Postagens

Os cinco elementos

Imagem
A chuva se arma para a batalha contra a terra. Convoca os aliados: ar de trovões e fogo de relâmpagos, lançados sobre as árvores assustadas. Sementes e folhas alcançam o solo como passos sorrateiros de gnomos invisíveis.  Uma barata cruza a calçada em busca de outro abrigo,  apressada. Nuvens grávidas, pesadas, sentem as dores do parto. Movimentam-se furiosas, em agonia. A chuva ameaça, se prepara para furar o bloqueio do chão compacto.  Boa parte das vezes, mera bravata. (sorte da barata e azar o meu)

Promoção de Peão*

Imagem
Tá rolando uma série da Netflix no radar apreciativo dos assinantes brasileiros: “O Gambito da Rainha”. A trama conta a história de uma menina de nove anos, orfã, que descobre no xadrez o refúgio para o mundo hostil ao seu redor. Ainda não vi nenhum episódio da temporada, porém já incentivei meus teens a assistir, pois eles curtem jogos de raciocínio.  Falar de xadrez me faz recordar que, aos nove anos, também órfã de pai e dona de mecanismos de defesa afiados, aprendi a dar o xeque-mate numa escola semi-interna na qual estudei. Ah, as conexões “tectônicas”, diria o primo-irmão, tirando sarro da minha mania de procurar a mão do inefável em tudo. Durante um único ano, frequentei a alta burguesia da cidade de Brasília, solução radical de mamãe, cuja viuvez com seis filhos jovens + a temporã cada dia mais moleca, não tinha a menor condição de me dar o mínimo de atenção (percebam o ato falho do copo vazio nos potentes substantivos empregados). Era uma escola ótima, para gente abonada. ...

Velhinha de primeiro mundo

Imagem
Os pés cada dia se parecem mais com os de mamãe. A pele se enruga e queda-se marcada em sulcos laterais. Pequenas manchas senis escalam canelas afora. Dedos calosos. Na região plantar, esporões sob controle. Ela os teria? Acho que não. Era de alma e modos casuais. Não usava salto alto. Porém, subia nas tamancas se achasse necessário.  As pintinhas se multiplicam em velocidade exponencial pela barriga, antebraços. Os cabelos brancos eclodem do ponto mais quente da cabeça, direto do centro do crânio. Daí se tira a conclusão de que o estresse contribui para o envelhecimento precoce? Precoce nada, são quase cinco décadas. Não se atravessa a metade de um século sem transformações físicas e sociais. A gente é que não quer dar o braço a torcer para o tempo. Fica naquela ladainha de melhor idade, igual a vinho, experiência e sabedoria.  Excesso de tempo dá osteopenia, isso sim. Envelhecer é porrada. Menopausa. Ora, ora, veja bem, pausa só fica bonita na música e na fotografia! Mas tem...

Secos & Molhados

Imagem
Cultivo amores por taperas, ruínas, escombros.  O abandono das casas desabrigadas, antes cenas de algazarras. Ecoam cânticos ancestrais no que restou da nave de uma igreja de outrora. Outrora, a prima-irmã da aurora. A melancolia habita as paredes descascadas e se reconhece no espelho da minha alma. Jogo de sedução:  atração entre o inefável e o incandescente Opostos se complementam entre o nascer e morrer. Ar alimenta fogo  energia geradora: vida.  Sol e nuvem não se cansam da rotina.  Não sou orquídea para viver numa estufa! Me acoplem à árvore mais próxima, deixem-me ao relento.  Selvagem é o ar que preciso, pois enlouqueço a olhos vistos.  Fugir do cheiro nauseabundo putrefação da delicadeza.  Encontrar o recôndito de utopia que esteve um dia no genoma da cidade. Entreolho  a entrequadra: metáfora da fenda  entre nós. A destreza das mãos (re)pousa nas asas: Intrépidas? Inertes? Quem decide é a lepidóptera.

Chá verde com hibiscus

Imagem
“Penso no paraíso e fico noites em claro.” (Jandira Costa) Com quantas coincidências se tece uma conexão? Se for telúrica, são muitas, expressas e subjacentes. Antes de mais nada, o nome. Nomes são gatilhos para sentimentos de afeição ou de repúdio. Ela se chama Jandira. Imediatamente a estimo, posto vir a ser xará da minha madrinha, que assinava y no lugar do i. Ela passou dos setenta e, como minha sogra, habita a mesma superquadra da Asa Norte há mais de 20 anos. Acordam e sonham em apartamentos de igual metragem. Ambas guardam a cicatriz desconforme da ausência de um dos seios. Ambas são sobreviventes, pilares, matriarcas. À primeira vista, pareceu-me experimentar a oportunidade perdida de encontrar Hilda Hilst. Cada frase que Jandira falava era um verso, uma inteligência, um relâmpago de feminilidade viril. Posso te chamar de Lulu? eu gosto de Lulu. Podia ser Lua também. Eu amo a Lua. Claro que pode, hoje eu assino LuA em vários lugares, pois sou Luciana Assunção. Não é possível! O...

#tbt

Imagem
O que temos para hoje… Humm, vejamos… Anexos anoréxicos (segundo o grande cronista Mario Prata, a palavra anexo tem barriga vazia, passa fome). Concordo. Solicitações de certidão de objeto "em pé". Achei fálico e vocês deduzirāo: só pensa naquilo. Xixi da cachorra no tapete gabbeb. Pedi ao pessoal da lavanderia aqui perto para buscar (já experimentou carregar um tapete de três metros no braço? Só não deve ser mais complexo do que se livrar de um corpo). Vocês matutarāo: como ela sabe? Frida recebeu os dois encarregados de limpar o trabalho sujo dela. Entreguei logo a autora do crime. Mas que bonitinha, né? Sim, para o bem dela, é uma fofa. Olha, a atendente te deu o valor errado, porque tô vendo aqui que é um gabbeb, né? É artesanal. Congelei, emocionada, por dois motivos: 1)ele era capaz de reconhecer um gabbeb enrolado e fétido. 2) Em quantos milhões consistiria a diferença entre o orçamento industrializado e o artesanal? Dez reais. Descongelei em tempo de assinar a ordem d...

Fabulações

Imagem
Para sobrinho R odrigo, em sua 44ª primavera “Eu amo ficar de guarda-chuva, é o maior bom!”      (Tomás quase-de-Aquino) Basta um xererê e Brasília fica com ares de cidade velha. Da cabeça de mamãe brotavam palavras e expressões originais, verdinhas de estranhamento. Penso que uma parte delas era só fabulação de uma mulher de raiz plantada nos grotões de Goiás. Mas não é que xererê existe mesmo? Tem variação xereré e significa garoa, chuvisco ininterrupto, nevoeiro. O dicionário diz que é termo indígena usado pelas bandas de Mato Grosso. Encafifei. Talvez de lá tenha vindo o meu DNA de paraguaia falsificada. Mamãe haveria aprendido com o marido (minha metade negra e índia) ou as etnias nômades aportaram no centro do país com seus idiomas, fala de quilombolas? Kalungas? Nunca chegarei ao cerne dessa questão, infelizmente. A árvore genealógica da família tombou de velha, de esquecimento. Deve ser uma tal de munguengue, de frutos comestíveis. Mamãe costumava vaticinar: O dia...