quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Fraternidade Assunção


Presentinho que ganhei da irmã Nena aqui nos EUA

"Família, família, cachorro (dezena de raças e vira-latas), gato (vários), galinha..." (muitas, centenas, incluindo cocás, patos e perus) e irmãos, no meu caso, também muitos: cinco. Engraçado os Titãs não terem citado irmãos nessa equação familiar, pois eles são o que de fato fazem da família uma grupo em perene renovação de laços e neuroses. Mana Marisa partiu ontem à tarde. Mulher de sorte: desde ontem à noite não temos água quente no prédio. Dormimos fedidos. 

Irmãos... A temporada americana tem me presenteado com muitos aprendizados e novidades, mas talvez a mais profunda seja ter tido a oportunidade de conviver intimamente com duas irmãs. Livre das balbúrdias e distrações das festas de aniversários, dos maridos, dos sobrinhos, dos netos, dos Natais e Dias das Mães, dos problemas do Brasil. Éramos apenas elas e eu. Primeiro, Marilena, a mais velha, com quem já havia tido outros momentos de fraterna companhia, e agora Marisa, com quem jamais estive por tanto tempo sozinha, em intenso convívio.

Estreitar os afetos dissipados pelas pressões da rotina, pelas perdas precoces difícies, pelas diferenças geracionais (que consequentemente geraram memórias e traumas nelas diferentes dos meus), foi de fato uma bênção que só agora estou me dando conta. O relacionamento com minhas irmãs atingiu um outro patamar, aquele que nem todos os irmãos têm: intimidade. Enfim somos sangue do mesmo sangue, ainda que Marisa tenha o ato falho de se referir ao nosso pai como sendo o meu avô: -"O seu avô dizia... Avô não, Marisa! Pai, ele era o meu pai também!" KKKK!

Ela não está tão equivocada. Afinal, idade para tanto papai tinha quando faleceu e deixou a caçula sem desfrutar de suas manias excêntricas. Uma delas, fazer os filhos lerem matérias do jornal do dia em voz alta antes do jantar. Outra: obrigar os pirralhos a fugir para a casa da vizinha para ver televisão, uma vez que ele decidiu não ter um aparelho malévolo daqueles na própria sala.

Aqui e ali vou preenchendo os vazios dessa figura paterna tão longe e tão perto. Vou me reconhecendo nele e nas minhas irmãs. Vamos descortinando o quanto somos parecidas, misturadas e, logicamente, dessemelhantes.

Marilena e Marisa gostam de comer frutas picadinhas pela manhã. É um método. Acordava com a salada de frutas já pronta. Achava engraçado, pois prefiro a fruta inteira: morder, abocanhar, roer. Descobri que é possível cozinhar junto com Marisa, mas não com Marilena, que gosta que tudo saia do jeito dela. Porém ambas desenvolveram um apego similar e ferrenho às datas de validade dos produtos. Logo elas, criadas na roça em meio ao esterco de curral, numa época na qual se sorvia leite ao pé da vaca sem nenhuma bola para pasteurização. 

Descobri também que Nena não gosta de cebola (eu amo, sou capaz de comer uma cabeça por dia) e precisa inventar meios de disfarçá-la para comer. Mas ela insiste que gosta, orgulho besta! KKK! Ah, sim, orgulho e vaidade de sobra tem minha hermana mignon. Canseira absoluta dos mil cremes e rituais de beleza que a acompanham em qualquer viagem. E eu que pensava que era muito vaidosa, agora penso que sou apenas normal. 

Mana Marisa, à primeira vista o estereótipo da desorganização, é bem mais focada do que Nena, empenhada em transmistir uma imagem de mulher da razão, com seu ar sério de engenheira. Mana Marisa me surpreendeu em tantos aspectos... Foi uma delícia ver minha irmã gordinha ir se revelando dia após dia.

