sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Múmia cibernética





Vivenciar um exame de ressonância magnética (RM para os íntimos) é o mais perto que nós, pessoas comuns, filhos de Deus nascidos num país periférico e corrupto do mundo, chegaremos do futuro. Desse futuro de cinema: asséptico, artificialmente branco, luminoso e impessoal. Um porvir distópico, onde a máquina fala mais alto do que você. Aliás, emite sons inacreditavelmente estridentes e sua única opção é se submeter aos avanços da tecnologia. 

Isso pode ser bom então. Ser um país fodido, desigual e ignorante. O tal futuro apocalíptico nem chegou por aqui e vai passar batido. Existimos na eterna Idade Média: fita VHS engastalhada no vídeocassete ou a famigerada conexão de internet mixa que lhe deixa hipnotizado pela setinha a rodar, rodar, rodar... 

Você pensa que está pronta para segurar a onda quando os homens e mulheres futuristas lhe acomodam na nave. Tudo reluz a "2001, uma Odisseia no Espaço"; "Gattaca" ou "A Ilha". Fique à vontade para escolher sua distopia do coração. E para os que curtem uma teoria conspiratória imperialista, a RM é um prato cheio! Afinal, quem além deles, os vis ianques, para inventar um futuro tão abjeto para a humanidade!!! (As primeiras publicações a respeito do fenômeno da ressonância magnética foram feitas por dois grupos de cientistas americanos independentes: Felix Bloch e colaboradores, da Universidade de Stanford; e Edward Purcell e colaboradores, da Universidade de Harvard. Em 1952, ambos ganharam o Prêmio Nobel de Física por esta descoberta). 

Pois bem, você está prestes a experimentar o máximo de futuro permitido aos pobres do Terceiro Mundo. A máquina é perfeita, casular como um útero. Mas um útero frio da mãe de metal, pois nos anos 2000 é assim que tem de ser. 

Nem os foguetes são tão milimétricos. Muito pelo contrário: desajeitados, geringonças cheias de protuberâncias. Legos montados por crianças de cinco anos. As naves espaciais têm cara de ficção, porém o aparelho de RM é cena da vida real. 

Eles lhe entregam um botão para apertar caso deseje interagir com humanos; um “botão do oi”, sinais desses tempos virtuais. Não se mexa, o futuro já vai começar! E a festa Rave rola solta. Mixagens explosivas que colocam você em transe, choque ou ambos. O futuro não tem elegância musical. 

Você decide aproveitar seu tempo de múmia cibernética para mexer ao menos os olhos, num Trataka Yoga. Todavia, os homens e mulheres do futuro são Big Brothers que detectam os mínimos indícios de rebeldia. Uma voz impessoal enche o ambiente hospitalar, advertindo que é preciso ficar bem quietinho para que a experiência futurística seja bem-sucedida. 

Resta balbuciar todo o acervo de mantras memorizados no passado a fim de sublimar as investidas da máquina com trilha sonora invasiva e lobotomizante. Dá vontade de coçar a cabeça, o pé, o cotovelo. Entretanto, o futuro é despótico, patrulhador e repressor como os politica-ecologica-socialmente corretos: não pode! 

O botão do oi (ou seria do pânico) começa a se tornar a única saída para voltar ao presente utópico no qual não existem chatos de toda a natureza. Você está a um triz de apertá-lo quando um ruído harmônico e doce adentra o ambiente. É a porta se abrindo. Porta da esperança de ouvir: “seu exame acabou”! 

Sim, chegara ao fim a hibernação espacial de interminável duração. Os homens e mulheres robóticos me aprumaram de frente para o túnel circular do futuro, que me pareceu apenas oco. O que as imagens do meu joelho direito reservam para o meu destino? 

Enquanto a resposta não se apronta, vão perdoando o rol de bobagens que acabam de ler. Acontece que a vida só é possível reinventada, não é, minha cara Cecília? 




quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Templo


A imagem pode conter: nuvem, céu e atividades ao ar livre



Suspira, mas não pira!

O yoga me salva de mim mesma.

Você chega à prática como terra arrasada, tipo assim ruína depois de um bombardeio.

Caindo aos pedaços, tipo assim patrimônio histórico abandonado.

E você pensa: não tem mais jeito. A energia vital foi embora, “partiu sem dizer adeus, nem lembra dos meus desenganos, fere quem tudo perdeu...” 

Os 50 à espreita com todo o peso de um 5 e de um 0, ou seja: zero possibilidade de ter 30 anos de novo.

