje, no dia de Dindinha, a mais baiana das capixabas! 

Ele lembra da moqueca e de um tal de okra. E repete a palavra okra e tenta explicar do que se trata. Bernardo e eu demoramos para pescar... Enfim, sacamos: quiabo! O colega americano amou quiabo. Amou Caruru e uma espécie de farofinha que ele provou com quiabo "like dust", afirmou.

Eu detesto quiabo, porém Dindinha o reverenciava. Vire e mexe preparava Caruru e me obrigava a comer aquela coisa babenta feiosa. Quando eu ia à Bahia, sempre me encomendava camarão seco das feiras de Itapoã... 

Quiabo: verdinho como Dindinha, que só se vestia com a cor do manto de seu santo de devoção. Engraçado o colega americano falar de baianidades justo hoje, no aniversário da minha preta velha! Conexões telúricas são como bruxas: a gente não acredita nelas, mas que existem, existem!



terça-feira, 7 de março de 2017

Feijoada no Céu







O sonho da madrugada reuniu dois mortos queridos. Talvez porque uma gostasse de cozinhar; o outro, de comer. Dindinha morreu no fim de 2009. Claudio Roberto, no início de 2017, para ser exata, no dia do meu aniversário: 21 de fevereiro. Recebi a notícia por mensagem do facebook de outro amado: Marco Antônio que, sem saber que estava para jantar relaxadamente sozinha com o marido na última noite em Miami, me repassou a notícia.

Ainda bem que já havia retido na janela da alma as cores intensas da capital da Flórida. Também já havia armazenado o calor da brisa morna das ruas mais latinas do que norte-americanas, pois, de repente, tudo ficou gelado e escuro. O prato de ravióli, largado pela metade (Claudio Roberto iria me repreender por tanta heresia). Quem mandou conferir as redes sociais enquanto o marido estava no banheiro?

Claudio Roberto, o segundo amigo de infância que perco na vida. O primeiro foi o vizinho e amor platônico Toninho, sobre quem escrevi à época. Claudio Roberto era amigo, sempre foi. E sempre foi duplo como o nome dele: gordo. E não pensem que estou depositando o peso do preconceito no adjetivo que por si só é pesado. Não me importava com esse fato, apenas constato. Ele era dos nossos. Entrou para o grupo que morava ali no cantinho final da Asa Sul: Marco Antônio, na 316; Larinha, na 714; eu, 715 e Claudio Roberto, na 115. 

Filho de militar, uma mãe que me parecia superprotetora e pouco preocupada em frear as gulodices do filhão, vivíamos uns nas casas dos outros, principalmente eu, criada solta, liberta, moleca. Nunca me esqueço da tarde de cachorros-quentes no apartamento do Claudio Roberto. Bandejas e mais bandejas... Assim como guardo no coração a gente assistindo ao "Purple Rain", embasbacados com aquele som e figura revolucionários do Prince na sala de Marco Antônio.

Era a descoberta da adolescência; das festinhas da vassoura ou do lenço; dos primeiros batons e beijos na boca. Era o fim do ginásio no Colégio Notre Dame, lugar que reuniu galera tão diversa em personalidade numa amizade de forte conexão emocional capaz de resistir ao tempo e à distância, amenizados por esse mesmo facebook milagroso.

Nunca mais vi Claudio Roberto. Há décadas não nos encontrávamos, apesar de morarmos na mesma cidade e, coincidentemente, termos escolhido a mesma profissão: Publicidade. Mas acompanhava de perto sua vida de professor da área na faculdade IESB (e o admirava por isso). Curtia de verdade, não apenas por netiqueta, suas postagens às vezes ácidas, outras, irônicas; às vezes melancólicas, outras, divertidas; às vezes, solitárias; outras, agradecidas, no ativo perfil que mantinha no FB. Quase me sentia amiga da esposa dele, de tanto que ele escrevia com amor sobre a Mônica.

E, do nada, ele morre assim, eu longe, sem nem poder dizer um tchau? Putz, foi triste. Mas o sonho, esse mecanismo delicioso de unir o impossível; de resgatar o inalcansável, coloca Dindinha e Claudio Roberto num mesmo encontro onírico.