Ela adora carros, conhece todos os tipos e marcas. Dirigindo pelas highways e parkways, Marisa apontava esse ou aquele, dizia quais já estavam no Brasil, quais nunca tinha visto. Gostava de tirar fotos das placas diferentes como eu. E, ao contrário do que todo mundo pensa a respeito dos gordos, ela não come de tudo e não gosta tanto de junk food. O comportamento da mana reforçou uma teoria que formulei (nutricionistas, perdoem minha pretensão!): todo mundo que briga com a balança ou dela desistiu, é muito seletivo para comer. Elege alguns alimentos favoritos e os comem aos borbotões. 

Nena, ao contrário, se lançava às experimentações gastronômicas à disposição na Big Apple. Topava tailandês, indiano, chinês, peruano, italiano... Mas não curtia abrir mão de carne não, postura intrigante, pois sempre achei que ela fosse muito mais natureba do que eu, que passo à comida vegetariana por dias sem problema.

Outra surpresa: mana Marisa tem dote para tingir cabelos! Insistiu para que eu não fosse ao Canadá tão desmazelada. Comprei a tinta um tanto desconfiada, todavia, com delicadeza, paciência e precisão, ela cobriu os fios brancos da minha vasta cabeleira.

Marisa generosa, perdulária, afetuosa. Ela me perguntou se havia mudado ao longo do tempo. Não! Permanece a ursinha carinhosa, menina grande, fácil de agradar e também de manipular, o que me deixa apreensiva. Minha irmã do meio é franciscana, do tipo que conversa com os passarinhos e esquilos do Central Park. Ela é lúdica e contemplativa como eu, traços do espírito que Nena, em sua sôfrega hiperatividade, não tem.

Marisa gosta das músicas do Roupa Nova. Bernardo foi torturado por mais de uma hora durante o passeio até o monastério budista. Já sei quem vou convidar para, enfim, ir comigo ao show mais brega da minha vida! Nena eu vou continuar convidando para as orquestras, teatros e feirinhas. Entretanto, não devo chamar nenhuma das duas para ver um filme de suspense... "De onde vem essa sua morbidez, minha irmã?", questionou a eterna preocupada Marilena, sempre carregando as densidades do mundo nos ombros, carma de todo arrimo de família? 

Já Marisa me considera uma arrogante: "Essa loja do museu só tem livro, só serve pra você, intelectualoide, cadê os chaveirinhos?". Hahaha!

Poderia ficar aqui me divertindo com essas lembranças por horas. É tão bom redescobrir as pessoas; desvendá-las frente a frente num café ou lado a lado nos assentos do metrô. Quando a vida lhe der essa chance, abrace-a! 

Love you, hermanas!


sexta-feira, 21 de julho de 2017

Backwarding





Por causa de um episódio do Masterchef no qual os concorrentes foram desafiados a preparar torteletes de frutas, voltei ao passado na 715 sul, tentando me lembrar do nome da negra que falava português de Portugal e vendia tortinha de morangos e suspiros de tirar suspiros da garotada. Ela morava na casa bem em frente da casa da minha tia Leila, na parte superior da quadra. Passávamos dias e dias juntando moedinhas para poder comprar as tais delícias. 

Mandei um zap para Leila, ela deveria se lembrar do nome da quituteira que, se não me engano, tinha vindo de Angola. Sim: dona Natalina! Para a criançada era um Natal de sabores aquelas tortinhas delicadas e vermelhinhas, num tempo em que morangos eram iguarias caras e raras. 

De dona Natalina para as outras figuras diferentes da 715 sul foi um passo. De repente, me lembrei do amigo do meu irmão Eduardo que só vivia de calção de banho, se exibindo para quem quisesse ver... Era uma estátua de sunga amarela no meio do gramado o jovem rapaz. Nem sei se era bonito, mas se achava. Pensando bem, ele era parecido com o He-Man, hahaha! Taí um apelido apropriado, caso o desenho animado já fosse uma referência. 

Havia o sr. Vitalino, de outra casa de esquina. Ele sofria de vitiligo e isso era estranho para as crianças que não tinham a mínima ideia do que se tratava. Um negro manchado de branco, por quê?