Leviana, sim, leviana a força que você pensa que lhe deixou na mão. Mas aí a mestra lê seus pensamentos e propõe uma prática para o resgate da vitalidade.

Kundalini, seu louco! Depois de meia hora você já está até a fim de escalar o Everest numa manhã de domingo.

Cada caquinho desbotado das minhas paredes; os contornos esmaecidos da minha abóboda e os entalhes do meu altar são restaurados pelas mãos invisíveis de algum especialista dedicado e sábio. 

Volto para casa com meu interior de igreja barroca reluzindo em filigranas de 18 quilates!




quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Em defesa da lebre




Destruída, devastada, desmontada, debulhada, demolida. O ano começa enquanto terminamos um ciclo intenso de aprendizados, memórias e bagagens: centenas de tralhas em várias dimensões, cores e tamanhos. 

Duas casas em 1 ano e meio. Hemisfério Norte e Hemisfério Sul chacoalhando nos dois lados do cérebro. Sinapses em desintegração. Devo estar perdendo bilhões de neurônios para o cansaço em três, dois, um! 

Impossível não pensar nas pessoas que habitam casas desorganizadas, atulhadas, desesperadas. Roupas e objetos confusos pelos cantos ou escondidos em gavetas e armários abarrotados. Tem gente que vive assim de boa, não precisa ser um acumulador, apenas um bagunçador crônico. 

Mamãe era um deles. E talvez por ter dividido quarto com ela por tantos anos, influência de minha madrinha - espartana e estoica em todos os sentidos – ou por algum gene herdado das minhas tias maternas (portadoras de TOC por limpeza em graus variados), não suporto conviver com pendências. Sou o contrário da procrastinação. Avessa ao adiamento. Vapt-vupt me define. Detesto a fábula da "Lebre e a Tartaruga". Pronto, falei!

Desde menina sou ciosa dos meus compromissos. Viciada em agendas de papel (até hoje, compro uma a cada janeiro), tomo nota da vida. À mão, todos os telefones importantes, consultas e datas de aniversário que sei de cor. 

Enquanto isso, minha irmã mais velha me pede pela décima-quinta vez o número daquele médico... E também a lista de aniversariantes da família (perdi a conta de quantas já lhe repassei). Nunca consegui entender esse tipo de coisa, gente! Será que sou neurótica e os outros é que são normais na desordem? Eu dou pinta de psicótica? Falem a verdade! 

Acho que uma das características que mais me identifica com as profissões de jornalista e publicitária é o famigerado deadline. Prazos fixos (geralmente curtos) para concluir um projeto, uma ideia. A maioria teme ou sofre com a pressão. Eu adoro, pois a lógica é a seguinte: o quanto antes eu me livrar de uma obrigação, mais tempo terei para não fazer nada, meu passatempo predileto. 

Fechar ciclos e abrir outros é a cara da “menina versátil” (apelido dado pela amiga de infância Lara quando tínhamos 14 anos). Não gosto de lenga-lenga; de reuniões sem fim; de democracia ad eternum. Deriva dessa postura autoritária, o apreço por novidades, surpresas e quebra de paradigmas para minimizar a rotina soporífera da existência; além de uma vontade danada de dar ordens que sejam executadas em tempo recorde. 

Quando me lembro das experiências de trabalho na área de gestão de pessoas... Torturantes aqueles debates sobre todos os temas... Psicólogos e Pedagogos excessivamente compreensivos e abertos ao diálogo interminável... Affeee, que chatice! Mais começo, meio e fim, por favor! 

Não raro os próprios colegas jornalistas se surpreendem com a rapidez com que dou cabo das matérias. Sempre foi assim. Na escola primária, terminava as tarefinhas de sala muito antes de todos os outros alunos e, claro, começava a perturbar a harmonia da classe. Era a eterna reclamação das professoras. Na terceira série, a tia teve a brilhante iniciativa de me colocar como ajudante dela. Pronto: problema de ociosidade resolvido. Distribuía provas, recolhia cadernos, apagava o quadro-negro, entregava os trabalhinhos mimeografados... 

Foi nessa época que outra tia, a de Artes, me chamou para ser a Emília de Monteiro Lobato numa celebração pelo Dia Nacional do Livro. Ela me disse que eu era a perfeita tradução da boneca elétrica e espevitada. Posso imaginar porquê. 

É por essa e outras que sofro imensuravelmente no ambiente excessivamente burocrático da Administração Pública. As metas e objetivos a perder de vista, lá longe, onde Judas teve de amputar o dedão. A leseira recorrente. Que aflição! 