Será que Claudio Roberto gostaria de comer a galinha ao molho pardo preparada por Dindinha que jamais tive coragem de provar? (todo aquele sangue que eu via se esvair do pescoço semi-degolado da pobre coitada não me parecia nada apetitoso). Será que ele pediria mais do cação ensopado da Dindinha que me apavorava? Odiava aquele peixe com gosto de peixe que era obrigada a comer na infância... 

Ou Claudio Roberto gostava apenas de guloseimas? Não, ele era um glutão com bom gosto, aposto! Tenho certeza de que não recusaria o feijão preto da preta velha. Esse, sim! Um feijão preto feijoada, suculento, denso, temperado com amor de madrinha. Ela gostaria de vê-lo devorar tudo com devoção nos almoços de sábado.

Então, Dindinha, põe mais um prato aí na mesa do céu, porque já convidei o amigo. Aproveita e chame a comadre Maria também. Ela vai gostar de rever o Claudio Roberto!


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Absoluta Adele






Neva torrencialmente. Nesses últimos dias, vi alguns filmes, a maioria sem menção em nota, pois prometi a mim mesma que não assistiria a nada que me fizesse amolecer o coração, uma vez que já estou vivendo no limite emocional.
Por outro lado, resolvi seguir minha longa lista de filmes do Netflix e o do pôster abaixo estava em primeiro lugar. Pouco sabia sobre ele, além de ter dois atores que curto nos papéis principais. Qual não foi a minha surpresa ao acompanhar o desenrolar da história do quadro "Portrait of Adele Bloch-Bauer"!!!

Admiro as pinturas de Klimt. A menos de um mês, fiz a irmã Marilena enfrentar fila de meia hora no frio para prestigiar o penúltimo dia de exposição de dez obras dele na Neue Gallery (de arte alemã e austríaca), localizada num deslumbrante casarão da Quinta Avenida, próxima ao Metropolitan Museum of Art.
Entre primorosos quadros retratando mulheres enigmáticas, ele reluz divinal. É hipnótico o retrato de Adele. Quem teria sido aquela mulher fenomenal? O filme conta um bocadinho.
Agora preciso voltar à Neue Gallery. Apreciar a Monalisa da Áustria com outros olhos. Aquela mulher existiu. Sofreu, amou, sorriu e morreu no auge, mas, felizmente, antes de ver os horrores que o nazismo produziu na Europa. Seu retrato foi roubado da família, como estimam os estudiosos, mais de cem mil obras pertencentes aos judeus. 

Todavia, essa história nefasta foi trazida à luz num processo judicial sem precedentes (o filme conta um bocadinho). E hoje "Portrait of Adele Bloch-Bauer" deixou de ser "Woman in Gold", nome utilizado para lhe destituir a personalidade. Adele reina absoluta e eterna na parede da Neue, esperando que você não apreenda apenas lições da Arte, mas também, da História.



Austronáutica







O inverno não é chato apenas porque é frio e os dias são curtos. É chato porque você tem sempre de estar alerta porque tudo pode ficar ainda mais frio. E, principalmente, porque você carrega no seu corpo cinco quilos a mais de roupa e essas roupas vão ficando pelo caminho.

É uma luva que cai quando você precisa abrir a porta. É um cachecol que fica na cadeira do restaurante ou uma boina que, sorrateira, se esconde debaixo do assento do carro... 

A casa precisa estar fechada o tempo todo. Janelas, portas. A sensação de claustrofobia é diária!

Você se move lentamente com aqueles casacos pesados, se sente imensa, paquidérmica e astronáutica, mas sem as benesses da falta de gravidade. Sem falar nos choques estáticos horríveis que a gente leva ao tocar nas maçanetas e fazem doer até a alma.

Por isso, quando o dia amanhece bonito assim, tudo o que a gente quer é atravessar a rua como os gansos canadenses! Viva o sol!




Alta tensão








Quem vê essas fotos idílicas, não sabe do sufoco no qual elas nos meteram... Mas vou contar, pois sou um Facebook aberto! KKKK!

Domingo passado, Bernardo foi patinar com Romulito naquele lindo parque chamado Bear Mountain (postei fotos do ice rink a céu aberto aqui). Deixei os dois lá para se encontrarem com o Brian e o Eric (que tem a mesma idade do Rômulo). Marilena (minha irmã mais velha) e eu seguimos para o WalMart mais próximo para comprar uma mala grande para ela. Quando estava no supermercado esperando Nena se decidir (horas são necessárias), Bernardo me envia um zap avisando que vai fazer uma trilha dentro do próprio parque - e me manda a direção na qual é para eu ir resgatá-lo por volta das 17h,18h.

