Postagens

Mozart e a Princesa

Imagem
Descobriu o câncer e morreu três meses depois. Tsunami. Avalanche. Terremoto. Pábum! Não tinha filhos, herdeiros naturais de qualquer consanguinidade, por isso fez um testamento em nome da dupla de rebentos da melhor amiga. 
- Bom-dia, é a senhora Croê quem está falando? 
- Sim, é Chloé, responde a mulher revirando os olhos. Quem gostaria? 
- Aqui é da parte da dona Sílvia. Precisamos entregar o piano que ela comprou. 
- Mas eu já recebi o piano. Deve haver algum engano. 
- Não tem não, a nota fiscal diz... 
Como assim? Outro piano? A notícia pegou os irmãos-herdeiros de surpresa. A moribunda efetuara a compra apenas um mês antes de suspirar pela última vez. 
O irmão Claude (os pais amavam o savoir-fare francês), morador de outro estado com vida solteira, não tinha espaço para tamanho imbróglio. À primogênita, que inaugurara a bela e espaçosa casa há pouco mais de um ano e já recebera o primeiro piano, coube a tarefa de se virar com a encomenda. Tolinha, não sabia da missa a metade. 

Pedaços de mim

Imagem
“Além de um livro, “For Freddie”, ela também prepara gravações, anotações e separou até mesmo seu perfume, para que o filho se lembre da letra, da voz e do cheiro da mãe”.
Lendo uma matéria sobre a apresentadora da BBC, Rachel Brand, que está morrendo em decorrência do câncer de mama, atesto o quanto esses pequenos fragmentos das pessoas mais importantes da vida da gente são fundamentais para compreender a nossa própria essência. 
Meu pai também foi devastado pelo câncer aos 50 anos. Ele morreu em janeiro de 1972. Eu faria 1 ano no mês seguinte. Por motivos vários, pouco da memória dele foi preservada para que a filha caçula montasse o quebra-cabeça paterno.
Semana passada, tia-irmã Leila Brandão me diz que, organizando o antigo arquivo da Delegacia do Trabalho, havia encontrado a pasta funcional de papai, que foi fiscal daquele ministério. 
Corri pra lá em busca de qualquer traço do homem responsável pela metade do que sou (inclusive no gosto pela poesia e pela escrita). Não havia m…

Frete Errado

Imagem
Ainda processando tudo que vi e ouvi na entrevista do Boçalnaro. A primeira vez tentando entender uma personagem bizonha é inesquecível. Por que será que o Brasil gosta de gente caricata? Deve ter começado lá com a Carlota Joaquina, sei lá. Se relacionarmos todas as personas esquisitas eleitas pelos brasileiros ao longo da história, veremos que realmente não nos levamos a sério. O tiro no pé é uma prática recorrente. 
Mas agora arrisco que entendo o “efeito Bolsonaro”. Com certo alívio, o que disse para a amiga Lara talvez se confirme: o povão não está com ele. Quem admira e vota em Bolsonaro é classe média deslumbrada com Miami e Disney, os apaixonados pelos EUA (como o próprio). Quem segue o candidato do PSL é quem odeia Lula muito antes da Lava-Jato. É aquele brasileiro que nunca se conformou por um operário com pouco estudo ter chegado à presidência da República. O bordão “Eu odeio o PT” fala direto ao coração dessas pessoas recalcadas pela ascenção dos mais pobres aos bens de co…

Despeitada com muito orgulho, com muito amor!