No mesmo bloco da minha tia, morava a benzedeira da quadra, dona Diná. Velhinha franzina e simpática, mãe de um cara que era uma lenda: Jorge Maluco. Jorge Maluco se assemelhava a um Jesus Cristo morenado pelo sol. Seus cabelos caindo pelos ombros, sempre sem blusa pedalando sua bicicleta... As más línguas diziam que ele traficava drogas. Será? Talvez. Mas traficante nos anos 70 era do tipo inocente, comparado aos criminosos profissonais violentos de hoje.

Tia Leila me confirmou que dona Diná segue vivendo na casa onde levei Tomás e Rômulo para serem benzidos a contragosto do pai cientista incrédulo. Se já me parecia encarquilhada há dez anos, imagina agora...

Não poderia deixar de mencionar tia Denize, a grisalha fada encantanda que nos ensinava artesanatos miles. Sua casa era meu refúgio, pois sempre me atraí por bruxas do bem. Tia Denize me hipnotizava com sua sabedoria e doçura. Sr. Celano, marido dela, também era uma peça. Ia e vinha do antigo supermercado Jumbo (atualmente Pão de Açúcar) com a sacola de papel lotada sobre a cabeça em perfeito equilíbrio. Ele era capaz de trazer uma melancia no cocoruto por mais de meia hora, caminhando suavemente ao atravessar a W3 sul. Pensa na farra para a gurizada!

A quadra 715 sul... Micro universo classe média baixa que me forjou em meio a maioria de cariocas e nordestinos. Ali, as famílias grandes eram regra. Então não me sentia tão deslocada sendo a caçula entre seis. Cachorros abundavam nas ruas, assim como crianças criadas soltas subindo em árvores, brincando de polícia e ladrão, pique-pega, carniça, pique-esconde e queimada.

Atrás do bloco E, o meu bloco, havia um parquinho bem cuidado por um senhor com pinta de polonês (se não me engano era mesmo). Ele tomou pra si a missão de manter a roda, os balanços, o trepa-trepa, dois escorregadores e o vai-e-vem sempre tinindo de novos, pintadinhos de cores vivas, engrenagens bem lubrificadas. 

Na casa da esquina defronte à nossa, morava a família dos irmãos Mônica e Marcos. Eles eram jovens quando eu era criança e a mãe deles, dona Matilde, morria de ciúmes da dupla de pequineses mais chata do universo. Raça da moda nos anos 70, ainda bem que lá ficou. Cachorrinhos insuportáveis e horrorosos!

Eduardo, meu jovem irmão popstar, tinha amigos saindo pelo ladrão (alguns talvez até fossem pivetes de fato). Os apelidos, ao menos, me soavam suspeitos à epoca: Micão, Zinho, Ná, Vasco, Curumim, Guta, Júnior Bill e tantos outros que agora não recordo. Remexo nas memórias e vislumbro a diversidade daqueles rapagões... Um deles tinha um defeito no nariz, que não tinha septo. Era baixinho e fanho, evidentemente. O rosto como se tivesse levado uma direita de Mike Tyson.

Em outra esquina (a quadra tinha mais de uma dezena de blocos de casas geminadas), vivia a família Coqueiro. Achava muito divertido o sobrenome, levando em consideração que mais pareciam um bando de alemães aloirados e altos (coqueiros albinos, quem sabe?). Era uma penca de irmãos cujo o pai era dono de uma oficina mecânica de certo prestígio chamada, claro, Coqueiro. Um dos filhos, João, era amigo do meu pop irmão. O cara gostava tanto de corrida de fórmula 1 que batizou o primeiro rebento como Gille Villeneuve.

Deus do céu, quantas reminiscências uma tortinha de morango é capaz de resgastar...



quinta-feira, 29 de junho de 2017

Acumuladores



Quando bebês, meus filhos corriam à janela ao ouvir o estardalhaço do caminhão de lixo. Fascinados, espichavam os bracinhos para serem alçados ao colo e, assim, apreciar o trabalho intrigante dos lixeiros que, com truculência, arremetiam tudo o que viam no caminho naquela bocarra faminta e barulhenta.