Cheguei ao tal ponto de resgate, mas nada de Bernardo, Rômulo ou Frida. A noite estava começando a cair e o frio a despencar. Muitas pessoas desciam da trilha e... nada. 

Daqui a pouco, recebo um zap do Bernardo dizendo que o celular dele está acabando a bateria e que ele não sabe se onde estou é o lugar por onde ele está descendo.

A tensão começa a se instalar, minutos depois, o quase desespero. Um casal aparentemente bem acostumado com o parque está subindo numa hora esquisita a tal trilha e eu peço para eles ficarem de olho num homem alto com uma criança de 9 anos...

Decido subir a trilha -sem roupa adequada para o frio - gritando o nome dos dois!!! Me esqueci que havia a Frida... Minha garganta está dolorida até hoje!

Retorno sem sucesso. O tempo vai passando, passando, o tal casal desce e diz que não viu ninguém. Começo a me desesperar e digo que vou acionar os guardas do parque. A noite já está plena e o frio, congelante.

Nesse instante, surgem, no meio da escuridão, os três perdidos... 

A moça do casal me abraça - para uma americana estranha lhe abraçar do nada é porque o trem tá esquisito mesmo - e diz que ela também já estava ficando muito preocupada. Ali existem bichos selvagens, of course (não se chama Bear Mountain à toa). Rômulo está teso, morrendo de dores no pescoço...

Ideia de jerico fazer trilha num lugar desconhecido, com pouca bateria e, pra piorar, no inverno. Bernardo confiou que o carro chegasse até a torre onde ficou me aguardando, mas a estrada estava fechada para carros.

Fica a lição para vocês e para nós!



terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Similitudes





Na minha ignorância histórica, nunca havia entendido a relação de amor-ódio entre Cuba e os Estados Unidos. Na verdade, nunca me aprofundei na questão pois, ao contrário de boa parte dos brasileiros oriundos de universidade pública (e de um curso de Humanas), nunca fui apaixonada pela ilha de Fidel. Não tenho nenhum fascínio específico por Havana, como também não nutro especial apreço pela terra do Tio Sam (ao contrário da maioria dos brasileiros, tão magnetizados pelo eldorado consumista norte-americano).

Mas calhou de Mrs. Molly, minha eterna mestra de English, minha "mentora", como ela se autodenominou em relação a mim (e eu concordo), fez questão de levar minha irmã e eu para ver a exposição sobre Cuba no Museu de História Natural de Nova Iorque. De outro modo, não ira mesmo pagar dólares extras para conferi-la. E claro, valeu muito a pena.

Primeiro, para constatar o quanto Cuba e Brasil são similares em seus passados escravagistas brutais; dos latifúndios de cana-de-açúcar. Nesse ponto, fui eu quem iluminei a teacher apontando a questão. Também compartilhamos com os cubanos a ligação com os orixás e o arroz-com-feijão-preto... Quem dera dividíssimos os 99% da população alfabetizada e a saúde pública de qualidade para todos, hein? Mas também temos jacarés e regiões alagadas em comum, além de periquitos, boa música e gente festeira.

Voltando ao início dessa reflexão, somente ontem eu entendi o relacionamento conturbado entre Estados Unidos e Cuba. Os americanos se aliaram aos cubanos para livrá-los do jugo espanhol. Porém, como não existe almoço grátis (só na casa da mamãe), os EUA transformaram Cuba no seu parque de diversões: iam para ilha para fazer tudo o que lhes eram proibido de cometer na América puritana e patrulheira. Sem contar que ainda continuavam a manter os latifúndios e as desigualdades sociais tremendas da época pré-pós Fulgencio Batista (levado ao poder máximo na ilha com o apoio dos norte-americanos, detalhe histórico que, apesar da minha estupidez sobre o assunto, guardava conhecimento).

Agora eu saquei porque os cubanos adoram beisebol e basquete, além de batizar os filhos com nomes horripilantes cheios de Y!!! KKK! Como todo país colonizado (e Cuba foi por duas culturas bem distintas), a população repele e atrae o opressor. Reverencia e repudia quem lhe deu prazer e dor. O eterno jogo da serpente com a presa. Tal e qual nós com Portugal: culpando e cultuando nossas raízes e nossas heranças. 