Assim como é aflitivo ver minha casa com jeitão de perdida. Logo eu, uma adepta do desapego, criticada pelo marido e pelos filhos “por sair dando tudo quanto é coisa sem perguntar antes”, agora tenho dois sofás; duas mesas; uma dúzia de cadeiras extras; colchões e camas quadruplicadas; roupas de inverno rigoroso num país tropical... 

Sei que é uma situação transitória, sei. Em breve já estará tudo nos conformes, estará. O Carnaval taí! Quatro, cinco dias para retornar ao padrão-Luciana de organização dos espaços (resistir aos blocos que passam em frente ao meu bloco é preciso). 

Dar tempo ao tempo é evolução espiritual sem precedentes para os seres que não têm alma de quelônio. 


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

"A Idade da Razão"*





A manhã chuvosa e fresca, horizonte plúmbeo, me fez voltar aos roteiros de White Plains. 

Relembrei idas e vindas do Trader Joe’s, cruzando a esquina entre a Liberty e a Independence, 

pilares fundamentais. 

O impulso de parar nessa encruzilhada da vida era instintivo. Stop and see. Uma vez, desci do carro e tentei uma foto, mas o céu gris não ajudou na composição. 

Saudade das planícies brancas quando estiveram alvas de neve, chantilly. 

Falta que sinto das quatro estações a reger comportamentos, rotinas e paisagens diversos uns dos outros. A adaptação impera. 

Os sábias e maritacas cantam na manhã candanga do planalto central. Os corvos crocitam no crepúsculo de Westchester. Me encantava a morbidez literata da ave de Poe, e a memória da revoada negra cobrindo o azul-nem-sempre-azul me faz suspirar... 

Sou um ser de lua, uma loba: Lilith. A energia yin me torna mais límpida. 

Não que abra mão dos dias de sol; do mar no verão. Só não precisava ser tão arregalados os dias amarelo-ouro onipresentes do Brasil. 

Umas pausas úmidas, íntimas e líricas são fontes vitais de introspecção criativa. Mas o astro-rei é mesmo para todos debaixo do Equador. 

Lá, o farfalhar da halzenut que cai sobre a cama das folhas de maple. 

Aqui, o tum surdo da manga que aterrissa na grama esmeralda. Oceano delas a apodrecer sob o mormaço abrasador. 

No Norte, a Natureza se contém, ciente da carestia do inverno. No Sul, a profusão de cheiros e sons é incessante cornucópia. 

O hemisfério de baixo não dá trégua, é exposto e despudorado. Exaure os sentidos numa festa diuturna. Somos todos coração pipocando em suores e gozos de toda ordem. 

O hemisfério de cima cultiva uma paz de ruas vazias, chás quentes e abajures acesos. Consigo, agora, (mais do que da primeira vez que ali vivi) compreender o apelo desse casulo, essencial ao equilíbrio da razão.

 * Pegando emprestado o título de Sartre.



terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Entradas e Bandeiras








Guerreiros são pessoas
Tão fortes, tão frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito...
(Gonzaguinha)



Revolve-me as válvulas cardíacas a cena. O canal lacrimal é acionado sem autorização.

O guri sem camisa passa por mim na bicicleta. O canteiro de grama verde-novo.

Seu bornal a tiracolo, a felicidade na garupa. Independente e confiante, ele segue em frente.

A fragilidade da infância é poética.

Meninos: desde sempre desbravadores. 

Esquivos; caçadores de aventuras, seja em voos-solo ou na garantia da matilha. 

Raro é flagrar meninas nos ermos, solitárias e seguras de si. 

Cultural? Biológico? Patriarcado? 

Não vem ao caso deste relato, sem pretensão de se bater por questões de gênero. 

Válido apenas relembra o menino livre, solto no mundo sobre a bicicleta. 

Onde será que pretendia chegar? 

Acompanho com atenção esses garotos. Tenho dois. Um gosta de ir; o outro, de ficar. 

O que gosta de ir também deambula, explora, desvenda e reconhece os desvãos das trajetórias. 

Mapeia os arredores com olhar aguçado, faro atento. 

Todo moleque é andarilho, ainda que somente no interior de si mesmo. 

Como o que gosta de ficar.