Parece que a admiração não arrefeceu para o garoto: saiu desenbestado escada afora, a fim de chegar em tempo de ver mais de perto a rotina dos que nos livram dos indesejáveis dejetos desse mundo devorador de coisas e pessoas...

Qual foi o meu espanto quando vi o buraco negro engolir o jogo de sofá em segundos! Estados Unidos, maior consumidor de bens materiais do planeta. A nação na qual os guarda-volumes (storages) são parte fundamental da cultura. Todavia, o revés também vale: como desperdiçam! Dispõem de tudo sem piedade! Logo mais à frente, lá se foi para nunca mais o estrado e as cabeceiras de uma cama!

O lixeiro, percebendo o horror da dona de casa na varanda, gritou que o caminhão era capaz de esmagar um carro. Sim, acredito. Os americanos esmagam o que quiserem. Eles são o sapato de ponta cromada. O demais países, as baratinhas acuadas no canto.



quinta-feira, 22 de junho de 2017

Can I give her some love?






Americanos são especialistas em "small talk", ou em bom Português, jogar conversa fora. Já comentei o traço cultural ianque em outros textos, mas sempre me impressiona a habilidade cordial do típico norte-americano em puxar papo dentro das lojas, nos metrôs, ônibus... 

Para quem conhece bem os cariocas, vão argumentar: ah, a gente sabe bem do que você está falando. Mas não se enganem: os cariocas criam intimidade na fila da padaria e, ao final de dez minutos, passam o endereço da próxima festa na casa deles; algo impensável para os estadosunidenses. Eles são corteses, gentis e polidos num nível no qual a privacidade não seja ferida de modo algum. Ser convidado para fazer parte do círculo invisível que todo cidadão americano tem ao redor de si é tarefa complicada. Eles se preservam com unhas e dentes. São pessoas indoor, reservadas, intimistas. Preferem o inverno ao verão, na maior parte das vezes. 

Mas, em matéria de conversas despretensiosas, são quase imbatíveis. Já vivenciei diversos diálogos nonsenses nessa rotina de dona-de-casa entre um supermercado e outro. Desconfio que os americanos, uns solitários de primeira, desenvolveram essa postura social para que pudessem sobreviver ao isolamento que se impõem atrás de suas portas e janelas bem adornadas. São capazes de papear com a caixa da farmácia por cinco minutos sem se importarem com a fila que se forma atrás. E os que esperam não reclamam, pois estão loucos para chegar a vez deles de interagir.

Estava ontem dentro da TJMaxx garimpando promoções a esmo. Achei uma bolsa bacana por 20 dólares, pus no carrinho. Daqui a pouco passa uma senhora negra que me diz:

- Que bela bolsa você tem aí!
- Sim, não é verdade? E olha como foi barata!, respondo no tom afetando gentileza no qual eles são especialistas (pensem naquela vozinha de mulherzinha meio anasalada. É assim.)
- Ela arregala os olhos para a barganha, toca na bolsa, vê a marca (Nine West) e confirma:
- Excelente compra!

Passa uns minutos, estou zapeando entre as araras de blusas e outra americana, agora branca, meia idade, exclama:

- Não se fazem mais blusas no bom e velho estilo de blusas, não? (É a deixa para estabelecer o contato verbal tão raro)
- Sorrio para ela, que estende uma camiseta vermelha com um enorme caranguejo preto estampado, emendando:
- Essa é bonita, não? (Penso, Deus, é horrível, mas tive vontade de comprar só para tirar sarro do Bernardo, que é do signo de câncer e vive pedindo que eu faça uma tatuagem do bicho asqueroso. Jamais, evidentemente).
- Sim!, respondo simpaticamente, e seguimos na garimpagem, afastando cabides...