Imagem
A menina que pensou em ser médica na adolescência, evidentemente aprecia séries sobre o tema. House foi brilhante até a quarta, quinta temporadas. ER, mais antiga, também via. Grey’s Anatomy foi massa no início, mas se transformou em novelão e Chicago Med carece de personagens cativantes porque os atores são fracos. 
Só que ser uma paciente da vida real já é outra história. Aqueles holofotes sobre o seu corpo, todos os aparelhos bipando ao seu redor... 
Primeira parte do ritual foi receber as marcações. Me senti como uma representante do povo maori que tanto estudei nas aulas de Antropologia. Os seios ganhando linhas enigmáticas ao estilo cerâmica marajoara ou pintura timbalada. 
Dei um suspiro de cansaço e dor nas costas depois do dia exaustivo para chegar ao consultório em Goiânia. O cirurgião pensou que eu fosse desmaiar:
- Tudo bem? - Tudo, apenas exausta. - Tô perguntando porque tive uma paciente que desmaiou quando comecei a fazer isso. Eu não vou cortar em todos esse lugares, …

Pavio curto

Imagem
Aí seu carro resolve arriar a bateria no centro de Goiânia, hora do almoço, sol Pedro Ludovico na cabeça, 15 dias de convalescência... 
O maridones aciona o socorro lá de Brasília. Você foge para o ar-condicionado da drogaria Pacheco bem em frente e espera meia hora com a barriga roncando. 
Chega o Sr. Leandro, cara de poucos amigos. A gente se abriga à sombra do totem da loja. Um velhinho vem e se refugia também. O capiau acende um cigarro. 
Sr. Leandro passa a encarar o velhote com sangue nos olhos. Fico sem entender o porquê daquele ódio. 
A carona do velho chega. Sr. Leandro se explica:
- Acende esse cigarro fedido bem aqui na cara da gente! Eu sou ex-fumante, mas nunca fumei perto de ninguém. É que eu tenho XYZK curto...  - O senhor tem o quê? Pavio curto, é isso? - É, sou impaciente. Sou mineiro misturado com paulista e dizem que a gente fica assim... Deus é mais!
Agora tá explicado o jeitim da sogra... ;)

Trevo de quatro folhas

Imagem
Textão! Aliás, quando não escrevo textão? Sou uma obsoleta no mundo do Twitter...
No fim do ano passado, ainda em NY, aviei um par de lentes multifocais que ficaram perfeitos numa armação super descolada da Salvatore Ferragamo. Tudo com descontos incríveis do plano de saúde que tínhamos por lá. 
Voltei para o Brasil e a danada da armação começou a me incomodar loucamente. Incompatibilidade entre ela e as minhas orelhas de abano. 
Com dor no coração, retirei as multifocais zeradinhas da armação e comecei uma longa peregrinação pelas óticas a fim de não perder todo o meu investimento. 
A ideia era encontrar outra armação que comportasse as lentes. Afinal, as multifocais são bem caras e precisas. Não podem ser “recortadas” depois de prontas.
Há meses me sentia como os encarregados do príncipe tentando encontrar o pé que vestisse o sapatinho de cristal...
Hoje, entrei nessa loja que acabou de inaugurar na esquina da 304 Sul (AB Optik). Já havia perdido a esperança. As prateleiras em org…

Resoluta

Imagem
Descendo no elevador para pegar o Uber rumo ao job, encontro Amina, a muçulmana linda. Lembram-se dela? Não? Tenho um texto no blog chamado “Olho Mágico. Corram lá.
De livro grosso debaixo do braço e seu indefectível véu colorido, a jovem queniana é pura simpatia. E faz questão de me cumprimentar com beijinhos.
- So, how is life?
- I am trying to finish high school...
- Are you already thinking about a career?
- Yeah..
- What do you want to do?
- I want to be a pilot! E abre um radiante e alvíssimo sorriso, pleno de feminilidade e resolução.
Jamais, em zilhões de anos-luz, imaginaria tal resposta!
- Wow! You are a brave woman! I don’t like to fly! Congratulations!!!
E ela segue sorrindo enquanto seguimos em rumos diferentes para a vida lá fora.
Esse é o mundo que eu quero, no qual as jovens mulheres tomem as rédeas de seus destinos independentemente de nacionalidade ou religião.
#elenunca#elenão!