Poucas vezes ele revela por quais trilhas sujou os pés do pensamento. 



terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Sobre o laser e outras técnicas sadomasoquistas






Momento check-up anual, ou melhor, bienal, pós-excessos da vida norte-americana. Nem quero abrir o resultado do hemograma completo e ter de encarar a verdade dos fatos provavelmente apavorantes sobre a glicose e o colesterol. Valei-me! 

Ontem estava novamente no angiologista. No ranking das chatices médicas, o tratamento de vasos e varizes ocupa facim o segundo lugar. Perde apenas para o dentista (que enfrentarei nessa quinta-feira). 

Chego esbaforida, atrasada (encontrar vaga em Brasília é, por si só, um exame de sanidade mental) e a secretária me pede para vestir um shortinho azul celeste (uma das poucas cores que só gosto no céu que lhe dá nome) estilo balonê. 

- Acho que esse te serve! 

Tive vontade de dar na cara da moçoila, uma vez que o tal balonê caberia até mesmo num hipopótomo fêmea. 

Deitei na maca e lá vem o sádico. Dr. Damasceno com suas mãos finas, quase quebradiças e transparentes. Ele é a simpatia em pessoa e suas mãos, leves como devem ser para torturar com maestria as pacientes. 

Era a primeira vez que eu eliminaria vasinhos com raio-laser. Estava apreensiva e o que veio a seguir agravou o quadro de ansiedade. 

- Coloque os óculos e me dê aqui o celular! 

- Como assim? Não vou poder me distrair enquanto você me esfola viva? 

Ele ri e me explica que é uma questão de segurança. Os óculos, tipo os de natação, são opacos, branco-leitoso e me deixaram completamente no escuro. 

Que aflição! Que suspense! O jato frio de ar toca a minha panturrilha, amenizando o calor intenso do laser. Bate e assopra, saca? Quase uma cena de “Cinquenta Tons Mais Escuros”, se Dr. Damasceno fosse tão gostoso quanto o Cristian Grey. 

De repente, um leve aroma de galinha depenada no fogão à lenha dos confins da infância chega às minhas narinas... 

- Pense que você está ganhando, de quebra, uma depilação a laser, se diverte o médico-monstro. 

Lá pela ducentésima troca de carícias sadomasoquistas, comecei a recitar o mantra da aula de yoga: LOKÁ SAMASTÁ SUKINÔ BAVANTÚÚÚ... E tome-lhe repetição a cada dor mais agudinha do que a outra. 

- Tudo bem aí? 

- Tudo óóóótimo, estou apenas recitando um mantra (e matutando sobre quão lôkas são as mulheres e suas vaidades). 

- Ah, bem que eu vi que você estava muito concentrada. 

Nisso, ele engata num papo sobre o julgamento de Lula a fim de me distrair com algo ainda mais desagradável do que aquela sessão de tortura, aproveitando para me queimar mais 350 vezes! 

- Importante fazer o maior número possível, se não você vai demorar para ver o resultado, se justifica o inquisidor, todo serelepe. Aposto que se vinga dos abusos que sofre da esposa nas esposas alheias. 

Mas quando você pensa que terminou, Dr. Damasceno chega ao requinte máximo de crueldade com aquela agulha finíssima que esclerosa as veias mais extensas com um líquido flamejante. 

Saio da sessão em modelito múmia-prestes-a-ser-eternizada na pirâmide de Queóps, quando recebo o golpe de misericórdia: 

- Depois de quatro horas, você tira as ataduras e coloca a meia-calça de alta compressão. São só dois dias usando a meia, mas não precisa dormir com elas, viu? Despede-se Dr. Damasceno, em estado de beatitude. 

- Reconfortante, indeed, resmungo, deixando a câmara dos horrores. 

As tais meias, espartilhos da atualidade, são objetos de tortura capciosos. Primeiro é essencial que se tire as próprias medidas antes de comprá-las, pois elas devem ficar realmente apertadas. 

Chega a hora de incluir o marido no jogo de sedução sadomasoquista. Ele lê as instruções do produto como o cioso cientista teórico que é e parte para prática. Vira a meia do avesso e ataca o pé direito. Consegue alcançar o tornozelo, avança pela panturrilha, emperra. Decide realizar o mesmo procedimento no pé esquerdo. 

Na frente dele, posição de frango assado, me esbaldo de rir e suo em bicas no alto verão que adentra o quarto. Se os filhos flagrassem os pais nessa cena esquisita, sabe-se lá a amplitude do trauma que levariam para a vida adulta... 