Resumindo: cinquenta tons de cinza explicam!



Louca nas drogas






Culpem os opiáceos que eu tomo para dormir de vez em quando. Nessa madrugada, me vi numa casa de campo, era verão (que vontade!) e vestia um shortinho jeans (logo eu, que raramente uso shortinho jeans, mas que ando muito a fim de rever minhas coxas, cotovelos e tornozelos). 

Na cena, estava sentada numa cama de pernas cruzadas conversando animadamente com uma garota. Uma tigela de jaboticabas envolvidas em cubos de gelo jazia em meu regaço (logo eu, que odeio jaboticabas!). 

De repente, não mais que de repente, surge Donald Trump e sua comitiva porta do quarto adentro. Ele vem com toda aquela asquerosidade me dar dois beijinhos...

Só muito louca nas drogas para misturar Trump e jaboticaba num mesmo pesadelo!!!!! KKKKK!




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Marc Chagall





Mamãe, como A Maja Vestida, assistia à sua novela. Tia Catarina cortava frango ou seria porco? em filés perfeitos. Tia Book, cebolas como pequenas canoas.

Eu era jovem, fresca e leve, sem as cicatrizes dos filhos; sem o peso das tragédias.

Descia o morro da casa-sede da fazenda como uma noviça rebelde apaixonada. 

No meio do trieiro, cruzava com o sobrinho-afilhado Daniel. Alcançava o curral na planície. Avistava mamãe-Maja-Vestida na sala escurecida pela fumaça do fogão à lenha. Reparava nos pés descalços dela, enrrugados como os meus serão em breve. Corria para receber um abraço: 

- Que saudade, mamãe!

Ela fazia sua indefectível expressão marota e respondia:

- Diego não te esperou, já foi embora para Salvador!

Eu quase desfalecia em seus braços, pois era por ele que meu coração batia. O garoto colombiano do curso de inglês findo em dezembro.

A mãe percebia a dor que a brincadeira causara na filha e remendava:

- Deixe de ser besta. Ele está ali, no meio das vacas!

E assim acordei: jovem, leve e fresca, no domingo de fog londrino no Hemisfério Norte.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

To serv and protect





Para se ter uma imersão verdadeira no American Way of Life, não podia faltar a participação especialíssima do policial americano. Foi o que consegui proporcionar à minha irmã na tarde de hoje, procurando o escondido Neureberger Museum of Art, incrustado no imenso e belo campus da Purchase College, no condado de Westchester.

Rodando com a ajuda do Waze à caça do bendito lugar, dirigia olhando para todos os lados a 20 Km por hora (ou ínfimas milhas), até que ouvi um uiouiuou (barulho da sirene do carro de polícia). Olhei pelo retrovisor e pensei comigo mesma (péssima ideia): será que é pra mim? Continuei seguindo a 10 Km por hora e ouvi o segundo e definitivo uiouiouou... OK, acho que me ferrei. Parei o carro.

O da polícia parou quase encostado no meu. O policial veio caminhando com olhos de raio-X para dentro do meu porta-malas, banco traseiro e: documentos do carro e do motorista! A voz de barítono negro era tão assustadora que atingiu o rosto apavorado da minha irmã sentada no banco do carona. Ele era hostil, normal, eu já sabia disso, mas Marilena, não. Gostaria de entender porque a abordagem deles é sempre nada amistosa.

Mostrei a carteira de motorista brasileira, ele ficou ainda mais bravo: você não tem nenhum documento do estado de NY? Não, eu só vou ficar aqui até o fim desse ano e volto para o Brasil. Mas tenho a permissão internacional para dirigir e o passaporte... Mostrei para ele. Documento do carro, ele exigiu. Aí foi aquele atabalhoamento. Nunca tinha acessado os documentos do carro no porta-luvas. Pedi pra Nena pegar que, atordoada e espantada, não era de grande valia. Eram tantos papeizinhos!!!Perguntei para ele qual deles era o essencial: THE YELLOW ONE, THE YELLOW ONE, brandiu, com uma amabilidade de amolecer o coração.

