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The cleaning lady

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“sentada, quieta uma finíssima energia o começo de um estado de graça todas as lembranças são leves sei que realmente existo sei que tudo o que vejo respira e exala porque as coisas não existem só materialmente a maior verdade do mundo anuncia-se” (Chegada, de Sofia Errés) Não sei vocês, mas chego do trabalho em casa e já assumo a faceta polvo. Com meus múltiplos tentáculos agarro um copo sujo aqui, um prato deixado sobre a estação de trabalho acolá… Uma peça de roupa jogada no sofá retorna ao cabideiro; chinelos desconjuntados viram um par comportado na sapateira; a garrafa de água é devolvida à geladeira. Residência de homens é uma provação para qualquer mulher com TOC. Pensando bem, para qualquer mulher. Se eles são de Marte não posso comprovar, entretanto as diferenças são galácticas. Homens não se importam com a entropia ao redor, céus! Papéis, bermudas, meias… Três pares de pés espalhando chulé e confusão em cada cômodo; toalhas mal esticadas nos banheiros. Homens são capazes de ...

Elegias

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"A distância, o céu aberto não podem mudar o amor que, embora longe, está perto, como a raiz junto à flor". (Maria Tereza Maldonado) Vovó Paula danada, não cumpriu a parte dela no nosso acordo: ela viveria até completar 100 anos, como as próprias tias centenárias. Vou sentir tremenda falta desta casa de vó, de sua elegância e de sua cultura imensa. De obrigá-la a tirar fotos: "mas eu estou tão feia"... Nada disso, tá linda! Aliás, em nosso último almoço juntas, o da caipirinha de maracujá, uma freirinha que passava vendendo terços lhe disse: "a senhora é tão bonita!". Dona Paula, sogra que foi osso duro de roer, mas se tornou a mais tenra das companhias. Adorava sua casa sábia de músicas clássicas, de livros, de fotos P&B, de histórias do vovô Agenor. Seus maxi colares e seu bolo de nozes. Ah, e aquela torta de bacalhau maravilhosa das noites de Natal... Corajosa e arrojada, pegou o avião sozinha para nos visitar duas vezes em NY. Sem falar nada de i...

Cobiças

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alguém para me cutucar catar piolhos imaginários buscando os trieiros escondidos nas matas capilares. Desvendar as cadeias montanhosas das orelhas como escalador detalhista descer a espinha dorsal vale a vale, caminhando devagar entre um desvão e outro. Os dedos são mágicos pincéis atômicos: acessam o que não é sentido na leviana superfície.  Raios-laser naturais, penetram as camadas mais profundas do espírito e tatuam o zelo no incógnito da alma. Curandería . cadê ela? cadela cândida candeia comedida carícia  campestre cachorra  rupestre cadê ela? carapaça caramelo pelúcia  camuflada genuína  canina cosmogonia da alegria corações e feijões partidos a vida não brinca em serviço Ela atrapalha muitos planos: puxa o tapete do fulano quebra a perna de ciclano. Mata de fome a cigarra e a formiga  no país da intriga  que não enche barriga de ninguém.  A vida cobiça o inatingível como não, se agora alcançamos o berçário das estrelas? Entretanto o infer...

Friagem

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Sopra o vento de inverno atravessa o rosto, ectoplasma de névoa, deixa apenas o rastro da enregelada manhã. O casal de araras não sente frio. Festeja na palmeira o raiar do dia azul tal qual seus pares de asas: plenos.  Gélida e plena também estou. Contrária ao óbvio, a estação não me contrai: expande. O ar rarefeito do planalto seco me é ânima.  Flama. Ainda que todo ano seja a mesma seca impávida e parda, nunca é igual o coração de quem almeja [primaveras. calotas planas redondas esportivas turbinam carros de terraplanistas. Já as polares derretem,  escorrem pelos oceanos em sangue gélido e transparente. O planeta aquece e gira torto: peão cambaleante,  joguete em mãos vorazes. As calotas automotivas se perdem nas curvas da Serra do Mar,  um cemitério delas ao relento, na sarjeta: ferros velhos, lixo. A Mata Atlântica é saqueada da mesma Serra. Engolidores do fogo da vida incineram árvores; espécies são enterradas como indigentes. Vastas necrópoles de pastos. ...

Parábola

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Avulsa estou. Sou? Mães devem se preparar para o hiato da inutilidade existencial ao qual são lançadas no processo de amadurecimento dos filhos. Quem gosta tanto do artigo definido precisa caminhar na penumbra dos pronomes genéricos. A mãe se torna alguém ou ninguém ao sabor da indiferença de quem lhe consumiu a maior parte da juventude, a genuína preocupação e o amor condicionado por anos de cuidados, de afagos e de mãozinhas sôfregas pelo contato maternal. É a suprema readaptação que se impõe novamente. Primeiro, a de parir, nutrir e proteger. Anos depois, a de soltar, confiar e assumir aquela pontinha no filme dos rebentos, quiçá uma participação especial. O ninho vazio é antes mais emocional do que físico. Nada na vida da mulher é superficial. Menstruamos, optamos todos os meses entre o dever e o direito de ser livre. Investimos toneladas de energia e incalculáveis horas na prisão voluntária da maternidade (quando ela é uma escolha também não deixa de ser um fardo). E no momento de...

Cavaleiros (e amazonas) andantes

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                                                                                                                             "Nunca morri nos dias da minha vida".                                                                                                                    ...

Evoé, velhos artistas!

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O que vamos fazer sem a certeza de que eles apareçam com uma nova obra-prima no raiar de um dia nublado? Já caminham para as oito décadas de andanças neste mundo, o mais espantoso, nesse país onde não se dá muita guarida aos poetas. Chico, Caetano, Milton, Paul, Paulinho, Gil, Rita, das fitas gravadas da minha irmã mais velha. Infinitas reinvenções de si mesmos, fênix(es) da originalidade, cupidos sempre hábeis em nos fazer (re)apaixonar pela beleza do Brasil fodido, estropiado, falido. Renato surgiria 40 anos depois e já se foi. Deixou uma legião de súditos saudosos de acreditar na revolução dos jovens. Entretanto, essa garotada de 80 é que efervesce; segue quatro décadas adiante do próprio tempo. Cantam e decantam o maldito país das atrocidades, paralisado num relógio sem corda que não ata nem desata, emperrado no futuro do pretérito. Mas se a sina da nação é repetir o passado, a deles é a de nunca nos enfadar a cada verso. E se a sociedade retrocede, eles avançam na provocação, recr...