Entre um puxão e outro rumo ao joelho, reflito que é mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que a coxa da pecadora ser revestida pela meia preta. Resolvo, então, assumir o comando e termino o enduro sozinha. Pronto: posso ser escalada para o próximo comercial da linguiça fininha da Sadia! 

A empreitada reduziu uns bons centímetros das minhas medidas, sem contar que eliminei uns dois quilos no exercício aeróbico de alto impacto. 

Tudo vale a pena se a alma não é tamanho P, mas a cinta-liga, sim!:) 



terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Missão: Mariposa





Experiências equivocadas têm um quê de tragicomédia. Ainda bem, caso contrário, os índices de suicídio seriam alarmantes. 

Esse lance de estar trabalhando no subsolo pela primeira vez na vida tem me mostrado um lado Pollyana que sempre rechacei. O que me fez acreditar que poderia ser uma boa ideia me enterrar no submundo do Tribunal sem ao menos receber um cachê de top model? Eis o mau de ser idealista até nas decisões mais importantes. 

De qualquer forma, ser tragada para o upside down world rende metáforas e analogias instigantes, a começar pela comparação inevitável com a série Stranger Things, que considero, diante dos acontecimentos recentes, premonitória. Você também pode descobrir o seu lado piadista: 

- Vou emergir para a superfície e já volto. Os coleguinhas sorriem e você se lembra que está de fato se sentindo o próprio submarino San Juan, aquele que sumiu das cartas náuticas com seus 44 tripulantes nas águas geladas do Atlântico sul. Minhas 44 personalidades esfuziantes submersas por toneladas de concreto, terra e divisórias sem acesso às redes sociais. Ou seja: também sumi do mapa. Ninguém me acha e não sou vista por ninguém. Sem contar que aqui embaixo o ar-condicionado mantém todos em temperaturas reptilianas. 

Mas não é só isso. Você passa a deslizar letargicamente pelos corredores. Seu corpo, o submarino rotundo pós-American way of life, precisa de horas para chegar ao térreo, vencendo metros e metros de corredores e escadas. Vou me instalar um sonar! Outra coisa: dá pra vir trabalhar com a roupa de yoga? Se ficar mais tempo por aqui, vou ser obrigada a reformular meu guarda-roupa. Sai sandálias anabelas e sapatinhos de boneca; entra o sapatênis e o moleton! 

O fato é que a ansiada luz do sol agora vem acompanhada de trilha sonora: respiração ofegante. É como se eu estivesse enterrada viva e conseguisse fugir esbaforida, cuspindo cascalho a cada áudio do whatsapp! 

Inevitável também a comparação com os porões. Não dos navios negreiros, nem da ditatura (se bem que a ridícula censura dos computadores da Corte às ferramentas de comunicação da atualidade seja ultrajante e torturante). Porém, quem tem um bom smartphone acaba se esgueirando para um cantinho com wifi dentro do banheiro ou lá em cima. O que comprova, mais uma vez, a força da teoria evolutiva de Darwin: a vida encontra um meio de seguir o seu fluxo de likes! 

A verdade é que o porão daqui parece mais com o de um grande hospital. A claridade das lâmpadas e os tons esverdeados dão náuseas. E um pouco de medo. A qualquer momento entraremos por engano numa ala que nos levará ao necrotério. De lá, um morto-vivo se erguerá do lençol e... OK, eu já vi filmes de terror para três encarnações. 

Saindo do campo das figuras de linguagem, o subsolo tem me ensinado, não sem dor, a importância da minha insignificância para a existência do STJ, para a sociedade brasileira e para o mundo em geral. 

Eu, que já transitei nas altas esferas do Tribunal, convivendo diariamente com ministros e o séquito de assessores puxa-sacos; que já viajei pelo Brasil assessorando presidentes; que já tive uma mesa com gavetas para chamar de minhas; matérias lidas por milhares de seguidores do site do Tribunal da Cidadania; que já ganhei um concurso de redação e fui premiada com sete dias num spa; janelas com vista para o Lago Paranoá; que já pautei âncoras famosos da TV; que escrevo melhor do que a Tati Bernardi e o Gregório Duvivier e já perdi a conta das vezes nas quais fui plagiada pela Martha Medeiros; que pegava o elevador para chegar ao céu, hoje desço a escada para o purgatório e abraço o ostracismo que me tem de regresso. 

Junto comigo, no limbo, estão os surdo-mudos contratados para digitalizar processos; os servidores amargurados que se isolam voluntariamente nas terras-do-sem-fim e aqueles novatos que só conseguem pensar no próximo concurso. 