Ela passa para o outro lado e daqui a pouco ergue uma blusa vaporosa de fundo amarelo e estampas de flores:

- E essa, o que você acha? É bonita, não?
- Sim, é bem bonita. Eu gosto muito de amarelo (não estou mentindo dessa vez).
- Você acha que dá para usar com um sutiã verde?

Espantada com a pergunta estapafúrdica, como se ela fosse minha melhor amiga, demoro um pouco a entender, mas me recupero a tempo de lhe garantir:

- Of course, it will be great!

Todo dia é assim: small talks surreais, saborosos, hilários... 

Na fila de outra loja, a mulher atrás de mim bufa:

- Mas que fila enorme! Ela quer reverberação, portanto lhe dou de presente a concordância.
- E eu tenho de estar às sete pm em tal lugar!!
- Amanhã é Dia dos Pais, né? Daí a lotação...
- Você não sabe onde tem outra loja da rede, não?
- Penso um pouco e informo outros dois endereços para ela.
- É, mas são meio longe, vou ter de ficar nessa fila mesmo, resigna-se e continua conversando com si própria e comigo.


Os tete-a-tetes surgem do nada e do nada terminam. A ideia é mostrar que são normais, gostam de pessoas, ainda que há uns 30 quilômetros de um abraço. As abordagens podem acontecer por causa das suas tatuagens, de uma roupa que eles gostam, da armação dos óculos... Meses atrás, uma mulher na casa dos trinta me olhava insistentemente, atitude pouco comum para os americanos, que evitam encarar as pessoas, comportamento considerado muito rude por eles. Depois de um tempo, ela se aproximou de mim, pediu mil desculpas e exclamou:

- I loved your glasses! Where did you get them?

Com a Frida, então, eles se sentem mais ávidos e descontraídos. Há uma verdadeira adoração por Corgis nessas bandas. Algumas garotas entram em histeria quando veem a Frida, não estou exagerando, juro. Em Manhattan, uma delas quase chorou. Vários filmam ou pedem para tirar fotografia dela. Hoje sei o que deve ser a vida de uma celebridade. Caminhar com a lady por Nova Iorque dá nos nervos: somos parados de dois em dois minutos por alguém pedindo com polidez:

- Can I pet her/him?

Certa feita, houve um cara ousado:

- Can I give her some love?

Claro, vá em frente, dê todo o amor do mundo. Afinal, all we need is love!




terça-feira, 20 de junho de 2017

Dilemas







Uma das preciosidades do acervo da Morgan Library, em NY, é o único livro escrito pela então escrava Phillis Wheatley. Rômulo estava estudando sobre a autora na escola pública de White Plains.

Mas quantas décadas ainda precisaremos para reparar o perverso problema da escravidão, geradora do racismo/preconceito (ou teria sido o contrário, a velha questão do ovo e da galinha)?

Ontem me pus a pensar sobre a questão novamente, quando fui colocar Romulito para dormir. Ele está lendo "As Aventuras de Tom Sawyer", clássico da literatura norte-americana, aliás, do mundo, escrito por Mark Twain. Resolvi ler algumas páginas com ele, em voz alta, quando me deparo com seguinte trecho:

"- Ora, ele disse a Jeff Thatcher, e Jeff disse a Johnny Baker, e Johnny disse a Jim Hollins, e Jim disse a Ben Rogers, e Ben disse a um negro, que foi quem me disse. É isso aí.
- Ah, foi, é? Todos eles mentem. Só não sei o negro, pois não conheço ele. Mas nunca vi um que não mentisse."

Ler essas afirmações em voz alta me deu uma angústia, uma espécie de dor no estômago. Estava chocada. Tamanho racismo proferido inocentemente por uma das personagens infantis mais reverenciadas do planeta me levaram a matutar: gerações e gerações de crianças cresceram lendo essas mesmas páginas; introjetando os mesmos conceitos aberrantes sem ter pai e mãe -
ou ainda professores - a lhes explicarem o contexto histórico do abjeto juízo de valor contido na obra. Pior: muitos professores e pais nem enxergam a perfídia e vivenciam o ódio desde criancinhas.