Esse carro é de quem? Do meu marido. E qual é o nome do seu marido? Bernardo Mello. Quase ri me lembrando da música da Blitz: "qual é o seu signo e pra quê time torce?"... Ele olhou, olhou e concluiu que não deveríamos ser terroristas suicidas, noivas de Alá, pois diminuiu os decibéis:

- Você sabe por que eu te parei?
- Nooo, miei.
- Porque você não parou no sinal de STOP. (Aqui, você precisa parar MESMO no sinal de stop. Não adianta estar a 10 Km por hora.)
- Verdade, eu não vi, sorry! Estava olhando para os lados procurando o Neuberger Museum. O senhor poderia me dizer onde fica?

Ele arrancou sua armadura de homem mal e me explicou tudo direitinho, com a diligência de quem está nas ruas to serv and protect. Thank you! E seguimos. Entretanto, Marilena demorou um bocadinho para se livrar do medo de, segundo ela, ser jogada no xadrez, incomunicável, para ser deportada sumariamente alguns dias depois.

Já imaginou? Bernardo em New Orleans, Rômulo sozinho em casa, Tomás chegando da escola, a noite caindo, Frida cabisbaixa e os guris sem saber onde teriam se metido as duas maricotas míopes...

Mas entendo o susto da Nena. Dão medinho mesmo os policiais ianques. Eles trasmitem, com precisão, o sentido prepotente da ostensividade.




quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

No caminho...





Rever um belo filme é reencontrar outros tantos detalhes cênicos e palavras despercebidas. Faz frio, claro, é inverno em NY. Um inverno que costuma ser longo e duro até para os suíços (encontrei um colega de Bernardo na IBM reclamando, o que me espantou). 

A experiência de viver fora de casa, com uma rotina sem rotina é emoção extenuante. Por isso, não tenho me desafiado além da conta com filmes que possam chacoalhar o coração. Todavia, não resisti em mostrar para a irmã Marilena, nesse dia de chuva ininterrupta, na temperatura introspectiva de 3 graus Celsius, sem falar nos filhos doentes, esta joia em prata da Cruz de Santiago de Compostela.

Ter conhecido a cidade de mesmo nome e sua catedral magnífica, de portas abertas para todos os peregrinos, para todas as dores, promessas, desejos e realizações, foi uma das vivências mais profundas que já experimentei. Não à toa trago a tatuagem da mesma cruz de prata no punho, para me lembrar de como a vida é dura e mágica. Naquele momento, perdia minha mãe para o câncer e estar ali, compartilhando da intensidade de milhões de passos, sussuros e pedidos me pareceu sobrenatural.

Tive, sem dúvida, uma experiência metafísica e ainda nem caminhei por nenhuma das rotas que nos levam até lá. Cheguei no final do percurso, mas pretendo partir de algum início ainda nessa encarnação. Para vocês, fica a dica do filme e um convite: quem topa?



quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Deo Gratias!




A luz amarelada do Outono invandia o piso da sala, além do meu coração. A campainha toca, abro a porta. Ele adentra o corredor do apartamento com a serena presença de sempre. Um frescor distante da minha melancolia. 

O lanche da tarde já está sobre a mesa. Ele se senta e começa a mordiscar o pedaço de bolo, conversando sobre o dia na escola. Me posto à sua frente e observo seu rosto de anjo bem esculpido pelos artistas da genética. Meu filho, seria mesmo meu? É uma dádiva. Um menino pronto, bem acabado em forma e conteúdo. Está tão crescido, pubescência. Entretanto ainda resguarda a infância em algumas atitudes, como pedir ao pai ou a mãe que lhe desejem boa-noite ao pé da cama.

Será que teria sido uma criança como ele se tivesse tido uma família a me comtemplar com olhos de benevolência? De onde veio a completude desse quase rapaz? Ele gosta de presentear as pessoas, fazer surpresas. Agora mesmo chegam mensagens dos amigos do colégio em Brasília, embevecidos com os souvenirs que ele fez questão de escolher para cada um. É uma coisa dele que é minha, posso reconhecer: esse prazer em pensar que aquela pessoa gostaria daquele mimo e poder ofertar essa alegria. Me orgulho, é claro.

Suas atitudes não são impulsivas. Ele não é enérgico, nem muito curioso. Sua passividade às vezes incomoda os pais, preocupados com a aparente inércia desinteressada. Parece já ter o coração assentado numa tranquilidade de saber que a vida vai ser boa para ele. Ao menos foi o que disse a amiga astróloga quando me mostrou o mapa astral do primogênito: "Veja todos esses planetas em Vênus, todas as portas estarão abertas para esse menino". Até o momento, sim.