É uma fauna que merece estudo mais aprofundado (meu lado antropóloga é quase tão insistente quanto o idealista). Por isso ainda não pedi pra sair. Abandonar a vaidade é preciso para chegar ao paraíso. Vou me penitenciar, vou rastejar, vou refletir. Vou parar de falar mal da rotina, como prega Elisa Lucinda, que já abandonou a dela há muito tempo. 

Só depois desse período de embotamento e comiseração, estarei novamente pronta para renascer. Não Fênix, não peço tanto. Mariposa bruxa faz mais o meu estilo. 




quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Intangíveis e Fundamentais



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O laço sutil e, muitas vezes, quase sobrenatural do afeto. Conexões telúricas, gosto de afirmar, sobre as coincidências de almas que, um belo dia se esbarram e se misturam numa ligação tão forte e autêntica que sentem quando uma necessita da outra. Amizade intuitiva, sexto sentido. Será mesmo que a gente pressente os anseios de quem carregamos no coração? 

Estava no submundo, porão, enterrada por toneladas de concreto que praticamente impossibilitam o acesso às redes sociais; dificultam a interação humana atrás de portas fechadas e corredores extensos e frios e, pior, bloqueiam os raios salutares do Sol. Num ambiente adverso assim é fácil se sentir, literal e metaforicamente, uma topeira. Subsolos de Niemeyer que, lógico, deveria ter uma linda sala com vista panorâmica da marina de Botafogo com o Pão de Açúcar ali atrás. 

A falta de luz natural cabe aos animais que não precisam da visão para se alimentar da beleza do mundo. Não é o caso dos humanos, exceto dos cegos, coitados. E nessa pena expressada não há preconceito, entretanto a constatação de que eles perdem grande parte das coisas boas da existência: cores, expressões faciais, peripécias caninas e felinas, paisagens... 

Mas onde é que esse texto vai parar? Ideias têm caminhos próprios, peço perdão, pois comecei sugerindo algo e fugi completamente do tema, que pretendia exaltar o bem que me fez o primo-irmão ao me resgatar dos sentimentos lúgubres provocados pelo upside down world. Sua simples intervenção pelo what’s app se transformou no clarão debaixo da terra, transportando-me do tédio solitário de uma sala vazia e sem janelas para uma brincadeira instigante e divertida. 

Não sabia ele que estava me salvando. Todavia, creio nas tais conexões telúricas que presenteiam os que se amam com encontros intangíveis. 

Reproduzo, a seguir, nossa conversa e convido você a fazer a sua lista. Tenho certeza de que vai passar o resto do seu dia rindo de bobeira quando pensar em acrescentar mais um nome a ela! 

Primo: Tem um livro póstumo do Renatão (o Russo) causando sensação nas livrarias. Um livro de listas. Já ouviste falar? Nesse livro ele faz listas aleatórias. Ou não. As pessoas com quem ele queria sair pra jantar; os lugares que queria conhecer. Os livros que mais gostou; os filmes que mais assistiu. Coisas assim. 

Inspirado nisso, montei minha lista de pessoas que eu gostaria de ter numa mesa de boteco. Vai ter que ser uma mesa grande. 

Tem um lado muito revelador nessas listas. A minha revela minha futilidade. Não tem nenhum economista, pensador, intelectual, sociólogo, filósofo, político. 

Prima: Soube desse livro do Russo, mas não sabia que estava fazendo sucesso. Mesa de boteco tem de ter gente comédia, gente leve... Também não colocaria nenhum desses profissionais, principalmente antropólogo e sociólogo, Deus me livre, o povinho chato!!! Kkk! 

Quem estaria na sua? Na minha, a amiga Marisa, claro, ela me faz rir demais!!! E você!!! E o Webster e o Bruno, sobrinho do Bernardo, que também me fez rir muito em NY. Gente sarcástica e irônica não pode faltar. O pai da Marisa, Tio Raimundo, seria uma boa. Gente que fuma e bebe, of course, pra fazer contraponto comigo, uma careta sem graça. 

Sua irmã, prima Dje, que gosta de rir e tem uma risada ótima! E a Ceci, perfeita: boa de copo e divertida pacas! Geysa, JJ, a risada mais sensual do universo e o marido dela, Paulo, que é músico bissexto. O meu amigo Rodrigo e o meu sobrinho Rodrigo, o contemporizador. E pessoas que gostam de livros e filmes, pra rolar muitas dicas boas. 