Lembrei da discussão sobre a censura aos textos de Monteiro Lobato exatamente pelo caráter rascita delas. No Brasil, milhões de crianças foram embaladas por ideias preconceituosas proferidas por personagens carismáticas. Quanto estrago sem nos darmos conta!!

Confesso que me sinto confusa. Sou contra qualquer tipo de censura à liberdade de expressão, mas será de fato concebível uma literatura, ainda que presa em seu contexto histórico e social, seguir pregando conceitos obtusos?

Ok, era o discurso-padrão das elites intelectuais à época, porém, persite o dilema maior: devemos reescrever os grandes clássicos da literatura mundial, suprimindo afirmações semelhantes ou simplesmente parar de lê-los? As obras perdem sua importância literária por serem racistas?

Talvez só outras luzes de outras leituras e o debate incessante sobre o tema possam minimizar as trevas da intolerância nesse mundo que caminha cegamente...






sexta-feira, 19 de maio de 2017

Capitolando







A Itália me encanta, mas nunca tive tempo ou grana para passar uns 20 dias por lá. Todavia, está decidido: o próximo país que irei conhecer será a Itália da Renascença. 

Com um filho chamado Rômulo, também não posso deixar de visitar Roma, a cidade das sete colinas.
Não sabia disso, aprendi hoje na aula de Análise de Pinturas Renascentistas. 

Assim como não sabia que Michelangelo deu vários pitis para não pintar o teto da Capela Sistina. Até que conseguiu total liberdade para criar como quisesse e realizar quase tudo sozinho. Foram quatro anos ininterruptos de trabalho, que lhe custaram um pescoço lesionado para o resto da vida. 

Sete colinas... Rômulo escolheu nascer no dia 27/07/2007. Não poderia ser batizado como Érico. Seu destino é, sem dúvida, pintar o sete!



Psicho Killer






Você decide ver um filme de terror idiota para esquecer os horrores da vida real no seu país. Já é quase meia-noite e você se lembra que está fedida depois de mais um dia de pilates, aula de artes, supermercado, lavação de louça, arrumação de casa, preparação de lanche dos filhos, da janta...

Entra no chuveiro para dar uma relaxada no silêncio da madrugada que se inicia, mas... Mas... A luz do banheiro se apaga do nada!

Resta tirar o xampu dos cabelos de olhos bem abertos. Afinal, é melhor ficar com as janelas da alma ardendo do que morrer sem nem ficar sabendo.




quarta-feira, 17 de maio de 2017

"Rejoice, everybody rejoice!"






Daí Shakira começa a tocar na rádio, o dia de Primavera é gorgeous, as janelas do carro estão abertas e o vento amornado pelo Sol abraça meu corpo.

Loucamente, começo a dançar enquanto aguardo a luz verde do semáforo.

O americano do carro à frente nota a frenética movimentação atrás dele pelo retrovisor. Ele gosta do que vê e ajeita o espelho para conferir com mais acuidade.

Percebo a atitude, mas não me intimido. Sigo quicando no banco. A manhã está perfeita para ser feliz.

(Nesse momento a imagem congela e entra Tomás em participação previsivelmente adolescente:
- Mamãe sempre mata a gente de vergonha!, diria, se estivesse ali.)

Os carros aceleram e seguem seus trajetos. O americano abre o teto solar do Hunday dele, coloca meio braço para fora e acompanha meu movimento pendular. Resolve, também, ligar o pisca-alerta num ritmo de música.

Sorrio e aceno um joia enquanto viro à direita para o campus do College. Ele continua na via principal.

Será que foi dançando até o trabalho? Gosto de pensar que sim.




One Way









Ontem, em dois momentos diferentes nas andanças pela Big Apple, fui parada por outros pedestres com as perguntas:

- A sexta avenida é para lá ou para cá?

- A oitava avenida é para lá ou para cá?