Segue conquistando os corações conhecidos e desconhecidos... Do nada, recebo elogios: "Esse menino é seu filho? Tão polite, tão kind". Fez um teste para participar do time de basquete, competição acirrada entre tantos pré-adolescentes, foi pré-selecionado. Nem ele entendeu, modesto: "mas eu fui o segundo pior!!!".

O caçula, oposto absoluto. Sanguíneo, voraz, guloso de conhecimento. Suga nosso ar e nossa energia. O mais velho compreende que é preciso ser o remo de Rômulo. A bússola e o remanso para que o irmão inquieto e insone se ancore a cada dia.

Fico feliz que sigam irmanados nas brigas e nos afetos como jamais pude experimentar com meus irmãos, dispersos pelas contigências das perdas precoces e suas demandas injustas. Aquieto meu coração nesse pensamento: sempre terão um ao outro. Reconforto. Quem é órfão desde que veio ao mundo carrega a mórbida angústia de achar que vai partir antes da hora. Mas qual seria a hora ideal, enfim?

Por isso, escrevo aos astros, a Deus (ou para mim mesma): grata por enviarem o menino-anjo aos meus cuidados. Sei que não o mereço, mas ele também sabe e ainda me garantiu: "somos uma família feliz, sim, mamis! Com a Frida, ainda mais".

Louvado seja!



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

"Lá vem o pato, patiti, patacolá..."





"And it's all over now, baby blue". Não adiantou o Nobel premiar Bob Dylan como um alerta, uma aviso para deter o horror, o horror. Não adiantaram as denúncias de abuso sexual: milhares de mulheres foram às urnas para eleger Trump. Quando vi uma brasileira que vive na Flórida dizendo que iria votar em Trump por causa de seus valores, tive a certeza de que ele venceria.

Se em um estado progressista e libertário como Nova Iorque era possível ver centenas de carros e casas estampando adesivos de Trump, o que dizer dos EUA profundo? Deu no que deu. E agora a Idade Média se globalizará... Foi só no que pensei hoje, ao acordar: em como a história é cíclica. Só não estava a fim de viver isso nesse momento. Talvez na próxima encarnação, mas não já.


Nem ligamos os telejornais brasileiros hoje cedo. Acordamos deprimidos. A impressão que tenho é de que estou revivendo toda a loucura de 2001, com a vitória de Bush arrastando o mundo para a radicalização islâmica sem precedentes. Pensar que Trump pode alcançar níveis ainda mais baixos é avassalador.

Pensar também que oito anos de Obama e Michele nada serviram ao processo de educação moral e cívico dos EUA me deixa absolutamente devastada. Se depois de uma experiência de alto nível intelectual, social e humano promovido por essa dupla, a Casa Branca vai receber uma boneca inflável no posto de primeira-dama, o que esperar de nós, república da piada pronta? Quem o Brasil elegerá em 2018? Trevas...

Fui para a aula de pilates como uma autômata. Os colegas de classe, coroas brancos, remediados e cultos estavam todos deprimidos também. Uma névoa de angústia envolvia todos os olhares. O primeiro trecho de conversa que pesquei foi exatamente: "dark ages". Sim, eles também sabem que os EUA são capazes de promover a escuridão no planeta.

Um alucinado detém o poder da maior potência bélica mundial nas mãos, apoiado pela maioria do congresso americano. Muita insensatez pode brotar dessa conjunção astral nefasta.

O amigo Brain me pegou numa conversa longa ao telefone logo depois da aula. Também estava devastado, o coitado. Disse pensar em aceitar proposta para morar na Holanda.

Tomás e Rômulo seguiram para a escola tristes. Rômulo pediu para ouvir Faroeste Caboclo e eu pensei: sim, é o far west se apossando da evolução social para aprisioná-la num deserto de incivilidade.

Desci as escadas do prédio da YMCA e dei de cara com o cartaz que fotografei e está aí em cima. Quase ri de desgosto, de nervoso, de pavor. Segui para casa sem ligar para a garoa que molhava meus óculos. Qual é a vantagem de enxergar num cenário de breu?

Até o sol foi embora hoje. O dia é cinza para atestar que os americanos, para variar, foram longe demais. O ovo da Serpente está posto e vai eclodir. Quem vai pagar o pato do Donald?