Primo: Ô, prima...assim você me comove. Todavia, a proposta da lista é ser mais utópica. Com gente viva ou morta que você só alcança nos sonhos. Vou te mandar a minha e, depois, montar uma mais *possível*: 

Tim Maia 
Paulo Francis 
Tônico Pereira 
Pedro Cardoso 
Fernandas 1 e 2 
Maria Beltrão 
Leandro Karnal 
Regina Casé 
Viviane Mosé 
Adélia Prado 
Rubens Alves 
Ariano Suassuna 
Talita Werneck 
Fábio Porchat 
Marcelo Médici 

Prima: Eco, detesto o Fábio e a Talita!!! Uns chatos egocêntricos!!! 

A Viviane me parece intelectual demais, estilo antropóloga xiita. Não chamaria, estou traumatizada com os acontecimentos recentes envolvendo antropólogas! KKK! 

Adélia, ok! 
Ruben, ok! 
Karnal, não sei. Talvez o Pondé. 
Tim Maia, claro! 
Tônico Pereira, ótimo! 
Paulo Francis, sem dúvida! 
Fernandas, sim! 
Casé, acho mascarada, meio fake. 
Beltrão, boa! 
Ariano, sim. 
Pedro Cardoso, pode ser. 

Vou pensar na minha utópica aqui... Esqueci de dizer que uma boa mesa de bar tem de ter o rabugento, o do contra, o pessimista. A minha lista utópica seria recheada de escritores e artistas, menos da TV e Cinema do que das artes plásticas em geral. 

Poderia ter: 

André Abujamra 
Paulo Tiefenthaler 
Adélia Prado 
Papa Francisco 
Obama 
Woody Allen 
Robert Redford 
Elke Maravilha 
Sandra Annenberg 
José Simão 
Chico Pinheiro 
Sandra Passarinho 
Meryl Streep 
Raul Seixas 
Mozart 

Sei lá, dezenas de músicos e escritores, todos uns beberrões inconformados:). E há de ter pessoas espirituosas e espirituais. A monja Cohen de repente... 

Primo: É um exército gostoso, né? A lista não acaba nunca. O Paulo Tiefenthaler foi uma ótima lembrança. O cara é meu guru, meu xamã, meu pajé, minha referência máxima desde que vi *Larica total* pela primeira vez. 

Pra mim, Adélia Prado, Rubens Alves e Ariano Suassuna preenchem a cota *espiritual*. Eles fazem bem ao meu espírito e alma. Estranhei não ter nenhum atleta ou esportiva na sua lista 

Prima: Sim, esse trio faz um bem danado ao espírito!!! E Larica total é obra-prima! Pois é, fiquei pensando nisso. Geralmente os atletas profissionais têm um papo limitado ao universo deles. É uma galera meio rasa! Kkk! Ou são jovens demais e não tenho paciência com a inconsistência da juventude! Kkk! Mas talvez a Martina Navratilova... 

Primo: Mas pense nas histórias saborosas que um Nelson Piquet teria. Hã? E ele teria um duplo papel: poderia ser também o chato rabugento da mesa. Falando em Nelsons, faltaram o Rodrigues e o Mandela. 

Prima: Ah, sim, mandou bem! Piquet, sem dúvida!!! Mas nunca penso em Fórmula 1 como esporte. Nelson Rodrigues e Mandela, dupla perfeita! 

Agora passo a bola pra você que me leu até o fim! Conecte-se a um afeto e brinque! 




terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O breu do céu








O urubu caminha sobre a laje do edifício de apartamentos. Seus passos reflexivos percorrem sempre o mesmo trajeto de ida e volta. Parece preocupado. Ou seria eu, projetando minhas angústias?

O solitário urubu anda entre as antenas parabólicas. Estamos frente a frente. Ele para por breves momentos e logo retoma a caminhada. 

Do lado oposto, na varanda, reconheço nos passos do urubu uns trejeitos de barata. 

Nunca tive nada contra abutres, mas a semelhança me provocou arrepios de asco. Seria eu projetando um desconforto existencial? 

A ave segue em seu posto de vigília. Do lado de cá também não arredo o pé. Logo, logo o urubu vai se confundir com o breu do céu. 

Mas antes da noite, ele estanca e mira na minha direção. Será que descobriu estar sendo observado? 

Não, não. Ele se coça, espreguiça as asas... 

Apenas abraça a solidão dos incompreendidos, como a sua espiã.




segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Thanksgiving





A rádio 106.7 já começou a cantinela natalina. Christmas songs 24 horas por dia, sete dias da semana. Saindo da aula de pilates, flocos de neve caíam do céu e pousavam como caspas no meu casaco preto. 