Estaria incorporando o jeito new yorker de ser ou tinham a intenção de me distrair para aplicar um golpe qualquer?

Brasileiro que é brasileiro está sempre catimbado, né? Ainda que NYC seja uma megalópole das mais seguras que existem.

Como a carteira e o celular ainda estão comigo, deve ter sido apenas uma dupla perdida na cidade suja como yo!



Dream Catcher










A tento

A tempo

Em tempo

(En) tendo

A (s)sumo
Assino.

Acordo
Aceito.


Sonhei que lia o poema num quadro.

Psicografado?




Renascença






Em fevereiro de 2002, quando estava morando aqui em NY pela primeira vez, fugi do rigoroso inverno na Big Apple e passei 15 dias conhecendo Madri. Só tenho lembranças magníficas dessa escapada. Dentre elas, a de ter visitado o Museu Thyssen-Bornemisza, o acervo mais encantador que meus olhos leigos já puderam apreciar. Absolutamente todas as obras do lugar, colocaria nas minhas paredes. 

Uma delas, o "Retrato de Giovanna Tornabuoni", me impressionou sobremaneira, tanto pela beleza perfeita da pintura, como por perceber que a jovem retratada era uma cópia quase fiel da minha sobrinha Marianna. Comprei uma reprodução para ela, que nunca ligou para o presente (talvez não tenha se visto na garota ou tenha achado a jovem muito pequeno-burguesa, vá saber).

Falando em burguesia, hoje tive a primeira aula de "Appreciating Renaissence Paintings", no Westchester Community College. Na sala, só outra mulher com menos de 50 anos como eu, uma francezinha. No mais, americanos classe-média-culta típicos.

Não é que lá pelo meio da aula do excelente prof. John Coppola, ele estampa o retrato de Marianna, ops, Giovanna, na tela? E afirma que se trata da pintura renascentista de que mais gosta? Conexões telúricas que me embeveceram. Afinal, meu olhar amador não está de todo mau.

By the way, hermana Marilena, já pendurou a reprodução na sua parede? Se ainda não o fez, compro de volta de você!



terça-feira, 16 de maio de 2017

Tempo de densidade











Fui para aula de Arte na Renascença e o professor cabulou. Fiquei brava, mas aí me lembrei de que poderia, então, curtir o recital de meio-dia na Grace Church de White Plains. 

Em tempos de tanto debate no Brasil sobre suicídios de jovens, compartilho imagens de crianças e adolescentes que estão fazendo algo muito mais interessante do que passar horas se alienando em joguinhos na web. 

É possível, sim, manter a garotada ativa em outras paragens. Dá trabalho, claro. No Brasil, temos ainda o fator "grana" (as bandas aqui são formadas nas escolas públicas gratuitas e integrais). Mas com um pouco de criatividade, dá pra inventar moda com seus filhos sem ter de gastar dinheiro também. 

Resta aos pais mudarem os próprios hábitos de lazer, ou seja, sair da frente da TV ou abrir mão do churrascão de todo domingo para, quem sabe, fazer um rolé com os filhos de bike? A pé? Visitar uma exposição gratuita? Levar para os concertos da Orquestra Sinfônica de Brasília, que são grátis? 

Você conhece todos os pontos turísticos da sua cidade? E os museus? Que tal chamar seu filho pra fazer um ensaio fotográfico sobre árvores, flores, prédios? Eis um belo uso para os celulares! 

Shopping não vale. Isso não é passeio com densidade emocional. Vitrines e compras são apenas prazeres imediatos que se dissipam imediatamente. 

Acredito piamente que falta mais música clássica e poesia na vida de todas as famílias. Arte, enfim! A Arte, em todas suas formas, ajuda a dar sentido à existência; responde muitas perguntas; instiga e tranquiliza... 

Hoje, o jazz rolou solto dentro da casa do Senhor. E eu mantive a esperança de que esse papo de Baleia Azul é mesmo para quem não tem acesso livre ao que realmente faz a diferença nessa vida!