Estamos no mês da gratidão para os americanos. O Thanksgiving, celebrado nessa quinta, é a mais significativa das celebrações para os EUA.

Os sentimentos no meu coração também são gratos. Principalmente a vocês, amigos que me acompanharam durante toda a aventura de viver fora do país com dois filhos e uma cachorra. 
Aproveito a vibe da gratitude tomando conta da semana para agradecer o apoio de cada um de vocês. Todas as congratulações pelos resultados brilhantes do Tomás (mãe exibindo filho é meio clichê, mas não pude resistir. Quando ele vir o post vai ficar bravo, pois Tomás é assim: um ser humano avesso aos holofotes).

Cada comentário sobre as minhas fotos, cada energia boa que vocês me enviaram pelo zap, cada debate, curtida, amada ou risada foram de grande valia para me manter aquecida tão longe de casa. Obrigada!

A todos os hóspedes, obrigadíssima! Como já disse por aqui, cada uma das visitas me despertou um novo olhar sobre a Big Apple. Maravilhamento!

Sintonizei na rádio natalina e chorei vendo os floquinhos tímidos de neve bater no parabrisa. Fiz de propósito, pois sabia que as canções falando de afeto e white Christmas me fariam derramar lágrimas. 

Há muito tempo O Pequeno Príncipe já havia me alertado: "você corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar". E serei sempre cativada pela beleza exuberante do estado de NY. Por sua cultura soberba, por sua civilidade deliciosa; por seu outono indescritível e inverno de planícies brancas.

Cativada pelos amigos de tantas nacionalidades que fiz e consegui manter nesses 15 anos. Pelos reencontros e pelas conversas em inglês maluco. 

A galera já começou a perguntar como estou me sentindo agora. Estou me sentindo assim: grata, comovida, mexida, dividida. Um caldeirão de emoções. Toda escolha da vida é um ganha e um perde. 

Todavia, o mais importante é a lição que ficou para Tomás, antes retraído; hoje, destemido. Ontem ele nos confessou que nunca havia levado a escola a sério até estudar aqui (mesmo sendo um aluno brilhante também no Brasil). Ele nos disse que agora sabe da importância de estudar e ter cultura para conquistar um futuro melhor. Disse também que perdeu o receio de participar de tudo o que tem vontade. 

Aprendizados, evoluções... Cicatrizes de tombos, de queimaduras na cozinha. Desapego da vaidade. Muitos filmes e séries de diversos países na bagagem...

Vivi umas dez encarnações em 1 ano e meio. Nem sei do que vou sentir mais saudade... Nova Iorque é parte de mim, da minha história de vida. Antes, como casal e now, como família. E vou seguir misturando English com Português, mesmo sendo ridículo. KKK!

E vocês, amigos, nos acompanharam nessa saga repleta de experiências fascinantes. Assistiram de camarote e vibraram com a gente. As redes sociais e a incrível mágica de aproximar os distantes. Só posso estar grata, nada mais!


Jandyra on my mind



"Georgia, Georgia, no peace I find.
Just an old sweet song keeps Georgia on my mind..."
(Hoagy Carmichael)




Dindinha não sai do me pensamento nesses dias... 

Tudo começou no Dia de todos os Santos, quando a rádio que eu adoro estava veiculando músicas que falassem ou tivessem nome de santos. Daí, eles tocaram Saint Jude, do Florence and The Machine. 

Depois, decidi usar o medalhão de São Judas que minha madrinha não tirava do pescoço e eu herdei. 

E hoje resolvi reproduzir a farofa de ovos dos churrascos mensais da paróquia São Judas Tadeu, de Brasília. 

Dindinha morreu em novembro, não recordo bem o dia, acreditem. Eu prefiro lembrar dela viva, recepcionando os comensais no salão de festa da igreja a cada primeiro domingo do mês. 

Saudades desses churrascos que fizeram parte de toda a minha vida...

Declamações



Passei o dia com saudade desse momento específico de ontem, quando Romulito encontrou a estante de livros antigos na livraria antiga:

- Mamãe, olha, só livro de poemas! 

Ele me identifica com poesia, me relaciona com ela. Meu coração encharcou de ternura e orgulho. Quantas noites de declamações de ninar... 

Hoje, acordei arrependida de não ter declamado nenhum ali, com meu inglês carregado de sotaque, ao lado dele, um poema de antigamente.